domingo, 19 de abril de 2015

Sobre mulheres rachando a conta

Muito se fala sobre o quanto mulheres procuram homens bem sucedidos, que têm carro, que podem pagar uma conta de restaurante. O que raramente se fala é nos processos sociais que mantêm as mulheres em situação de fragilidade e insegurança.

Há alguns dias li um excelente texto que falava sobre os riscos que uma mulher corre ao andar sozinha à noite. Não tem como negar que, por mais que homens também sejam vítimas de violência, o nível de crueldade dos crimes cometidos contra mulheres é sempre maior.

O pessoal adora mencionar o Champinha para argumentar a favor da redução da maioridade penal, mas acho que nunca vi alguma reflexão sobre o fator misógino no crime cometido por ele. O sujeito sequestra um casal, mata o homem com um tiro na cabeça, mas mantém a moça como escrava sexual por cinco dias até decidir matá-la a facadas. Sério que ninguém percebeu a diferença na brutalidade empregada contra as duas vítimas?

Eu sei que é muito pesado falar nisso. Mas a verdade é que o mundo está cheio de predadores de mulheres. Homens misóginos, que acham divertido torturar mulheres, que sentem especial satisfação com o sofrimento feminino.  

Homem, acompanhe as mulheres, principalmente à noite e de madrugada. Se tiver carro, o ideal é levá-la
em casa. Se não, acompanhar até o estacionamento, ponto de ônibus, táxi ou metrô é sempre uma boa ideia. Você nunca sabe quando uma mulher que você ama pode ser vítima dum crime brutal e, acredite, os predadores estão sempre de olho.

Quando compartilhei o texto da Iara, mencionei que minha opinião sobre mulheres rachando a conta com homens seguia a mesma linha dessa questão. Muita gente não entendeu a relação que estabeleci, por isso resolvi escrever um texto esclarecendo.

Mulheres trabalham mais e ganham menos no mundo todo. Segundo a última estimativa da UN Women, mulheres são responsáveis por 66% do trabalho do mundo, mas recebem apenas 10% da receita e têm apenas 1%  das propriedades. Ou seja, nós somos uma classe cuja mão de obra é explorada.

maioria dos homens acredita que a mulher deve ser responsável pelos afazeres domésticos, incluindo cuidar de crianças. No Brasil, o salário de homens é em média 30% mais alto, e eles também têm mais chances de chegar a cargos de poder. Mesmo assim, tem gente defendendo que a mulher deve rachar a conta de restaurante e motel meio a meio. E eu não vejo como isso pode ser libertador.

Sabe, se eu fosse rica e estivesse namorando um estoquista de supermercado, não ia fazer questão de rachar a conta com ele só porque isso é o "certo". Mas homens acham perfeitamente normal rachar a conta com mulheres que ganham às vezes menos que 1/4 do salário deles. E ainda querem que elas façam o serviço doméstico sozinhas.

O que eu quero dizer é que mulheres não ganham menos porque querem, do mesmo jeito que não são alvos de violência cruel porque querem. É claro que existem mulheres que têm medo de dirigir e coisas do tipo, mas tenho certeza de que qualquer pessoa vai preferir ser independente se tiver condições. Nós feministas, muitas vezes, temos uma tendência a buscar essa independência de forma bastante contundente. Mas nós temos que lembrar sempre que nós não estamos seguras na rua à noite por causa duma doença social chamada misoginia, e não porque somos frágeis e covardes. Do mesmo jeito que não temos tantos recursos financeiros para pagar metade duma conta porque nossa força de trabalho é menos valorizada, e não porque somos vagabundas interesseiras. Nós não estamos em condição de igualdade na sociedade, e não vai ser pagar metade da conta do motel que vai impedir o homem de publicar o vídeo íntimo na internet quando quiser se vingar.  

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Viajando para abortar na América - Aruba e Curaçao



Em meu último texto da série "Viajando para abortar", eu falei sobre a Guiana, onde o aborto é barato e legal até a 12ª semana de gestação. Para viajar para a Guiana, brasileiras precisam dum passaporte válido (fica pronto em até seis dias úteis) e de certificado internacional de vacinação contra a febre amarela. Lista de postos onde tomar a vacina em São Paulo aqui. A vacina é válida por dez anos.

Contudo, para um certo número de mulheres o prazo de 12 semanas é insuficiente. Muitas coisas podem acontecer, como a mulher se descobrir infectada com HIV ao longo da gestação, ou não perceber que está grávida porque menstruou normalmente.


Nesses casos, perto da Venezuela há dois pedacinhos de Holanda. Aruba e Curaçao são países pertencentes ao Reino dos Países Baixos, sendo assim, a legislação com relação à interrupção voluntária da gravidez é a mesma da Holanda, onde é permitida até a 24ª semana de gestação. Falo em interrupção voluntária da gravidez (IVG) aqui pois, tecnicamente, o termo aborto se refere a interrupções realizadas até a 20ª semana de gestação. 


Os idiomas falados em Aruba e Curaçao são Holandês e Papiamento (língua crioula com base no português), mas é possível a comunicação em inglês. Brasileiras não precisam de visto para entrar nesses países. 


Segundo a última informação que tenho, os preços do procedimento nesses países estão a partir de 300 euros (cerca de R$950 reais). Quanto maior o tempo de gestação, maior o valor. Em alguns casos há ajuda financeira.


Aruba


Indicação de clínica em Oranjestad, capital de Aruba:


Dr. Horacio E. Oduber Hospitaal

Dr. Horacio E. Oduber Boulevard # 1 - Oranjestad, Aruba
Tel.: 00 XX 297 527 4000
Email: c.huntington@arubahospital.com - Site: http://www.arubahospital.com

A Avianca opera voos de São Paulo (Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos) a Oranjestad (Aeroporto Internacional Rainha Beatriz) GRU - AUA (ida e volta por cerca de R$2.600,00 com simulação em março de 2015) com escala em Bogotá (Colômbia). Não precisa de visto para essa escala. Deve-se tomar cuidado com voos com escala nos EUA porque nesse caso é preciso visto para o trânsito.


Curaçao


Se precisar de uma indicação em Curaçao, entre em contato com a organização Women on Waves.


A Avianca opera voos GRU - CUR (ida e volta por cerca de R$1.800,00 com simulação em março de 2015) com escala em Bogotá (Colômbia). Brasileiras não precisam de visto para viajar para Aruba ou Curaçao, apenas de passaporte válido e certificado internacional de vacinação contra a febre amarela (emitido a partir de 10 dias após a vacinação) caso o voo faça escala em países que o exigem. De Manaus há voos com escala na Cidade do Panamá.


O orçamento estimado incluindo passagem aérea e procedimento fica em torno de R$2750,00 para Curaçao e R$3550,00 para Aruba. Claro que ainda há despesas com táxi, alimentação e hospedagem, mas tudo depende do tempo de estadia. Muita gente pode achar esses valores elevados, mas não custa lembrar que no Brasil um aborto clandestino, feito por criminosos que querem se aproveitar da legislação arcaica, pode chegar a R$7 mil (quem será que se beneficia com a criminalização do aborto, né?). Recentemente tivemos a notícia duma moça que morreu no Rio num aborto inseguro, e ela havia pago R$4.500,00 pelo procedimento. Eu realmente acredito que vale mais a pena investir numa viagem para fazer o procedimento com segurança do que cair nas mãos de criminosos e sofrer tantos riscos.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Uma terrível história de "manspreading"

Toda mulher tem uma ideia do quanto é desagradável sentar ao lado de homem com as pernas abertas. Eles podem ser encontrados em qualquer lugar onde haja homens sentados: salas de espera, bancos públicos; mas o lugar onde certamente os encontraremos é no transporte coletivo.

Pouco tempo após ter começado a andar de ônibus sozinha na adolescência, comecei a topar com esses homens em trabalho de parto. Aquilo já me incomodava muito, mas o que eu não sabia é que essa postura espaçosa tem a ver com privilégio masculino

Campanha do metrô de Nova Iorque
Acontece que, no reino animal, aquele que quer exercer dominância procura ocupar mais espaço. Espaço físico mesmo; o animal se estica, se abre, se esparrama. Essa linguagem corporal está relacionada à postura psíquica de dominância, o que, como sabemos, faz parte da socialização dos machos humanos.

Dentre os muitos momentos desagradáveis que já vivi por conta do manspreading, o mais marcante
aconteceu comigo há alguns anos. Era sábado à tarde, e eu voltava duma aula de francês na USP. O ônibus subia a Teodoro Sampaio, e eu já suportava um homem grande roçando minha perna havia algum tempo, quando resolvi sair do lado dele e tomar outro assento. Como havia um espaço vago na frente, eu me sentei ali mesmo. Qual minha surpresa ao ouvir o sujeito sussurrar: "Racista, deveria ser esfaqueada. Some de perto de mim".

Eu nem havia reparado que o elemento era negro. Mas foi mais fácil pra ele pensar que eu estava incomodada com a cor de sua pele que com seu privilégio masculino. O absurdo da violência contra a mulher é a naturalidade com a qual ela se dá. O desgraçado me ameaçou, injuriou e caluniou dentro dum ônibus porque eu ousei não aceitar a postura de dominância dele passivamente.

Infelizmente esse é apenas um exemplo de como homens se apropriam do espaço público e o tornam desconfortável para as mulheres. O assédio de rua e a constante possibilidade de estupro são alguns exemplos de outros atos violentos que nos restringem. É importante que estejamos sempre cientes das questões de gênero envolvidas nos momentos mais prosaicos do cotidiano, pois, como disse Gloria Steinem: "A verdade vai te libertar. Mas antes vai te irritar".   


sábado, 27 de dezembro de 2014

Série de vídeos sobre métodos contraceptivos

Publiquei no vlog uma série de vídeos sobre métodos contraceptivos, inclusive contracepção de emergência.

No vídeo sobre preservativo masculino, falo sobre o mito de que usar camisinha protege completamente contra doenças sexualmente transmissíveis:



No vídeo sobre pílula anticoncepcional, falo sobre formas de se evitar falhas na contracepção:


No vídeo sobre DIU, falo sobre os detalhes de funcionamento e os riscos de gravidez ectópica. Uma coisa que me esqueci de mencionar é que o DIU de cobre é a melhor opção de contraceptivo de emergência para mulheres obesas com IMC acima de 30, pois a probabilidade de falha da pílula do dia seguinte nesse caso aumenta cerca de 4 vezes.


Fecho a série com o vídeo sobre a pílula do dia seguinte, no qual detalho a forma de utilização e o mecanismo de funcionamento.


domingo, 14 de dezembro de 2014

O misógino profissional e liberdade de expressão

Há cerca de um mês, falávamos sobre um misógino profissional que pretendia vir ao Brasil para doutrinar outros misóginos. O sujeito, Julien Blanc, ensinava basicamente técnicas para manter mulheres em situação de abuso; ler as ilustrações explicativas dele é como ler uma tabela de como reconhecer relacionamentos abusivos.

Imagem postada por Julien como guia para manter uma mulher no relacionamento
A imagem ao lado, postada por Julien no Instagram e compartilhada no Twitter, foi chamada de "checklist". O círculo rodeado pelas palavras "Física Violência Sexual" abriga no centro "Poder e Controle", o que deixa bastante explícito que ele estava perfeitamente ciente de que ensinava seus abjetos seguidores a cometerem violência de gênero.

Deixo a tradução completa abaixo a título de explicação (sentido horário):



Use intimidação

  • Deixe-a com medo
  • Destrua coisas
  • Mostre armas
  • Destrua propriedade
  • Abuse de animais

 Use abuso emocional

  • Deixe-a triste
  • Faça-a sentir-se mal e culpada
  • Chame-a por insultos
  • Humilhe-a
  • Faça-a pensar que está louca
  • Jogue jogos mentais

Use isolamento

  • Controle o que ela faz, com quem ela sai ou conversa, o que ela lê, onde ela vai
  • Limite os envolvimentos externos dela
  • Use ciúme para justificar suas ações

 Negue, culpe e minimize

  • Faça pouco do abuso
  • Não leve as preocupações dela a sério
  • Diga que o abuso nunca aconteceu
  • Mude a responsabilidade (para ela)
  • Diga que foi ela que causou 

Use crianças

  • Faça com que ela se sinta culpada pelas crianças
  • Use as crianças para mandar mensagens
  • Use visitação para assediá-la
  • Ameace levar as crianças embora 

Use privilégio masculino

  • Seja quem define os papeis masculinos e femininos
  • Tome todas as decisões importantes
  • Trate-a como empregada
  • Aja como o senhor do castelo


Use abuso econômico

  • Impeça que ela consiga um emprego
  • Faça-a pedir dinheiro
  • Dê-lhe uma mesada
  • Não permita que ela tenha acesso ao orçamento familiar
  • Tire o dinheiro dela

Use coerção e ameaças

  • Ameace machucá-la
  • Faça-a  retirar acusações
  • Induza-a a fazer coisas ilegais
  • Ameace abandoná-la, suicidar-se, denunciá-la para o serviço social 

Eu não vou analisar cada item dessa lista neste texto, pois pretendo fazer isso em outra oportunidade. Mas já aviso que se você conhecer um homem que apresenta alguma das condutas apresentadas nessa lista, é melhor se afastar dele. Porque isso é basicamente um guia de como ser um parceiro abusivo.  


Muita gente ficou indignada (com razão) e resolveu lutar contra a atividade econômica que esse sujeito exercia, que vem a ser uma mistura de apologia de crime com discurso de ódio. O Brasil foi só um dos países que negou visto ao elemento em questão.

Teve gente que foi contra essas ações com base em "direito" a liberdade de expressão. A esse respeito, digo que as  pessoas têm liberdade de expressão, mas podem e devem ser responsabilizadas por crimes de discurso. Exercer liberdade de expressão inclui ser responsável pelos efeitos do discurso proferido. E de mais a mais, nós temos o direito de boicotar um homem que fez carreira ensinando outros homens a abusar de mulheres.

Acho que o episódio mais bizarro que testemunhei sobre esse assunto rolou na universidade. Um colega de classe disse em plena aula sobre estigmas sociais que foi contra o veto a seu visto, mas não teve muito espaço para argumentar. Ninguém na sala concordou com ele. Sabe quando todo mundo faz: "naaaaaaaaaooooooo"? Então...

A princípio ele chamou Julien Blanc de "paquerador", mas logo em seguida ouviu-se uma voz masculina se referindo a Julien como "o cara que ensina estupros", então o colega corrigiu para "assediador". A professora então se manifestou dizendo que pessoas são barradas em países pelos critérios mais arbitrários, e que Julien pode ser considerado um terrorista; logo sinalizar o passaporte dele é uma decisão diplomática.

Eu penso que não tem como defender a entrada de Julien no Brasil. Ele não vinha pra cá como turista; sua agenda estava oficialmente programada. Ele vinha com um propósito claro, que era cometer o crime no qual consistia seu trabalho. Certamente, se ele ensinasse gays a fazer coisas assim com homens hétero, meu colega de classe não estaria naquela tranquilidade.

sábado, 22 de novembro de 2014

Fetichismo Travéstico ou Homens que Usam Calcinha

Atendendo a pedidos, neste vídeo falo sobre homens que gostam de usar calcinhas e outras peças de roupa feminina, embora sua identidade de gênero continue masculina.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Visibilidade Bissexual

Minha contribuição (atrasada) para o 23 de setembro, dia da visibilidade bissexual



Neste vídeo, discuto sobre a definição de bissexualidade e esclareço alguns mitos. Aproveito para falar sobre transexualidade, pansexualidade e identidade de gênero.

Referência:

Clube de Compras Dallas (2013)
"Dallas Buyers Club" (original title)
Jean-Marc Vallée