quarta-feira, 16 de abril de 2014

Complexo de Bela Adormecida

Recentemente, no programa Big Brother da Globo aconteceu uma cena de abuso sexual de uma das participantes. Marcelo beijou Ângela quando ela estava inconsciente após ter dito "não" mais de cem vezes.

Foto tirada por Alfred Eisenstaedt em 1945
Os argumentos a favor do rapaz giram em torno de que Ângela supostamente havia ficado com ele em algumas ocasiões. Eu não conheço a história, mas não importa. Ainda que uma mulher seja casada com um homem, isso não dá a ele o direito de beijá-la sempre que deseja independente do consentimento dela. Isso não existe. Eu posso querer ficar com um homem hoje e não querer mais amanhã; é meu direito. Ficar com uma pessoa não a libera para usufruir de meu corpo como bem entende sempre que desejar.

Eu não sei quem inventou que beijo roubado é algo romântico. Já aconteceu comigo e foi horrível. Eu estava numa danceteria quando um sujeito me agarrou e simplesmente me beijou. E quando falei sobre isso com uma analista, ela sugeriu que eu poderia ter ficado feliz com um "beijo roubado". Puxa, que falta de noção. Beijo roubado é abuso sexual.
 
A horrível (e famosa) foto ao lado é de um abuso. O marinheiro simplesmente agarrou a enfermeira e beijou, ela não pôde fazer nada. É possível notar que a mão dela está caída, sem dar nenhum sinal de cooperação. Mas tem gente que acha lindo um sujeito pegar uma menina a força.Tem gente que acha essa foto romântica.


No livro The Claiming of Sleeping Beauty, o primeiro da trilogia erótica escrita por Anne Rice sob o pseudônimo A. N. Roquelaure, Rice brilhantemente explicita o que está implícito na história da Bela Adormecida. (Spoilers!) Na incômoda obra de Rice, Bela é estuprada. O príncipe chega ao castelo, tira as roupas dela e se serve do corpo da moça adormecida. E isso a desperta e dá a ele o direito de levá-la como escrava. Não muito diferente da versão infantil, na qual Bela é beijada, desperta e se casa com o príncipe. Ela nem sabe quem é o cara, mas só porque ele a despertou, ela naturalmente se apaixona por ele.

Isso me lembra aquela teoria do Dijkstra sobre estupro terapêutico. O estupro é visto frequentemente como algo bom para mulheres, como se fosse um instrumento educativo. Por muito tempo, acreditou-se que não havia mal em se abusar de uma menina impúbere, pois isso despertaria a garota para seus "deveres reprodutivos" além de torná-la apaixonada pelo homem que fizesse isso. Soa familiar?  

Na novela Olho no Olho (Antônio Calmon, 1993-1994), a personagem Malena (Helena Ranaldi) encontra seu objeto de desejo Guido (Tony Ramos) alcoolizado e se aproveita dele, fingindo ser sua namorada. A personagem Veridiana (Eva Todor) diz a ela que "se fosse ao contrário, seria um estupro".

Eu sei que, na época da novela, estupro (legalmente) era apenas a penetração forçada da vagina. Mas acredito que, de qualquer forma, forçar um homem inconsciente a ter relações sexuais era "atentado violento ao pudor", o crime que englobava todo abuso que não fosse a penetração da vagina com o pênis. Foi um mega erro colocar uma fala como essa na novela, porque dá a sensação de que se aproveitar do corpo de um homem não é "tão grave". Mas é sim. Ninguém tem o direito de usar o corpo duma pessoa adormecida.

Uma cultura que difunde que se pode "despertar" alguém através dum abuso está prestando um tremendo desserviço. É importante que possamos analisar essas ideias danosas dos contos de fada (que são os contos eróticos das crianças, como Jean Paulhan pontuou no prefácio de "A História de O") com responsabilidade para que possamos construir uma cultura melhor. A cultura condiciona comportamentos. Se queremos um mundo onde as pessoas farão escolhas melhores, temos que pensar numa cultura melhor.     


sexta-feira, 21 de março de 2014

Manual para vampiras iniciantes

Okay, então agora você é uma vampira. Parabéns, você vai viver para sempre (exceto por algumas casualidades que discutiremos adiante), nunca vai envelhecer, não vai ter medo de bandido nem de parceiro abusivo, vai poder ir para onde quiser na hora que quiser, vai fazer sexo com quem bem entender com a certeza de que vai gozar e sem se preocupar com gravidez ou doenças sexualmente transmissíveis. Tudo isso tem um preço entretanto: você vai precisar beber sangue pelo resto da eternidade. Sangue humano, de preferência. 

E agora, como adaptar sua dieta? Até semana passada, eram tantas opções. Agora seu desejo por sangue não a deixa dormir em paz. Em primeiro lugar, não adianta fugir. Tentar evitar a ingestão de sangue só vai deixá-la descontrolada, e, confie em mim, você não vai querer ficar descontrolada. Você pode acabar machucando (ou até matando) alguém muito especial pra você.

Beber sangue animal é sempre uma alternativa, mas você não vai gostar muito do sabor. Outro problema é onde encontrar animais. Se você mora na zona rural ou perto de florestas, isso é mais fácil. Mas pra quem mora em zona urbana o que resta é pombo, cachorro e gato. Depois de um tempo, começa a enjoar.

Furtar sangue humano em bancos de sangue derruba os estoques, que normalmente já são baixos. Fora que esse sangue fica gelado, o que não ajuda muito a melhorar o sabor. Pode ajudar em emergências, mas não há nada como um sanguinho fresco a 36,5º.

Tru Blood
Tru Blood é uma opção sintética vendida em garrafas. O sabor não é tão bom quanto o de sangue verdadeiro, mas está disponível nos oito sabores (A, B, AB, O, tanto positivo como negativo). O inconveniente é que é produzido nos EUA, no estado de Louisiana. Você pode comprar pela internet, mas vai demorar umas sete semanas para chegar. E pode ser que haja incidência de impostos, infelizmente.

O ideal é aprender a controlar o desejo por sangue para atacar apenas pessoas ruins e evitar matá-las no processo. Por isso mesmo é importante estar sempre bem alimentada; isso evita o descontrole.

Os melhores lugares que conheço para procurar presas são as baladas. É lá que você vai encontrar encoxadores (também presentes no transporte público), estupradores que colocam sedativos em bebidas, brucutus que quebram braços de garotas que não querem beijá-los, boyzinhos que xingam meninas de dentro de seus carros importados, entre outros tipos de misóginos chorume. E as vantagens não param por aqui. Como a música é alta, vai ser mais difícil que alguém ouça sua vítima gritar, o que pode acontecer no começo, quando você ainda não tem prática com hipnose. Além disso, a pouca luz ajuda a disfarçar eventuais gotas de sangue que escorram de sua boca. E, como muita gente fica de pegação no ambiente, ninguém vai suspeitar quando vir você com a boca afundada no pescoço do elemento.

Outros lugares legais para se alimentar são cruzamentos de cidades grandes durante a madrugada. É onde mais acontecem sequestros relâmpagos. Também vale a pena procurar por torturadores da ditadura, mas eles tendem a ser velhos e feios, o que corta um pouco o desejo pelo sangue deles. 

Katana 
E lembre-se sempre de ter cuidado com caçadores de vampiras. Eles estão por toda a parte querendo atravessar nossos corações com uma espessa estaca de madeira. Fique sempre atenta à presença de madeira no ambiente, principalmente cabos de vassouras e rodos, que podem virar estacas num só golpe. Também fuja de lança-chamas e explosivos. Todos os tipos de vampiras existentes morrem pela ação do fogo, você não vai querer virar estatística. A possibilidade de decapitação é um pouco remota, pois seria preciso uma katana para conseguir tal feito, e não se vê samurais por aí hoje em dia.

Dependendo do tipo de vampira que você for, algumas substâncias podem lhe ser tóxicas. Prata, verbena, alho são algumas das possibilidades. Algumas delas podem ser adicionadas a bebidas ou até mesmo passadas através do sangue de pessoas que as ingeriram. Alguns caçadores podem apelar para tais armadilhas traiçoeiras; é sempre bom acompanhar notícias sobre a ação deles. Geralmente, quando eles atacam numa região, as notícias correm pela comunidade sobrenatural.

E, por último, mas não menos importante, tenha cuidado com o sol. O sol sempre atinge vampiras, seja queimando sua pele, seja expondo seu vampirismo para a sociedade. Nunca se exponha ao sol sem um talismã que a proteja. Joias feitas com lápis-lazúli costumam ser as mais eficazes.

Também é bom lembrar que, como você não vai envelhecer, depois de algum tempo isso vai começar a levantar suspeitas. Você vai ter que se mudar sempre. Eu recomendo ciclos de 20 anos. Com alguns disfarces, é possível aguentar esse período. Mas o mundo é muito grande, felizmente. Há muitas cidades, e você sempre poderá voltar depois de algum tempo. 

No mais, aproveite todo o hedonismo de sua nova condição. Agora que seus sentidos estão mais aguçados, você tem um novo mundo para explorar. Boa sorte!     


       
 

domingo, 16 de março de 2014

Fugindo da/o gastro

Gastroenterologia é a especialidade médica que procuramos quando temos problemas no aparelho digestivo, o que inclui o estômago e os intestinos. As pessoas fogem da/o gastroenterologista basicamente por dois motivos: endoscopia e colonoscopia.

Pela endoscopia eu não passei, mas passei recentemente por uma colonoscopia e gostaria de compartilhar minha experiência.

Colonoscópio
Resumidamente, a colonoscopia é um exame no qual uma espécie de sonda chamada colonoscópio é introduzida no ânus a fim de se examinar várias partes do intestino grosso, principalmente o cólon. A colonoscopia é especialmente indicada para se verificar a presença de inflamações e pólipos (que podem se tornar tumores) no intestino grosso.  

Claro que para fazer o exame é preciso que o intestino grosso fique vazio. Como é impossível que uma pessoa passe três dias sem comer, é preciso abrir mão do que leva mais tempo de digestão e tomar laxantes fortes.


Uma vez na adolescência, quando fui tirar sangue, eu disse para a enfermeira que tinha medo. Ela respondeu: "Minha filha, quem não tem medo?".

Digo o mesmo agora. Quem não tem medo de se submeter a um exame no qual uma sonda será introduzida em seu ânus? Há constrangimento porque uma parte íntima do corpo fica exposta, medo de sentir dor, ansiedade devido à sedação... E o preparo? Três dias sem comer carne e verduras... Laxativos fortes, desidratação, fome, náusea... E o termo de consentimento no qual assumimos o risco de perfuração intestinal? O coração querendo sair pela boca e eu assinando aquilo...

Só que tudo isso acontece num período de apenas três dias da vida de uma pessoa. É um exame que vai trazer um mega alívio para aquela terrível pergunta: "Será que é câncer?".

Duma coisa eu tenho certeza: por mais desagradável que o exame seja, o tratamento de câncer é muito mais. A quimioterapia é aplicada por injeção semana sim, semana não, e sempre tem efeitos colaterais desagradáveis. Não é só a queda dos cabelos, mas náuseas que derrubam a pessoa. E o pior é que é preciso trocar os fármacos sempre porque eles vão perdendo a eficácia contra as células neoplásicas.  

Quanto a minha experiência? Bem, eu não me lembro de nada depois da sedação. Amnésia é um dos efeitos colaterais do sedativo injetado (creio que tenha sido Midazolam), de modo que perdi tudo (ou quase tudo) que aconteceu até que acordei em casa após uma soneca de umas três horas. Tenho alguns flashes de quando reclamei da sede, de ter tido soluços (outro efeito colateral do sedativo), de quando finalmente jantei... O que me ajuda a montar o quebra-cabeça são as mensagens que mandei pras amigas no período logo após o exame.

Mas por mais chato que seja ser sedada, ainda é melhor contar com esse conforto na hora do exame. O importante é levar umas duas pessoas de confiança (os laboratórios pedem apenas uma, mas acho melhor duas) para poder relaxar e ter a certeza de que chegará em casa bem. E, por favor, pare de fugir das consultas! Vá checar logo esses sintomas. Não é normal ter dor. Tenha especial atenção com sintomas  como azia, gases, intestino preso, fezes escuras, dores na barriga, náuseas, intolerância a alimentos...  

Dicas

Na antevéspera do exame ainda é possível sair de casa. Não se pode comer carne vermelha nem verduras. É melhor optar por carne branca, arroz, batata ou macarrão e dar preferência para legumes cozidos. Também é bom evitar pão integral. Durante todo o preparo é melhor optar por pão branco.

Na véspera já é difícil sair de casa porque é preciso tomar duas doses fortes de laxante, uma de manhã e uma no final da tarde. Nesse dia a alimentação recomendada é sopa de legumes batida no liquidificador, mas eu optei por macarrão a alho e óleo, purê de batata e legumes cozidos. Já não se pode comer nenhum tipo de carne nem grãos, então é um dia mais difícil.

No dia é preciso fazer um intenso esvaziamento do intestino. O laboratório no qual fiz o exame, opta pela recomendação dum laxativo dissolvido em dois litros de água. Como eu não poderia beber nem comer mais nada ao longo do dia, resolvi dissolver o remédio num isotônico (tipo Gatorade) para manter um certo nível de hidratação. Não preparei dois litros, e, de fato, foi difícil ingerir os 800ml que havia misturado. Isso porque comecei a sentir náusea, precisei até tomar Plasil.

Como a mucosa da região anal é bastante delicada, eu recomendo a utilização de pomadas para proteger a pele. As mais apropriadas são a Bepantol (similar Cicatenol mais barata) e a Hipoglós (similar Adederme mais barata). Não tenha vergonha de aplicar logo depois de todas as idas ao banheiro. É um cuidado que evita assaduras muito desconfortáveis. Aplique também depois do exame, pois é grande a chance de haver leves fissuras.

Durante o exame, são injetadas pequenas quantidades de ar nos intestinos. É claro que depois isso traz o desconforto dos gases. Caminhar na noite do exame é complicado, pois os efeitos do sedativo ainda não passaram. Uma solução para aliviar o desconforto é tomar Simeticona e Buscopan.  

Eu recomendo levar duas pessoas porque não podemos ficar sem acompanhante em hipótese alguma no estado de sedação em que saímos do exame. Pode ser preciso buscar o carro, por exemplo, pois não estamos com condições de andar sem auxílio. Ter duas pessoas garante um melhor cuidado.     
   

segunda-feira, 10 de março de 2014

Projeto Bem-vinda

O Projeto Bem-vinda é um projeto fotográfico aberto no qual serão reunidas todas as fotos amadoras e/ou profissionais de placas, tickets, panfletos, prints, entre outros materiais de comunicação de estabelecimentos comerciais e empresas que ignoram completamente a existência do gênero feminino na linguagem. 


Ticket do estacionamento do Shopping Metrô Tucuruvi
Para participar, basta enviar a foto ou print para o email pattykirsche@gmail.com com "Projeto Bem-vinda" no assunto, dizendo o nome da empresa responsável.

A invisibilidade do gênero feminino na língua portuguesa é uma consequência (e não a causa) da cultura patriarcal. Convencionou-se que o plural de um grupo com mulheres e homens seria designado por "eles", e que adjetivos e substantivos ficariam sempre no masculino quando se referissem a grupos indefinidos.

As regras supracitadas refletem por um lado a ideia de que o homem é o ser humano "regular", enquanto que a mulher é uma "variação" do que se entende por ser humano. Por outro lado, são consequência duma crença profundamente misógina que entende como degradante para um homem que ele seja chamado de "mulher", o que inclui pronomes, adjetivos e substantivos femininos. No entanto, para as mulheres, não é entendido como ofensivo que sejam tratadas no masculino. Because it's okay to be a boy.  


Carrefour Vila Rio em Guarulhos - SP
Essa cultura ainda hoje é responsável pela conduta da maioria das empresas, que tratam seu público alvo como "o cliente", e esperam que "ele" esteja "satisfeito". Colocar uma placa com os dizeres "Seja bem-vindo" na frente dum estabelecimento é apenas mais uma das demonstrações dessa cultura na qual "o homem" é a humanidade. 

Mas é possível mudar isso. As empresas são sensíveis às reclamações da clientela. Não podemos nos calar, pois o poder está de fato em nossas mãos. 

A minha proposta inicial é que o gênero feminino passe a aparecer da forma mais careta, que inclusive existe há tempos: o(a), ou o/a. Não seria grande trabalho colocar um "Seja bem-vindo(a)" na entrada, ou um "o/a cliente", ou "Estamos aqui para servi-los/las"... Mas nem isso? Poxa, segundo pesquisa Data Popular com homens casados em todo o país, as decisões das compras de supermercado são da esposa para 86% dos entrevistados, férias da família 79%, roupas do marido 71% e carro da família 58%. Não é justo que o comércio simplesmente finja que não existe o gênero feminino em seu público alvo. 

Claro que ainda temos as questões das pessoas transexuais, andróginas, e etc. Questões de gênero envolvem vários debates, inclusive no que diz respeito à linguagem, pois cada idioma tem suas particularidades. Eu não tenho uma resposta sobre qual seria a melhor forma de se expressar gêneros; eu só proponho que um recurso já conhecido da língua portuguesa seja utilizado para que o comércio decida se dirigir às mulheres (tanto cis quanto trans). 

Contribuição de Hiago Araújo, tirada no Shopping Internacional





  


domingo, 9 de março de 2014

O animal mais útil ao homem

Quando eu era criança, vi uma reprise de "Os Trapalhões" que nunca saiu de minha memória. Não encontrei o vídeo; creio que seja dos anos 1970, pois Renato Aragão estava bem jovem. O quadro percorria uma série de entrevistas na rua. Um repórter que não aparecia, apenas se ouvia sua voz, fazia perguntas sobre conhecimentos gerais para cada um dos trapalhões e ia ouvindo respostas absurdamente ignorantes. A entrevista que fecha a série, o grand finale, que obviamente fica por conta do Didi, é o diálogo que reproduzo (não fielmente) abaixo:  

Repórter: Qual o animal mais útil ao homem?

Didi: A mulher.

Repórter: Não, é a vaca. A vaca fornece carne e leite para alimentação, o couro para vestuário e com seus chifres fazemos botões.

Didi: Continua sendo a mulher. Nossas mães nos amamentam, nossas esposas preparam a comida, nossas avós tricotam agasalhos e os botões, cada um que cuide do seu.

Bem, parece que é literal, né? Não é à toa que somos chamadas de tantos nomes de animais. É assim que somos vistas: animais domésticos úteis ao homem. E é bom chamar atenção que aqui "homem" não se refere a humanidade. Provavelmente nunca se refira. Qualquer analista lacaniana sabe muito bem do que estou falando. Não é por acaso que se esconde o gênero feminino na língua. Talvez a humanidade de fato seja entendida no senso comum como sendo "o homem". A mulher é apenas o animal mais útil.

E antes que alguém diga que é "só" uma piada, vou citar Allan Johnson:

Misoginia é uma atitude cultural de ódio às mulheres
simplesmente porque elas são mulheres. Trata-se de uma parte
fundamental do preconceito e da ideologia sexistas e, como tal,
constitui uma base importante para a opressão das mulheres em
sociedades dominadas pelos homens. A misoginia se manifesta de
várias maneiras diferentes, de piadas e pornografia à violência e ao
autodesprezo que mulheres podem ser ensinadas a sentir em relação
ao próprio corpo. (JOHNSON, 1997, p. 149).


A pitada de esperança fica por conta de que todos os entrevistados eram apresentados como ignorantes. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Então é Dia Internacional da Mulher. E o que você fez?

Postagem originalmente postada no blog Mulher Alternativa em 21/03/2013
Editada por Marília Moschkovich

Celebrating women's empowerment at a 16 October women's empowerment rally in Nigeria
imagem de Africa Renewal, Flickr, CC
No dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional de luta das mulheres. Passeando no shopping, percebi que algumas lojas estão tentando estimular a compra de presentes para mulheres nessa data.
Não tenho nada contra presentes. Acho até legal quando alguém pensa em comprar uma lembrancinha numa data especial, desde que por desejo próprio, e não por obrigação. Só espero que a ideia de trocar presentes não tire o foco do verdadeiro sentido por trás dessa importante data. Afinal, temos esse dia de luta porque somos um grupo historicamente oprimido. E como está nossa situação hoje?
As mulheres têm alcançado diversas posições bacanas na nossa sociedade, sua escolarização se alongou, têm conquistado melhores postos de trabalho do que antes, têm tido mais acesso ao planejamento familiar, entre outras coisas. Mas infelizmente a cultura machista continua fazendo vítimas todos os dias, porque continua tendo força na nossa forma de pensar, ver o mundo e organizar a sociedade. O caso da violência doméstica no Brasil é grave e mostra apenas uma das consequências nefastas do machismo.

A violência contra mulheres ainda é um problema no mundo inteiro. Muitas mulheres são vítimas de assassinatos devido a ciúme do parceiro numa indubitável demonstração do quanto ainda somos vistas como propriedade. A esses delitos damos o nome de femicídio ou feminicídio. E mesmo quando não termina em assassinato, uma relação abusiva pode deixar várias marcas na vítima, tanto físicas quanto psicológicas e ir "matando" aos poucos.   

Muitas pessoas que têm o privilégio de não viver uma situação de violência doméstica acabam se perguntando: qual o problema com essas mulheres que permanecem em relações abusivas? Elas não percebem que estão namorando ou casadas com um escroto machista (ou com uma escrota machista, já que é documentada a ocorrência de violência doméstica entre casais homossexuais)?
Essas são questões difíceis de se responder. A princípio, não podemos esquecer de que as vítimas estão numa situação de dependência, às vezes financeira, às vezes emocional. Para conseguir sair da situação na qual se encontram, precisam passar por um processo que chamamos empoderamento.

O empoderamento é um processo pelo qual uma pessoa percebe seu verdadeiro valor, conseguindo então encontrar poder nela mesma para mudar sua situação. Ela se apropria, se empodera da própria vida. Se vemos tantas mulheres sendo vítimas de parceiros abusivos é porque muitas delas não têm poder psicológico e simbólico, o que é uma consequência da cultura misógina perpetuada pela sociedade na qual vivemos.
É importante mencionar que a violência pode aparecer de formas bastante sutis, que sequer são entendidas como violência no senso comum. Insultos, "piadas" ridicularizando seu corpo ou seu modo de ser, apelidos pejorativos, enfim, qualquer prática que mine seu gosto pela vida de alguma forma. Sentir prazer em viver é fundamental no processo de empoderamento, e é o primeiro ponto que um(a) agressor(a) vai atacar.
Portanto, toda vez que sentir a esperança sumindo, busque satisfação nas pequenas coisas. Olhe para dentro de si, veja quem você é de verdade, reconheça suas qualidades, lembre-se de seus sonhos. O momento para ser feliz é agora. Sempre é hora de tentar algo novo. Um curso, por exemplo. Estudar é uma das principais formas de empoderamento, pois traz a oportunidade de conhecer pessoas novas, e assim, novos amigos(as) que podem apoiar em momentos difíceis. Além disso, aprender algo novo também pode trazer novas possibilidades profissionais, e, por consequência, um caminho para a independência financeira. Existem vários cursos gratuitos ou a preços populares. Bibliotecas costumam ser um bom lugar para se encontrar informações sobre eventos e oficinas e são acessíveis a todos.        

Essas dicas não são exclusivas para vítimas de relacionamentos abusivos. Todas as mulheres, bem como outras minorias, precisam de empoderamento em maior ou menor grau. O empoderamento é a chave para não se deixar tomar pela constante inferiorização que a cultura nos impõe dia após dia. 

Então, o que você fez para empoderar-se nesse ano que passou, desde o último mês de Março?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Injúria, violência de gênero e mensagens de ódio

No Brasil, xingar pessoas é crime. Falo sério. Chamar uma pessoa por qualquer nome ofensivo constitui crime de injúria. E não é porque um monte de gente faz que deixa de ser crime. A questão é que nem sempre é possível provar. Mas, havendo testemunha ou tendo sido escrito, processar o agressor(a), tanto na criminal quanto na cível, é perfeitamente possível.

Quando se processa uma pessoa na criminal, basicamente se destrói a vida profissional dela por uns dez anos. Isso porque qualquer emprego, tanto público quanto privado, exige atestado de bons antecedentes e certidões para admissão. Já o processo na cível tem como intuito conseguir o pagamento de uma indenização. O Brasil não tem histórico de grandes indenizações, mas qualquer ajuda para se trocar de carro é sempre bem-vinda, certo? E, na real, só de dar trabalho para um criminoso (porque quem insulta pessoas é criminoso), o processo já é válido. Porque no mínimo o desgraçado vai ter que gastar dinheiro com sua defesa. E, se o elemento for advogado, vai ter o trabalho de qualquer forma.

Uma das principais razões que mantém o crime de injúria acontecendo no Brasil é a impunidade. Mesmo em casos mais graves do ponto de vista jurídico, como quando a injúria está associada ao crime de racismo, a lei é bastante omissa. Mas, mesmo assim, é importante que lutemos sempre por justiça. A aplicação das leis é importante para que outras pessoas desistam de cometer crimes, e não apenas para reeducar os criminosos.      
    
Os termos utilizados em xingamentos também dizem muito sobre as sociedades do mundo. No Brasil, homens homossexuais são "veados", negros são "macacos", mulheres são "vacas", "cadelas/cachorras", "galinhas",  "piranhas" e as gordas são "baleias".

O que todos esses termos nos mostram é que as minorias não são entendidas no senso comum como "gente". Eu sei, parece exagero, né? Mas não, nenhuma pessoa discriminada é entendida como gente. Para se agredir alguém, é preciso acreditar que esse alguém merece a agressão. Nesse processo, o teor de empatia, que é a capacidade de identificação com o outro, se perde. Discriminar uma pessoa implica tratá-la como inferior, como não humana. Não é à toa que tantos termos discriminatórios são nomes de animais.  

Em se tratando de mulheres, a vasta maioria de termos discriminatórios tem por objetivo ofender através da conduta sexual. Devido à especificidade (homens não são ofendidos através da conduta sexual), a injúria de mulheres constitui um tipo de violência de gênero.

Termos que depreciam mulheres pela conduta sexual (vagabunda, vadia, puta, além dos outros já supracitados) são entendidos socialmente como uma cláusula pétrea do "direito" a agressão. Um dia eu estava conversando com um amigo sobre o assunto, e ele queria me convencer de que a escolha dos termos não tinha nada a ver com violência de gênero; seria apenas pelo teor "ofensivo". Então eu disse pra ele: "Se eu chamar um negro de 'macaco' na hora da raiva, não vai deixar de ser racismo". Aí ele parou de falar, porque não havia mais o que dizer depois dessa.

Mas é curioso precisar explicar isso. Chega a ser revoltante o quanto boa parte da sociedade deseja continuar usando esses termos impunemente. Eu mesma já fui alvo de incontáveis ataques com esse tipo de insulto. Desde que comecei a produzir textos e vídeos sobre sexualidade e feminismo, volta e meia aparece um troll mega corajoso sob a impressão de anonimato da internet que comete injúria e às vezes até difamação contra mim.

Há alguns dias, soube que o que todo mundo já suspeitava tem confirmação científica: trolls são gente ruim. É evidente que precisa se um ser muito vil pra simplesmente chegar e insultar alguém que postou um trabalho na internet. Olha só a declaração que esta 666² deixou pra mim em meu vídeo sobre fio terra:


Quer dizer, segundo ele, as pessoas não precisam de educação sexual porque é uma "necessidade biológica". E, por eu doar meu tempo fazendo vídeos para orientar pessoas sem receber nada, eu mereço ser abandonada por minha família. E, mais que isso, mereço ser insultada. E ele é tão corajoso que apagou o perfil quando eu o notifiquei que ele responderia criminalmente. Ele pensa que apagar o perfil impede a localização. Vamos ver se ele vai mostrar toda essa valentia quando for citado, né? ;)

É claro que, nesse caso específico, temos uma reação agressiva devido a um desejo reprimido. Ele estava procurando vídeos sobre fio terra porque ele sente desejo de fazer, mas ver uma mulher falando a respeito o incomodou profundamente. É um ato de misoginia, sem dúvida, porque uma atitude feminina de liberdade sexual desperta nele desejos de destruição. E, como já sabia Freud, ninguém tenta destruir nada a troco de nada. E essa é uma lição para a vida toda. Se alguém te agride, é porque você toca em algo do inconsciente da pessoa.

Por exemplo, é perfeitamente normal não se gostar de determinado tipo de música ou filme. Mas ter a necessidade de ir até um vídeo do youtube para vandalizar significa que aquilo se conecta com algum conflito interior da pessoa. Como produtos culturais são meu objeto de pesquisa, percebi que existe um padrão de rejeição a produtos culturais que meninas e mulheres gostam. E é perceptível a necessidade que muitos trolls têm de agredir mulheres destruindo esses produtos culturais, o que é, sem dúvidas, uma demonstração constante de misoginia.

O que fica claro é que trolls podem ser recursivos, mas são bastante covardes. Ignorantes também, claro. No fundo, a trollagem não é nada mais que demonstrações de preconceito de pessoas sem empatia que querem espalhar o ódio sem sofrer consequências legais. Mas garanto que um processo judicial é o suficiente pra deixar qualquer troll bem mansinho. Porque é tudo moleque mimado se sentindo poderoso por trás do notebook que a mamãe deu.