sábado, 19 de julho de 2014

A invisibilidade do gênero feminino no Hopi Hari

Adoro parques temáticos. Apesar de ser meio medrosa, eu adorava o Playcenter e, hoje em dia, não perco uma chance de ir ao Hopi Hari. Minha última visita ao Hopi Hari aconteceu em julho do ano passado, no dia mais frio do ano. Por mais frustrante que pareça, eu não quis perder os passaportes já agendados e encarei o desafio.

Chegando lá, a permanência em ambientes externos estava uma verdadeira tortura. Entre ventos gelados e caridades surpreendentes, (Uma mulher deu para mim e minha irmã um par de Vip Pass quando aguardávamos o passeio na Vurang porque ela não ia usar. O lance foi tão improvável que me esqueci de agradecer...) acabamos indo ver o show do Looney Tunes. Dentro do teatro topamos com a surpresa de que muita gente doida havia levado crianças pequenas para passar frio no parque. Entre as crianças, muitas meninas. Mas olha só... Com sete personagens no palco, não havia nenhum feminino. 
Todo dia da semana, o humor é masculino

A peça contava a história dum diretor de cinema que tentava fazer um filme com seis personagens do Looney Tunes: Marvin, o Marciano, Patolino, Pernalonga, Piu-piu, Frajola e Taz
Olhando pelo lado bom, pelo menos o único personagem não animado era negro. Mas é impressionante que numa peça para crianças, com a plateia cheia de meninas, ninguém tenha pensado em colocar pelo menos uma mulher no palco. E nas páginas do Hopi Hari na internet, esse padrão se repete. 

É claro que isso é um problema da animação em geral. A maioria dos personagens são masculinos mesmo. Personagens femininos são protagonistas apenas em animações cujo público alvo é formado por meninas. Se a ideia é atingir crianças em geral, os personagens principais são masculinos.

Inclusive as heroínas ainda aparecem muito como um fetiche para os meninos. O que é mais preocupante é o quanto essa abordagem é normatizada. Eu me lembro de questionar isso quando era criança. Eu procurava por heroínas com as quais me identificar e topava com a dura realidade de que elas eram poucas. Em compensação, havia sempre mulheres como vilãs e "velhas chatas".

Falando um pouco sobre marketing, toda marca precisa definir dois pontos: segmentação e posicionamento. Simplificando muito, o posicionamento é a imagem da marca, e a segmentação constitui o público alvo da marca. O posicionamento de qualquer marca fica sempre atrelado ao público que atrai, razão pela qual várias marcas se esforçam para repelir um público que possa ter um impacto negativo. E quais são esses públicos? São públicos formados por grupos historicamente excluídos, claro. Gordos(as), negros(as), homossexuais, transexuais, pobres, mulheres...

Existem marcas de roupa que não oferecem números maiores porque não querem que suas roupas sejam usadas por pessoas gordas. E isso não é algo escondido, não. É assumido, sem nenhum constrangimento. É só começar a prestar atenção. A maior parte das capas de revistas e comerciais têm pessoas brancas porque o público alvo é geral. Se aparecer gente negra, boa parte do público branco não aceita porque entende que o produto é direcionado a negros. E acaba tendo um efeito negativo porque muitas pessoas não vão querer usar algo "de negro", por preconceito mesmo. 

Com produtos direcionados a mulheres acontece a mesma coisa. "Filme de menina", "livro de menina", "pornô de mamãe", "comida de mulher", "shopping de mulher", "rock que agrada menina" são algumas expressões que já ouvi para se desqualificar um produto. Até a expressão "carro de mulher" entra nesse grupo, não pelo estado de conservação como comumente é usada, mas com relação ao modelo mesmo.
 
Sobre o time de futebol masculino SPFC
Produtos direcionados a mulheres têm o inconveniente de serem mais rejeitados por homens do que a situação inversa. Acontece que na nossa cultura o homem se definem como "não mulher", basta dizer que chamar um homem de mulher é entendido como ofensa.
 

Pegando carona nisso, já que marketing existe para vender produtos e não para resolver problemas sociais, o marketing de gênero é um artifício utilizado por empresas para lucrar mais. Ou seja, as empresas aproveitam a rejeição que produtos direcionados a mulheres enfrentam e lançam versões muito "masculinas" para que homens comprem. Isso funciona bem porque a misoginia estrutural é tão intensa que até meninas às vezes rejeitam produtos direcionados ao público feminino com receio de serem tachadas de frívolas.
Eu não vi nenhum problema em tirar foto ao lado do Batman no Hopi Hari

Voltando à questão do Hopi Hari, o que nós temos aqui é um parque direcionado ao público infantil, adolescente e jovem adulto de ambos os gêneros. Como meninas e mulheres não têm um problema de rejeição ao masculino, a fim de não arriscar a possibilidade de uma rejeição a elementos femininos, a empresa opta pela alternativa mais segura, que é evitar personagens femininos.

Tudo bem, para maximizar os lucros das empresas isso tem funcionado, mas não está na hora de pensar numa sociedade melhor? Não está na hora de cobrar personagens femininos interessantes para que meninas se identifiquem com eles? Não está na hora de levar meninas ao parque e ter a certeza de que elas também estarão representadas lá? A gente precisa superar essa imagem de meninas como princesas e mulheres como musas e inspirar ideais de protagonismo para o gênero feminino. Só assim a gente vai garantir um contexto social mais harmonioso para as futuras gerações.

domingo, 13 de julho de 2014

A fábula do grelo feliz

Originalmente postada 04 de Janeiro de 2009

Uma história sobre siririca e sexo oral

Era uma vez uma garota chamada Lili. Lili se masturbava todos os dias. Nenhum rapaz jamais a tocara, e ela tinha muita curiosidade a respeito de sexo. Ela não sabia como era uma relação sexual, nem sabia que o nome do que sentia era orgasmo. Acreditava ingenuamente que se sozinha era tão bom, acompanhada seria muito melhor.

O tempo foi passando, e a garota foi se tornando mulher. Os rapazes já estavam prestando atenção nela. Ansiosa por descobrir os milagres do amor físico, Lili começou a namorar Fefê.
Fefê era o rapaz mais bonito da escola;. Ele adorava exibir o amor de Lili para seus amigos, principalmente porque eles a desejavam.

Quando o casal adolescente resolveu começar a vida sexual, Lili estava muito animada. Contudo, ela não conheceu nenhum orgasmo na ocasião. Fefê sequer tocou seu clitóris ou sua vagina com os dedos. Apenas colocou a pontinha da língua, mas não do jeito certo. Como se o clitóris fosse um picolé gelado, ele fez movimentos rápidos parecendo língua de cascavel. Lili sentiu até um pouco de dor no momento da penetração, mas seu amado disse que era normal, e ela deveria agüentar. Ele gozou, mas ela não.

As relações sexuais foram acontecendo e nenhum orgasmo para a pobre Lili. Fefê, cada vez menos preocupado com ela, simplesmente se apoiava sobre seu corpo e a penetrava de uma vez, gozando 30 segundos depois. Infeliz, porém apaixonada, Lili dizia a Fefê que demorava pra gozar, mas ele nunca tomava uma atitude.

Um dia a moça, agora universitária, andava pela faculdade quando viu um rapaz tocando gaita. Ele tocava uma canção do Bob Dylan que Lili adorava. Os dois jovens começaram a conversar, e o desejo foi tomando conta de seus corpos. O músico então convidou Lili para conhecer seu apartamento, onde tinha outros instrumentos guardados.

Lili aceitou, e, embora ainda gostasse de Fefê, permitiu que o músico tocasse seu corpo como fazia com seu violão. Suas mãos habilmente tocaram o clitóris de Lili, que gemeu encantada em seus braços. Os encontros entre os dois se tornaram constantes, nos quais o músico também mergulhava a cabeça entre as pernas de Lili, proporcionando-lhe orgasmos intensos. 

Depois de um mês, Fefê foi dispensado. Com o orgulho ferido, descobriu que havia sido "traído" várias vezes por sua namorada. E ele acreditava que jamais a perderia, já que era tão bonito.

Moral da história: preocupação com o orgasmo da namorada evita o nascimento de chifres na testa dos rapazes.

Um tapinha não dói e uma certa pornochanchada (18+)

Tapas são usados para apimentar relações sexuais numa prática conhecida como spanking em BDSM. Em geral funciona por combinar dor (em diferentes níveis de intensidade) e humilhação, componentes excitantes para pessoas que apreciam papéis submissos no ato sexual. 

fonte: http://dreamsofspanking.com
Um outro ponto que quase ninguém tem coragem de falar é que frequentemente aparece um componente infantilizador no processo. Eu já conheci uma sub goreana que curtia apanhar de cinto porque havia apanhado assim de seu pai durante a infância, então ela experimentava uma satisfação incestuosa.

Não é à toa que a imagem de meninas em idade escolar sofrendo spanking é tão explorada pela indústria de entretenimento adulto. Em 1919, Freud escreveu sobre fantasias sexuais infantis que envolviam cenas de spanking. "Uma Criança é Espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais" discorre sobre as fantasias de espancamento que crianças têm, e o prazer que elas sentem apanhando ou vendo outras crianças apanhando. Uma cena sobre isso aparece no filme Dogville (2003), de Lars Von Trier.

O conceito de sexualidade infantil desenvolvido por Freud até hoje ainda é visto como um tabu por muitas pessoas. Mas o fato é que sexualidade existe e não é algo vergonhoso. É importante pontuar que a sexualidade das crianças está em processo de formação, diferente da sexualidade de pessoas adultas. 

As fases da sexualidade infantil:

• Fase oral (do nascimento aos dezoito meses)
• Fase anal (dos dezoito meses até aproximadamente três anos)
• Fase fálica e complexo de Édipo (dos três anos até aproximadamente sete anos)
• Período de latência (dos sete anos até a puberdade)
• Fase genital (da puberdade em diante)


fonte: http://adomesticdisciplinesociety.blogspot.com.br
Não é segredo que a utilização de castigos físicos ainda acontece na educação de crianças. No século XIX na Inglaterra era legal que homens batessem em suas esposas desde que a vara não tivesse espessura superior à de seu polegar. Isso refletia uma crença de que mulheres eram como crianças: precisavam ser educadas pelos maridos. Até hoje o termo "educar" é usado em BDSM para se referir ao processo de treinamento de escravos, e a origem é essa mesma.  
   
A lei conhecida como "lei da palmada", que visa proteger as crianças de castigos físicos e humilhantes, é uma tentativa do estado de intervir nisso. Não tem como deixar cada família decidir isso do mesmo jeito que não tem como deixar que cada homem decida se quer ou não bater na esposa. Não é certo bater em mulher e não é certo bater em criança, ponto final.


O pessoal que defende castigos físicos alega que eles são necessários para a formação do (bom) caráter das crianças. Na verdade, quando se bate em criança para que ela abandone um determinado comportamento, a lógica utilizada é a do adestramento e não da educação. A criança deixaria de se comportar de determinada maneira por ter medo de apanhar, e não por entender que o comportamento é incorreto. Trocando em miudinho, é tratar criança como animal. E já se sabe que é possível adestrar animais sem castigo.

A Xuxa foi um dos nomes mais fortes a lutar pela aprovação da lei. Com isso, ela se tornou alvo de ataques de grupos conservadores que tentam impedir uma mudança tão importante nos costumes. De forma bastante previsível, fizeram acusações infundadas de pedofilia contra ela, ainda com base num filme no qual ela trabalhou no início da carreira. 

Pra começo de conversa, o filme em que a Xuxa trabalhou em 1979 não é pornográfico. Trata-se de uma mistura de drama com pornochanchada com roteiro e direção assinados por , então se alguém tem algo contra a história, é com ele que deve reclamar. 

(Spoilers!!!) A Xuxa tinha 16 anos na época e ela faz uma prostituta menor na história. Sua personagem, Tamara, é uma infeliz adolescente catarinense cujo hímen é complacente e será entregue como "presente" para um político mineiro (tempos da República do Café com Leite). Além de fingir ser virgem, ela também deve fingir que não fala português, para que o político acredite estar com uma jovem alemã. 

Um menino de 12 anos, filho da prostituta () preferida dum político de São Paulo () está passando o fim de semana lá. Por um infortúnio do destino, a avó dele, ressentida por não ter recebido tanto dinheiro quanto desejava, o mandou de volta para sua mãe em datas que ela não poderia deixar o local. Ela não teve outra alternativa senão escondê-lo lá. 

Ao ver o garoto, Tamara resolve aliciá-lo. Mas não dá para chamar de pedofilia, porque ela era só quatro anos mais velha que ele, além de ainda ser menor de idade. É bom lembrar que a personagem de Xuxa não é a primeira a abusar do garoto. E no final ele faz sexo com a mãe dele. Até eu, que não sou de me chocar, fiquei boquiaberta quando vi a cena. E o pessoal quer encher o saco da Xuxa? Ah vá...

Outra coisa, o garoto não vê aquilo como abusos. Para ele, aquilo foi a iniciação sexual dele. E isso é uma fantasia masculina frequente. Uma vez um cara me contou que sua iniciação sexual havia sido aos 13 anos com sua tia de sangue. E ele dizia rindo que depois da primeira vez ficou querendo toda hora e chamando: "Oh, tia!".


O filme é um emaranhado de fantasias masculinas:

  • Ser o único homem num lugar cheio de mulheres que estão loucas para fazer sexo com ele; 
  • Imaginar que mulheres são insaciáveis e que prostitutas iriam querer iniciar um menino porque elas adoram transar;
  • Complexo de Édipo com a realização da cópula com a mãe;
  • Observar pessoas transando, inclusive a própria mãe, por frestas.

Mas também é um filme muito triste, que mostra um menino que é criado pela avó com o dinheiro da prostituição da mãe. Também vemos a violência que se comete contra mulheres, especialmente prostitutas. Tamara é agredida pelo personagem de , que a empurra e a xinga de rameira quando acredita estar sendo vigiado para ser chantageado depois.

Um monte de gente questiona o fato de Xuxa não querer a distribuição do filme, mas o fato é que o contrato assinado por ela e pela mãe dela (porque ela era menor) incluía apenas a projeção do filme em cinemas. E é compreensível que ela tenha topado fazer cenas eróticas pra ganhar um dinheirinho imaginando que aquilo ia só ficar um tempo no cinema e depois desaparecer. A produtora decidiu explorar a popularidade posterior de Xuxa de maneira oportunista. Mas, de qualquer forma, não há nada de errado no filme. E não é por ter trabalhado nele que ela não pode lutar pelo bem estar físico e psicológico de crianças. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Juízes padrão fifa e reflexões sobre a torcida brasileira

Em meu último texto,  falei sobre a criminosa joelhada no Neymar. Agora, enquanto escrevo este texto, lido com a derrota do Brasil para a Alemanha pela impressionante diferença de seis gols. Para mim, parece que as consequências do truculento jogo contra a Colômbia e sua arbitragem porca foram de fato duras na seleção masculina.

Para refinar o ponto em que quero chegar, vou fazer uma leve introdução. Eu sou descendente de austríacos; minha avó paterna nasceu em Viena. Como a Áustria não aparece mais em copas há tempos, minha segunda seleção acaba sendo a Alemanha (irmã da Áustria). Mas, num jogo contra o Brasil, por nada nesse mundo eu torceria pela Alemanha. Nem pela Áustria, aliás.

Fiquei um pouco curiosa porque tenho topado com gente nascida no Brasil que está achando muito legal
torcer contra o Brasil só por algum capricho mórbido. Parece que virou uma modinha, como se fosse algo subversivo. Não sei se tem a ver com aquela falácia da direita sobre "os gastos com a copa", mas eu gostaria de esclarecer uma coisa: esportes são praticados no mundo todo, em todas as culturas. Não é só aqui no Brasil que as pessoas se importam com a vitória de times. Competições internacionais sempre foram uma forma de confraternização entre diferentes povos. Torcer por um país não implica necessariamente ufanismo. Mas escolher torcer especificamente contra denota algum tipo de incômodo, tipo aquela coisa idiota de torcer contra os clubes "rivais". Sei que existem coisas a serem questionadas na paixão pelo futebol no Brasil, como, por exemplo, o país inteiro parar para ver o jogo do time masculino mas ignorar completamente o time feminino. Mas daí a querer destruir completamente o futebol... Por quê? Pra quê? O que se ganha com isso? Alguma satisfação sádica?


Outra coisa que chamou minha atenção hoje foi a rapidez com a qual boa parte da torcida brasileira "virou a casaca" durante a derrota para a Alemanha. A plateia branca e rica do Mineirão passou boa parte do jogo vaiando e gritando "Olé" para a seleção brasileira. Num certo momento resolveram aplicar contra Fred o "Vai tomar no cu" já usado contra Galvão Bueno e Presidenta Dilma. Sabe o que eu acho? Que qualquer coisinha é abertura para "filhinho de papai" liberar instintos sádicos. É a pulsão de destruição aparecendo no momento em que existe um objeto cuja rejeição é legitimada socialmente. Pode ser o Zuñiga, o Neymar, a seleção brasileira inteira, a presidenta, um narrador... O importante é poder malhar a vítima, participar dum linchamento. E, de boa, dá até um certo gosto saber que essa gente queimando a bandeira do Brasil na Vila Madalena foi decepcionada pela atuação da seleção. Porque, pensa bem... Nossos jogadores estão trabalhando por essa corja também. E eu quero que esses infelizes se fodam de verde e amarelo (ha ha).            

Agora, o outro ponto que gostaria de discutir é o padrão Fifa dos juízes do judiciário brasileiro. Não é uma nem duas vezes que fico sabendo que algum estuprador de menor foi inocentado porque o desembargador "acha" que a vítima parece ser mais velha. Essa semana uma decisão do TJ-SP repetiu a mesma ladainha. Um estuprador de menina de 13 anos foi inocentado porque a garota era supostamente prostituta, e isso o teria induzido ao "erro".

Vamos trocar em miudinhos. Basicamente, cada vez que um desembargador inocenta um homem que estuprou uma menina menor de 14 porque a garota "aparentava mais velha", ele está atestando que se identifica com o estuprador e concorda com ele. E isso só continua acontecendo porque a gente não tem um regulador social que reage a esse absurdo. Seria o caso de todo mundo dizer: "Que absurdo esse velho assumir que pra ele menina de 13 anos é mulher feita". Trata-se de pedofilia institucionalizada.

É óbvio que dá pra perceber que uma menina de 12 ou 13 anos tem menos de 18. E é justamente por isso que os homens as procuram, não vamos ter ingenuidade aqui. Todo mundo sabe que a maioria dos homens passa a vida procurando parceiras mais jovens. Porque na nossa cultura é aceito que homens procurem parceiras mais jovens. O cara está com 50 anos e não tem nenhum problema de afirmar que sua namorada tem 21. É até legal para ele. Os amigos dele o admiram pelo troféu que ele faturou: a "novinha" que usa O.B mini e não tem experiência para perceber que o sujeito não quer nada sério.

Acontece que é conveniente para boa parte dos homens que existam prostitutas de 10 anos. E eles não vão querer parar na cadeia por causa disso. No fundo o que a gente tem é todo um sistema de manutenção de privilégio masculino que vai garantindo a continuidade do mundo como ele é agora. E o sistema reitera as injustiças através da justiça. Brilhante. Seja dentro ou fora do campo de futebol, juízes padrão Fifa estão sempre presentes para garantir que agressores não sejam responsabilizados. Certamente isso não é aleatório. No futebol já está normatizada a agressão do macho que sabe bater e se impor. É uma espécie de estupro onde o mais fraco é penalizado por ter apanhado e se machucado e não pode chorar. Ou seja, quem reclama ouve que "futebol é assim mesmo; se não sabe brincar, não desce pro play".       

domingo, 6 de julho de 2014

Violência no futebol mais algumas reflexões

Eu, como a maioria da população brasileira, fiquei estarrecida com a joelhada que o zagueiro Juan Zuñiga, camisa 18 da seleção colombiana de futebol, deu no Neymar no jogo de sexta.


A jogada foi visivelmente maldosa e resultou numa fratura na terceira vértebra da lombar. Felizmente, apesar de precisar "ficar de molho" por várias semanas, o jovem atleta de apenas 22 anos vai poder voltar a jogar.

Mas... nessa copa ele não joga mais. E mesmo que ele jogue na copa da Rússia e depois na do Qatar, copa no Brasil é "once in a lifetime". E esse sonho acabou para ele. Só porque um jogador do time adversário não conseguiu aceitar que estava perdendo o jogo.

E eu posso afirmar isso sim porque eu vi o jogo. Eu vi a omissão do árbitro espanhol Carlos Velasco Carballo, que não aplicou cartões em diversos momentos violentos da Colômbia. Se ele tivesse tomado as devidas providências quando Zuñiga entrou no joelho de Hulk momentos antes, Neymar poderia não estar passando por isso agora.
Na minha humilde opinião, agressões como essas deveriam ser punidas depois do jogo. Aliás, a arbitragem ruim deveria ser punida, porque o árbitro é responsável por garantir a segurança dos jogadores. Mas tem um monte de purista que acha legal ter injustiça em jogo simplesmente porque o mundo é injusto. Sinceramente, acho isso uma tremenda baboseira que só funciona pra legitimar trapaça. Ontem mesmo, a Holanda só se classificou para a semifinal roubando. Não vejo glória nenhuma nisso. 

E se a gente olhar com cuidado para os jogos anteriores, perceberá que as agressões contra Neymar foram constantes. O que foi Nyom empurrando Neymar no jogo contra Camarões na fase de grupos? Uma tentativa de fazer amizade? E isso porque Camarões já era um peso morto eliminado com duas derrotas. 

Depois, no jogo contra o Chile, Neymar levou várias pancadas nas pernas. Tem gente que chama isso de estratégia. Pra mim é trapaça mesmo. No futebol (como em qualquer esporte) deve-se ganhar porque jogou melhor e não porque o adversário está machucado e não tem condições de competir.

A reflexão que eu gostaria de fazer é sobre o ganho disso tudo. O ser humano funciona de forma muito simples. Nós fazemos as coisas para ganhar algo. Nem sempre esse "algo" que ganhamos é perceptível conscientemente. É daí que vem o conceito psicanalítico de "gozo". Diferente do gozo da gíria, que se refere ao prazer sexual ou ao sêmen, o gozo psicanalítico é, simplificando bastante, o prazer inconsciente que se atinge com as ações. Boa parte do gozo acontece nas constantes repetições de padrões ao longo da vida, principalmente da autossabotagem. A famosa mania que temos de repetir o que nossos pais fizeram e passar a vida inteira cometendo os mesmos erros a fim de não sair do lugar.

Toda essa introdução só para pensar em qual o prazer que um jogador atinge ao agredir um adversário? De onde vem esse desejo de destruição? Não é como se eles não quisessem ganhar também. E espera-se que um jogador profissional já tenha aprendido a perder. Mas, em campo, eles se mostram verdadeiros moleques da quarta série. Só que na copa não dá pra sair do jogo no meio. É preciso encarar até o fim e conviver com os resultados. Então a gente tem essa forte pulsão de destruição aparecendo: "Quem ele pensa que é para ganhar de mim? Vou destruí-lo".      
 
Claro que essa é só uma interpretação possível, já que existe muita coisa envolvida. Eu confesso que não tenho muita informação sobre futebol feminino. Sei que a próxima copa acontecerá ano que vem no Canadá e tenho intenção de acompanhar, mesmo com a baixa cobertura da mídia. Gostaria de saber se acontece muita violência entre as jogadoras para saber se existe uma influência da construção de masculinidade nesse fenômeno.

Outro ponto que eu gostaria de discutir são as ofensas dirigidas ao Zuñiga pelo twitter. Tem muita gente chocada porque ele começou a receber ofensas racistas (macaco, preto, etc.) e até ameaças de estupro contra sua filhinha de dois anos. Acontece que existe gente racista, misógina e homofóbica na internet que não perde uma chance pra exercitar seu ódio. Isso não tem a ver com vingança pelo Neymar, mesmo porque ele também tem sofrido ofensas racistas.

Para concluir, só gostaria de mencionar algumas questões interessantes com as quais tomei contato recentemente. Nos EUA, futebol é considerado esporte de "mulherzinha". Isso porque esporte de homem lá é o violentíssimo futebol americano. Fora que estadunidenses não suportam perder devido à cultura de competitividade. Como o time masculino de lá nunca ganha títulos, o time feminino acaba tendo mais visibilidade. E isso é um fator de rejeição ao esporte.


Outro detalhe é que os conservadores de lá veem o futebol como "socialista" porque é um esporte que depende da equipe e não pode ser resolvido individualmente. Engraçado que, do ponto de vista político, essa é basicamente a principal diferença entre direita e esquerda. A direita se concentra no indivíduo e não aceita a influência da sociedade, enquanto a esquerda entende a sociedade como formadora de valores individuais. Então se esses conservadores querem realmente levar a sério essa filosofia de competitividade entre indivíduos, futebol não deve ser mesmo o melhor esporte para eles. Fora que é coisa de latino, né? E os "americanos" não muuuuito melhores... rs   

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O misterioso orgasmo feminino

O vídeo sobre táticas para obtenção do orgasmo feminino já estava disponível em meu canal há algum tempo, mas eu não estava satisfeita com o resultado final. Achei que estava com excessos que poderiam ser cortados, então acabei excluindo a versão original e publiquei outra mais "limpa". 
 
Agora ele está disponível novamente e pode ser assistido aqui:




sexta-feira, 27 de junho de 2014

Leite sem lactose não é leite ou Delírios no Extra


Foto 1 - Oferta no Extra do Shopping Internacional
Hoje, 27/06/2014, eu tive uma péssima experiência na loja Extra do Shopping Internacional. Havia vários anúncios na parte de leite longa vida dizendo que ao comprar doze litros, pagaríamos dez. O cartaz dizia (Foto 1): "Oferta: Todos leites longa vida leve 12, pague 10, mesmo tipo, marca e preço"

Como não havia nenhuma ressalva com relação a leite com baixa lactose, eu peguei doze unidades e levei até o caixa. O desconto não apareceu, então passei no "atendimento ao cliente". Aí começou o dissabor.

Foto 2 - Atendimento ao cliente
Logo de cara, não havia ninguém atendendo (até tirei foto das cadeiras desocupadas). Esperei por cinco minutos até que o Israel C. apareceu. Assim que ele olhou para as embalagens de leite, disse que a promoção não era válida para leite com baixa lactose. Então eu mostrei em meu celular a foto do anúncio, (Foto 1) que não fazia qualquer menção a tal exceção. Foi como se eu não tivesse mostrado nada. Ele continuou insistindo que não valia e pronto.

E não adiantou eu dizer nada. Tentei explicar para ele que leite sem lactose é leite, mas ele nitidamente ignorou. Falei que eu já havia adquirido o mesmo leite nessa promoção com desconto, ele também ignorou. Após três minutos de discussão, (sim, eu estava marcando) ele foi procurar alguém para "verificar". Voltou seis minutos depois acompanhado duma mulher com cabelos tingidos de loiro que parecia estar na faixa dos sessenta anos. Seu crachá estava virado, e ela não me dirigiu a palavra. Apenas concordou com cara de desdém quando ele disse que havia checado com "duas pessoas", e a promoção não valia para leite sem lactose porque é "especial".

Bom, o fato de que duas pessoas concordaram não torna o ato de me negar o desconto menos incompetente. Sempre me lembro da máxima das aulas de administração: "Nunca faça nada que seja ilegal ou antiético porque seu(ua) chefe mandou. No final, quem vai sofrer as consequências é você".

Foto 3 - Leite devolvido no "atendimento ao cliente"
E só para rir um pouco, chamar leite com pouca lactose de leite especial é um absurdo de notação. É o mesmo que chamar leite desnatado de especial. A única diferença entre eles é que no desnatado foi removida a gordura, no baixa lactose, o carboidrato foi modificado.  

Mas, independente de qualquer coisa, não havia qualquer ressalva nos anúncios do corredor de leite. O que aconteceu ali, considerando o atendimento que recebi, foi propaganda enganosa. Fora que o tempo inteiro eu fui tratada como idiota. Parecia que eu estava distorcendo algo, sendo que o anúncio era perfeitamente claro. 

No final eu devolvi todos os doze litros de leite e pedi a devolução de meu dinheiro. E quatro minutos depois o funcionário devolveu. Sim, ele preferiu devolver R$57,50 e perder uma cliente a conceder um desconto de R$9,58. Brilhante, né?

Nota fiscal da compra de hoje
Quando eu estava na graduação, o professor de marketing contou uma história que me marcou muito. Numa loja chegou um homem muito bravo desejando fazer uma devolução de pneus. O gerente não discutiu com ele, apenas aceitou os pneus e devolveu o dinheiro. O detalhe importante da anedota é que a tal loja não vendia pneus. Nesse momento fiquei bastante surpresa, então fiz uma pergunta: Por que valeu a pena pagar para o homem por um produto que a loja não havia vendido? Então meu professor explicou: "Ter uma pessoa nervosa dentro da loja desgasta o ambiente e espanta clientes". A lógica é simples, vale mais ter um pequeno prejuízo "reembolsando" uma compra que nem foi feita na loja do que perder clientes por conta da propaganda negativa que o conflito gera dentro da loja. Essa é a mesma ideia que leva lojas dos EUA a preferir reembolsar clientes por pedidos que não chegaram (por culpa do correio) a receber uma qualificação negativa no ebay.

Empresas gastam muito dinheiro e tempo tentando estabelecer a reputação de uma marca porque marcas valem dinheiro. Por isso vale a pena investir num bom salário e contratar pessoal que tem conhecimento de marketing. Veja só o que está acontecendo agora. Por causa de três funcionários, a marca Extra está maculada para mim. E esse tipo de incidente se repete diariamente em vários tipos de estabelecimento. Não é raro topar com funcionário/a que ao invés de servir a clientela resolve mostrar que tem algum "poder".   

Foto 4 - Aviso da promoção na gôndola
O que aconteceu hoje foi absurdo, inaceitável e inadmissível. Eu saí da loja insatisfeita, e é impossível que aqueles funcionários não estivessem cientes disso. E não só porque cliente sempre tem "razão". Nesse caso eu tinha razão mesmo e não esperava de forma alguma ter que encarar uma queda de braço irracional.

Nunca mais farei minhas compras nessa loja. Mesmo porque, o litro do Ninho baixa lactose custa R$4,79 no Extra, mais caro que no Carrefour e no Wal Mart. Eu só ia comprar lá por causa do desconto promocional, que acabou sendo um #fail total. Ainda ser tratada como esquizofrênica por funcionários... Eu definitivamente não precisava passar por isso.    

É muito chato também porque intolerância a lactose (ainda vou falar mais sobre isso) é um problema sério que já pesa bastante no orçamento. Perder meu tempo e não conseguir comprar meu leite por falha da equipe do mercado é bastante frustrante. Mas enfim, pelo menos serve como lição para quem tem ou deseja ter um empreendimento algum dia e está lendo esse texto. Investir num pós-venda eficiente é tão importante quanto ou até mais que investir na venda em si. Porque um estabelecimento não se sustenta com uma venda só. E é isso que sempre deve ser passado no treinamento de funcionários/as. Não aquela besteira de orientar o pessoal a chamar cliente de "senhor" e "senhora". 

Atualização:

Recebi um retorno do Extra via twitter no dia 30/06.


Mandei os dados solicitados e recebi a seguinte resposta:



Pelo que entendi, essa é a resposta final da empresa. Nem sei por que pediram esses dados. Pelo menos alguém pediu desculpas, mas isso não muda o fato de que não vou mais voltar a essa loja.