domingo, 25 de janeiro de 2015

Uma terrível história de "manspreading"

Toda mulher tem uma ideia do quanto é desagradável sentar ao lado de homem com as pernas abertas. Eles podem ser encontrados em qualquer lugar onde haja homens sentados: salas de espera, bancos públicos; mas o lugar onde certamente os encontraremos é no transporte coletivo.

Pouco tempo após ter começado a andar de ônibus sozinha na adolescência, comecei a topar com esses homens em trabalho de parto. Aquilo já me incomodava muito, mas o que eu não sabia é que essa postura espaçosa tem a ver com privilégio masculino

Campanha do metrô de Nova Iorque
Acontece que, no reino animal, aquele que quer exercer dominância procura ocupar mais espaço. Espaço físico mesmo; o animal se estica, se abre, se esparrama. Essa linguagem corporal está relacionada à postura psíquica de dominância, o que, como sabemos, faz parte da socialização dos machos humanos.

Dentre os muitos momentos desagradáveis que já vivi por conta do manspreading, o mais marcante
aconteceu comigo há alguns anos. Era sábado à tarde, e eu voltava duma aula de francês na USP. O ônibus subia a Teodoro Sampaio, e eu já suportava um homem grande roçando minha perna havia algum tempo, quando resolvi sair do lado dele e tomar outro assento. Como havia um espaço vago na frente, eu me sentei ali mesmo. Qual minha surpresa ao ouvir o sujeito sussurrar: "Racista, deveria ser esfaqueada. Some de perto de mim".

Eu nem havia reparado que o elemento era negro. Mas foi mais fácil pra ele pensar que eu estava incomodada com a cor de sua pele que com seu privilégio masculino. O absurdo da violência contra a mulher é a naturalidade com a qual ela se dá. O desgraçado me ameaçou, injuriou e caluniou dentro dum ônibus porque eu ousei não aceitar a postura de dominância dele passivamente.

Infelizmente esse é apenas um exemplo de como homens se apropriam do espaço público e o tornam desconfortável para as mulheres. O assédio de rua e a constante possibilidade de estupro são alguns exemplos de outros atos violentos que nos restringem. É importante que estejamos sempre cientes das questões de gênero envolvidas nos momentos mais prosaicos do cotidiano, pois, como disse Gloria Steinem: "A verdade vai te libertar. Mas antes vai te irritar".   


sábado, 27 de dezembro de 2014

Série de vídeos sobre métodos contraceptivos

Publiquei no vlog uma série de vídeos sobre métodos contraceptivos, inclusive contracepção de emergência.

No vídeo sobre preservativo masculino, falo sobre o mito de que usar camisinha protege completamente contra doenças sexualmente transmissíveis:



No vídeo sobre pílula anticoncepcional, falo sobre formas de se evitar falhas na contracepção:


No vídeo sobre DIU, falo sobre os detalhes de funcionamento e os riscos de gravidez ectópica. Uma coisa que me esqueci de mencionar é que o DIU de cobre é a melhor opção de contraceptivo de emergência para mulheres obesas com IMC acima de 30, pois a probabilidade de falha da pílula do dia seguinte nesse caso aumenta cerca de 4 vezes.


Fecho a série com o vídeo sobre a pílula do dia seguinte, no qual detalho a forma de utilização e o mecanismo de funcionamento.


domingo, 14 de dezembro de 2014

O misógino profissional e liberdade de expressão

Há cerca de um mês, falávamos sobre um misógino profissional que pretendia vir ao Brasil para doutrinar outros misóginos. O sujeito, Julien Blanc, ensinava basicamente técnicas para manter mulheres em situação de abuso; ler as ilustrações explicativas dele é como ler uma tabela de como reconhecer relacionamentos abusivos.

Imagem postada por Julien como guia para manter uma mulher no relacionamento
A imagem ao lado, postada por Julien no Instagram e compartilhada no Twitter, foi chamada de "checklist". O círculo rodeado pelas palavras "Física Violência Sexual" abriga no centro "Poder e Controle", o que deixa bastante explícito que ele estava perfeitamente ciente de que ensinava seus abjetos seguidores a cometerem violência de gênero.

Deixo a tradução completa abaixo a título de explicação (sentido horário):



Use intimidação

  • Deixe-a com medo
  • Destrua coisas
  • Mostre armas
  • Destrua propriedade
  • Abuse de animais

 Use abuso emocional

  • Deixe-a triste
  • Faça-a sentir-se mal e culpada
  • Chame-a por insultos
  • Humilhe-a
  • Faça-a pensar que está louca
  • Jogue jogos mentais

Use isolamento

  • Controle o que ela faz, com quem ela sai ou conversa, o que ela lê, onde ela vai
  • Limite os envolvimentos externos dela
  • Use ciúme para justificar suas ações

 Negue, culpe e minimize

  • Faça pouco do abuso
  • Não leve as preocupações dela a sério
  • Diga que o abuso nunca aconteceu
  • Mude a responsabilidade (para ela)
  • Diga que foi ela que causou 

Use crianças

  • Faça com que ela se sinta culpada pelas crianças
  • Use as crianças para mandar mensagens
  • Use visitação para assediá-la
  • Ameace levar as crianças embora 

Use privilégio masculino

  • Seja quem define os papeis masculinos e femininos
  • Tome todas as decisões importantes
  • Trate-a como empregada
  • Aja como o senhor do castelo


Use abuso econômico

  • Impeça que ela consiga um emprego
  • Faça-a pedir dinheiro
  • Dê-lhe uma mesada
  • Não permita que ela tenha acesso ao orçamento familiar
  • Tire o dinheiro dela

Use coerção e ameaças

  • Ameace machucá-la
  • Faça-a  retirar acusações
  • Induza-a a fazer coisas ilegais
  • Ameace abandoná-la, suicidar-se, denunciá-la para o serviço social 

Eu não vou analisar cada item dessa lista neste texto, pois pretendo fazer isso em outra oportunidade. Mas já aviso que se você conhecer um homem que apresenta alguma das condutas apresentadas nessa lista, é melhor se afastar dele. Porque isso é basicamente um guia de como ser um parceiro abusivo.  


Muita gente ficou indignada (com razão) e resolveu lutar contra a atividade econômica que esse sujeito exercia, que vem a ser uma mistura de apologia de crime com discurso de ódio. O Brasil foi só um dos países que negou visto ao elemento em questão.

Teve gente que foi contra essas ações com base em "direito" a liberdade de expressão. A esse respeito, digo que as  pessoas têm liberdade de expressão, mas podem e devem ser responsabilizadas por crimes de discurso. Exercer liberdade de expressão inclui ser responsável pelos efeitos do discurso proferido. E de mais a mais, nós temos o direito de boicotar um homem que fez carreira ensinando outros homens a abusar de mulheres.

Acho que o episódio mais bizarro que testemunhei sobre esse assunto rolou na universidade. Um colega de classe disse em plena aula sobre estigmas sociais que foi contra o veto a seu visto, mas não teve muito espaço para argumentar. Ninguém na sala concordou com ele. Sabe quando todo mundo faz: "naaaaaaaaaooooooo"? Então...

A princípio ele chamou Julien Blanc de "paquerador", mas logo em seguida ouviu-se uma voz masculina se referindo a Julien como "o cara que ensina estupros", então o colega corrigiu para "assediador". A professora então se manifestou dizendo que pessoas são barradas em países pelos critérios mais arbitrários, e que Julien pode ser considerado um terrorista; logo sinalizar o passaporte dele é uma decisão diplomática.

Eu penso que não tem como defender a entrada de Julien no Brasil. Ele não vinha pra cá como turista; sua agenda estava oficialmente programada. Ele vinha com um propósito claro, que era cometer o crime no qual consistia seu trabalho. Certamente, se ele ensinasse gays a fazer coisas assim com homens hétero, meu colega de classe não estaria naquela tranquilidade.

sábado, 22 de novembro de 2014

Fetichismo Travéstico ou Homens que Usam Calcinha

Atendendo a pedidos, neste vídeo falo sobre homens que gostam de usar calcinhas e outras peças de roupa feminina, embora sua identidade de gênero continue masculina.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Visibilidade Bissexual

Minha contribuição (atrasada) para o 23 de setembro, dia da visibilidade bissexual



Neste vídeo, discuto sobre a definição de bissexualidade e esclareço alguns mitos. Aproveito para falar sobre transexualidade, pansexualidade e identidade de gênero.

Referência:

Clube de Compras Dallas (2013)
"Dallas Buyers Club" (original title)
Jean-Marc Vallée

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

escrita em 1999

Hoje é o perdão que não chega
mesmo porque ainda não me arrependi.
Se eu tivesse ido embora antes de
apanhar talvez, mas não.
Eu quis todos sabores.
Como sempre, quis provar tudo;
gulosa, tive de vomitar
e engoli o remédio amargo
do castigo.

sábado, 25 de outubro de 2014

O mito da ditadura comunista


Eu gostaria de escrever um texto melhor, mas acabo de passar por um luto repentino em família que complicou bastante minha disponibilidade de tempo. O fato é que não consigo entender esse ódio pelo PT. Vejo pessoas que só estão tendo a chance de fazer uma faculdade devido a programas como Prouni e Fies do governo federal chamando gente como eu de "merda" porque voto no PT. 

Uma das maiores armas contra o PT tem sido essa história de "ditadura comunista". Gente, em que ditadura as pessoas xingariam a presidenta de "sapatão" e "vaca" e não acabariam peladas num pau de arara levando choque nos genitais?

Minhas maiores críticas ao governo do PT existem porque está moderado demais!
Pra mim não deveria nem ter banco privado! Gente que não tem nem merda pra cagar com medo de governo de esquerda? Quem tem que ter medo é latifundiário e empresário. E de fato são eles que têm. E não têm pudor nenhum de usar a religião pra manipular as massas. Porque não se iludam... Os líderes religiosos sabem muito bem o que estão fazendo ao mandar pobre votar em candidato de direita.



Os empresários estão bravos porque o desemprego caiu. No capitalismo o pleno emprego é um problema porque, pela lei da oferta e procura, quando sobram empregos, os salários sobem. O lucro das empresas se dá pela receita menos os custos. Para aumentar o lucro, é preciso aumentar a receita e/ou reduzir custos. O problema de aumentar a receita é que isso pode impossibilitar que os preços aplicados sejam competitivos, e a empresa perca mercado para a concorrência. Então a melhor forma de se maximizar os lucros é reduzindo custos, e o salário de funcionários representa um custo alto. É claro que ninguém vai falar abertamente que o pleno emprego é inconveniente para alguém, mas a verdade é que é para todas as empresas, principalmente as de grande porte. Ainda mais quando a mão de obra barata começa a desaparecer com a melhora da formação da população (com o auxílio dos programas Prouni e FIES). Então os poderosos estão muito bravos com o governo do PT, querem tirar a qualquer custo.
 


Por que Dilma?



Eu cresci numa família de esquerda; meus pais e a maioria de meus parentes sempre votaram no PT. Em meio a discussões acaloradas sobre política, tanto eu quanto minha irmã crescemos sabendo que era papel do estado reduzir as desigualdades sociais.


Quando criança, eu estudava em escola de rico. Pagar as mensalidades era um sacrifício que meus pais consideravam necessário diante da baixa qualidade do ensino público, então eu acabava convivendo com crianças que tinham um poder aquisitivo muito mais alto que o meu. Em época de eleições, eu ficava sabendo que os pais delas iam votar em Paulo Maluf, Mário Covas, entre outros candidatos que não eram do PT. 

Pra mim já era muito claro que o PT faria um melhor governo, mas eu não entendia por que as outras famílias não percebiam isso. Até que um dia uma de minhas colegas me disse: "Eu jamais votaria no PT. Eu não sou racista, mas já pensou os 'neguinhos' morando na sua casa?". Falei sobre isso com minha mãe, e ela me explicou que pensar assim era pura ignorância.  
 
Então vamos definir as principais diferenças entre esquerda e direita de forma simples:
 

Esquerda: 


Intervenção do estado na economia: leis trabalhistas
Políticas de justiça social: cotas, bolsas
Serviços públicos: saúde, educação
Influência da sociedade na formação do indivíduo
Resolver problemas de criminalidade pela educação
Entendimento de que minorias são discriminadas 
Reforma agrária, desapropriação de imóveis inativos para moradias populares

Direita:

Economia segue sozinha, conveniente para empresários
Sem políticas sociais, cada um que se vire, meritocracia (escolhas e responsabilidade individual)
Normal não ter negro na universidade, mas ter na penitenciária
Normal não ter mulher na política
Crença de todos são iguais e que alegar discriminação é vitimização
Sem serviços públicos: EUA não tem saúde pública, universidades públicas lá são pagas 
Resolver problemas de criminalidade com truculência policial/ Repressão
Viva a PM/ Viva as forças armadas
Ordem e Progresso
Conservadorismo
Ufanismo
Nacionalismo
Apartidarismo