domingo, 17 de agosto de 2014

Comentando: atestado de "virgindade" e feminicídios em Goiânia

Neste vídeo comento dois eventos recentes: a exigência de atestado de "virgindade" para posse em cargo público e a onda de feminicídios em Goiânia - GO.

Devido à falta de tempo, acabei comentando em vídeo esses assuntos, que são bastante relevantes. 



terça-feira, 5 de agosto de 2014

O amigo dele está interessado em mim - Momento "Sex and the City"


Pode acontecer com todas nós. Um dia aquele cara do qual você gosta passa seu telefone para um amigo sem avisar nada. E quando o amigo dele liga convidando para um "date", você fica com cara de WTF?. É esse infortúnio que vou destrinchar neste texto.

Como eu já havia mencionado antes, homens não reagem bem a ciúme. Mas sentir ciúme dum amigo é algo que só os mais fortes aguentam. Isso porque, além da tendência a desvalorizar a mulher, homens também apresentam um sentimento de companheirismo muito grande com relação a seus amigOs.

Para a maioria dos homens, mulheres são itens colecionáveis e facilmente substituíveis. Lembra aquela propaganda horrível de Axe que falava sobre "acumular mulheres"? Então...

E como já dizia aquele misógino que tive a infelicidade de conhecer: "Jamais brigaria com um amigo por causa de mulher. Um amigo de verdade, é difícil achar. Mas mulher? Mulher a gente acha em qualquer lugar."

Ou seja, ao sentir medo de perder uma mulher para um amigo, a maioria dos homens prefere fingir que não se importa tanto com a mulher para manter a amizade do amigo.

Só que as coisas não são assim tão simples. Porque ele não vai querer ver o amigo dele feliz com você, isso seria muito incômodo. Então ele vai fingir que não se importa e cooperar com o amigo dele ao mesmo tempo em que sutilmente sabota o lance.

É ai que entra meu conselho: Nunca aceite sair com o tal amigo. E lá vai a dolorosa explicação.

O seu peguete vai te desrespeitar dando seu telefone para mostrar ao amigo que não se importa com você, mas também que você não merece a consideração de ele pedir permissão antes de fazer isso. E o amigo dele vai acreditar. Sabe por quê?

Porque existe um código não falado na cultura machista que diz que quando um homem desrespeita uma mulher, é porque ela não se "valorizou". Sim, eles culpam as mulheres pelo desrespeito que exercem contra elas. Então no momento em que o seu peguete banca o cafajeste e te trata mal na frente dos amigos, eles entendem que você é "dessas que não se dão ao respeito". E aí acabou qualquer chance de você ter um relacionamento com o amiguinho dele.

E o pior é que é até previsível.  Se você estiver numa festa ou qualquer evento social com aquele seu "special guy", e um dos amigos dele começar a demonstrar interesse por você, preste atenção aos seguintes sinais.

  • Ele vai disputar sua atenção com o amigo dele. O amigo vai tentando se aproximar de você, e ele vai demonstrando que tem prioridade de tratamento. Pode ser frisando que te conhece melhor e há mais tempo, esclarecendo que assunções a seu respeito estão incorretas. Ou demonstrando a intimidade que vocês já têm. Até então ele queria fingir que não havia nada entre vocês, mas assim que outro homem se interessou por você, ele começou a fazer questão de deixar claro que não é bem assim. 

  • Ele vai te provocar. Vai ser sutilmente grosso, vai desqualificar seu trabalho, vai reclamar do que você está fazendo. Sabe moleque de sexta série que enche seu saco pra o pessoal não sacar que ele gosta de você? Então. Homens fazem isso a vida inteira. Conheço homens com mais de 40 anos que agem exatamente assim.      

Depois dos momentos fatídicos há duas possibilidades. Uma é o amigo dele pedir seu telefone, e ele dar, como já foi mencionado. Aí é capaz de ele entrar em contato com você pra comentar que conversou com o amigo a seu respeito. Tudo pra deixar bem claro que ele realmente não se importa se você quiser ficar com o amigo dele, afinal, vocês não têm nada de especial. Mas com o objetivo oculto de te deixar bem irritada e te levar a desistir de sair com o cara. E é sempre bom lembrar que homens socializam através da sexualidade, o que explica estupros coletivos. Então é bem possível que eles tenham conversado sobre como você é na cama e outros tópicos igualmente repulsivos.

O amigo dele, por sua vez, nunca vai te tratar como uma candidata a namoro. Primeiro porque ele não é besta e sabe o que rola de verdade, então também vai escolher o amigo. Aí ele vai te chamar pra sair um dia, depois desaparecer porque apareceu outra mais interessante. E vai ser assim, sumir mesmo, sem nenhuma explicação. Vai te colocar na prateleira das disponíveis pra quando a necessidade apertar.  

A outra possibilidade é você nunca mais ouvir falar no sujeito, mas sentir que seu amigo com benefícios mudou com você. Isso porque ele ainda acha que se não fosse você ser tão assanhada, o amigo dele não teria dado em cima de você.


Difícil de ler esse texto, né? Eu sei que incomoda bastante saber de tudo isso. Mas a informação é a única arma para evitar o sofrimento. E se você reconheceu algumas das histórias, compartilhe sua experiência no comentário. Quanto mais preparadas, melhor.

Anatomia do ciúme masculino hétero (versão crua)

Aviso: Esta é uma análise do ciúme masculino dentro da cultura patriarcal. 

Acho que todo mundo já ouviu que homens têm ciúme se a mulher fizer sexo com outro homem, e mulheres têm ciúme se o homem se apaixonar por outra mulher. Vamos discutir isso um pouco?


Via de regra, homens não reagem bem a ciúme. Na infância, quando meninos são privados do aconchego materno para serem "machos", eles aprendem a desvalorizar as mulheres. Funciona assim: "eu sou superior porque tenho pênis, não preciso do carinho delas".

A maioria dos homens passa a vida inteira reeditando o desmame precoce com as outras mulheres. Esse sentimento associado à visão de mulheres como objetos sexuais tem efeitos devastadores. É o que leva homens a serem violentos com suas parceiras. O esquema é muito incômodo, mas fácil de entender:

Mulher é objeto ou animal doméstico. Homem precisa de uma para fazer serviço doméstico e satisfazê-lo sexualmente. Ela tem que ser bonita e jovem para servir de troféu a ser exibido a outros machos. Mas nenhum outro pode tocá-la, pois ela lhe pertence. Ela não pode engravidar de outro, pois ele não quer sustentar filhos dos outros. Ela não pode ser mais inteligente que ele porque deve depender dele intelectualmente. Ela não pode ter experiência sexual com outros parceiros para que não tenha condições de avaliar seu desempenho sexual. Ela deve conter seus desejos sexuais para ter valor, pois é como um carro: quanto menos usada, mais vale. Se ainda tiver o lacre, ou seja, o hímen, vale mais ainda. Se algum homem acredita que ela está interessada é porque ela deu a entender. Se algum homem a estupra, é porque ela deu sinais de que desejava, logo será culpada.

Com base na cartilhinha da misoginia, fica fácil entender o que se passa pela cabeça dum homem que agride ou mata a parceira por "ciúme". Na verdade, o que ele tem é uma raiva muito grande por estar sentindo mais uma vez o medo do desmame. Mais uma vez um desses seres de menos valor ousa rir dele. Esse animal que ele tem o direito de possuir não se comportou "direito", e agora ele vai se vingar.


É assim que funciona a mente de misóginos que saem por aí assassinando garotas, é assim que funciona a mente de homens que sequestram meninas e prendem num porão para estuprar sistematicamente, é assim que funciona a mente de cada parceiro abusivo, e é isso que fomenta o tráfico de mulheres.

O problema é que as pessoas não falam abertamente sobre o assunto. A sociedade gosta de fingir que quem comete crimes atrozes é uma maçã podre, alguém fora do padrão de normalidade. Mas a verdade é que nossa cultura molda os crimes que os patológicos resolvem cometer.

Ninguém se pergunta por que tantos psicopatas escolhem matar (e torturar) mulheres. Ninguém se pergunta por que nunca se ouve falar duma mulher que mantém rapazes no porão para estuprar, enquanto vira e mexe alguma moça escapa dum cativeiro de décadas. A verdade é que todo o tratamento depreciativo que mulheres recebem, desde as "piadas" de loira até estupros e assassinatos, se baseia nas ideias do trecho em itálico.  

Outra coisa, é importante mencionar os dois momentos em que mulheres mais correm risco de serem assassinadas por parceiros abusivos. O maior risco é quando encerram a relação, e, em segundo lugar, quando engravidam. O primeiro porque o sujeito não suporta a ideia de que a mulher possa se relacionar com outro homem, e o segundo porque o infeliz topa com a incerteza de a criança ser dele. Com isso, existe um índice muito grande de violência contra gestantes.  

sábado, 19 de julho de 2014

A invisibilidade do gênero feminino no Hopi Hari

Adoro parques temáticos. Apesar de ser meio medrosa, eu adorava o Playcenter e, hoje em dia, não perco uma chance de ir ao Hopi Hari. Minha última visita ao Hopi Hari aconteceu em julho do ano passado, no dia mais frio do ano. Por mais frustrante que pareça, eu não quis perder os passaportes já agendados e encarei o desafio.

Chegando lá, a permanência em ambientes externos estava uma verdadeira tortura. Entre ventos gelados e caridades surpreendentes, (Uma mulher deu para mim e minha irmã um par de Vip Pass quando aguardávamos o passeio na Vurang porque ela não ia usar. O lance foi tão improvável que me esqueci de agradecer...) acabamos indo ver o show do Looney Tunes. Dentro do teatro topamos com a surpresa de que muita gente doida havia levado crianças pequenas para passar frio no parque. Entre as crianças, muitas meninas. Mas olha só... Com sete personagens no palco, não havia nenhum feminino. 
Todo dia da semana, o humor é masculino

A peça contava a história dum diretor de cinema que tentava fazer um filme com seis personagens do Looney Tunes: Marvin, o Marciano, Patolino, Pernalonga, Piu-piu, Frajola e Taz
Olhando pelo lado bom, pelo menos o único personagem não animado era negro. Mas é impressionante que numa peça para crianças, com a plateia cheia de meninas, ninguém tenha pensado em colocar pelo menos uma mulher no palco. E nas páginas do Hopi Hari na internet, esse padrão se repete. 

É claro que isso é um problema da animação em geral. A maioria dos personagens são masculinos mesmo. Personagens femininos são protagonistas apenas em animações cujo público alvo é formado por meninas. Se a ideia é atingir crianças em geral, os personagens principais são masculinos.

Inclusive as heroínas ainda aparecem muito como um fetiche para os meninos. O que é mais preocupante é o quanto essa abordagem é normatizada. Eu me lembro de questionar isso quando era criança. Eu procurava por heroínas com as quais me identificar e topava com a dura realidade de que elas eram poucas. Em compensação, havia sempre mulheres como vilãs e "velhas chatas".

Falando um pouco sobre marketing, toda marca precisa definir dois pontos: segmentação e posicionamento. Simplificando muito, o posicionamento é a imagem da marca, e a segmentação constitui o público alvo da marca. O posicionamento de qualquer marca fica sempre atrelado ao público que atrai, razão pela qual várias marcas se esforçam para repelir um público que possa ter um impacto negativo. E quais são esses públicos? São públicos formados por grupos historicamente excluídos, claro. Gordos(as), negros(as), homossexuais, transexuais, pobres, mulheres...

Existem marcas de roupa que não oferecem números maiores porque não querem que suas roupas sejam usadas por pessoas gordas. E isso não é algo escondido, não. É assumido, sem nenhum constrangimento. É só começar a prestar atenção. A maior parte das capas de revistas e comerciais têm pessoas brancas porque o público alvo é geral. Se aparecer gente negra, boa parte do público branco não aceita porque entende que o produto é direcionado a negros. E acaba tendo um efeito negativo porque muitas pessoas não vão querer usar algo "de negro", por preconceito mesmo. 

Com produtos direcionados a mulheres acontece a mesma coisa. "Filme de menina", "livro de menina", "pornô de mamãe", "comida de mulher", "shopping de mulher", "rock que agrada menina" são algumas expressões que já ouvi para se desqualificar um produto. Até a expressão "carro de mulher" entra nesse grupo, não pelo estado de conservação como comumente é usada, mas com relação ao modelo mesmo.
 
Sobre o time de futebol masculino SPFC
Produtos direcionados a mulheres têm o inconveniente de serem mais rejeitados por homens do que a situação inversa. Acontece que na nossa cultura o homem se define como "não mulher", basta dizer que chamar um homem de mulher é entendido como ofensa.
 

Pegando carona nisso, já que marketing existe para vender produtos e não para resolver problemas sociais, o marketing de gênero é um artifício utilizado por empresas para lucrar mais. Ou seja, as empresas aproveitam a rejeição que produtos direcionados a mulheres enfrentam e lançam versões muito "masculinas" para que homens comprem. Isso funciona bem porque a misoginia estrutural é tão intensa que até meninas às vezes rejeitam produtos direcionados ao público feminino com receio de serem tachadas de frívolas.
Eu não vi nenhum problema em tirar foto ao lado do Batman no Hopi Hari

Voltando à questão do Hopi Hari, o que nós temos aqui é um parque direcionado ao público infantil, adolescente e jovem adulto de ambos os gêneros. Como meninas e mulheres não têm um problema de rejeição ao masculino, a fim de não arriscar a possibilidade de uma rejeição a elementos femininos, a empresa opta pela alternativa mais segura, que é evitar personagens femininos.

Tudo bem, para maximizar os lucros das empresas isso tem funcionado, mas não está na hora de pensar numa sociedade melhor? Não está na hora de cobrar personagens femininos interessantes para que meninas se identifiquem com eles? Não está na hora de levar meninas ao parque e ter a certeza de que elas também estarão representadas lá? A gente precisa superar essa imagem de meninas como princesas e mulheres como musas e inspirar ideais de protagonismo para o gênero feminino. Só assim a gente vai garantir um contexto social mais harmonioso para as futuras gerações.

domingo, 13 de julho de 2014

A fábula do grelo feliz

Originalmente postada 04 de Janeiro de 2009

Uma história sobre siririca e sexo oral

Era uma vez uma garota chamada Lili. Lili se masturbava todos os dias. Nenhum rapaz jamais a tocara, e ela tinha muita curiosidade a respeito de sexo. Ela não sabia como era uma relação sexual, nem sabia que o nome do que sentia era orgasmo. Acreditava ingenuamente que se sozinha era tão bom, acompanhada seria muito melhor.

O tempo foi passando, e a garota foi se tornando mulher. Os rapazes já estavam prestando atenção nela. Ansiosa por descobrir os milagres do amor físico, Lili começou a namorar Fefê.
Fefê era o rapaz mais bonito da escola;. Ele adorava exibir o amor de Lili para seus amigos, principalmente porque eles a desejavam.

Quando o casal adolescente resolveu começar a vida sexual, Lili estava muito animada. Contudo, ela não conheceu nenhum orgasmo na ocasião. Fefê sequer tocou seu clitóris ou sua vagina com os dedos. Apenas colocou a pontinha da língua, mas não do jeito certo. Como se o clitóris fosse um picolé gelado, ele fez movimentos rápidos parecendo língua de cascavel. Lili sentiu até um pouco de dor no momento da penetração, mas seu amado disse que era normal, e ela deveria agüentar. Ele gozou, mas ela não.

As relações sexuais foram acontecendo e nenhum orgasmo para a pobre Lili. Fefê, cada vez menos preocupado com ela, simplesmente se apoiava sobre seu corpo e a penetrava de uma vez, gozando 30 segundos depois. Infeliz, porém apaixonada, Lili dizia a Fefê que demorava pra gozar, mas ele nunca tomava uma atitude.

Um dia a moça, agora universitária, andava pela faculdade quando viu um rapaz tocando gaita. Ele tocava uma canção do Bob Dylan que Lili adorava. Os dois jovens começaram a conversar, e o desejo foi tomando conta de seus corpos. O músico então convidou Lili para conhecer seu apartamento, onde tinha outros instrumentos guardados.

Lili aceitou, e, embora ainda gostasse de Fefê, permitiu que o músico tocasse seu corpo como fazia com seu violão. Suas mãos habilmente tocaram o clitóris de Lili, que gemeu encantada em seus braços. Os encontros entre os dois se tornaram constantes, nos quais o músico também mergulhava a cabeça entre as pernas de Lili, proporcionando-lhe orgasmos intensos. 

Depois de um mês, Fefê foi dispensado. Com o orgulho ferido, descobriu que havia sido "traído" várias vezes por sua namorada. E ele acreditava que jamais a perderia, já que era tão bonito.

Moral da história: preocupação com o orgasmo da namorada evita o nascimento de chifres na testa dos rapazes.

Um tapinha não dói e uma certa pornochanchada (18+)

Tapas são usados para apimentar relações sexuais numa prática conhecida como spanking em BDSM. Em geral funciona por combinar dor (em diferentes níveis de intensidade) e humilhação, componentes excitantes para pessoas que apreciam papéis submissos no ato sexual. 

fonte: http://dreamsofspanking.com
Um outro ponto que quase ninguém tem coragem de falar é que frequentemente aparece um componente infantilizador no processo. Eu já conheci uma sub goreana que curtia apanhar de cinto porque havia apanhado assim de seu pai durante a infância, então ela experimentava uma satisfação incestuosa.

Não é à toa que a imagem de meninas em idade escolar sofrendo spanking é tão explorada pela indústria de entretenimento adulto. Em 1919, Freud escreveu sobre fantasias sexuais infantis que envolviam cenas de spanking. "Uma Criança é Espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais" discorre sobre as fantasias de espancamento que crianças têm, e o prazer que elas sentem apanhando ou vendo outras crianças apanhando. Uma cena sobre isso aparece no filme Dogville (2003), de Lars Von Trier.

O conceito de sexualidade infantil desenvolvido por Freud até hoje ainda é visto como um tabu por muitas pessoas. Mas o fato é que sexualidade existe e não é algo vergonhoso. É importante pontuar que a sexualidade das crianças está em processo de formação, diferente da sexualidade de pessoas adultas. 

As fases da sexualidade infantil:

• Fase oral (do nascimento aos dezoito meses)
• Fase anal (dos dezoito meses até aproximadamente três anos)
• Fase fálica e complexo de Édipo (dos três anos até aproximadamente sete anos)
• Período de latência (dos sete anos até a puberdade)
• Fase genital (da puberdade em diante)


fonte: http://adomesticdisciplinesociety.blogspot.com.br
Não é segredo que a utilização de castigos físicos ainda acontece na educação de crianças. No século XIX na Inglaterra era legal que homens batessem em suas esposas desde que a vara não tivesse espessura superior à de seu polegar. Isso refletia uma crença de que mulheres eram como crianças: precisavam ser educadas pelos maridos. Até hoje o termo "educar" é usado em BDSM para se referir ao processo de treinamento de escravos, e a origem é essa mesma.  
   
A lei conhecida como "lei da palmada", que visa proteger as crianças de castigos físicos e humilhantes, é uma tentativa do estado de intervir nisso. Não tem como deixar cada família decidir isso do mesmo jeito que não tem como deixar que cada homem decida se quer ou não bater na esposa. Não é certo bater em mulher e não é certo bater em criança, ponto final.


O pessoal que defende castigos físicos alega que eles são necessários para a formação do (bom) caráter das crianças. Na verdade, quando se bate em criança para que ela abandone um determinado comportamento, a lógica utilizada é a do adestramento e não da educação. A criança deixaria de se comportar de determinada maneira por ter medo de apanhar, e não por entender que o comportamento é incorreto. Trocando em miudinho, é tratar criança como animal. E já se sabe que é possível adestrar animais sem castigo.

A Xuxa foi um dos nomes mais fortes a lutar pela aprovação da lei. Com isso, ela se tornou alvo de ataques de grupos conservadores que tentam impedir uma mudança tão importante nos costumes. De forma bastante previsível, fizeram acusações infundadas de pedofilia contra ela, ainda com base num filme no qual ela trabalhou no início da carreira. 

Pra começo de conversa, o filme em que a Xuxa trabalhou em 1979 não é pornográfico. Trata-se de uma mistura de drama com pornochanchada com roteiro e direção assinados por , então se alguém tem algo contra a história, é com ele que deve reclamar. 

(Spoilers!!!) A Xuxa tinha 16 anos na época e ela faz uma prostituta menor na história. Sua personagem, Tamara, é uma infeliz adolescente catarinense cujo hímen é complacente e será entregue como "presente" para um político mineiro (tempos da República do Café com Leite). Além de fingir ser virgem, ela também deve fingir que não fala português, para que o político acredite estar com uma jovem alemã. 

Um menino de 12 anos, filho da prostituta () preferida dum político de São Paulo () está passando o fim de semana lá. Por um infortúnio do destino, a avó dele, ressentida por não ter recebido tanto dinheiro quanto desejava, o mandou de volta para sua mãe em datas que ela não poderia deixar o local. Ela não teve outra alternativa senão escondê-lo lá. 

Ao ver o garoto, Tamara resolve aliciá-lo. Mas não dá para chamar de pedofilia, porque ela era só quatro anos mais velha que ele, além de ainda ser menor de idade. É bom lembrar que a personagem de Xuxa não é a primeira a abusar do garoto. E no final ele faz sexo com a mãe dele. Até eu, que não sou de me chocar, fiquei boquiaberta quando vi a cena. E o pessoal quer encher o saco da Xuxa? Ah vá...

Outra coisa, o garoto não vê aquilo como abusos. Para ele, aquilo foi a iniciação sexual dele. E isso é uma fantasia masculina frequente. Uma vez um cara me contou que sua iniciação sexual havia sido aos 13 anos com sua tia de sangue. E ele dizia rindo que depois da primeira vez ficou querendo toda hora e chamando: "Oh, tia!".


O filme é um emaranhado de fantasias masculinas:

  • Ser o único homem num lugar cheio de mulheres que estão loucas para fazer sexo com ele; 
  • Imaginar que mulheres são insaciáveis e que prostitutas iriam querer iniciar um menino porque elas adoram transar;
  • Complexo de Édipo com a realização da cópula com a mãe;
  • Observar pessoas transando, inclusive a própria mãe, por frestas.

Mas também é um filme muito triste, que mostra um menino que é criado pela avó com o dinheiro da prostituição da mãe. Também vemos a violência que se comete contra mulheres, especialmente prostitutas. Tamara é agredida pelo personagem de , que a empurra e a xinga de rameira quando acredita estar sendo vigiado para ser chantageado depois.

Um monte de gente questiona o fato de Xuxa não querer a distribuição do filme, mas o fato é que o contrato assinado por ela e pela mãe dela (porque ela era menor) incluía apenas a projeção do filme em cinemas. E é compreensível que ela tenha topado fazer cenas eróticas pra ganhar um dinheirinho imaginando que aquilo ia só ficar um tempo no cinema e depois desaparecer. A produtora decidiu explorar a popularidade posterior de Xuxa de maneira oportunista. Mas, de qualquer forma, não há nada de errado no filme. E não é por ter trabalhado nele que ela não pode lutar pelo bem estar físico e psicológico de crianças. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Juízes padrão fifa e reflexões sobre a torcida brasileira

Em meu último texto,  falei sobre a criminosa joelhada no Neymar. Agora, enquanto escrevo este texto, lido com a derrota do Brasil para a Alemanha pela impressionante diferença de seis gols. Para mim, parece que as consequências do truculento jogo contra a Colômbia e sua arbitragem porca foram de fato duras na seleção masculina.

Para refinar o ponto em que quero chegar, vou fazer uma leve introdução. Eu sou descendente de austríacos; minha avó paterna nasceu em Viena. Como a Áustria não aparece mais em copas há tempos, minha segunda seleção acaba sendo a Alemanha (irmã da Áustria). Mas, num jogo contra o Brasil, por nada nesse mundo eu torceria pela Alemanha. Nem pela Áustria, aliás.

Fiquei um pouco curiosa porque tenho topado com gente nascida no Brasil que está achando muito legal
torcer contra o Brasil só por algum capricho mórbido. Parece que virou uma modinha, como se fosse algo subversivo. Não sei se tem a ver com aquela falácia da direita sobre "os gastos com a copa", mas eu gostaria de esclarecer uma coisa: esportes são praticados no mundo todo, em todas as culturas. Não é só aqui no Brasil que as pessoas se importam com a vitória de times. Competições internacionais sempre foram uma forma de confraternização entre diferentes povos. Torcer por um país não implica necessariamente ufanismo. Mas escolher torcer especificamente contra denota algum tipo de incômodo, tipo aquela coisa idiota de torcer contra os clubes "rivais". Sei que existem coisas a serem questionadas na paixão pelo futebol no Brasil, como, por exemplo, o país inteiro parar para ver o jogo do time masculino mas ignorar completamente o time feminino. Mas daí a querer destruir completamente o futebol... Por quê? Pra quê? O que se ganha com isso? Alguma satisfação sádica?


Outra coisa que chamou minha atenção hoje foi a rapidez com a qual boa parte da torcida brasileira "virou a casaca" durante a derrota para a Alemanha. A plateia branca e rica do Mineirão passou boa parte do jogo vaiando e gritando "Olé" para a seleção brasileira. Num certo momento resolveram aplicar contra Fred o "Vai tomar no cu" já usado contra Galvão Bueno e Presidenta Dilma. Sabe o que eu acho? Que qualquer coisinha é abertura para "filhinho de papai" liberar instintos sádicos. É a pulsão de destruição aparecendo no momento em que existe um objeto cuja rejeição é legitimada socialmente. Pode ser o Zuñiga, o Neymar, a seleção brasileira inteira, a presidenta, um narrador... O importante é poder malhar a vítima, participar dum linchamento. E, de boa, dá até um certo gosto saber que essa gente queimando a bandeira do Brasil na Vila Madalena foi decepcionada pela atuação da seleção. Porque, pensa bem... Nossos jogadores estão trabalhando por essa corja também. E eu quero que esses infelizes se fodam de verde e amarelo (ha ha).            

Agora, o outro ponto que gostaria de discutir é o padrão Fifa dos juízes do judiciário brasileiro. Não é uma nem duas vezes que fico sabendo que algum estuprador de menor foi inocentado porque o desembargador "acha" que a vítima parece ser mais velha. Essa semana uma decisão do TJ-SP repetiu a mesma ladainha. Um estuprador de menina de 13 anos foi inocentado porque a garota era supostamente prostituta, e isso o teria induzido ao "erro".

Vamos trocar em miudinhos. Basicamente, cada vez que um desembargador inocenta um homem que estuprou uma menina menor de 14 porque a garota "aparentava mais velha", ele está atestando que se identifica com o estuprador e concorda com ele. E isso só continua acontecendo porque a gente não tem um regulador social que reage a esse absurdo. Seria o caso de todo mundo dizer: "Que absurdo esse velho assumir que pra ele menina de 13 anos é mulher feita". Trata-se de pedofilia institucionalizada.

É óbvio que dá pra perceber que uma menina de 12 ou 13 anos tem menos de 18. E é justamente por isso que os homens as procuram, não vamos ter ingenuidade aqui. Todo mundo sabe que a maioria dos homens passa a vida procurando parceiras mais jovens. Porque na nossa cultura é aceito que homens procurem parceiras mais jovens. O cara está com 50 anos e não tem nenhum problema de afirmar que sua namorada tem 21. É até legal para ele. Os amigos dele o admiram pelo troféu que ele faturou: a "novinha" que usa O.B mini e não tem experiência para perceber que o sujeito não quer nada sério.

Acontece que é conveniente para boa parte dos homens que existam prostitutas de 10 anos. E eles não vão querer parar na cadeia por causa disso. No fundo o que a gente tem é todo um sistema de manutenção de privilégio masculino que vai garantindo a continuidade do mundo como ele é agora. E o sistema reitera as injustiças através da justiça. Brilhante. Seja dentro ou fora do campo de futebol, juízes padrão Fifa estão sempre presentes para garantir que agressores não sejam responsabilizados. Certamente isso não é aleatório. No futebol já está normatizada a agressão do macho que sabe bater e se impor. É uma espécie de estupro onde o mais fraco é penalizado por ter apanhado e se machucado e não pode chorar. Ou seja, quem reclama ouve que "futebol é assim mesmo; se não sabe brincar, não desce pro play".