quinta-feira, 9 de julho de 2015

Pálida Virgem

Será que alguém entenderá
tão mórbida figura?

Aqui estão todos casais
quando uma virgem sangra.

É a realidade,
a incerteza é o orgasmo
que ele com certeza alcançará,
mas a virgem dos românticos,
essa raramente gozará.


domingo, 5 de julho de 2015

Menstruação e Paganismo

Sei que já estou devendo há algum tempo um texto sobre os significados da menstruação no paganismo. Minha demora se deve, entretanto, a uma grande dificuldade de encontrar informação com referências sobre o assunto. Mas decidi postar um condensado dos resultados de minhas pesquisas até agora.

A menstruação tem vários significados dependendo de cada cultura. Aqui, na cultura ocidental, a rejeição ao sangue menstrual é notória e institucionalizada. Entretanto, em culturas pagãs, como a celta, por exemplo, a menstruação era muito valorizada.

Como afirma Ana Elizabeth Cavalcanti da Costa do IPPB – Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas
sobre as sociedades celtas:

"As mulheres eram vistas como aspectos vivos da criação, porque vivenciavam todos os meses com o ciclo menstrual, o processo da vida, morte e renascimento, além do poder de gerar vidas. Vou dar um exemplo: Dergflaith era um dos nomes célticos dado à menstruação, e significava “soberania vermelha”. O vermelho representava soberania, poder, vida. Pense então nos mantos vermelhos dos reis. A menstruação tinha conotação de sagrado, porque acreditavam que a mulher se tornava ancorada e enraizada nesse período. Nos períodos de menstruação, as mulheres se isolavam numa cabana ou se dirigiam à floresta, compartilhavam sobre os problemas da tribo".

Na Wicca, o sangue menstrual pode ser utilizado como oferenda para a Deusa num ritual em que as mulheres agradecem pela capacidade de gerar a vida. Eu acho bastante interessante a ideia, pois a menstruação é um sinal de que a fêmea humana está em condições de gestar.

O sangue menstrual tem uma história de ser utilizado como instrumento mágico, e esse processo era quase sempre ligado ao ritual de se jogar o sangue na terra. Existia a ideia de que mulheres menstruadas absorviam energias, então elas poderiam auxiliar na cura de pessoas e animais doentes carregando no sangue a energia da doença e a neutralizando ao despojá-la na terra.

Outra crença interessante era a de que a energia da mulher iria para as plantas regadas com sua menstruação. Regar as plantas utilizadas em rituais e feitiços com o sangue menstrual da bruxa seria uma forma de energizar as plantas com a essência da mulher que as usaria depois, o que aumentaria o poder.

Pessoalmente, eu adoro ficar menstruada. Sinto uma forte conexão com minha feminilidade nesse período, e ainda aproveito a oportunidade para praticar rituais altamente subversivos, como a coleta do sangue para usar como fertilizante.

Não é para me gabar, mas desde que comecei a regar minhas plantas com meu sangue menstrual, elas ficaram bem mais viçosas. O sangue é rico em proteínas. Existem vários pratos que utilizam sangue de animais no preparo; galinha ao molho pardo, por exemplo. O sangue contém três macronutrientes importantes para as plantas: nitrogênio, fósforo e potássio.

Existem várias correntes de pensamento sobre os significados da menstruação para as mulheres. Na visão de algumas crenças pagãs, a fase da lua na menstruação afetaria as influências das energias da lua nas mulheres. Em linhas gerais, a mulher de lua vermelha é a que tem a menstruação na lua cheia, enquanto a mulher de lua branca é a que tem a ovulação na lua cheia. Como os ciclos da lua demoram cerca de 28 dias, que é mais ou menos a duração dos ciclos menstruais, acaba acontecendo uma equivalência de ciclo na lua nova também.

Uma das coisas que mais me incomoda na percepção que as mulheres têm de si mesmas é o period hating. Muitas mulheres têm até vergonha de fazer sexo no período menstrual devido à visão equivocada da menstruação como sujeira.

Também li sobre um xamã que considera as mulheres como flores, já que o fruto vem de nós. É interessante porque o xamanismo é um paganismo de povos nativos das Américas, mas as ideias do sangue menstrual como uma oferenda para a terra, fruto dum sacrifício sem morte, também aparecem. Ou seja, semioses nas quais a menstruação assume significados ritualísticos parecem ser comuns a várias religiões pagãs, tanto americanas quanto europeias.  

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Confissões de uma ex-prostituta paulistana

Estamos sob ameaça de redução da maioridade penal no Brasil de 18 para 16 anos. O pessoal fica falando em crimes hediondos cometidos por psicopatas menores para justificar a medida, mas esquece que a maioridade penal é a única coisa que estabelece algum limite legal para a distribuição de drogas legais (álcool, tabaco, etc) e pornografia. Se, nos anúncios do Amarelinho, as casas de prostituição ainda colocam 18 anos como idade mínima para as garotas, é por causa dessa questão. Não que 18 anos seja o suficiente para alguém tomar a decisão de se prostituir, mas pelo menos existe uma limitação.

Por isso, considero que esse é um excelente momento para publicar o relato que recebi da M., que está agora com 30 anos e foi prostituta entre os 18 e 19. 

Trigger warning: violência sexual e de gênero.

Homens que saem com prostitutas são, em sua maioria, a escória.

Eu tinha acabado de completar 18 anos quando comecei a me prostituir. Era uma menina pobre passando pela dificuldade de conseguir o primeiro emprego. Ninguém me dava uma chance porque eu não tinha experiência, mas eu precisava pagar as mensalidades do cursinho.

Homens sempre me assediaram na rua, então achei ingenuamente que topariam pagar para fazer sexo comigo. Na prática, as coisas são mais complicadas. Não porque eles não queiram pagar, mas porque não querem pagar o valor que a gente considera adequado.

Quando a gente se coloca como prostituta, homens acham que têm passe livre para desrespeitar. Colocam a mão na perna da gente sem nenhuma cerimônia, ligam de madrugada para falar besteira (você ficou com medo de me dar seu cuzinho porque meu pau é muito grande), mas, acima de tudo, fazem o máximo para conseguir sexo sem precisar pagar.

Tem os "românticos", que sentem tesão em levar pra cama uma prostituta que decidiu não cobrar deles. Sentem-se muito especiais por isso. Mas também tem os mesquinhos mesmo, que decidem quanto vale uma trepada com a gente pelo valor simbólico da nossa aparência. Loira? Vale mais. Negra? Vale menos. Magra? Vale mais. Gorda? Vale menos. E por aí vai para todos os padrões de beleza que você imaginar.

Apesar do pouco tempo na "vida", consegui colecionar um belo lote de humilhações. Nunca vou me esquecer dum infeliz que me ligou várias vezes num domingo de manhã. Eu disse a ele que não trabalhava aos domingos porque pretendia ficar com minha família, mas ele não parava de insistir que eu o atendesse naquele dia.

O nome dele era Franco, lembro como se fosse hoje. Era um japonês e morava na Pompeia. Fazia perguntas do tipo se meus seios eram firmes, e afirmava que eu "já tinha 18 anos", logo poderia sair no domingo se quisesse.

Por precisar de dinheiro, após muita insistência dele, acabei aceitando encontrá-lo no centro. Lá ele me ligou dizendo que estava estacionado em frente a um cinema pornô. Quando eu cheguei e me aproximei do carro, ele sequer me cumprimentou. Ficou só me olhando de cima a baixo um tempo, até que finalmente falou: "Creio que não é o que eu esperava". E o pior é que o desgraçado simplesmente ia embora, como se não tivesse me tirado de casa num dia de folga. Eu o mandei esperar e disse que ia cobrar uma quantia simbólica por ele ter me feito ir até ali; o dinheiro do táxi. Ele falou: "sem problemas", mas pagou com muita irritação. Deu o dinheiro na minha mão e falou algo como: "você consegue". Não sei bem, porque já havia virado as costas naquele momento.

Algum tempo depois disso, apareceu um sujeito ainda mais asqueroso. Ele me disse que se chamava Marcelo, mas nem sei se isso é verdade. Só tenho certeza de que ele já tinha tudo planejado quando me ligou. Perguntou se eu aceitava cheque, disse que eu poderia confiar na idoneidade dele. Falou que havia feito o curso que eu desejava fazer no Mackenzie para conquistar minha confiança. Foi tão convincente que acabei aceitando encontrá-lo no Shopping Tatuapé, que é longe de minha casa, mas provavelmente ficava perto do trabalho dele.

Apesar de ter marcado um horário, ele me ligou quando eu já estava no shopping para ter certeza de que não perderia a viagem. Ele estacionou seu Escort dourado na Tuiuti pra não gastar com estacionamento e me levou para um motel
Foto meramente ilustrativa
que, mais tarde eu descobriria, ficava no Parque Novo Mundo.

No quarto, ele queria fazer sexo anal comigo logo de cara, mas não queria usar camisinha. Disse que não tinha, então eu entreguei a minha. Ele abriu com os dentes e, depois que havia colocado, ficou se queixando de que era muito apertada. Logo em seguida, tirou e falou: "Não vamos transar, não, vamos só 'brincar'".

Ficou encostando o pênis na entrada de minha vagina e dizendo que se quisesse forçar, me forçaria. Eu senti muito medo, mas não sabia o que fazer além de torcer para aquilo acabar o mais depressa possível.

No final, ele gozou na minha barriga. E eu sei que poderia ter sido pior, porque ele queria gozar na minha cara. Imagina o esperma desse nojento no meu rosto? Ficava me chamando de "paixão", mas tudo que ele queria era se livrar de mim o mais depressa possível após ter gozado.

Ele parou o carro na beira do viaduto Aricanduva e me deu um cheque de terceiro no valor de R$240,00, que obviamente não tinha fundos. Nem para me levar até o metrô; claro que ele sabia que não passava ônibus para minha casa ali. Que tipo de verme faz isso com uma menina de 18 anos?

Minha sorte foi que cruzei um senhor e pedi informação, e ele estava indo para o mesmo lado. Ele foi conversando comigo e queria saber como eu havia me metido naquela encrenca de precisar andar tudo aquilo de salto. Eu fiquei com vergonha e falei que meu namorado havia me deixado ali, mas não refrescava muito porque que merda de namorado faria uma coisa dessas?

A prostituta é a mulher que homens acreditam ter o direito legítimo de agredir, inclusive sexualmente. Sentem que nós "merecemos" tudo que eles fazem, afinal, quem mandou "escolher" esse trabalho, não é mesmo?

Com tudo que testemunhei, só posso dizer que sinto muito por minhas colegas que não conseguiram largar a profissão. Cheguei a conhecer casas em que eu ficaria com R$30,00 por programa, e a casa com R$40,00. E ainda queriam que eu servisse de propina pra fiscal; simplesmente mandaram o cara escolher uma menina. Teve uma época em que trabalhei num bar na Vila Olímpia. Lá era melhor porque o programa era livre; a casa ganhava no bar. Mas o melhor mesmo foi quando finalmente passei no vestibular e pude largar. Sem mais.

domingo, 28 de junho de 2015

Vingança Mortal - Resenha

No final do ano passado, a escritora Raquel Machado me convidou para uma parceria: eu leria seu livro "Vingança Mortal" e escreveria uma resenha a respeito, e ela leria meu livro "Doce Ardor" e também escreveria uma resenha.

Não demorei muito para ler a obra, mas alguns fatores acabaram atrasando a publicação da resenha,
Alex fazendo divulgação
que finalmente publico aqui:

O título "Vingança Mortal" é um nome bem pesado, que, a princípio, parece se opor à leveza da história. Entretanto, ao longo da narrativa, percebemos a presença duma aura violenta nela.

O livro conta uma história sobre um grupo de amigos e amigas que se conheceram na adolescência, mas se afastaram na idade adulta. A morte de uma delas, a Nicole, acaba proporcionando um reencontro. Brenda, a protagonista, começa a suspeitar das circunstâncias de sua morte e decide investigar, então o suspense começa a surgir.

A história se passa em duas cidades do Rio Grande do Sul: São Francisco de Paula, onde o grupo passa a adolescência, e Caxias do Sul, onde a protagonista e seu marido moram depois de adultos.

A narrativa segue Brenda, que investiga as condições suspeitas da morte de Nicole e descobre uma série de surpresas numa rede de mistérios muito bem entrelaçada. Também temos alguns conflitos amorosos e personagens que escondem segredos obscuros sob uma aparência confiável.

O estilo me remeteu aos livros do ensino fundamental. Um pouco pela extensão, pois é uma história que se desenvolve em relativamente poucas páginas, e outro pouco pelas descrições da adolescência do grupo em momentos de flashback.

A capa é bem interessante; mostra um olho feminino sob uma rede rodeada por algo que parece ser fogo. É bastante adequada à trama.

Não vou comentar muitos detalhes da história, pois qualquer revelação pode estragar as surpresas. Adianto apenas que o final é surpreendente e tem uma tirada bem legal.

domingo, 21 de junho de 2015

A história de "Doce Ardor"

Em 2010, eu escrevi um livro de ficção (em tese seria o primeiro da série Pimenta & Cereja). É romance pela extensão, pois tem cerca de 90 mil palavras, mas o gênero mais próximo é fantasia urbana. A história é sobre a agente secreta Blutig Pfeffer, que acorda dum coma com a memória comprometida. Ela é uma jovem mulher independente e durona, mas que carrega uma forte angústia. O conflito principal da história é a busca de Pfeffer pela verdade escondida em seu passado; uma jornada de autoconhecimento.

Teve gente que reclamou do nome Blutig Pfeffer, que não é nada além de "bloody pepper" em alemão. Estrangeirismo em inglês a galera aceita bem, mas em outras línguas sempre rola um estresse. Fora que existem razões para que ela tenha esse nome, não é um reles capricho da autora. Mas enfim, desabafo feito, vamos em frente.

A história mistura elementos fantásticos com ação e romance. Os elementos eróticos ficam por conta dos paqueras de Pfeffer: o misterioso vampiro Hades e seu chefe Ricardo. Nenhum deles é perfeito, mas Pfeffer também não é, como as pessoas do mundo não são.

No início de 2011, quando a primeira versão ficou pronta, eu optei pelo serviço de autopublicação do Clube de Autores, site pioneiro em colocar livros virtuais a venda para serem impressos sob demanda no Brasil.

Alex fazendo divulgação de "Doce Ardor"
A ideia foi muito legal em teoria, mas o livro físico ficava muito caro lá. Fora que a qualidade de impressão não era das melhores. Com isso, ficou difícil vender os livros, e a publicação lá funcionou melhor para eu mesma comprar unidades, revisar e ceder para parceria e resenhas.

O legal é que mesmo aquela edição inicial cheia de erros agradou muita gente. A maioria das pessoas que leram, mulheres e homens de várias faixas etárias, gostaram. Foram publicadas várias resenhas positivas, as quais compartilho nos links a seguir:

Vicky Doretto
Joe Silva
Carla Ferreira
Débora e Alessandra
Mariana Dal Chico
Mayara Braga
Renato Klisman
Bih Lima

Apesar disso, não consegui publicar por nenhuma editora. Até recebi alguns contatos, mas nenhum resultou em publicação, infelizmente. O mercado editorial brasileiro é profundamente assustado. O medo de arriscar prejuízos é muito grande, e a maioria das editoras acaba apostando em títulos já bem sucedidos no exterior, principalmente nos EUA. A principal atividade das editoras brasileiras é comprar direitos de publicação de livros gringos e só se preocupar com a tradução.

No Brasil, ver TV é a atividade preferida - fonte Prolivro 
Existem várias razões que levam a esse fenômeno grotesco. Para explicar, é preciso falar do mercado editorial dos EUA. Lá são publicados livros sobre tudo, o que leva a saturação. O público tem maior hábito de leitura (tem caído, chegando a cinco livros por ano em média). No Brasil, o número médio de livros lidos por ano ficou em torno de quatro em pesquisa feita em 2011. Mas a diferença mais gritante está nos números de quem não leu nenhum livro no ano anterior. Nos EUA esse número ficou em torno de 23% em 2014, mas no Brasil chegou a 70%.

Infelizmente, a cultura brasileira é predominantemente audiovisual; a maioria dos entrevistados na última pesquisa Prolivro apontou ver TV como a atividade mais prazerosa.


Mas existem outras questões, como o preço do livro, por exemplo. Os custos de produção são elevados no Brasil, em parte devido à forma como os impostos são aplicados. Além disso, nos EUA existe um processo de barateamento dos livros após cerca de um ano do lançamento, com a impressão na modalidade brochura, de papel mais barato.


A última remessa
O que nos leva a minha situação atual. Uma colega sugeriu que eu publicasse "Doce Ardor" na loja da Amazon, e devo dizer que a experiência tem sido boa. Mesmo sendo impresso nos EUA, o livro acaba saindo mais barato, e a qualidade de impressão é muito melhor. E ainda tem versão para Kindle disponível, por apenas R$6,43.

Há alguns dias chegou o último lote que comprei. Minha intenção é disponibilizar para algumas das pessoas lindas que apoiam meu ativismo.
Quem adquirir vai receber uma unidade de Doce Ardor com dedicatória personalizada. São poucas unidades, que estou vendendo pelo valor promocional R$45,00 com frete incluso.

Não é fácil dedicar tempo para manter um blog e um vlog só por ideologia, mas as mensagens das (muitas) pessoas que já ajudei me ajudam a continuar. Só que só as mensagens não pagam as contas... Por isso fiz esta postagem. Eu poderia estar roubando, mas não. Estou aqui tentando vender meus livros no blog. Quem tiver interesse pode entrar em contato pelo e-mail pattykirsche@gmail.com.

domingo, 24 de maio de 2015

Um abusivo sanguessuga

Há alguns dias, recebi uma mensagem da B. contando sobre a triste experiência que teve com um homem abusivo. Ele dizia ser bissexual com preferência maior por homens, mas eu acabei concluindo que se tratava dum gay enrustido. 

Uma das principais razões pelas quais mulheres entram em contato comigo é para tirar dúvidas sobre homens abusivos. Eu sempre peço que elas escrevam suas histórias para auxiliar no processo de cura e ajudar outras mulheres. Inclusive já publiquei outro guest post nesse estilo este mês.    

Compartilho agora o guest post da B.

A primeira vez que eu o vi foi em cena. “Que ator talentoso!", pensei. Acabei passando no mesmo ano na mesma faculdade de artes cênicas em que ele estudava, e, no início das aulas no ano seguinte, ele veio me dizer o quanto eu era linda. Depois de alguns dias, nos encontramos numa festa de calouros e fiquei com ele; apenas um beijo. No dia seguinte, ele veio falar que adorou nossa química e esperava repetir aquilo de novo.

Perguntei se ele era gay, pois a maioria dos meninos na faculdade eram. Ele respondeu que não, mas depois disse que já tinha ficado com meninos, dizendo que era “normal, né”. E, sinceramente, para mim realmente poderia ser normal, pois eu mesma sou bissexual e já namorei mulheres, inclusive. Ficamos nesse flerte e sorrisos por alguns meses e, depois nos esquecemos entre todos aqueles alunos, até o início do segundo semestre, quando nos encontramos em uma peça de teatro e começamos a conversar mais profundamente. Apesar da diferença de 8 anos de idade entre nós (ele 24 e eu 32), ele era muito inteligente, e sua prosódia era encantadora!

Começamos a ficar; foi gostoso, apesar de nunca esquentarmos muito. Uma vez, ele me disse que minha boca tinha o cheiro da boca da mãe dele, e isso afastava um pouco a vontade de me beijar. Conforme fomos nos conhecendo, eu aprendi mais sobre a complexidade dele. A primeira era em relação ao sexo, pois, aos 24 anos, ele ainda não tinha transado com uma mulher; apenas com homens.

Transamos a primeira vez depois de dois meses de namoro. O temperamento controlador de início foi ficando mais agressivo conforme o tempo passava. Ele começou a pedir para dirigir meu carro, e fui deixando. Qualquer “cuidado!” que eu gritava era motivo de um escândalo e murros no painel.

Primeiro foi na direção; depois, quando começamos a tentar transar, foi no sexo. Ele se irritava quando eu fazia alguma "cara". Foi difícil acertar o que fazer, até o momento em que eu tinha que ficar quieta e dura, sem expressão nenhuma, para ele conseguir transar comigo. Ele percebeu que sentia mais tesão quando me beliscava ou me batia, e, como eu queria que ele me desejasse, acabei permitindo.

Só que, de alguma forma, aquela agressão no sexo foi passando a existir no nosso cotidiano, nas coisas mais simples. Passamos por essa fase de tentar transar, pois ele foi perdendo o interesse. Segundo ele, eu queria gozar mais de uma vez e insistia em fazer "cara de vagabunda" (juro que não fazia mais nenhuma expressão, ficava quase impassível).

Vocês não imaginam a vontade que eu sentia de transar com ele. Eu o abraçava forte algumas vezes, e isso o deixava irritado. Muitas vezes, ele me mandou deitar na outra cama, pois eu não estava "merecendo" estar ali já que não sabia me controlar. Já não transávamos mais, e ele nem me beijava; eu me contentava com o abraço na hora de dormir.

Nessa época, ele passou a ficar arisco com o celular, escondendo muito e constantemente irritado e agressivo comigo. No penúltimo dia do ano, íamos passar a virada juntos, e ele estava tão compenetrado no celular, enquanto conversávamos inclusive, que acabei esperando ele dormir e mexi no celular dele.

O que eu encontrei foi muito dolorido: vários aplicativos de encontros gays e muitas conversas no whatsapp com homens, inclusive marcando de transar, ou revelando como foi a transa. Não aguentei e o acordei, mas nesse dia eu senti medo de verdade. Ele já tinha feito várias coisas; quebrado vários objetos, inclusive equipamentos eletrônicos bem caros meus, mas, nesse dia, achei que ele fosse me matar.

Eram quatro da manhã, e fui levá-lo para sua casa. Ele insistiu que iria dirigindo; a esta altura eu não tinha mais nenhum poder sobre meu carro. Ficamos uma semana sem conversar, mas eu não conseguia ficar longe dele e mandei um e-mail pedindo desculpas por invadir sua privacidade e prometendo que isso jamais aconteceria novamente. Acabamos voltando, e ele voltou a ser mais carinhoso e sentir mais tesão comigo.

Ele era bem pão duro apesar do bom salário, mas, logo depois que voltamos, ele saiu do emprego. Quem passou a sustentá-lo fui eu, e isso foi se tornando natural para ele, que foi ficando bem folgado. Ele ainda ficava bravo quando eu não pagava algo ou falava que precisávamos cortar despesas, tipo comer fora.

Era estranho, pois apesar de estarmos mais próximos, eu tinha virado uma uva passa. Muitos amigos me
diziam que eu tinha perdido o brilho, e eu sentia isso também. Eu o servia o tempo todo; cozinhava, arrumava a casa dele, lavava louça, enquanto ele ficava deitado jogando vídeo-game. Eu não sei por que eu estava feliz em cuidar dele.

Vocês podem imaginar como eu fiquei quando ele voltou a ficar com vontade de sair com homens de novo, né? Pois ele ficou... Tenho impressão de que, junto com o tesão de sair com homens, veio mais agressividade. E passei por maus bocados novamente; cheguei a filmar uma destas explosões de ódio dele, mas apaguei com medo de que ele achasse. Ele sempre olhava meu celular, então em nunca falava com ninguém sobre ele. Mesmo porque, em muitos momentos, ele era um homem maravilhoso, querido, amigo, engraçado... E era assim que todos o viam; eu não me sentia no direito de deixar as pessoas saberem como ele era na intimidade.

Pela primeira vez, pedi um tempo. Percebi que eu tinha começado a ficar louca como ele, pois havia perdido o centro; comecei a gritar e responder. Ele não chegou a bater forte ou dar tapas, mas ele me segurava e empurrava. Eu vivia com os braços roxos e cara de doida. Quando eu estava sozinha, comecei a brigar no transito, a ser mais grossa com as pessoas. Uma amiga disse que eu estava perdendo a doçura e a meiguice que sempre tivera.

Mas, novamente, não aguentei ficar longe dele e não segurei minha decisão de dar um tempo. Fui atrás dele de novo, mas ele não quer, por enquanto. Ele me culpa por não ter tido paciência; diz que naquele momento estava mais próximo de mim e logo voltaria a sentir vontade de transar comigo.

Pior que estou realmente me sentindo culpada por esta tristeza toda, pois talvez ele nunca mude, mas imagino que talvez ele fosse mudar e eu tenha me adiantado. Não sei o que pensar na verdade; só sei que estou há um mês sem ele e planejando uma viajem para melhorar a cabeça. Engordei muito neste último mês e só choro; até atrasei a entrega de trabalhos.

Estou muito triste, com uma grande sensação de incapacidade. Fora que a autoestima desapareceu. Acho que vou ficar dois meses num spa e vender o carro (detalhe, ele me deixou 2 mil reais em multas).

Eu quis compartilhar minha história pois sei que pode ajudar alguém. Não fiquem com homens que não sabem quem são. Participar da auto descoberta de alguém pode ser muito dolorido. 

Minha resposta:

Puxa, que história triste, B. Não volte com ele de jeito nenhum. Esse homem não gosta de você. 

Quanto ao seu questionamento, eu digo que ele não vai mudar. Por várias razões.

a) Ele é gay, o que significa que, via de regra, ele não sente atração sexual por mulheres. 

Acredito que ele mesmo se rejeite. Na nossa cultura, a construção social da masculinidade depende muito da heterossexualidade. Então, o homem que não é hétero se sente menos homem. Infelizmente, é muito comum que gays enrustidos se relacionem com mulheres para se sentirem mais "homens";

b) Ele é misógino, portanto sente prazer em maltratar e explorar mulheres;

c) Ele é abusivo, logo agressivo com parceiras;



d) Ele é uma pessoa visivelmente sem empatia, talvez até um psicopata. É muito comum que psicopatas sejam carismáticos.

O sujeito ter coragem de dirigir seu carro, pegar multa e deixar para você pagar... Quer dizer, ele faz o que quer e não está nem aí. Você poderia até processá-lo judicialmente para que ele pagasse.
A verdade é que você era um objeto para ele, que ele sugou de todas as formas possíveis. Usou sua presença como namorada para se fantasiar de bi, usou seus bens materiais, explorou sua força de trabalho e ainda satisfez suas pulsões sádicas cometendo violência psicológica contra você. 

Agora é momento de cuidar de si mesma. Sua autoestima está baixa agora, mas vai melhorar. Você só voltou com ele tantas vezes apesar de tudo porque você não se considera merecedora de ser feliz de verdade. Foi se esforçando para agradar um homem que nunca estava satisfeito com nada a troco de migalhas, praticamente implorando para que um homem que não sente atração por você use seu corpo. Afinal, você sentia prazer se esforçando para ficar parada e inexpressiva durante a relação sexual?   

Ele era profundamente cruel com você. E em algum momento você não vai entender como aguentou tanto desaforo. 

Boa sorte. 

domingo, 17 de maio de 2015

Viajando para abortar - Cidade do México

A Cidade do México é o distrito federal do México que, a exemplo dos EUA, permite diferenças de leis entre seus estados. Seguindo esta linha, o aborto ainda não foi descriminalizado no México inteiro, apenas na capital.

O México acaba sendo uma boa opção para interromper gestações porque:

a) Brasileiras não precisam de visto, apenas de um passaporte válido;
b) O procedimento é barato; cerca de R$500,00 fora a anestesia;
c) O prazo é de 16 semanas de gestação;
d) É uma viagem relativamente barata, tanto no que se refere às passagens como hospedagem;
e) Espanhol, o idioma oficial do México, é semelhante ao português, o que pode ajudar na comunicação de quem não fala outras línguas;
f) Diversos sites divulgam informações sobre clínicas.

Várias companhias, entre elas Tam e Avianca, operam voos diretos ou com escalas em Bogotá, Lima e Cidade do Panamá partindo de São Paulo e Rio na faixa de US$500,00 (simulação em junho de 2015). É preciso tomar cuidado com a necessidade de tomar vacina contra a febre amarela caso o voo tenha escala na Colômbia ou no Peru. Para escalas nos EUA, é preciso visto de trânsito. Como vistos para os EUA demoram algum tempo, voos com escala no país não são uma boa ideia para quem não tem.

Dicas para não ser apanhada de surpresa:

a) Ter sempre um passaporte válido;
b) Ter o certificado de vacinação contra febre amarela (emitido a partir de dez dias após a aplicação da vacina);
c) Se possível, obter um visto para os EUA;
d) Reservar sempre uma poupança para emergências.