terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Procurar "novinhas": Um privilégio masculino

Semana passada, Laércio, o barba azul do Big Brother 16 (Globo), foi eliminado com 54% dos votos. Eu jamais havia votado em nenhum paredão desse programa, mas, dessa vez, não pude me abster. Eu nunca havia assistido a nenhum episódio do programa aliás, nem quando o professor de audiovisual deixou como tarefa alegando que "pra falar mal de algo, é preciso conhecer".

As informações a respeito do sujeito foram surgindo nas redes conforme ele se gabava na casa. Um homem de 53 anos dissera abertamente que gostava de "novinhas". Segundo as histórias, ele teria "namoradas" e "amigas" com as quais se relaciona sexualmente com idade entre 16 e 19 anos.

Confesso que não fiquei surpresa. Achei sua barba azul um tanto simbólica. O Barba Azul é um personagem conhecido por alguns contos que mudam de versão pra versão. O cerne da história não muda entretanto; ele é um predador de mulheres. Suas esposas têm liberdade limitada em sua casa, pois não podem entrar no quarto em que ele mantém os restos mortais de todas as esposas anteriores.

Efebófilo assumido, Laércio abertamente segue (ou seguia) em redes sociais garotas de 12 a 19 anos. Após sua saída, o programa Mais Você (Globo) entrevistou profissionais que garantiram que pedofilia é só sexo com menores de 14 e que só nesse caso seria crime.

A esse respeito, vamos esclarecer alguns aspectos. Esse assunto parece circular em torno de duas questões: idade de consentimento e maioridade.

Comecemos com o conceito de adolescência. Segundo o Priberam: "Fase da vida humana entre a infância e a idade adulta, aproximadamente entre os 12 e os 18 anos, que se caracteriza por mudanças físicas e psicológicas que ocorrem desde a puberdade até ao completo desenvolvimento do organismo".

O itálico em "aproximadamente" se refere ao fato de que o período da adolescência pode ter variações dependendo do indivíduo e dos critérios classificatórios utilizados. Há linhas que trabalham com a adolescência se estendendo até 19 ou 20 anos.   

A existência desse período não era reconhecida até o chamado pós-guerra, quando Elvis Presley começou a requebrar e trazer um choque semelhante ao que o funk carioca provoca hoje em dia. Em inglês, o substantivo adolescente é "teenager", palavra que inclui o sufixo "teen", comum a todos os números entre 13 (thirteen) e 19 (nineteen) em inglês.

Quando a gente trabalha com estatísticas de gravidez na adolescência (eu sei disso porque fiz matéria na FSP - USP, Faculdade de Saúde Pública), considera as gestantes com até 19 anos. E é sempre bom lembrar que as taxas de mortalidade materna e infantil (crianças que morrem no primeiro ano de vida) são maiores quando a gestante é menor de 20.

Também é importante lembrar que, no Brasil mesmo, até a última reforma do código civil em 2003, a maioridade civil (direito de casar, por exemplo) só era tingida aos 21 anos.

Tudo isso para dizer que, do ponto de vista médico, é mais ou menos unânime afirmar que a adolescência vai até os 19 anos pelo menos. Independente da maioridade penal, uma pessoa de 18 ou 19 anos não deixa de ser adolescente. Isso porque existe a criança adolescente e o/a adulto/a adolescente.

Desconsiderando a adolescência, a infância vai até os 14 anos. Ou seja, do ponto de vista médico, uma garota de 14 anos é criança. Essa classificação é utilizada pela indústria farmacêutica ao pesquisar medicamentos e aparece em várias bulas. Daí a ideia do baile de debutante aos 15 anos, inclusive, pois seria o início da idade adulta.

"adolescência", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/adolesc%C3%AAncia [consultado em 04-02-2016].

No Brasil, a idade de consentimento para relação sexual é 14 anos. Isso implica que se uma pessoa penalmente imputável (maior de 18) faz sexo com alguém de até 13 anos, não adianta a pessoa de 13 dizer que quis. Do ponto de vista penal, a situação é tratada como estupro presumido. Só que essa regra já não se aplica a uma criança de 14. Ou seja, uma garota de 14 anos não pode comprar um vibrador para se masturbar, já que sex toys são produtos "adultos", mas "pode" dizer que quis fazer sexo com um homem adulto.  

Mas afinal, quem decidiu que uma pessoa de 14 anos, que não pode dirigir ou beber, pode consentir para que uma relação sexual aconteça? Bom, quem sempre ocupou cargos de poder foram homens em sua maioria. Por que ingenuidade imaginaríamos que eles fariam isso pelo bem das adolescentes?

Aí então isso tudo quer dizer que, de acordo com a legislação brasileira, homem de 53 anos pode transar com menina de 14 sem problemas? Não é bem assim. Isso não é assunto pacífico juridicamente, porque no Brasil existe o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) que protege menores de idade. Então, esquecendo o crime de sedução, que caiu em desuso, uma pessoa maior de idade pode sim ter problemas com a lei por se relacionar com menores. Mais uma razão para que a maioridade penal não caia para 16.

Contudo, independente da maioridade, sabemos que a adolescência vai até 19-20 anos. E também sabemos que, independente da adolescência, pessoas muito jovens têm pouca experiência e ainda estão se descobrindo.

Onde quero chegar? Bem, o que um homem de 53 anos quer com uma mulher 34 anos mais jovem que ele? O que ele procura afinal?

O político Aécio Neves ostentando uma moça troféu
A resposta está na socialização masculina. Homens são educados para ver mulheres como troféus, como animais caçados e ostentados para que outros homens vejam. Trata-se de uma competição, na qual as mulheres com mais valor são as mais bonitas e as mais jovens.

Além disso, homens geralmente se sentem ameaçados diante da experiência duma mulher, pois sabedoria é poder. E eles são socializados para procurar por relações nas quais têm muito mais poder que a outra pessoa.

Uma moça com menos experiência sexual não se sente à vontade para reclamar se não sentiu prazer na relação sexual, pois acredita que o problema está nela. Ela também não se sente no direito de reclamar retorno afetivo, porque o sujeito pode usar subterfúgios do tipo "eu não te prometi nada", etc. Enfim, mulheres muito jovens correm risco maior de cair em relações abusivas.

Eu fico imaginando, como será que homens se sentiriam se mulheres de 40 anos procurassem parceiros com idade entre 18 e 20? Se mulheres de 50 falassem abertamente que só "gostam" de homens até 26? Se homens de 30 anos fossem considerados "jovens senhores" e cobrados a sossegarem?

Certamente não ficariam nada felizes, porque nunca nenhum tiozão ficou feliz quando eu falei que não me relacionava com homens mais velhos. E tudo isso acontece com as mulheres na nossa cultura. E, se nós reclamamos, sempre aparece alguém para dizer que temos inveja das mais jovens. Porque claro, a coisa mais importante na vida duma mulher é ter a atenção de homem, não é?

O período de minha vida em que eu mais sofri assédio de rua foi entre pré-adolescência e adolescência. Eu tinha nove anos quando comecei a ouvir caminhoneiro fazendo "psiu".
Só contextualizando, aos nove os meus seios se resumiam a duas pedrinhas no mamilo.

Nessa mesma época, uma vez, minha mãe e eu cruzamos um grupo de rapazes na faixa dos 30 anos, e um deles chamou minha mãe de sogra. Imagina se fosse uma mulher chamando o pai dum moleque de dez de sogro... Era capaz de o cara bater nela. E o pessoal ia dizer que ele estava certo. Mas homem mexendo com menina não tem problema; é só um elogio.

Nos dois momentos que mais me marcaram, eu estava com 17. Um dia, eu andava com minha mãe perto da Armênia chupando um picolé, quando um sujeito disse para mim: "chupando, hein?". Eu decidi ignorar, mas minha mãe ficou muito brava e o chamou de "ousado" com cara de nojo. O cara riu, claro. Porque é muito engraçado fazer menção a sexo oral ao ver uma adolescente tomando um sorvete.

O outro mexeu comigo na Rua Pedro de Toledo, Vila Clementino. Enquanto eu descia a rua, um sujeito falou: "Se eu não fosse casado". E eu respondi: "Não ia adiantar nada". O sujeito começou a me seguir dizendo: "Você é novinha, mas deve meter bem pra caralho". E ainda ficou fazendo gestos obscenos pra mim; rebolando e apontando para o pênis. E quando eu me dirigi a ele, ele ameaçou me bater. Quando eu falei que tinha 17 anos, ele disse: "Me deixa, menina". Como se eu o estivesse assediando.

É uma conduta muito comum entre agressores de mulheres. Estupradores, assediadores, abusadores, etc. Quando a vítima chama atenção, eles fingem que é ela que os está agredindo. No documentário "Estamira", aparece um exemplo disso.  

Fonte: http://www.nyfa.edu/film-school-blog/gender-inequality-in-film/
Produtos culturais também se encarregam de normalizar relações em que o homem é (bem) mais velho que a mulher. Em Hollywood é bastante comum que atrizes muito jovens sejam selecionadas para papéis de mulheres mais velhas, sendo Jennifer Lawrence, nascida em 1990, uma das mais exploradas atualmente.

Desde 2000, a idade média das ganhadoras de Oscar de melhor atriz é 36, enquanto a dos homens é 44. Mas também, pudera: 77% dos eleitores do Oscar são homens. E nós já sabemos que homens preferem mulheres mais jovens, não é mesmo?

Uma figura bastante reiterada em novelas é a do homem mais velho que
encontra a felicidade com uma namorada novinha. Em "Império", o protagonista José Alfredo (Alexandre Nero - 13/02/1970), que era casado, tinha uma amante chamada Ísis (Marina Ruy Barbosa - 30/06/1995), uma adolescente de 19 anos. Em "Babilônia", Evandro (Cássio Gabus Mendes - 29/08/61), um sujeito casado e cafajeste que tinha o hábito de sair com prostitutas, foi se tornando melhor ao namorar Alice (Sophie Charlotte - 29/04/1989), que conhecera num desses programas. Ele inclusive se casou com ela no final da trama.

Atualmente, em "A Regra do Jogo", mais um personagem de caráter duvidoso, Romero (Alexandre Nero - 13/02/1970), tem se tornado uma pessoa melhor ao engravidar uma moça mais jovem, a Tóia, (Vanessa Giácomo, 29/03/1983). Esse recurso do homem se tornar melhor através da paternidade também acaba servindo como justificativa para que a mulher seja mais jovem devido às limitações biológicas da maternidade para mulheres mais velhas. Em "Duas Caras", por exemplo, o antagonista da novela, Marconi Ferraço (Dalton Vigh - 10/07/1964), se regenerou e desistiu de matar a protagonista Maria Paula (Marjorie Estiano - 08/03/1982) só porque tinha um filho com ela. E o mais absurdo é que a audiência realmente shipava o casal. Sintomas duma sociedade doente. Isso sem falar no sucesso de "Verdades Secretas", em que o protagonista prostituiu uma garota de 16 anos e ainda se casou com a mãe dela para poder mantê-la como amante.

Pedro Bial, no discurso de eliminação de Laércio, demonstrou sutilmente solidariedade masculina ao mencionar "suas Lolitas e Anitas", numa alusão a histórias ficcionais em que meninas sofrem abuso. Considerando que Pedro Bial já teve cinco esposas, e, pelo menos três delas, são mais jovens que ele, talvez ele não tenha visto algo tão grave nessa história toda.  

Há algum tempo, eu vi num painel de shopping uma notícia sobre dados do IBGE. A novidade era que agora os casamentos em que a mulher era mais velha que o homem já chegavam a 25%. Sim, 2015 e apenas em um quarto dos casamentos a mulher é mais velha. E tenho certeza, mesmo sem ter tido acesso aos dados, que quando a mulher é mais velha, a diferença não é em média tão grande quanto quando o homem é mais velho.

A questão é que esses valores precisam ser discutidos, pois o casamento infantil (child marriage) é uma realidade também no Brasil e decorre diretamente de toda essa cultura de se tratar a juventude da mulher como moeda de troca.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Tentando ensinar professoras/es

Há algumas semanas, minha colega Paula, que trabalha comigo no projeto EMMA - Estudos sobre a Mulher na Arte-Ciência da EACH - USP, me convidou para dar uma palestra numa escola pública da periferia de São Paulo. Uma amiga de Paula, professora da escola, pedira sua ajuda devido a dois eventos de violência de gênero. 

Num deles, uma garota havia aceitado ficar com um garoto (idades desconhecidas), o que levou os amigos do garoto a acreditarem que a menina deveria ficar com eles também. Tal situação levou a menina a ser vítima de assédio pesado na hora do recreio, quando os garotos a perseguiam. 

A outra situação foi algo como um revenge porn (Pornô de vingança). Uma garota tirou uma foto íntima, mandou para um garoto, e ele decidiu espalhar a foto para todos os colegas. O grupo de meninos começou a assediar a menina por conta disso. Não se sabe se o garoto em questão desejava se vingar da garota ou se ele simplesmente queria se auto-afirmar diante dos colegas; o fato é que houve um desrespeito à intimidade dela.

Os professores e professoras da escola não souberam lidar com essas situações, tendo inclusive quem insinuasse que a culpa era das meninas. Com base nesse cenário deprimente, Paula e eu preparamos uma palestra para trazer algum conhecimento básico sobre questões de gênero a essa turma de docentes.

Eu preparei primeiro um power point sobre cultura do estupro, mas, quando mostrei para Paula, ela disse que a turma não faria conexão daqueles conceitos com o que acontecia na escola. Então eu ofereci uma outra apresentação introdutória que utilizara em fevereiro numa aula sobre gênero dum curso de verão. Era uma apresentação curta porque eu dividia três horas de aula com mais três colegas e, extremamente básica porque, de quatro dias do curso, apenas um era sobre gênero.

Combinamos então que Paula começaria a palestra introduzindo conceitos básicos como sexo, gênero e orientação sexual, para preparar o terreno para a parte mais dura, que é violência contra a mulher.

Assim que chegamos, fomos bem recebidas pela coordenadora, que agradeceu bastante por nossa presença.
Mas, logo quando ela estava nos apresentando, explicando a nossa presença na escola, ela comentou os dois casos de violência, e era possível ouvir risadas entre os professores e professoras. Na hora eu fiquei boquiaberta e disse para Paula que eu fazia questão de comentar os casos no momento de minha apresentação.  

Quando a Paula começou a expor seu conteúdo, uma moça que não parava de tagarelar resolveu interromper dizendo que, para ela, o corpo feminino se encaixa com o masculino. Então eu levantei para responder, porque tenho experiência em falar sobre sexo. Expliquei que a mulher tem clitóris e que existem outros tipos de sexo, como oral e anal, por exemplo. Também falei sobre como seria fazer sexo com uma travesti, por exemplo, que tem pênis num corpo feminino.
Então eu fui tomar uma água e, quando voltei, havia um senhor cristão reclamando, falando que Deus tinha feito o homem e a mulher com um propósito. Eu pedi para não falar sobre religião, ele falou que não era religião, era "Deus". Eu falei que Deus é religião, e teve gente que falou que não é (?).
Sempre fico surpresa com essa dificuldade cultural brasileira de se entender que "Deus" não é um assunto universalmente aceito. Tanto porque não é toda religião que adota o conceito de Deus, como porque essa conduta desconsidera a possibilidade da não-religião também. Ciência e religião são assuntos conceitualmente separados, pois a ciência exige o método científico, e a religião, não.
Então o namorado da professora que convidou a gente interveio. Claro que precisava ser um homem para conseguir algum respeito naquele momento... Ele falou que a escola deve ser laica e coisas do tipo.
O senhor, que mais tarde eu soube ser pastor, parou e finalmente a Paula conseguiu dar toda a parte dela.

Como a Paula falou sobre orientação sexual, uma mulher falou que os jovens estavam ficando "confusos" por se falar muito em homossexualidade. Claro, porque a heterossexualidade compulsória de sempre nunca deixou ninguém confuso, não é mesmo?

Depois eu entrei, acho que já na segunda hora. Comecei comentando o caso da menina que foi assediada por ter ficado com um garoto da sala:

"Em que mundo cabe uma ideia dessas? A menina fica com um e é obrigada a ficar com a turma toda? Imagine que eu ficasse com um cara, e ele me 'liberasse' para todos os amigos dele? Onde eles aprenderam uma coisa dessas? Isso é um grave problema de educação, porque não veio junto com o pênis".

A sala ficou no maior silêncio. *shifts unconfortably* Quando cheguei ao lance da virgindade feminina, o pastor se mandou.

Confesso que eu pego pesado mesmo, pois já me antecipo para comentários estúpidos. Por exemplo, quando falei sobre o estupro de oficiais nas forças armadas, já comentei sobre o fato de que o serviço militar é obrigatório para os homens porque homens assim decidiram. E quando mostrei o corpo feminino numa propaganda, já pontuei que se ela não aceitasse fazer o trabalho, seria tratada como anti-profissional e perderia vários trabalhos.

Então, no final, tivemos as atrocidades, as quais vou comentar separadamente. A mesma mulher que falou sobre o quanto os jovens estavam "confusos" por se falar em direitos LGBT, soltou a seguinte pérola: "Ah, mas a gente tem que pensar que estupro é errado de qualquer forma".
Eu não sei em que contar a história do estupro como violência de gênero prejudica o caso dos homens estuprados, mas sempre tem alguém pra dizer isso. Eu expliquei para ela que 97% das vítimas adultas de estupro são mulheres e que a maioria dos pedófilos são homens, mas não adiantou.
Aí veio outra: "Não concordo com essa 'linha' que vocês estão passando porque parece que homem nenhum presta e coloca como se feminismo fosse melhor que machismo"

Claro que ao ter ouvido uma barbaridade dessas, eu a interrompi para explicar os conceitos de machismo e feminismo. Então ela foi mega afrontosa:
"Ai, posso terminar de falar? Porque você não deixa ninguém dar a opinião" Eu: "É que você falou uma coisa errada, e eu preciso corrigir".
Sabe, eu só contei a história do estupro como algo culturalmente intrínseco, não dei minha opinião pessoal. Só abordei conceitos, alguns até muito básicos. Se ela ficou tão incomodada, creio que o problema esteja na própria história.

Eu expliquei então o que era machismo, sexismo, misoginia e feminismo. Expliquei que o movimento pelos direitos das mulheres tem um nome, o que não acontece com o movimentos dos direitos dos negros, por exemplo. Foi até legal porque rolaram uns comentários do tipo "duh, não é a mesma coisa" no resto da turma.
Daí outra professora falou: "Tem que tomar cuidado com essa moda agora, porque muita menina usa shortinho para sensualizar, depois os meninos passam a mão". 
Então eu respondi: "O errado é os meninos passarem a mão, não as meninas usarem shorts".
Professora: "Ah, mas ela usam pra chamar atenção". Eu: "Como você sabe?" Professora: "Pelo jeito delas". Eu: "Olha, eu sempre usei short, nunca foi pra homem ver". Nada adiantou, a mulher continuou insistindo que sabia das motivações das garotas por algum poder sobrenatural dela. Eu ia continuar provocando indefinidamente (fiz uma lacaniana de quatro anos), mas a Paula interrompeu e citou a questão da socialização feminina e o quanto isso influencia na construção de corpo das meninas.

Depois fiquei sabendo que a moça do "encaixa" lá no começo havia perguntado se nós somos lésbicas e se depilamos as axilas. Prioridades. Ela não parava com os comentários do tipo "mas toda mulher quer ter um corpo daquele, é bonito mesmo", "mas homem também e estuprado", "mulher também dá em cima de mulher", "mulher também gosta de homem bonito"... Como disse a Paula, ela é uma "defensora dos macho oprimido".

Minha experiência estudando questões de gênero me ensinou que cada grupo oprimido enfrenta certos conjuntos de frases de efeito desqualificador. "Mas também tem mulher que" e "mas também tem homem que" são as versões "não sou racista, mas" do mundo do feminismo. A pessoa puxa a exceção quando a gente está falando de regra; regras que vêm da estatística, uma ciência exata. Qual a intenção de quem faz esse tipo de comentário? É óbvio que é relativizar a violência contra a mulher e tratar como se não fosse algo que precisa de um atendimento específico. Nós fomos convidadas para dar a palestra porque meninas haviam sido agredidas por meninos, e docentes não souberam lidar com isso. E, a julgar por esses comentários, vão continuar não sabendo por muito tempo, porque realmente não querem aprender. É uma questão de caráter mesmo.

Pelo menos a coordenadora agradeceu nossa ida até lá, e o diretor deu um presentinho. Teve gente que apertou minha mão, teve gente que me abraçou e agradeceu pela palestra. Se pelo menos metade da turma repensar suas ações, já podemos dizer que concluímos a missão com sucesso.

sábado, 28 de novembro de 2015

Deficiência de vitamina D - A cultura do medo do sol

A deficiência de vitamina D é um problema grave dos ambientes urbanos nos últimos anos. Com tanta campanha pelo filtro solar para evitar câncer de pele e envelhecimento, as pessoas desenvolveram um medo muito forte do sol.

O fato é que a deficiência (ou insuficiência) de vitamina D pode acarretar graves problemas de saúde, pois ela é na verdade um hormônio. Além de fundamental para a absorção de cálcio, ela também evita diabetes, enxaqueca e depressão.
Tirada por mim no Parque do Piqueri

A melhor forma de regular os níveis de vitamina D no corpo é através da exposição ao sol diária por cerca de 15-20 minutos sem protetor solar. Minha dica é passar protetor solar no rosto, lábios, colo e mãos, pois são áreas mais delicadas, colocar um chapéu ou boné para proteger os cabelos e o couro cabeludo, e usar óculos escuros com proteção UV nas lentes. Os melhores horários são antes das 11h e após às 16h, mas não é preciso ter pavor caso não seja possível. É melhor, entretanto, evitar o sol muito quente, que pode causar queimaduras.

É importante destacar que a exposição deve acontecer num período de tempo curto; em no máximo 30 minutos já é preciso espalhar o protetor solar em todas as partes expostas. Infelizmente, não é possível acumular um monte de vitamina D num dia só; a exposição ao sol deve se tornar um hábito diário. E, mesmo em dias nublados, a absorção ainda acontece. Só não adianta através do vidro de janelas, pois os raios UVB são filtrados.

Também é bom lembrar que, quanto mais escura a pele, maior a dificuldade de absorção devido à barreira da melanina. Então pessoas de pele mais clara podem ficar menos tempo no sol para atingir a meta necessária.

Conseguir vitamina D através da alimentação é bastante difícil, pois ela aparece apenas em alimentos de origem animal e, ainda por cima, em baixas dosagens.

De qualquer forma, é recomendável fazer acompanhamento médico com exames frequentes, pois é difícil adivinhar em que situação cada pessoa está. Entretanto, pessoas que trabalham apenas em ambientes internos e/ou que trocam a noite pelo dia têm grandes chances de estar com deficiência e precisam ter mais atenção. Por mais divertido que pareça, um estilo de vida vampírico pode ser muito prejudicial para um ser humano.
   

sábado, 21 de novembro de 2015

Céu esta noite

Num certo lugar, não faz muito tempo, nasceu Suçuarana. Seus olhos, ora cinza, ora azuis; seus cabelos, avermelhados ou alaranjados, já queriam dizer o que seus lábios não diziam. Mas, se ela fosse ainda criança, perdoar-lhe-iam, talvez. Ela já é moça. Carrega um par de seios e mágoas. Mágoas do tio que a fez sangrar, mágoas da mãe que fingiu não saber.

Aos dezesseis, Suçuarana fugiu. Levava consigo um broto de lírio amarelo e seus vestidos. Chegando à cidade grande, como se estivesse sem alternativas, conheceu um rapaz e deitou-se com ele. Dessa vez, foi bom; sentindo-se umedecer e gemendo, como se ele a protegesse de tio Francisco, como se fosse sua mulher já. 

Resolveu morar com André, rapaz de loucuras afloradas; cheirava pó branquinho amarelado e bebia sucos ardidos que o deixavam violento e assustador. 

Um certo dia, tio Francisco bateu à porta. Queria levar Suçuarana de volta. André não deixaria. Cortou-lhe a garganta; ele sangrou, morreu. Sangrou como Suçuarana, tão jovem em seus braços, e, assim, homem e mulher fugiram.

Agora André era assassino além de drogado, e a polícia queria fazer maldades com ele e com sua amante, que jamais fora tão feliz até então.

Acontece que, na cidadezinha onde Suçuarana nasceu, havia um namoradinho de amores recém nascidos, Igor, que não queria amá-la e casou-se com Genoveva. Essa última morreu afogada, e Igor quis Suçuarana de novo e mandou Seu Francisco buscá-la. Como Seu Francisco não voltava, Igor foi procurá-la também, e veio para a cidade grande, onde conheceu a violência.

Enquanto isso, Suçuarana e André fugiam da polícia. Assassinavam testemunhas inocentes só por maldade; já estavam acostumados à dor e tratavam todos como tio Francisco e os policiais.   

Igor já era a personificação da revolta e só conseguia pensar em Suçuarana de volta. Perguntava pela ruiva quando avistou uma confusão e notou que eram policiais acinzentados e um casal cercado. Era André e sua amada. 

Um PM pegou sua ruiva como refém e fazia-lhe pequenos cortes para que André se rendesse. Suçuarana gritava: "Salve-se, Dé! Não se preocupe comigo!". Mas André não poderia viver sem Suçuarana e entregou-se à violência da lei. Suçuarana se livrou do homem de bem que a segurava, pegou a arma do sujeito e deu dois tiros em cada um dos polícias. 

Já era tarde. André agonizava os últimos minutos de sua existência. Suçuarana, muito desesperada, chorava e abraçava seu homem em momentos de despedida  trágica. 

Igor veio ajudá-la. Pegaram o corpo de André e o puseram no carro roubado da ruiva. Dirigiram até o quarto de Igor; levaram o cadáver e Suçuarana não sabia o que fazer. Igor já olhava para seu decote com malícia; quase lhe comia as carnes e enternecia de desejo. Começou a consolá-la deslizando as mãos entre suas pernas, escorregando os lábios por sua pele. 

Suçuarana, já ciente de suas intenções, se entregava e sentia os líquidos escorrendo. Por alguns momentos, ela não se lembrava mais de André, seu amor.   

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Oficina: Introdução ao BDSM

Darei uma oficina de Introdução ao BDSM em local e data a serem confirmados. Essa incrível oportunidade foi ideia da querida Jarid Arraes, diretora da casa, que inclusive já me entrevistou para a Fórum.

Quem acompanha meu canal no Youtube sabe que já tenho experiência como educadora sexual. Embora eu goste de falar sobre sexo em geral, BDSM é um assunto que me interessa bastante, tanto que o pesquisei muito ao longo da produção de minha dissertação de mestrado.

Pouca gente sabe como funciona uma pós do tipo stricto sensu. A verdade é que, para escrever um trabalho científico, é preciso ler muito sobre vários assuntos em muitas fontes diferentes. Meu mestrado abordou a questão da representação da sexualidade feminina na mídia. Como meu objeto de pesquisa foi a figura da vampira, o fetiche da dominação se tornou uma porção fundamental em meu trabalho.

O público-alvo dessa oficina são pessoas que tenham curiosidade e mente aberta para discutir sobre BDSM de forma leve e divertida. Não é necessário ter conhecimento prévio, pois pretendo começar dos conceitos mais básicos. E ainda vai rolar uma surpresa! ;)

Segue o programa:

Oficina - Introdução ao BDSM

Parte 1 - 15h30 às 17h00

- Definição e vocabulário (switchers, top, bottom, sub, dom/domme, baunilha, sessão, treinamento)
- B&D, D&S, S&M, Gor, TPE, 24/7
- Mitos e discriminação (senso comum, machismo, dominadoras profissionais, visão do dominador como "mau")


 Intervalo - 17h00 às 17h30

Parte 2 - 17h30 às 19h00

- Consentimento e segurança

Negociações e limites
SSC, palavra de segurança, riscos emocionais e físicos, aftercare, primeiros socorros

- Práticas e instrumentos

Spanking (mãos, açoite, chicote, chibata, palmatória)
Bondage (suspensão, cordas, algemas, mordaças, vendas, coleiras, afastadores)
Estímulos sensoriais (pinwheel, penas, velas)
Estímulos psicológicos (humilhações, mindfuck, abandono emocional)
Estímulos físicos e psicológicos (plugs, enemas, esferas)

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Sobre Patty Kirsche:

Patty Kirsche é feminista, educadora sexual e escritora. Ela é também mestra em Filosofia pela USP com pesquisa sobre representações da sexualidade feminina em produtos culturais. Seu canal no Youtube, no qual publica vídeos sobre educação sexual, tem tido retorno de público bastante positivo. Intensa e bem-humorada, acredita na libertação através do conhecimento.



domingo, 13 de setembro de 2015

Corpos feministas - Projeto fotográfico

Não há como falar sobre gênero sem falar em corpo. Toda a socialização aplicada na construção de cada gênero demanda a construção dum corpo.

A percepção dos corpos está sempre sujeita a regras específicas de cada cultura. Na cultura ocidental, os corpos femininos e seus respectivos figurinos obedecem aos preceitos ocidentais de feminilidade. Por exemplo:


  • Depilação de pernas e axilas entre outras partes;
  • Cabelos longos;
  • Salto alto;
  • Lingerie de renda;  
  • Vestidos e saias.

Perguntas:
A percepção de corpo da mulher feminista difere da percepção do senso comum? A mulher feminista constrói seu corpo de forma diferente e/ou específica?

Com base nessas questões, estou dando início ao projeto fotográfico "Corpos Feministas". A ideia é fotografar mulheres feministas e seus corpos e figurinos de modo a descrevê-los e compará-los com os estereótipos do gênero feminino presentes na sociedade brasileira.

As voluntárias terão total liberdade para escolher quais partes do corpo desejam que sejam fotografadas e qual figurino usarão durante o ensaio.

Informações por email: pattykirsche@gmail.com

Tumblr: http://pattykirsche.tumblr.com

Obs: Projeto antropológico e artístico sem fins lucrativos.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A cultura da virgindade feminina

Fala-se muito em "virgindade". Quando eu era criança, ouvi muitas vezes que o "correto" seria chegar "virgem" ao casamento. Não demorou muito para topar com as lendas acerca da "virgindade" feminina: "a virgindade é uma membrana na vagina", "o homem consegue perceber se a mulher é virgem ou não", "virgem não pode usar absorvente interno", etc.

Mas afinal, o que é ser "virgem"?

Oficialmente, virgem é qualquer pessoa que não teve relações sexuais. E o que são relações sexuais?

  • Se você fizer sexo oral em alguém, ou seja, se você chupar a genitália de outra pessoa, você estará fazendo sexo? Sim, estará.  
  • Se você receber sexo oral, ou seja, se alguém chupar sua genitália, você estará fazendo sexo? Sim, estará.
  • Se você fizer sexo anal ou vaginal, estará fazendo sexo? Sim, estará.
  • Se você praticar masturbação mútua com alguém, estará fazendo sexo? Sim, estará.


Então por que cargas d'água a gente ouve que a menina "perde" a virgindade com a ruptura do hímen? Quer dizer então que se, na primeira relação, um rapaz penetrar um ânus e não uma vagina, então ele continuará virgem? Um rapaz homossexual então seria virgem para sempre por jamais penetrar uma vagina? 

Acontece que a etimologia da palavra virgem já é relativa à mulher. Segundo texto do site Wikipedia:
 
A palavra virgem tem origem no latim, na forma substantiva virgo, genitivo virgin-is, que significa "mulher jovem" ou "menina". A palavra latina provavelmente surgiu por analogia com um naipe de lexema baseado em vireo, significando "ser verde, fresca ou florescente", principalmente com referência botânico - em particular, virga significando "tira de madeira"

O conceito de virgindade é bastante rígido para as mulheres na maioria das culturas. Entende-se por virgindade a presença do hímen na vagina. Ainda hoje, muitas garotas praticam sexo anal e oral para manter a "virgindade" da vagina, e existe até a possibilidade de restauração do hímen através de cirurgia.

Por causa dessa tão preciosa membrana, evita-se fazer exames em jovens que ainda não fizeram sexo vaginal. Um dos exemplos mais fortes dessa mentalidade é a questão do exame de papanicolau. Então se a mulher nunca fizer sexo vaginal, jamais precisará fazer o exame? Não, isso não é verdade.

Parece que o hímen é algum tipo de oferenda exclusiva para o pênis. Meninas não podem introduzir os dedos na vagina para conhecerem o próprio corpo nem usar sex toys, porque pode romper o hímen. Há medo até de utilizar coletores menstruais e absorventes internos. Ou seja, o hímen só pode ser rompido por um pênis na primeira relação sexual. Qualquer outra possibilidade de ruptura, ainda que seja um procedimento médico, deve ser evitada em nome dessa tradição.

Homens começaram a ficar obcecados com a "virgindade" feminina devido à busca pela certeza de que a mulher não estava grávida de outro homem. Como não era possível ter certeza da paternidade há cinco mil anos, os homens passaram a aprisionar as mulheres, e o hímen passou a ser visto como uma espécie de lacre do corpo feminino. Se nunca foi "usada", ainda está lá. Todo mundo já ouviu alguma história de horror sobre homens que devolveram suas esposas por não terem sangrado na lua de mel. Era como se essas mulheres fossem mercadorias adquiridas com defeito.

Todo esse histórico de obsessão pelo hímen é tão cruel e injusto que não consigo encontrar nada de positivo na cultura da virgindade. Sempre ouço falar sobre homens dispostos a pagar pequenas fortunas pelo hímen duma garota, e minha única conclusão é de que nós somos vistas como um carro, que se for zero vale mais.

Imagem encontrada no site Aum Magic
Nem é verdade que o homem percebe a ruptura do hímen porque é uma membrana super delicada. A maioria deles associa a primeira penetração da vagina duma moça com o sangramento, o que é um tremendo equívoco. Não é toda garota que sangra na primeira penetração, mesmo porque nem sempre o hímen é rompido. Muitas vezes só acontece um alargamento do orifício. Fora que podem ocorrer sangramentos por diversas razões durante a penetração, tanto da vagina como do ânus.

A verdade é que a cobrança da presença do hímen é só mais uma das muitas formas de reprimir a sexualidade feminina, e precisamos nos posicionar contra todas essas tradições estúpidas. Cada mulher precisa ser dona de seu próprio corpo, e isso inclui o hímen. Se ela desejar romper seu hímen durante a masturbação, que possa fazer sua escolha livre de julgamentos. Pessoalmente, acho que a vagina deve ser "treinada" para o sexo vaginal para evitar rupturas brutais e sangramentos. Achar normal que uma menina sinta dor na primeira relação sexual é só mais uma evidência do quanto a maioria das sociedades do mundo são doentes.