segunda-feira, 13 de maio de 2013

Violência ginecológica e algumas coisas que ninguém fala sobre o câncer de colo de útero

O exame ginecológico não é um procedimento tranquilo para a maioria de nós. Mas pode ser melhor. Hoje eu vou falar sobre o que é real e o que é fantasia a esse respeito.

Câncer de colo de útero é real. Mas os(as) médicos(as) não falam um monte de coisas que precisam ser ditas. Em primeiro lugar, porque o sistema é todo heteronormativo. Em segundo lugar, porque o que eles chamam de "relação" é sexo vaginal.

A principal causa desse tipo de câncer é a infecção pelo vírus HPV, que é obviamente transmitido pela relação sexual sem preservativo. Já percebeu como toda a medicina ginecológica estabelece a relação sexual como algo perigoso para as mulheres? Não se lê uma matéria sobre esse câncer na qual não se atribua como fatores de risco para o seu desenvolvimento o início "precoce" da atividade sexual e número "elevado" de parceiros sexuais. Só que ninguém diz o que seria esse precoce, o que seria esse elevado, nem qual a razão disso.

Então lá vai. Quanto mais cedo você começar a transar, mais parceiros você deve ter. Quanto mais parceiros você tiver, maior a probabilidade de você pegar um com vírus HPV.  Agora, o que não querem que você pense por si própria: Um contato é suficiente pra contrair o vírus. Ou seja, você pode transar a vida inteira só com seu maridinho. Se ele estiver premiado e você tiver um contato sexual com ele sem camisinha, você pode contrair. Enquanto que outra mulher pode ter cinquenta parceiros diferentes e usar preservativo com todos eles em todos os contatos e não contrair nunca.

E agora que você sabe, como vai ser?

Em primeiro lugar, pode ficar tranquila. Não é porque você começou a transar aos 15 anos, nem porque você já teve mais de 30 parceiros que você vai ter câncer de colo de útero. Mas você vai usar preservativo em TODAS as relações sexuais. Todas mesmo, inclusive sexo oral. Eu falo sério. Eu sei que tem camisinha com gosto ruim, acredite. Mas tem camisinha com sabor para essas situações. É questão de experimentar: morango, hortelã, chocolate...

Só que do exame preventivo, você não tem como escapar. Depois que você começar a fazer sexo vaginal, é importante fazer uma vez por ano. Dá pra chegar a uma vez a cada três anos depois de dois diagnósticos negativos seguidos, mas não é bom exagerar.

Agora, mais uma coisa que ninguém explica. Se você jamais fizer sexo com penetração na vagina, precisa fazer? Sim, porque você pode desenvolver o câncer sem o vírus também. É recomendado que você comece a fazer a partir dos 21.  


O câncer de colo de útero é o segundo tumor mais frequente na população feminina, perdendo apenas para o câncer de mama. Estima-se que, anualmente, faça 4.800 vítimas fatais e atinja 18.000 novas. Só que, se detectado no começo, a chance de cura é muito alta. Mas pra detectar, precisa fazer o infame papanicolau.

Afinal, o que afasta as mulheres do consultório de ginecologia? Para tentar explicar, eu vou descrever o exame.


Maca ginecológica
A paciente não pode estar menstruada nem ter feito sexo vaginal, mesmo com camisinha, nos três dias anteriores. Ela deve se deitar numa maca ginecológica, obviamente sem calcinha, e colocar as pernas sobre os estribos. O(a) profissional, que pode ser médico(a) ou enfermeiro(a), introduz um espéculo na vagina a fim de abri-la, então tira uma amostra das células com o auxílio de uma escovinha. Se a moça ainda tiver o hímen, é utilzado um espéculo especial, que passa pelo buraquinho da membrana.

Tive acesso a uma pesquisa na qual foram entrevistadas 22 mulheres. Apenas 5 delas afirmaram se sentir bem durante o exame. Algumas manifestaram automisoginia na relação com a genitália. Mas a maioria falou em vergonha.
Espéculo descartável

Parece que a maior questão é abrir as pernas, ainda que num contexto médico. Nós somos ensinadas que mulher "decente" não abre as pernas pra qualquer um, como se o ato de abrir as pernas estivesse relacionado ao ato sexual pura e simplesmente.  E claro, como são as mulheres que abrem as pernas na hora da relação, então esse é um ato degradante. Aí tem até aquela expressão vulgar e pejorativa que eu não uso: dizer que a pessoa abriu as pernas quando cedeu.

Besteira, viu? É legal abrir as pernas na hora de transar, é bastante prazeroso. E é importante na hora do exame, porque não tem outro jeito de acessar o colo do útero, precisa olhar pela vagina.

Outra questão é o espéculo. Quando a gente sente que ele vai entrar, tende a contrair os músculos. É difícil, mas o ideal é soltar o bumbum na maca e deixar as coxas soltas. Tensionar os músculos pode causar dor. O espéculo é como um bico de pato, um(a) profissional experiente saberá o ponto certo para abrir sem causar dor. Em geral, a retirada do material é bem rápida.   


Violência ginecológica acontece quando o(a) profissional deliberadamente provoca desconforto ou dor na paciente. A violência também pode ser sexual.

Eu tive a infeliz experiência de sofrer violência ginecológica em meu primeiro exame ginecológico. O pesadelo começou ainda durante a consulta. Era uma médica, só não vou publicar o nome e o CRM dela aqui pra não mexer em ninho de vespa. Mas se alguém quiser uma referência de ginecologista na qual nunca passar, é só entrar em contato.

Ela foi absurdamente antiética desde o começo da consulta. Grosseira e ríspida, passou a sessão inteira insinuando que eu era ignorante. Como aconteceu numa UBS, ela deve pensar que quem busca o direito da saúde pública não tem estudo.

Depois, ao longo do exame, ela introduziu o espéculo bruscamente. Tanto o exame de toque quanto o exame das mamas foram dolorosos e incômodos. Parecia que ela estava fazendo massa de pão, e não examinando seios.

Eu era adolescente, e era minha primeira consulta. Eu não tinha a experiência que tenho hoje. Hoje sei que o exame dela foi agressivo porque já passei por várias outras médicas e médicos depois, logo tenho como comparar. Também sei que não sou obrigada a aturar grosseria de médico(a). Médicos(as) não são intocáveis. Eles(as) são corporativistas, mas nós temos o direito de exigir uma conduta humanizada. Se o(a) profissional começar com palhaçada, recuse-o(a). Recuse mesmo. Levante da cadeira e diga com todas as letras. A gente tem o direito de dispensar qualquer profissional, por que não médicos(as)?      

Interessante é que os conselhos de medicina recomendam a presença de um terceiro elemento durante o exame ginecológico. Não para a segurança da paciente, mas do médico! Eles dizem que é para evitar denúncias "equivocadas" de violência sexual.

PARECER CREMEB


RECOMENDA
1.
que os médicos ao atenderem pacientes submetendo-as a exames ginecológicos, preferencialmente pratiquem os referidos atos médicos na presença de auxiliar e/ou de pessoa acompanhante da paciente,
2.
que expliquem às pacientes previamente e de forma detalhada, os procedimentos que virão realizar durante o exame ginecológico, em atenção ao disposto no artigo nº 46 do Código de Ética Médica. 

Diz pra mim, qual médico(a) explica como é o exame ginecológico antes de fazer? Para saber como era um espéculo, precisei procurar no Google, porque nenhum deles(as) fez o esforço de me mostrar. 

Enquanto aguardava uma colposcopia semana passada, comecei a conversar com algumas senhoras na sala de espera. Todas elas tinham alguma história de violência ginecológica. Duas delas tinham queixas de médicas, assim como eu. Uma delas disse que não passava com médica ginecologista porque todas pelas quais passou eram grosseiras. A outra disse que passou três dias sangrando após ter feito uma biópsia com uma médica.

Eu passei por várias ginecologistas delicadas depois de minha triste primeira experiência. Tenho certeza de que não são todas as médicas que são ríspidas. Mas fico pensando: O que leva uma mulher a escolher ser ginecologista para agredir outras mulheres durante a consulta?  Considerando que elas também passam pelo exame e sabem o quanto é delicado, que falta de empatia com as pacientes é essa?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sequestro de mulheres e a desumanização das vítimas

Quando se fala em sequestro, a primeira ideia que vem à cabeça da maioria das pessoas é de uma família recebendo uma ligação de um criminoso ameaçando matar a vítima caso o resgate não seja pago. Esse é apenas um dos tipos de sequestro, acredito que seja o mais comum e, por incrível que pareça, o menos cruel.

Menos cruel porque a outra possibilidade é que a pessoa tenha sido sequestrada para ser traficada. E ser traficada é, sem dúvida, a pior coisa depois da morte que pode acontecer com alguém. E claro, a maioria das vítimas desse tipo de crime são mulheres.

As vítimas traficadas são sempre tratadas como animais, porque são destituídas de seu direito de escolha, portanto desumanizadas. Mulheres podem ser usadas como "barriga de aluguel", ter seus óvulos extraídos, ser obrigadas a fazer trabalho doméstico. Muitas vítimas são obrigadas a se prostituir, o que na prática é um estupro sistemático. Mas o tipo mais assustador de sequestro acontece quando a vítima é trancada num quarto e vira brinquedo particular do sequestrador. Última terça, veio à tona mais um caso desse tipo.   

É um crime absurdamente hediondo. Um homem decide pegar garotas na rua e levá-las pra casa dele, onde as mantêm como animais, acorrentadas num quarto, onde ele vai toda vez que deseja encontrar satisfação sexual.

É claro que elas engravidam várias vezes, mas elas não engravidam sozinhas. Elas engravidam porque são sistematicamente estupradas pelo desgraçado, como a personagem do livro O Fã-Clube. Fico possessa com a Globo falando que uma das vítimas teve uma filha no cativeiro sem usar a palavra estupro nenhuma vez. É muita falta de empatia achar que uma garota mantida em cativeiro por dez anos vai transar com o sequestrador, ou com qualquer outro homem que seja levado até ela, por vontade própria.

E foram espancadas, passaram fome, passaram por gestações e abortos sem qualquer assistência médica. Sei que é horrível pensar nisso, pois para mim é bastante doloroso. Mas é preciso pensar nisso para que mudemos as estruturas sociais que propiciam o acontecimento de coisas assim. Pensa bem, para um cara pensar que pegar uma garota e transformá-la em escrava sexual dele pode ser algo legal, é porque mulher pra ele não é ser humano. Soa familiar?

Camiseta a venda nas Pernambucanas do Shopping Internacional em 08/05/2013
Sei que este deve ser um de meus posts mais pessimistas. Mas a questão é que não é um crime raro. Não estamos falando de uma fatalidade. Todas nós corremos risco de parar numa situração como essa. Isso não é obra de um patológico raro, como minha ex-analista diria. Isso é obra de toda uma cultura de desumanização das mulheres, isso é consequência de um sistema que coloca mulheres como coisas bonitas, coisas que homens podem ter comprando ou roubando. E eu estou sempre avisando o quanto essa misoginia estrutural é prejudicial para a sociedade como um todo.

Não estou discutindo que esses criminosos sejam psicopatas, ou pelo menos perversos. É claro que eles têm algum problema. A questão é por que esse tipo de mente escolhe cometer esse tipo de crime, e por que a maioria de suas vítimas são meninas e mulheres?

Eu não tenho nenhum registro de caso em que uma mulher tenha roubado um rapaz e o mantido em cativeiro para satisfação sexual dela. Mas já ouvi vários com esse mesmo padrão em que uma adolescente, às vezes até pré-adolescente, é raptada e mantida num cativeiro por décadas. Tem aquele caso em que um homem fez isso com a própria filha na Áustria, teve aquele elemento que se suicidou quando a menina fugiu na Suécia, tem aquele sujeito na Bélgica que fez isso com várias garotas, algumas delas até morreram de fome no porão dele! Repare que na matéria citada, o criminoso é chamado de "pedófilo" e não de "misógino", que é a descrição mais apropriada. E apesar de a Globo ter citado vários casos na matéria, em nenhum momento foi dito que TODAS as vítimas era mulheres.

Não é só uma dificuldade de ver misoginia, mas de ver psicopatia também. Pessoas que cometem crimes assim não podem se reintegradas à sociedade nunca. Não é lugar para elas, pois elas não se arrependem, não aprendem, não sentem remorso, culpa, ou empatia. O que percebo é que esse tipo de crime tem um fundo social porque é muito difícil que um misógino sinta empatia por mulheres. Conheci homens que tinham mais respeito por seus cães que por mulheres. E sempre topo com casos em que homens trataram mulheres como cães.

domingo, 5 de maio de 2013

Palavra de misógino

Ao mesmo tempo bênção e maldição, assim é a minha memória. Por alguma razão, eu me lembro de quase tudo que as pessoas dizem. Como sempre recebo dúvidas sobre como se reconhece um misógino, decidi compartilhar algumas das falas reais que já ouvi de misóginos quando ainda não era capaz de reconhecê-los. São todas [sic]. Preparem os estômagos! 

1- Misógino que se sente o partidão: "Mulher é muito burra. Depois que engravida, é tão difícil emagrecer, mesmo assim elas engravidam para casar."

2- Misógino que não conhece o significado da palavra respeito: "Mulher é como bonequinha em prateleira, cada dia eu pego uma."

3- Misógino doente com a dança da namorada numa danceteria: "Mulher é tudo vagabunda, ficam rebolando pra chamar atenção dos caras bombadões."

4- Misógino sobre a namorada que esqueceu o celular na casa dele: "É burra, larga o celular desbloqueado, claro que eu ia fuçar. Agora vejo o número do ex dela na agenda, é claro que ela ainda quer dar pra ele."

5- Misógino que se diz ator: "Eu faria um homossexual, sem nenhum problema."
Eu: "Mesmo afeminado?"
Misógino que se diz ator: "Não, aí é diferente. Tem o cara que quer ser mulher e tem o homossexual. Um homossexual digno eu faria, sem nenhum problema."

(Implicação direta da fala dele: Homem que deseja ser mulher não é digno, ou seja, mulheres não são dignas)

6- Misógino que se acha o bem sucedido: "Não pode deixar a mina ir no banheiro depois de jogar a camisinha no lixo porque ela pode pegar e enfiar na boceta pra engravidar e depois receber pensão."

7- Misógino tão cruel que não tenho comentários: "O meu maior tesão é meter o pau no cu da mina e escutar ela urrar de dor."

8- Misógino arrogante sobre um suposto toque em seu bumbum enquanto andava: "Se for mulher, eu dou uma bica."

9- Misógino que ama seus amigos homens: "Jamais brigaria com um amigo por causa de mulher. Um amigo de verdade, é difícil achar. Mas mulher? Mulher a gente acha em qualquer lugar." (Claro que há mulheres em qualquer lugar, mas uma namorada que ele ame, não. A questão é que ele não ama mulheres.) 

10- Misógino que admira sua santa mãezinha: "Minha mãe nunca transou com outro homem além de meu pai. Depois do divórcio, ela desencanou de homem, não quis saber mais." (Aham)

11- Misógino sobre cena de lésbicas fazendo sexo oral em filme pornográfico: "Que coisa nojenta." (Pra ele, colocar a boca na vagina é algo nojento, porque ele tem nojo de tudo que é feminino. Duas mulheres se acariciando então...) 

12- Misógino sobre vagina: "Só coloco meu pau." (O nojo da vagina, ele não gosta de colocar a boca.)

13- Misógino sobre fazer sexo oral na parceira: "Não chupo a mina depois que já ganhei. Só preciso chupar antes de ganhar." (O nojo da vagina, ele não gosta de colocar a boca.)

14- Misógino sobre casa de swing: "O importante é meter, passar giz no taco." (O corpo feminino pra ele não passa de um objeto para masturbação.)

15- Misógino sobre beijo na boca de mulher: "Eu não gosto de beijar." (O nojo de colocar a boca no corpo feminino, não importa em qual parte.)

16- Misógino sobre sexo durante a menstruação: "Dá pra gozar dentro e a mina não vai engravidar."

Todas essas declarações evidenciam um grande desrespeito por mulheres ou o nojo de partes de seus corpos. É importante prestar atenção ao se notar esse tipo de característica em homens, pois misóginos não têm namoradas, têm vítimas. Eles veem o corpo feminino como um receptáculo de esperma. A relação sexual com eles é horrível, pois eles evitam tocar o corpo feminino, o qual consideram repulsivo. Então eles costumam introduzir o pênis na vagina, ânus ou boca da parceira sem preliminares, gozam menos de 30 segundos depois e encerram a relação. Evitam até beijar na boca, pois sentem um asco profundo por mulheres. E atenção, eles sentem mais prazer quando a parceira está desconfortável, especialmente se ela sente dor.  

Uma dúvida que sempre surge quando falo sobre esse assunto é se misóginos são gays. A resposta é: Não necessariamente. Eles podem ser, mas não é obrigatório. Ser misógino significa não gostar de mulheres no sentido de ter afeto e respeito, não no sentido sexual. Muitos misóginos sentem excitação em agredir mulheres durante o ato sexual, ou até usam a sexualidade como forma de agressão.

sábado, 4 de maio de 2013

O veto à redução da jornada da Fonoaudiologia e o que isso tem a ver com feminismo

Mulheres trabalham mais. Hoje é praticamente obrigatório que mulheres trabalhem fora e ganhem dinheiro, isso é até cobrado socialmente. Entretanto, na última década, o tempo semanal empregado por homens em tarefas domésticas cresceu apenas oito minutos. Ou seja, as mulheres acumulam o trabalho remunerado e o trabalho doméstico Além disso, existe ainda a cobrança de que mulheres estejam sempre "belas", o que consome boa parte do tempo livre e do orçamento femininos.
Em se tratando de Brasil, temos ainda a vergonhosa marca da diferença salarial entre os gêneros. É algo tão absurdo, mas acontece diariamente e ninguém faz nada. E a diferença é maior nas regiões Sudeste e Sul, pois aumenta com o aumento da qualificação. Entre os profissionais com mestrado: "mulheres ganham em média R$ 5.438,41, 28% a menos que os homens, que recebem R$ 7.557,31" (TOKARNIA, 2013).
Apesar das estatísticas grotescas, o lider do governo no senado, Romero Jucá, (PMDB-RR) desistiu de incluir na pauta de votações a proposta de lei que puniria empresas que não igualassem os salários de mulheres e homens. O motivo? Uma reação generalizada do setor empresarial alegando que tal medida reduziria as ofertas de vagas para mulheres. Sim, as empresas assumem que contratam mulheres para pagar salários menores e que, caso sejam obrigadas legalmente a pagarem os mesmos salários, não as contratarão. E o governo cede.
Agora, a presidenta Dilma vetou o projeto de lei que pretende reduzir a carga horária das fonoaudiólogas e fonoaudiólogos para 30 horas semanais. Falo fonoaudiólogas primeiro, porque a maior parte desses(as) profissionais são mulheres, o que por si só já explica a dificuldade de se conseguir respeito pela profissão. 
Esse processo de desqualificação das chamadas profissões "femininas" está sempre presente. Psiquiatra ganha melhor que psicóloga, médico ganha melhor que enfermeira, chef ganha melhor que cozinheira, alfaiate ganha melhor que costureira, e assim por diante. Mas o salário é o detalhe que reflete algo maior, que é a valorização da profissão.
Também é preciso considerar que a representação política feminina é mínima, o que dificulta que as classes das profissões compostas por uma maioria de profissionais mulheres consiga ter representação. Infelizmente, a presença de profissionais de uma determinada classe no governo pode ajudar na aprovação de medidas importantes.
Foto da manifestação feita em 05/05/2013
Fonoaudiologia é uma carreira da área da saúde, deve ter a jornada reduzida da mesma forma que outras carreiras da mesma área já tiveram. É claro que a redução vai trazer a necessidade de contratação de mais profissionais, e foi essa a questão que levou ao veto. 
O exercício profissional da fonoaudiologia é bastante desgastante, pois o trabalho não se encerra no consultório. Os(as) profissionais dessa carreira sempre levam trabalho para casa. Considerando que a maioria é formada por mulheres, as fonoaudiólogas provavelmente terão menos tempo ainda para descansar por precisar fazer serviço doméstico. Não reduzir a jornada de uma categoria da área da saúde cuja maioria é feminina é também um golpe contra os direitos das mulheres.    
Além disso, é preciso mencionar que a redução da jornada de trabalho da categoria vai proporcionar que os(as) profissionais invistam mais tempo em qualificação, o que é imprescindível na área da saúde, que demanda constante atualização. Ou seja, proporcionaria um atendimento de melhor qualidade para a população. 
Foto da manifestação feita em 05/05/2013
A questão é que, ao contrário do que diz a justificativa da presidenta Dilma para o veto, a redução da jornada dos(as) fonoaudiólogos(as) é sim de interesse público. Ganham os(as) pacientes, por receberem um atedimento melhor, ganham os(as) profissionais, por terem uma qualidade de vida melhor, e, assim sendo, ganha a sociedade de maneira geral.    
Por todos esses fatores apresentados, deixo aqui um convite para o movimento pela redução da jornada da Fonoaudiologia para 30 horas semanais. A manifestação contra o veto da PLC 119/10 acontecerá amanhã (05/05/2013) às 11h00 na Paulista. Segue a nota que ajudei a escrever:
 
Foto tirada às 10h50 no dia 05/05/2013
"Esta será a primeira manifestação da Fonoaudiologia em 31 anos, a qual será um ato pacífico a ocorrer na avenida Paulista, local tradicionalmente escolhido por minorias na reivindicação de seus direitos. Teremos cerca de 600 profissionais da fonoaudiologia, unidos no intuito de esclarecer a sociedade brasileira sobre a importância da redução da jornada de trabalho da categoria, além de externar nossa indignação com o veto presidencial ao PLC 119/10.
O que a presidenta Dilma chama, no texto do veto, de contrariedade ao interesse público se mostra, na verdade, contrariedade ao interesse privado. A redução da carga horária para 30 horas semanais permitiria o oferecimento de um atendimento mais qualificado. Esse tempo que seria disponibilizado poderia ser utilizado pelo(a) profissional na recuperação do desgaste físico e mental inerente ao exercício da profissão, além de ser empregado no desenvolvimento de sua própria capacitação. A presidenta demonstra menosprezo pela profissão que foi fundamental na recuperação funcional do ex-presidente e companheiro de partido Lula ao longo de seu tratamento de câncer na laringe.
Em paralelo, no mesmo dia e horário, ocorrerá manifestação pela internet. A hashtag #FonoContraVetoDilma será postada em diversas redes sociais a fim de tornar a questão um dos assunto mais comentados."

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Butterfly de Kathryn Harvey - Resenha (Contém spoilers)

Um livro escrito de mulher para mulher. Essa foi a primeira impressão que tive ao ler Butterfly, o primeiro livro da trilogia Butterfly de Kathryn Harvey. Poderia dizer várias coisas sobre o livro, mas não quero liberar muitos spoilers. Então, vou simplesmente deixar claro que toda mulher deveria ler, ponto final. Inclusive as adolescentes.

O vilão principal do livro é misógino. Claro que, no decorrer da narrativa, algumas cenas eram tão tristes, que eu chorei. Outras passagens eram tão angustiantes, que eu pulei. Só que, todo esse sofrimento vale a pena. Porque também tem esperança, luta, superação. Basicamente, eu poderia dizer que o livro conta a história de como uma vítima dum misógino pode conseguir se recuperar e encontrar a felicidade.    

Só que o livro não conta apenas uma história. São várias histórias de várias mulheres sofrendo violência de gênero de vários tipos: Violência psicológica, violência sexual, discriminação, agressão física, controle reprodutivo... Mas todas elas envolvem superação, então a forma como a narrativa se constitui também é muito interessante.

Além disso, todas essas histórias estão permeadas por cenas eróticas que acontecem em Butterfly, um prostíbulo de luxo no qual lindos modelos realizam as mais secretas fantasias de mulheres ricas. Funciona da seguinte forma: A cliente escreve num papel a fantasia dela, incluindo todos os detalhes e qual modelo ela quer. A equipe prepara um quarto com tudo que é necessário para a realização da fantasia, como se fosse um teatro mesmo. E os modelos são verdadeiros atores, muito bem pagos e muito bem treinados, capazes de levar qualquer mulher ao êxtase sexual.

Assim, o livro consegue equilibrar toda a dor da realidade com o prazer da fantasia, emaranhando tudo, porém, de forma que a dor chega à fantasia, e o prazer chega à realidade. Impossível não se identificar com pelo menos uma dessas personagens, impossível não reconhecer nelas alguma fatia de sua dor, impossível não torcer por um final feliz para cada uma delas.

Recomendo especialmente para quem tem dificuldade de entender sobre realções abusivas e misoginia. É uma excelente oportunidade de aprender a identificar formas sutis de opressão, e de nunca mais ser vítima delas. 

Classifiquei com cinco estrelas no skoob.

domingo, 28 de abril de 2013

Ser grosseiro no trânsito prova masculinidade?

É senso comum a ideia de que mulheres têm menos capacidade que homens para dirigir veículos. Ouvimos isso desde a infância, embora não exista nenhum comando no carro que dependa dum pênis para ser acionado. Além disso, o seguro de carros dirigidos por mulheres é mais barato devido à menor probabilidade de acidentes graves.

Historicamente, mulheres sempre foram reservadas para o espaço privado, enquanto que o espaço público era dos homens. Mulheres no espaço público, até hoje, ainda são agredidas porque incomodam os homens.

Pode parecer bobagem falar que em 2013 homens não gostam de ver mulheres na rua. Mas a verdade é que isso é um processo em muitos casos inconsciente. Por isso existe uma reação tão intensa de rejeição a mulheres na rua, e isso começa quando ainda somos meninas.

O assédio nas ruas, que começamos a enfrenter muitas vezes antes da puberdade, não se trata apenas de "elogios". Esse assédio é um processo através do qual homens mostram para mulheres o lugar delas; mostram que, se elas desejam estar no espaço público, esse espaço pertence a eles.

É claro que a misoginia social também é um fator responsável pelo especial prazer que se tem em agredir meninas e mulheres. E o trânsito é um excelente lugar para se fazer isso. Em primeiro lugar porque, dentro do carro, as pessoas têm a ilusão de estarem protegidas, como num tanque.  Em segundo lugar porque se convencionou que ser agressivo(a) no trânsito é "legal".

Por que? Simples, porque a agressividade é uma característica culturalmente atribuída ao masculino, e tudo que é masculino é visto como superior. Então o jeito que homens costumam dirigir é o mais "certo" ou "eficaz". O jeito que mulheres costumam dirigir "atrapalha", porque o legal é andar por aí arrebentando todo mundo, que é coisa de "macho".

Agora eu vou provar por absurdo como essa ideia de agressividade no trânsito é estúpida:

"Considerando que é legal dirigir correndo, haja vista o sucesso do automobilismo como esporte, então é legal andar correndo na rua, porque ser maratonista é um esporte que faz muito sucesso também".

Não é verdade, ninguém anda correndo na rua a menos que esteja treinando pra uma maratona. Isso é uma contradição, logo provamos por absurdo como dirigir feito louco(a) é uma atitude estúpida. Afinal, a gente tira carteira de habilitação, e não carteira de piloto de Stock Car.

Uma vez, eu vinha pela seguinte rua, sendo que a preferência era minha. Olhando na foto (Google maps), é possível ver que não há nenhuma placa de "Pare" ou "Dê a preferência" para mim, certo? Há apenas uma faixa de pedestres, diante da qual devo parar caso haja alguém esperando para atravessar a rua, mas caso contrário, tenho o direito de seguir em frente. 


Bem, é muito raro o carro que vem pela outra via parar porque ela tem maior movimento. Ali do outro lado da rua, tem uma placa de "Dê a preferência" para quem vem, mas ela é sistematicamente ignorada. E o pessoal que vem por lá realmente acha que quem vem desse lado deve parar. 

Um dia, eu estava entrando nessa via. Estava vindo um elemento (acompanhado de uma mulher) num gol GV preto. Quando eu estava entrando, mesmo a preferência sendo minha, ele jogou o carro e gritou "Vaca" para mim. 

Para mostrar a placa diante dele:


   
Tudo isso para provar que a preferência era minha. Mesmo assim, o elemento se achou no direito de me agredir verbalmente e me discriminar por gênero. Por que?

Porque é especialmente prazeroso para esse tipo de homem agredir mulheres. A questão do trânsito é só um pretexto. Não importa como a mulher dirige. Pode ser uma piloto, o desgraçado vai achar que ela dirige mal só porque é uma mulher. 

Ah, e uma dica especial: Se o rapaz que você está pegando xinga outra mulher assim, termine a relação com ele. Se xinga uma, xinga todas. Misoginia não é seletiva, tenha sempre em mente.   

Encerro dizendo a minhas colegas condutoras que não se preocupem. Não importa como vocês dirijam, vocês nunca conseguirão agradar, então, façam o que é melhor para vocês. Dirijam de forma responsável e cooperativa, contribuam para um mundo melhor e mais seguro, e, principalmente, desconsiderem toda e qualquer tentativa de agressão misógina.

Anexo baliza:

O Posto BR desenvolveu um aplicativo para o Facebook chamado Estaciona Bonito. É bem legal para treinar estacionar em vagas paralelas, que é uma manobra meticulosa e exige uma certa experiência. Vou deixar uma receitinha: Procure uma vaga com pelo menos 6 bloquinhos de calçada. Você deve contar enquanto emparelhada com o carro atrás da vaga. Se a vaga tem o tamanho bom, siga em frente, deixando uma distância lateral de aproximadamente um metro. Emparelhe com o carro da frente da vaga de modo que as lanternas traseiras dele estejam no início de seu vidro traseiro. Não vá mais para a frente que isso enquanto não tiver prática. Gire a direção de modo que os pneus virem para o lado da vaga e engate ré. Siga até que o carro esteja quase perpendicular à vaga. Então vire a direção para o lado oposto ao da vaga e continue dando ré. Vá devagar para não bater, mas se você tiver voltado o volante no ponto certo, o carro deve ficar arrumadinho de primeira. ;)

Se enconstar na guia é porque você foi muito na primeira manobra e deixou pra voltar depois do ponto. Se ficar longe da guia, é porque você voltou a direção muito cedo. Se o carro estiver torto, mas praticamente dentro da vaga, é só voltar a direção toda para o lado da guia e ir um pouco pra frente que ele fica reto. Se não, você vai ter que sair e começar de novo. Mas não vai ter jeito, você vai ter que fazer isso muitas vezes até aprender. Comece em vias largas, mas não se preocupe com pessoas impacientes. Todo mundo um dia começou.        

domingo, 21 de abril de 2013

Socorro, minha analista é de direita!: Um paralelo entre neoliberalismo e psicanálise



"Socorro, minha analista é de direita!": Esse foi o meu grito há pouco mais de três meses, quando decidi abandonar uma lacaniana. Eu já deitava no divã duas vezes por semana há nove meses, que é o processo mais intenso de análise ao qual cheguei. Há pessoas que fazem até quatro vezes por semana, o que é supostamente mais eficaz, mas certamente um investimento bastante elevado tanto de tempo quanto de dinheiro.

Psicanálise é um tipo peculiar de psicoterapia. Segundo as teorias de Freud, a psicanálise permitiria a investigação de processos mentais que seriam inatingíveis por qualquer outro modo. Nos primeiros encontros, o que no meu caso durou uns 10 meses porque eu só ia uma vez por semana, eu sentava de frente para a analista. Ela olhava para mim com aquela cara de pedra, indiferente a maior parte do tempo, enquanto eu falava. Quando ela achou que eu estava "pronta" para a análise, que é quando eu supostamente fazia questionamentos que não fazia antes, comecei a deitar no divã, e esse foi o começo do processo psicanalítico propriamente dito. 

Não posso dizer que minha experiência tenha sido infrutífera. É meio estranho ficar falando deitada no divã sem olhar pra ninguém, ouvindo alguma interferência raramente. No caso da linha lacaniana, existe um detalhe chamado "tempo lógico", ou seja, a sessão não tem um tempo predeterminado. Isso pode ser legal porque a sessão acaba no momento em que se chega a uma conclusão. Mas muitas vezes é desagradável. Eu cheguei a deitar no divã, falar por 10 minutos e ter a sessão encerrada bruscamente por ter supostamente cometido um ato falho. 

Escrevo neste texto minha impressão pessoal. Sei que existe muita teoria sobre o assunto que eu não conheço. Mas a verdade é que psicanálise me parece um processo neoliberal.  

Num texto anterior, já falei sobre algumas diferenças entre esquerda e direita. Muita gente vai dizer que estou viajando. Afinal, o que psicanálise tem a ver com política? Bem, a ideologia política que seguimos é como uma religião. Não escolhemos uma religião não condizente com nossos valores pessoais. Também não escolhemos uma ideologia política não condizente com nossos valores pessoais.       

Sendo bastante superficial, a direita acredita que cada indivíduo é responsável por suas escolhas e que o contexto social não importa. Então não adianta reclamar de discriminação porque isso não existe. Todo mundo tem condição de vencer na vida com o esforço necessário. Movimento feminista é tentativa de vitimização, afinal, somos todos iguais em direitos e deveres nos termos da Constituição. Essas minorias é que estão querendo privilégios. Sendo assim, não tem negro na universidade porque negro não estuda o suficiente. Não tem mulher em diretoria de empresa porque mulher não é competente o suficiente. E assim por diante.  

A psicanálise, por sua vez, é um método totalmente centrado no indivíduo, no qual não se tem o direito de reclamar de nada. Se eu falava sobre uma agressão que sofri, minha ex-analista tentava me responsabilizar. Dizia que se alguém me machucou foi porque eu deixei. Ou seja, culpabilizava a vítima. 

Se eu falava sobre uma agressão em que não houvesse como me responsabilizar, ela tentava me convencer que eu estava fantasiando. Estabelecia questionamentos mirabolantes nos quais insinuava que eu estava presumindo qualquer coisa que não fosse dita explicitamente. Só que, se era algo em que ela acreditava (um ex-namorado meu ser gay, por exemplo), então era eu que não queria ver a verdade apesar das evidências. E se tudo falhasse, então ela ficava em silêncio sepulcral até que eu falasse sobre outro assunto.   

Com o tempo, percebi que ela me lembrava Margaret Thatcher. Tim Vickery, jornalista inglês, falou sobre a dama de ferro ter dito que não existe sociedade, apenas indivíduos. Pois bem, no processo de análise o contexto social é absurdamente ignorado. Não adianta reclamar de falta de dinheiro. Meritocracia é tudo, pois é tão difícil pra um rico vencer na carreira quanto pra um pobre. Fora que ela pensava em feminismo como "briga com os homens". 

Eu também não podia reclamar de injustiças cometidas por autoridades. Autoridades são intocáveis. A polícia existe pra nossa segurança e nunca faz nada fora da lei. E se ela era obrigada a reconhecer que alguma autoridade tinha feito algo errado, esse caso era excessão e sofrer injustiça não era privilégio meu.    

Basicamente, larguei a análise quando juntei tudo isso. Eu já tinha percebido algumas coisas, mas não tinha ideia do quão radical era o processo. Então um dia, meio que por acaso, topei com o livro "Abuso de Poder na Psicoterapia e na Medicina". Então entendi o que estava tão errado em meu tratamento. Minha ex-analista havia enfiado na cabeça que eu fantasiava ser agredida e ficava tentando me empurrar isso goela a baixo, não importava a situação que eu levava para o espaço da análise.


Vários traumas meus ficaram sem o tratamento adequado porque ela ficava em silêncio quando eu falava sobre eles. Agora percebo que ficou um buraco dentro de mim esse tempo todo. Nada dói mais do que quando se perde o direito de se reconhecer como vítima duma agressão. É como aquele filme "A Filha do General" (1999), no qual uma moça finge que não sofreu um brutal estupro coletivo a pedido do pai. Ele diz que foi algo horrível, mas passou, e o melhor a fazer era esquecer. Ele tirou dela o direito de lutar por justiça devido a interesses políticos e econômicos.

Agora que consigo entender tudo que aconteceu, sinto um certo pesar por não ter largado a análise antes. Mas enfim, tudo tem seu tempo e foi assim que aconteceu. Pelo menos posso compartilhar a experiência que tive e dar minha opinião. Minha conclusão é de que culpar alguém pelas agressões que sofreu não ajuda em nada. Menos ainda fingir que as agressões não aconteceram e são apenas fantasias da vítima. Recolocar a experiência, ressignificar, tudo isso é benéfico, mas jamais negando as injustiças que as sociedades infligem. E é isso que tanto a psicanálise como o neoliberalismo fazem.   

Mas já existem psicanalistas que refutam essa linha de tratamento. A psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen, por exemplo, fez várias pesquisas sobre mulheres que permanecem em relações abusivas. Em sua visão, elas não permanecem por um suposto gozo inconsciente, mas porque foram preparadas para serem submissas pela conjuntura social vigente.