quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Viajando para abortar na América do Sul - Guiana

Enquanto o governo brasileiro trata as brasileiras como chocadeiras, é preciso encontrar alternativas para se exercer o direito humano de abortar. Viajar para outro país mais desenvolvido (ou às vezes nem tanto...) onde o aborto é permitido por lei não é ilegal, embora seja caro.

Aqui na América do Sul há poucas alternativas. Isso porque, embora o Uruguai tenha legalizado o aborto a pedido até a 12ª semana de gestação, ele só pode ser feito por quem mora no Uruguai há pelo menos doze meses. Ou seja, o país cuidou de "suas" mulheres, mas não estendeu a ajuda às irmãs sul-americanas. As outras opções na América do Sul continental são a Guiana e a Guiana Francesa, que nem é um país, mas um território ultramarino francês. As ilhas Curaçao e Aruba, territórios pertencentes ao Reino dos Países Baixos, também são alternativas. 

A Guiana é um país que foi colônia do Reino Unido, portanto seu idioma oficial é o inglês. Algumas pessoas descrevem o sotaque de lá como semelhante ao jamaicano, mas eu não posso validar essa informação. Faz parte do Commonwealth, o que provavelmente explica a política no que se refere ao aborto, já que sua cultura é mais ligada à do Caribe. A parte mais urbanizada e povoada do país é o litoral, onde fica a única cidade grande, que é a capital Georgetown. Precisa tomar vacina contra a febre amarela pelo menos dez dias antes da viagem.

A principal vantagem é o aborto barato na Family Association of Guyana. A última informação que tenho é de que o aborto cirúrgico custa 35 euros (cerca de R$115,00), e, tanto o ultrassom como o aborto medicinal (com misoprostol), custam 15 euros (cerca de R$50,00).

Contato da Clínica Family Association of Guyana in Georgetown:
Telefone: 00 XX 592 225-4743
Endereço: 69 Croal Street, Georgetown, Guiana
Email: fpagrhc@gmail.com


As maiores desvantagens são acesso difícil e passagens caras. Destino de mochileiro(a), a Guiana é um país predominantemente dependente do setor primário. Com todo o respeito, devo admitir que é uma viagem para quem curte aventura. Na situação do abortamento, estamos falando duma mulher grávida que está correndo contra o relógio. Passar por uma viagem difícil e cansativa não me parece a melhor alternativa.

Outra coisa importante é que é um país bastante inseguro. Apesar dos baixos níveis de analfabetismo, há muitas queixas relacionadas a assaltos. O pior é que há relatos de estupros coletivos, portanto não é recomendado que mulheres viajem para lá desacompanhadas. Sem contar que, comparando com o Brasil, é particularmente revoltante que num país que criminaliza a relação homossexual entre homens e pune a prática de sodomia com prisão perpétua, o aborto seja legal a pedido até a 12ª semana de gestação. Mas enfim...

Quem mora na região norte leva vantagem. A companhia aérea Meta infelizmente não está mais em atividade, ela operava voos diretos de Boa Vista - RR para Georgetown. Atualmente, não há voos diretos do Brasil para Georgetown. Os voos com escalas são caros (cerca de R$4.100,00 a ida e volta), muitos deles passam pelos EUA. É preciso tomar cuidado com as escalas, pois para alguns países é preciso visto. Para escala no Panamá e Trinidad e Tobago não precisa.

É possível atravessar a fronteira de Bonfim- RR de táxi e chegar até a cidade de Lethem, de onde partem monomotores ou bimotores que levam para o aeroporto de Ogle, a apenas 9 km do centro de Georgetown. Essa é a forma que descrevo a seguir; mais barata, porém sofrida.

Como chegar a Georgetown:

1º - Chegar a Boa Vista em Roraima

Pegar um voo doméstico ou um ônibus. Voos de São Paulo pra Boa Vista variam entre R$1.000,00 e R$2.000,00 a ida e volta. Ou seja, caro bagarai.

2º - Chegar a Bonfim em Roraima

Ônibus da antiga Amatur fazem Boa Vista-Bonfim por R$13,00 (última informação).

3º -  Da fronteira a Lethem

Há táxis da fronteira até Lethem por R$ 20,00 ou G$ 2.000 (dolares guianenses) por pessoa. Atenção, melhor fazer câmbio em Boa Vista. 

4º - Pegar avião para Georgetown:

Melhor não ir de carro. A estrada é de terra na maior parte, não tem sinal pra celular e os serviços são escassos... É tipo filme de tragédia na floresta, sem brincadeira. Pra quem curte parar pra dormir em redes no meio do caminho, turismo de aventura e afins é um prato cheio. Mas não aconselho uma mulher numa situação delicada como essa a encarar de 12 a 36 horas de viagem numa van. E atenção, não coma palmito no meio da estrada nem beba água de lá. Leve suas garrafas de água mineral.

De avião o trecho é Lethem (LTM) - Ogle (OGL). Ida e volta pela Air Services Limited custa cerca de R$ 440,00. Pela TGA (Trans-Guyana Airways) fica cerca de R$ 600,00. Táxi para o centro de Georgetown sai cerca de R$20,00 (9km).

Orçamento total médio do transporte: R$2.126,00 por pessoa. Quem achou que é mais fácil ir para os States levanta a mão! \o/


A Guiana Francesa é um pedaço da França fazendo fronteira com o Amapá. Imagino que seja um lugar ótimo para se visitar a passeio, mas, para abortar, não creio que seja uma boa escolha. Acho até que é mais fácil ir para a França, pois a grande quantidade de brasileiros atravessando a fronteira procurando ganhar em Euro acarretou a exigência de visto, o que não é preciso em viagens para a França. Imagino que seja uma boa alternativa apenas para as moradoras do Amapá; talvez do Pará também, porque há voos internacionais que partem de Belém. Mas pretendo publicar outra postagem com todos os detalhes e valores dessa viagem.
  

Carta aberta para o Presidente José Mujica Cordano

Na América do Sul, o aborto é legal a pedido em apenas dois países: Uruguai e Guiana. Fora isso, temos os territórios autônomos Aruba e Curaçao, que fazem parte do Reino dos Países Baixos, logo a lei é holandesa (aborto legal a pedido até 24 semanas de gestação); e a Guiana Francesa, que é território ultramarino francês, logo a lei é francesa (aborto legal a pedido até 12 semanas de gestação). 

Das cinco opções anteriormente citadas, o Uruguai é o país de mais fácil acesso para as brasileiras. Se não fosse por um pequeno problema... O aborto só está disponível para as moradoras de lá, pois é pedido um comprovante de residência no país por pelo menos 12 meses antes do aborto. Legislação cuidadosamente projetada para evitar que estrangeiras procurassem os serviços uruguaios.

Pensando nisso, resolvi enviar uma mensagem para o Presidente do Uruguai José Mujica Cordano pedindo que ele considerasse revogar essa exigência. Imagino que se muita gente fizesse o mesmo, o Uruguai poderia mudar a política e conceder ajuda às companheiras sul-americanas. Segue a mensagem que mandei:

Português

Querido Pepe,

Meu nome é Patty, e eu sou brasileira. Tenho grande admiração pelo Uruguai e adoraria conhecer o país. Fiquei muito feliz com as políticas progressistas recentemente implementadas em seu governo, por isso tenho um apelo para fazer.

Estima-se que aqui no Brasil morram pelo menos 180 mulheres ao ano vítimas de abortos inseguros; sem contar as que sobrevivem com sequelas. A legislação é terrivelmente restritiva e prejudica principalmente as mulheres pobres, porque até o medicamento misoprostol foi proibido no país.

Fiquei muito triste ao saber que a legalização do aborto no Uruguai não beneficia as brasileiras. Atualmente Guiana e Guiana Francesa são os únicos destinos na América do Sul para onde brasileiras podem viajar quando precisam dum aborto, mas o acesso aos dois países é muito difícil. As passagens de avião são caras e cheias de escalas, e o acesso por via terrestre é muito sofrido.

Sendo assim, gostaria de pedir que fosse revogada a exigência de moradia no Uruguai há pelo menos 12 meses para a realização do aborto. Tal medida seria caridosa para com as irmãs sul-americanas. O acesso ao Uruguai é muito mais fácil e barato, o que poderia salvar vidas de muitas mulheres.

Abraços

Español

Querido Pepe,


Mi nombre es Patty y yo soy de Brasil. Tengo una gran admiración por Uruguay y me encantaría conocer el país. Me hice feliz con las políticas progresistas aplicadas recientemente en su gobierno, así que tengo que hacer una apelación.

Se estima que en Brasil, al menos 180 mujeres mueren anualmente víctimas por abortos inseguros; sin contar las que sobreviven con secuelas. La legislación es terriblemente restrictiva y afecta principalmente a las mujeres pobres, ya que hasta la droga misoprostol fue prohibida en el país.

Me entristeció saber que la legalización del aborto en Uruguay no beneficia a las brasileñas. Actualmente Guyana, Guayana Francesa, Curazao y Aruba son los únicos destinos en América del Sur donde brasileñas pueden viajar cuando hay necesidad de un aborto, pero el acceso a estos países es muy difícil. Los billetes de avión son caros, con muchas escalas y el acceso por tierra es muy sufrido.

Por lo tanto, quiero pedir que el requisito de residir en Uruguay durante al menos 12 meses para un aborto sea derogado. Tal medida sería caritativa con las hermanas de América del Sur. Acceso a Uruguay es mucho más fácil y más barato, lo que podría salvar la vida de muchas mujeres.

Abrazos

domingo, 17 de agosto de 2014

Comentando: atestado de "virgindade" e feminicídios em Goiânia

Neste vídeo comento dois eventos recentes: a exigência de atestado de "virgindade" para posse em cargo público e a onda de feminicídios em Goiânia - GO.

Devido à falta de tempo, acabei comentando em vídeo esses assuntos, que são bastante relevantes. 



terça-feira, 5 de agosto de 2014

O amigo dele está interessado em mim - Momento "Sex and the City"


Pode acontecer com todas nós. Um dia aquele cara do qual você gosta passa seu telefone para um amigo sem avisar nada. E quando o amigo dele liga convidando para um "date", você fica com cara de WTF?. É esse infortúnio que vou destrinchar neste texto.

Como eu já havia mencionado antes, homens não reagem bem a ciúme. Mas sentir ciúme dum amigo é algo que só os mais fortes aguentam. Isso porque, além da tendência a desvalorizar a mulher, homens também apresentam um sentimento de companheirismo muito grande com relação a seus amigOs.

Para a maioria dos homens, mulheres são itens colecionáveis e facilmente substituíveis. Lembra aquela propaganda horrível de Axe que falava sobre "acumular mulheres"? Então...

E como já dizia aquele misógino que tive a infelicidade de conhecer: "Jamais brigaria com um amigo por causa de mulher. Um amigo de verdade, é difícil achar. Mas mulher? Mulher a gente acha em qualquer lugar."

Ou seja, ao sentir medo de perder uma mulher para um amigo, a maioria dos homens prefere fingir que não se importa tanto com a mulher para manter a amizade do amigo.

Só que as coisas não são assim tão simples. Porque ele não vai querer ver o amigo dele feliz com você, isso seria muito incômodo. Então ele vai fingir que não se importa e cooperar com o amigo dele ao mesmo tempo em que sutilmente sabota o lance.

É ai que entra meu conselho: Nunca aceite sair com o tal amigo. E lá vai a dolorosa explicação.

O seu peguete vai te desrespeitar dando seu telefone para mostrar ao amigo que não se importa com você, mas também que você não merece a consideração de ele pedir permissão antes de fazer isso. E o amigo dele vai acreditar. Sabe por quê?

Porque existe um código não falado na cultura machista que diz que quando um homem desrespeita uma mulher, é porque ela não se "valorizou". Sim, eles culpam as mulheres pelo desrespeito que exercem contra elas. Então no momento em que o seu peguete banca o cafajeste e te trata mal na frente dos amigos, eles entendem que você é "dessas que não se dão ao respeito". E aí acabou qualquer chance de você ter um relacionamento com o amiguinho dele.

E o pior é que é até previsível.  Se você estiver numa festa ou qualquer evento social com aquele seu "special guy", e um dos amigos dele começar a demonstrar interesse por você, preste atenção aos seguintes sinais.

  • Ele vai disputar sua atenção com o amigo dele. O amigo vai tentando se aproximar de você, e ele vai demonstrando que tem prioridade de tratamento. Pode ser frisando que te conhece melhor e há mais tempo, esclarecendo que assunções a seu respeito estão incorretas. Ou demonstrando a intimidade que vocês já têm. Até então ele queria fingir que não havia nada entre vocês, mas assim que outro homem se interessou por você, ele começou a fazer questão de deixar claro que não é bem assim. 

  • Ele vai te provocar. Vai ser sutilmente grosso, vai desqualificar seu trabalho, vai reclamar do que você está fazendo. Sabe moleque de sexta série que enche seu saco pra o pessoal não sacar que ele gosta de você? Então. Homens fazem isso a vida inteira. Conheço homens com mais de 40 anos que agem exatamente assim.      

Depois dos momentos fatídicos há duas possibilidades. Uma é o amigo dele pedir seu telefone, e ele dar, como já foi mencionado. Aí é capaz de ele entrar em contato com você pra comentar que conversou com o amigo a seu respeito. Tudo pra deixar bem claro que ele realmente não se importa se você quiser ficar com o amigo dele, afinal, vocês não têm nada de especial. Mas com o objetivo oculto de te deixar bem irritada e te levar a desistir de sair com o cara. E é sempre bom lembrar que homens socializam através da sexualidade, o que explica estupros coletivos. Então é bem possível que eles tenham conversado sobre como você é na cama e outros tópicos igualmente repulsivos.

O amigo dele, por sua vez, nunca vai te tratar como uma candidata a namoro. Primeiro porque ele não é besta e sabe o que rola de verdade, então também vai escolher o amigo. Aí ele vai te chamar pra sair um dia, depois desaparecer porque apareceu outra mais interessante. E vai ser assim, sumir mesmo, sem nenhuma explicação. Vai te colocar na prateleira das disponíveis pra quando a necessidade apertar.  

A outra possibilidade é você nunca mais ouvir falar no sujeito, mas sentir que seu amigo com benefícios mudou com você. Isso porque ele ainda acha que se não fosse você ser tão assanhada, o amigo dele não teria dado em cima de você.


Difícil de ler esse texto, né? Eu sei que incomoda bastante saber de tudo isso. Mas a informação é a única arma para evitar o sofrimento. E se você reconheceu algumas das histórias, compartilhe sua experiência no comentário. Quanto mais preparadas, melhor.

Anatomia do ciúme masculino hétero (versão crua)

Aviso: Esta é uma análise do ciúme masculino dentro da cultura patriarcal. 

Acho que todo mundo já ouviu que homens têm ciúme se a mulher fizer sexo com outro homem, e mulheres têm ciúme se o homem se apaixonar por outra mulher. Vamos discutir isso um pouco?


Via de regra, homens não reagem bem a ciúme. Na infância, quando meninos são privados do aconchego materno para serem "machos", eles aprendem a desvalorizar as mulheres. Funciona assim: "eu sou superior porque tenho pênis, não preciso do carinho delas".

A maioria dos homens passa a vida inteira reeditando o desmame precoce com as outras mulheres. Esse sentimento associado à visão de mulheres como objetos sexuais tem efeitos devastadores. É o que leva homens a serem violentos com suas parceiras. O esquema é muito incômodo, mas fácil de entender:

Mulher é objeto ou animal doméstico. Homem precisa de uma para fazer serviço doméstico e satisfazê-lo sexualmente. Ela tem que ser bonita e jovem para servir de troféu a ser exibido a outros machos. Mas nenhum outro pode tocá-la, pois ela lhe pertence. Ela não pode engravidar de outro, pois ele não quer sustentar filhos dos outros. Ela não pode ser mais inteligente que ele porque deve depender dele intelectualmente. Ela não pode ter experiência sexual com outros parceiros para que não tenha condições de avaliar seu desempenho sexual. Ela deve conter seus desejos sexuais para ter valor, pois é como um carro: quanto menos usada, mais vale. Se ainda tiver o lacre, ou seja, o hímen, vale mais ainda. Se algum homem acredita que ela está interessada é porque ela deu a entender. Se algum homem a estupra, é porque ela deu sinais de que desejava, logo será culpada.

Com base na cartilhinha da misoginia, fica fácil entender o que se passa pela cabeça dum homem que agride ou mata a parceira por "ciúme". Na verdade, o que ele tem é uma raiva muito grande por estar sentindo mais uma vez o medo do desmame. Mais uma vez um desses seres de menos valor ousa rir dele. Esse animal que ele tem o direito de possuir não se comportou "direito", e agora ele vai se vingar.


É assim que funciona a mente de misóginos que saem por aí assassinando garotas, é assim que funciona a mente de homens que sequestram meninas e prendem num porão para estuprar sistematicamente, é assim que funciona a mente de cada parceiro abusivo, e é isso que fomenta o tráfico de mulheres.

O problema é que as pessoas não falam abertamente sobre o assunto. A sociedade gosta de fingir que quem comete crimes atrozes é uma maçã podre, alguém fora do padrão de normalidade. Mas a verdade é que nossa cultura molda os crimes que os patológicos resolvem cometer.

Ninguém se pergunta por que tantos psicopatas escolhem matar (e torturar) mulheres. Ninguém se pergunta por que nunca se ouve falar duma mulher que mantém rapazes no porão para estuprar, enquanto vira e mexe alguma moça escapa dum cativeiro de décadas. A verdade é que todo o tratamento depreciativo que mulheres recebem, desde as "piadas" de loira até estupros e assassinatos, se baseia nas ideias do trecho em itálico.  

Outra coisa, é importante mencionar os dois momentos em que mulheres mais correm risco de serem assassinadas por parceiros abusivos. O maior risco é quando encerram a relação, e, em segundo lugar, quando engravidam. O primeiro porque o sujeito não suporta a ideia de que a mulher possa se relacionar com outro homem, e o segundo porque o infeliz topa com a incerteza de a criança ser dele. Com isso, existe um índice muito grande de violência contra gestantes.  

sábado, 19 de julho de 2014

A invisibilidade do gênero feminino no Hopi Hari

Adoro parques temáticos. Apesar de ser meio medrosa, eu adorava o Playcenter e, hoje em dia, não perco uma chance de ir ao Hopi Hari. Minha última visita ao Hopi Hari aconteceu em julho do ano passado, no dia mais frio do ano. Por mais frustrante que pareça, eu não quis perder os passaportes já agendados e encarei o desafio.

Chegando lá, a permanência em ambientes externos estava uma verdadeira tortura. Entre ventos gelados e caridades surpreendentes, (Uma mulher deu para mim e minha irmã um par de Vip Pass quando aguardávamos o passeio na Vurang porque ela não ia usar. O lance foi tão improvável que me esqueci de agradecer...) acabamos indo ver o show do Looney Tunes. Dentro do teatro topamos com a surpresa de que muita gente doida havia levado crianças pequenas para passar frio no parque. Entre as crianças, muitas meninas. Mas olha só... Com sete personagens no palco, não havia nenhum feminino. 
Todo dia da semana, o humor é masculino

A peça contava a história dum diretor de cinema que tentava fazer um filme com seis personagens do Looney Tunes: Marvin, o Marciano, Patolino, Pernalonga, Piu-piu, Frajola e Taz
Olhando pelo lado bom, pelo menos o único personagem não animado era negro. Mas é impressionante que numa peça para crianças, com a plateia cheia de meninas, ninguém tenha pensado em colocar pelo menos uma mulher no palco. E nas páginas do Hopi Hari na internet, esse padrão se repete. 

É claro que isso é um problema da animação em geral. A maioria dos personagens são masculinos mesmo. Personagens femininos são protagonistas apenas em animações cujo público alvo é formado por meninas. Se a ideia é atingir crianças em geral, os personagens principais são masculinos.

Inclusive as heroínas ainda aparecem muito como um fetiche para os meninos. O que é mais preocupante é o quanto essa abordagem é normatizada. Eu me lembro de questionar isso quando era criança. Eu procurava por heroínas com as quais me identificar e topava com a dura realidade de que elas eram poucas. Em compensação, havia sempre mulheres como vilãs e "velhas chatas".

Falando um pouco sobre marketing, toda marca precisa definir dois pontos: segmentação e posicionamento. Simplificando muito, o posicionamento é a imagem da marca, e a segmentação constitui o público alvo da marca. O posicionamento de qualquer marca fica sempre atrelado ao público que atrai, razão pela qual várias marcas se esforçam para repelir um público que possa ter um impacto negativo. E quais são esses públicos? São públicos formados por grupos historicamente excluídos, claro. Gordos(as), negros(as), homossexuais, transexuais, pobres, mulheres...

Existem marcas de roupa que não oferecem números maiores porque não querem que suas roupas sejam usadas por pessoas gordas. E isso não é algo escondido, não. É assumido, sem nenhum constrangimento. É só começar a prestar atenção. A maior parte das capas de revistas e comerciais têm pessoas brancas porque o público alvo é geral. Se aparecer gente negra, boa parte do público branco não aceita porque entende que o produto é direcionado a negros. E acaba tendo um efeito negativo porque muitas pessoas não vão querer usar algo "de negro", por preconceito mesmo. 

Com produtos direcionados a mulheres acontece a mesma coisa. "Filme de menina", "livro de menina", "pornô de mamãe", "comida de mulher", "shopping de mulher", "rock que agrada menina" são algumas expressões que já ouvi para se desqualificar um produto. Até a expressão "carro de mulher" entra nesse grupo, não pelo estado de conservação como comumente é usada, mas com relação ao modelo mesmo.
 
Sobre o time de futebol masculino SPFC
Produtos direcionados a mulheres têm o inconveniente de serem mais rejeitados por homens do que a situação inversa. Acontece que na nossa cultura o homem se define como "não mulher", basta dizer que chamar um homem de mulher é entendido como ofensa.
 

Pegando carona nisso, já que marketing existe para vender produtos e não para resolver problemas sociais, o marketing de gênero é um artifício utilizado por empresas para lucrar mais. Ou seja, as empresas aproveitam a rejeição que produtos direcionados a mulheres enfrentam e lançam versões muito "masculinas" para que homens comprem. Isso funciona bem porque a misoginia estrutural é tão intensa que até meninas às vezes rejeitam produtos direcionados ao público feminino com receio de serem tachadas de frívolas.
Eu não vi nenhum problema em tirar foto ao lado do Batman no Hopi Hari

Voltando à questão do Hopi Hari, o que nós temos aqui é um parque direcionado ao público infantil, adolescente e jovem adulto de ambos os gêneros. Como meninas e mulheres não têm um problema de rejeição ao masculino, a fim de não arriscar a possibilidade de uma rejeição a elementos femininos, a empresa opta pela alternativa mais segura, que é evitar personagens femininos.

Tudo bem, para maximizar os lucros das empresas isso tem funcionado, mas não está na hora de pensar numa sociedade melhor? Não está na hora de cobrar personagens femininos interessantes para que meninas se identifiquem com eles? Não está na hora de levar meninas ao parque e ter a certeza de que elas também estarão representadas lá? A gente precisa superar essa imagem de meninas como princesas e mulheres como musas e inspirar ideais de protagonismo para o gênero feminino. Só assim a gente vai garantir um contexto social mais harmonioso para as futuras gerações.

domingo, 13 de julho de 2014

A fábula do grelo feliz

Originalmente postada 04 de Janeiro de 2009

Uma história sobre siririca e sexo oral

Era uma vez uma garota chamada Lili. Lili se masturbava todos os dias. Nenhum rapaz jamais a tocara, e ela tinha muita curiosidade a respeito de sexo. Ela não sabia como era uma relação sexual, nem sabia que o nome do que sentia era orgasmo. Acreditava ingenuamente que se sozinha era tão bom, acompanhada seria muito melhor.

O tempo foi passando, e a garota foi se tornando mulher. Os rapazes já estavam prestando atenção nela. Ansiosa por descobrir os milagres do amor físico, Lili começou a namorar Fefê.
Fefê era o rapaz mais bonito da escola;. Ele adorava exibir o amor de Lili para seus amigos, principalmente porque eles a desejavam.

Quando o casal adolescente resolveu começar a vida sexual, Lili estava muito animada. Contudo, ela não conheceu nenhum orgasmo na ocasião. Fefê sequer tocou seu clitóris ou sua vagina com os dedos. Apenas colocou a pontinha da língua, mas não do jeito certo. Como se o clitóris fosse um picolé gelado, ele fez movimentos rápidos parecendo língua de cascavel. Lili sentiu até um pouco de dor no momento da penetração, mas seu amado disse que era normal, e ela deveria agüentar. Ele gozou, mas ela não.

As relações sexuais foram acontecendo e nenhum orgasmo para a pobre Lili. Fefê, cada vez menos preocupado com ela, simplesmente se apoiava sobre seu corpo e a penetrava de uma vez, gozando 30 segundos depois. Infeliz, porém apaixonada, Lili dizia a Fefê que demorava pra gozar, mas ele nunca tomava uma atitude.

Um dia a moça, agora universitária, andava pela faculdade quando viu um rapaz tocando gaita. Ele tocava uma canção do Bob Dylan que Lili adorava. Os dois jovens começaram a conversar, e o desejo foi tomando conta de seus corpos. O músico então convidou Lili para conhecer seu apartamento, onde tinha outros instrumentos guardados.

Lili aceitou, e, embora ainda gostasse de Fefê, permitiu que o músico tocasse seu corpo como fazia com seu violão. Suas mãos habilmente tocaram o clitóris de Lili, que gemeu encantada em seus braços. Os encontros entre os dois se tornaram constantes, nos quais o músico também mergulhava a cabeça entre as pernas de Lili, proporcionando-lhe orgasmos intensos. 

Depois de um mês, Fefê foi dispensado. Com o orgulho ferido, descobriu que havia sido "traído" várias vezes por sua namorada. E ele acreditava que jamais a perderia, já que era tão bonito.

Moral da história: preocupação com o orgasmo da namorada evita o nascimento de chifres na testa dos rapazes.