terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Invasão sinistra

 Conto de terror sobre uma festa de formatura. Não recomendado para leitores com menos de 13 anos por conter cenas de violência, suspense e uso de bebidas alcoólicas.

Era verdade que eu estava apaixonada por Honey. E por algum milagre, era verdade que aquele rapaz alto, atlético e dono de profundos olhos verdes estava apaixonado por mim.
Nós nos conhecemos na formatura de minha irmã, ano passado. Eu não sabia nada sobre o amor até então. A festa já estava acabando, eram cinco horas da manhã e a banda já tinha ido embora. Um DJ tocava house e funk carioca para os sobreviventes. Eu era uma das poucas pessoas sóbrias na pista.
Ele se aproximou de mim com um refrigerante na mão; parecia ser abstêmio também. Chegou perto para ser ouvido em meio ao ensurdecedor som do salão e perguntou se eu gostaria de conversar com ele no jardim. Assustada com a proximidade de um moleque que provavelmente desejava beijar a décima quarta garota na festa, respondi que não podia deixar minha irmã sozinha, inclinando o queixo na direção de uma roda animada de garotas.
Não convencido pelo argumento ele respondeu: “Sua irmã não parece sozinha... Por que você não avisa que estará comigo no jardim e que voltaremos logo?”
Seus olhos mergulharam nos meus naquele momento e fui impelida a aceitar seu convite. Um pouco envergonhada, cutuquei minha irmã e praticamente gritei em sua orelha: “Vou buscar um refrigerante lá fora... Volto já!”
Ela simplesmente concordou com a cabeça e continuou pulando com os outros formandos.
Discretamente rumei em direção ao pátio externo, onde ficava o bar e o barulho era bem menor. Ele me seguiu e, longe da penumbra, esquadrinhamos nossos rostos pela primeira vez. Consegui então perceber que seus cabelos eram realmente escuros enquanto a brisa da madrugada bagunçava os fios.
Um pouco perdido ele perguntou se eu queria beber alguma coisa. Eu pedi um refrigerante e, com a garrafinha na mão, o acompanhei até o jardim. Havia um banco curiosamente ornado por um arranjo de bambus com trepadeiras em arco, onde nos sentamos.
“Meu nome é Honey, e o seu?” Ele começou.
“Blueberry.” Respondi.
Ele parecia nervoso, sorria e abaixava os olhos de tempos em tempos. Minha mão direita repousava em meu colo e, num desses desvios, foi captada por seu violento olhar.
“Unhas azuis?” Ele perguntou.
“Combinam com o vestido...” Respondi.
“E com seus cabelos cor de cobre...” Completou.
Meu coração batia forte. Parecia até que eu estava assustada com alguma coisa. E de fato eu estava. Não conhecia aquela sensação que tomava conta de meu peito. Parecia uma explosão interna, minha respiração estava quase ofegante, seu olhar continuava me perfurando...
Estava tão perdida nestas sensações que demorei alguns segundos até perceber as pessoas gritando num grande alvoroço de pânico generalizado. Num reflexo protetor, Honey colocou seu braço esquerdo sobre meus ombros enquanto tentava entender o que acontecia.
Os convidados corriam apavorados. Uma morena de vestido verde tropeçou, tendo inclusive quebrado o salto prata. Segurava uma carteira prateada na mão esquerda, que caiu em meus pés no momento do tombo.
Levei a carteira até ela enquanto Honey a ajudava a se levantar.
“O que está acontecendo?” Honey perguntou.
A jovem parecia descontrolada. Chorava e balbuciava palavras desconexas.
“Monstros... Invasão... Medo...“ 
Indiferente a nossa tentativa de oferecer ajuda, a morena saiu correndo em direção ao portão a exemplo da multidão. Ainda observava a confusão atônita quando Honey disse: “Será algum incêndio no salão?”
Na hora senti um calafrio percorrendo minha espinha. Minha irmã estava lá dentro! Levantei apavorada e ele imediatamente agarrou minha mão. “Tenha calma, Blueberry. Vamos resgatar sua irmã.”
Corremos para o salão contra o fluxo. Honey agarrou meu pulso esquerdo e não me deixou escapar apesar da multidão insana que nos pressionava.
No bar já era possível ver corpos espalhados pelo chão. Não estavam carbonizados como imaginávamos. Estavam cobertos por uma gosma amarelo-esverdeada, gelatinosa e translúcida.
Imediatamente entrei em pânico. Imaginei minha irmã envolta naquilo em algum canto do salão e comecei a tremer. Caí ajoelhada no chão e gritei seu nome: “Sweet!”
Honey se ajoelhou a meu lado e me abraçou. “Fique calma, vamos salvar Sweet...”
“E se ela já estiver morta?” Eu gritei em meio a soluços e lágrimas.
Um garçom retardatário gritou em nossa direção: “O salão foi trancado por fora! As criaturas estão lá dentro! Não abram! Fujam!”
Não havia ninguém vivo no bar além de nós dois. Três seguranças jaziam em frente à porta trancada e eu logo entendi. As pessoas apavoradas trancaram o salão e fugiram não se preocupando com os outros inocentes que morreriam lá dentro. E minha irmã estava lá com suas amigas! Eu deveria entrar lá imediatamente.
Irracionalmente corri para a porta e senti que Honey me segurava. Tentei soltar mas ele segurava firmemente.
“Estes corpos estão cobertos de bile.” Ele falou.
Continuei encarando em silêncio sem entender.
“Trata-se de um ataque de peixes fígados. Eles vivem na água doce, provavelmente vieram do lago atraídos pela multidão presente na festa. Entraram no salão porque é o lugar mais cheio, porém antes devoraram as vítimas ao longo do caminho.”
“Como você sabe sobre esta criatura?” Perguntei.
“Meu tio pescou um desses uma vez. Veio junto na rede. Criatura incrivelmente feroz e maligna. Sobrevive até doze horas fora d’água. Os humanos são sua principal fonte de nutrição.”
“E como podemos matá-los?”
“Eles não gostam de álcool. Podemos esfregar as bebidas no corpo para mantê-los afastados. Mas correremos forte perigo, porque a única forma de matá-los é ateando fogo diretamente a eles.” Ele concluiu com ar sério.
Então nós poderíamos matá-los. Mas não sem correr um elevado risco de morrer neste intento. O mesmo álcool que nos protegeria deles, nos tornaria vulneráveis às chamas que os queimariam.
Embora os riscos fossem grandes, sequer passava por minha cabeça ficar ali fora segura enquanto minha irmã poderia ser transformada em bile a qualquer momento dentro daquele salão.
Corri até o balcão do bar e virei a primeira garrafa de destilado que encontrei em meu lindo vestido azul. Tirei as sandálias douradas de salto fino e espalhei vodka desde os pés até as coxas. Depois espalhei a bebida pelos braços, pelo pescoço e pelo colo.
Honey veio comigo e tirou a gravata, mantendo apenas a camisa cujas mangas arregaçou. Pegou uma garrafa de uísque e virou sobre a cabeça deixando o líquido escorrer por todo seu corpo. Tirou os sapatos e as meias e espalhou a bebida abundantemente por seus pés.  
“Vamos entrar cautelosamente. Assim que encontrarmos os sobreviventes, vamos banhá-los em bebidas. Você sai com eles e eu ateio fogo ao salão.” Honey falou enquanto pegava um isqueiro perdido no chão, uma garrafa de tequila, e sua própria gravata embebida em álcool. Um estopim, imaginei.
Ele abriu a porta e entrou em minha frente. Logo senti o cheiro de morte. Sangue e bile tinham suas cores distorcidas pelas luzes coloridas da pista. Pilhas de corpos em belas roupas cobriam o assoalho.
Não precisei fazer grande esforço para encontrar as criaturas. Estavam acumuladas em torno de um grande círculo de fogo feito pelos sobreviventes. Minha irmã estava dentro dele, gritava apavorada ao lado de meia dúzia de pessoas. Alguém deve ter percebido que o fogo os afastava e fez este círculo. Felizmente havia uma abertura no teto, já que todas as janelas estavam fechadas. Caso contrário, todos já teriam morrido asfixiados.
Em volta do fogo os peixes fígados davam pulos de um metro de altura. Tentavam avançar através das labaredas, mas o calor os assustava mais que qualquer coisa.
Observando atentamente pude entender por que a criatura se chamava peixe fígado. Cada um deles tinha o formato de um fígado e até mesmo o aspecto lustroso na pele. Sua cor era uma nuance marrom amarelada, como uma mistura de bile e sangue. A boca tinha uma camada marfim enrugada que lembrava nódulos linfáticos. Era absurdamente nojento.
Um deles ainda devorava ferozmente o que restava de alguns corpos. Parecia roer, deixando cada ponto pelo qual passava sua boca, encharcado de bile. Evitava porém lamber a boca de quem havia bebido. Desta forma, os cadáveres deformados conservavam ainda a boca e pedaços de pele nos quais gotas de bebida por ventura tivessem escorrido.   
Assim que nos aproximamos da roda de fogo, as criaturas olharam para nós. Pularam em nossa direção, decididos a atacar. Sentindo o perigo iminente, gritei e abracei Honey. Ele encostou minha cabeça em seu peito enquanto fechei meus olhos. Esperei pelas dentadas e nada aconteceu.
Levantei a cabeça e percebi que os monstros pareciam bater numa parede invisível. Arregalei os olhos admirada.
“O álcool.” Honey explicou.
“Sweet! Estou aqui! Vou salvá-la!” Gritei, aliviada pela eficácia do repelente.
“Blueberry! Estamos morrendo de medo aqui!”  Ela respondeu.
“Passem a bebida no corpo e fiquem longe do fogo!” Honey gritou para os sobreviventes enquanto jogava a garrafa de tequila dentro do círculo.
Eu corri até as mesas e recolhi várias garrafas abandonadas. Era triste reparar nas pessoas mortas com as cabeças apoiadas nas mesas e os braços caídos. Mas eu precisava correr para salvar os poucos que restavam e a única maneira de encontrar forças era ignorar os cadáveres cobertos de muco.
Joguei algumas garrafas dentro da roda. Embora não entendessem a razão, as pessoas obedeceram a Honey. Esperamos até que todos estivessem totalmente encharcados de álcool.
“As criaturas não gostam de álcool. Eles não estão nos atacando porque estamos cobertos de bebidas também. Agora que vocês estão prontos, vamos apagar o fogo para que possam fugir.” Honey explicou.
Honey apanhou um paletó que descansava nos braços de uma cadeira e foi abafando o fogo do círculo. Conforme as chamas morriam, os peixes fígados avançavam no grupo. Algumas garotas começaram a gritar, se acalmando logo depois entretanto, quando perceberam a barreira invisível que as mantinha seguras.
“Leve as garotas embora. Espere lá fora enquanto eu ateio fogo ao salão com a ajuda dos rapazes.” Honey disse olhando para meus olhos.
Embora eu não conseguisse falar nada, ele deve ter percebido o pavor em meu olhar, porque continuou: “Não se preocupe, estamos protegidos pelo álcool. Teremos cuidado. Não podemos deixar os monstros vivos aqui, eles caçarão outros humanos.”
“Vamos, meninas. Os rapazes vão cuidar das criaturas.” Falei para as garotas. Elas hesitaram, mas vieram comigo.
Fora do salão, abracei minha irmã aliviada. Ela chorava muito, sequer conseguia falar.
Alguns minutos depois os rapazes deixaram o salão. As chamas se alastravam por todos os lados, a fumaça já começava a poluir o ar e precisávamos correr.
Honey foi o último a sair e me abraçou aliviado. Saímos correndo em direção ao portão ouvindo um ruído irritante e estridente. Eram os gemidos de dor dos peixes fígados. O cheiro que empestava o ar era horrível, azedo e repulsivo. Parecia cheiro de vômito.
Nós só podíamos correr daquele pesadelo o mais depressa possível. O alívio só chegou quando passamos pelo enorme portão preto da entrada. O dia já estava amanhecendo, o céu se tornava azul claro e o sol prometia um dia quente de verão.
Depois dessa tragédia nossas vidas voltaram ao normal. Comecei a namorar Honey. Apesar de termos nos conhecido de forma tão tempestuosa, nosso relacionamento é muito tranqüilo.
Agora, praticamente um ano depois estou me arrumando para minha formatura. Honey está na sala me aguardando.
Sweet não quer ir e tentou me convencer a faltar também. Ela ficou muito traumatizada, eu entendo perfeitamente. Foi uma experiência muito intensa para ela. 
Honey me convenceu sobre a importância de meu baile. Embora eu também guarde algum trauma e medo, reconheço a necessidade de lutar contra esta sensação o mais depressa possível. Afinal, não existe nenhum tipo de maldição que institua terror em formaturas. E esta será uma noite muito divertida.
Espero.

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