terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Trecho de Doce Ardor (primeira edição)

Finalmente, está liberado o primeiro trecho de meu livro "Pimenta e Cereja: Doce Ardor", que foi publicado dia 07 de janeiro de 2011! A história da obra já foi publicada aqui no blog. Adquira o livro aqui!

O texto a seguir contém violência, uso de drogas, diálogo maduro e insinuação sexual, não sendo recomendado para menores de 16 anos.    

Este é um trabalho de ficção. Todos os personagens, empresas e acontecimentos retratados neste texto são produtos da imaginação da autora, ou são usados de maneira ficcional.



Prólogo


Ser uma agente secreta não é nada fácil.
Neste momento, Blutig Pfeffer está com suas mãos algemadas à frente do corpo, sendo praticamente arrastada por dois enormes leões de chácara vestidos de preto para dentro de um bar secreto na alameda Lorena. Cada um deles tem uma das mãos agarrada a um de seus braços, e ela ainda não encontrou a tão aguardada brecha para escapar.
O bar fica escondido na edícula de uma padaria que fecha durante a madrugada. Pfeffer se contorceu entre prateleiras de pães, até conseguiu derrubar alguns pacotes, mas os capangas conseguiram mantê-la presa e, assim ela foi forçada a atravessar o quintal.
Havia uma porta de mogno que fazia o bar parecer uma inocente residência. Pfeffer tentou se segurar no batente, mas foi inútil.
Algumas mesas com cadeiras, também de mogno, estavam ocupadas por homens na faixa dos cinquenta anos acompanhados por adolescentes usando minissaias. Alguns bêbados notaram a jovem acorrentada sendo coagida a entrar, mas nenhum deles se deu ao trabalho de tentar ajudá-la.
Pfeffer notou em sua visão periférica uma morena de no máximo vinte anos ajoelhada sob uma das mesas. Um barbudo com a gravata frouxa segurava a cabeça dela sobre sua virilha, e pelos movimentos era possível adivinhar o que a garota fazia.
Pfeffer virou o rosto, enojada. Os capangas começaram a rir.
“Ela é inocente...” o mais alto disse.
“Logo, logo estará boazinha como as outras,” o mais baixo disse, “nada que três doses de heroína não possam resolver.”    

No fundo do térreo, próximo à escada, havia um balcão. Pessoas estavam sentadas com bebidas das mais diferentes cores enquanto um barman trabalhava avidamente.
Entre essas pessoas, havia um jovem angustiado. Ele já estava na quarta dose de cseresznye pálinka¹ (aquele era um dos poucos bares de São Paulo que servia a bebida).
“Egéségedre!”² disse o jovem a um impaciente barman, segundos antes de engolir a dose de uma só vez.
Ele sentiu o efeito do álcool, mas logo em seguida seu entorpecimento foi alfinetado por seu aguçado olfato. Havia um cheiro diferente no ar. Um odor que ele não sentia há anos. Aroma de esperança. Aroma de frutas. O cheiro que ele reconheceria em qualquer lugar.
Surpreso, ele virou a cabeça e viu Pfeffer refém dos criminosos.   
            Blutig Pfeffer é ruiva, jovem e linda. Mesmo assim, nenhum dos capangas de Honório Botelho deu moleza para ela. 
Um deles, o mais alto, acabou de receber uma mensagem de texto do secretário avisando que Botelho deseja ver Pfeffer assim que tiver terminado sua conversa com os representantes do PCC, o que deve acontecer em aproximadamente quinze minutos.
Botelho deseja expandir seu esquema de tráfico de armas para São Paulo, já que no Rio está completamente estabelecido. Para tanto, ele precisa dar dois passos: convencer os líderes do PCC de que seu esquema é eficiente e matar Blutig Pfeffer.
O primeiro passo é bastante simples, pois Botelho tem o dom da persuasão. O segundo tem se provado praticamente impossível, no entanto. Tentativa após tentativa de execução, Pfeffer tem escapado.


1. Bebida húngara feita de cerejas.
2. Interjeição dita na Hungria quando se brinda.

Botelho ainda não conseguiu descobrir se seus funcionários são incompetentes demais, ou se essa garota de vinte e poucos anos é realmente tudo o que dizem. Por isso a ordem dada era de que a jovem deveria ser trazida viva, pois ele desejava ver a lenda com seus próprios olhos.
Pfeffer não sabe que quem a aguarda é Botelho. Ela também não sabe que o rapaz sentado à mesa do bar a tem observado discretamente, desde que ela pusera os pés dentro do lugar.
            Assim que ele colocou os olhos nela, a pálinka ficou esquecida sobre o balcão. Os longos cabelos ondulados, de um tom vermelho-dourado como magma, a pele clara, levemente bronzeada, os olhos verde-escuros como folhas de eucalipto, as sardas que enfeitavam seu rosto sob os olhos, os seios pequenos sob a blusa verde, a jaqueta de couro preta, o jeans skinny escuro marcando as longas coxas, as botas de salto baixo pretas.
É ela, ele pensou.
Mas, por quê as algemas? E estes sujeitos que a seguravam pelos braços? Era preciso ter calma. Ele não colocaria tudo a perder agindo impulsivamente. Ele não poderia.
Quando os capangas subiram as escadas que conduziam à sala de Botelho, o rapaz os seguiu e ficou escutando a conversa.
“Então esta é a lendária Blutig Pfeffer?” disse Botelho.
Pfeffer não respondeu.
“Eu sou Honório Botelho. Mas isto você já deve saber. Se lhe faltam boas maneiras, competência lhe sobra.”
Pfeffer soltou um riso sarcástico, mas não falou nada. Os dois capangas ainda a seguravam.
“Sabe, você é bem gatinha. Num mundo perfeito, eu não descansaria enquanto não te levasse pra cama,” disse Botelho.
“Num mundo perfeito eu jamais iria pra cama com um imbecil como você,” disse Pfeffer.
Botelho a esbofeteou com toda força. Pfeffer se conteve para não gritar, embora a dor fosse muito forte. Mesmo sentindo o gosto do sangue, ela conseguiu rir mais uma vez.
“Infelizmente, paciência não é o meu forte,” Botelho suspirou. “Seria uma pena machucar este rostinho lindo, mas eu preciso de informações, e não vou hesitar em usar qualquer meio para obtê-las.”
Botelho parou diante de Pfeffer. Seus grandes olhos negros se destacavam em seu rosto branco, eram dois poços indecifráveis, duas enormes pupilas rodeadas por uma estreita faixa de íris. Era como se eles pudessem engolir Pfeffer. Mesmo assim, ela não conseguia evitar um sorriso maroto, que o irritava sobremaneira. “Quem é seu chefe?”
Pfeffer riu. “Quem é o seu?”
Botelho a esbofeteou mais uma vez, e falou friamente. “Resposta errada.”
Os cabelos de Pfeffer cobriam seu rosto. O sangue que escorria do lábio formava uma linha vermelha até seu pescoço. Botelho puxou alguns fios para ver melhor o rosto dela, acariciou sua face, e perguntou ternamente. “Onde fica a sede da organização?”
Pfeffer aproveitou a proximidade para chutá-lo. Botelho caiu sobre a mesa do escritório espalhando os papéis pelo chão. As pernas da mesa se quebraram com o impacto, e logo Botelho estava deitado sobre lascas de madeira, cacos de vidro, canetas e outros materiais de escritório.
O aparelho de telefone, daquele modelo bege comum em repartições públicas, ficou parado em uma das lascas mais altas com o fio esticado, e o fone fora do gancho girava como um peão.     
“Tire essas mãos nojentas de cima de mim.” Pfeffer disse entre os dentes.
Alguns cacos do vidro que cobria a mesa cortaram os braços de Botelho. As mangas da camisa clara Armani que ele usava ficaram pontuadas por pequenas manchas vermelhas, e seus cabelos castanhos estavam bagunçados. Os capangas fizeram menção de largar Pfeffer para socorrê-lo, mas Botelho levantou a mão sinalizando que parassem.    
“Agora vocês vêem como ela é perigosa? Levem essa vagabunda daqui. Não me importa o que vocês façam com ela, só se certifiquem de que ela está realmente morta e queimem o corpo,” disse Botelho.
Os capangas arrastaram Pfeffer em direção à porta, mas ela conseguiu virar o rosto e disse suas últimas palavras. “Depois que eu matar estes dois patetas, vou voltar pra te pegar.”    
O rapaz ouvia a conversa. Ele queria muito torturar Botelho até a morte por ter batido na bela jovem, mas ele precisava permanecer focado. Os dois capangas certamente planejavam violentá-la antes de matá-la. Mesmo sabendo que ela era perfeitamente capaz de se livrar dos dois, seu instinto protetor jamais permitiria que ele simplesmente a deixasse sozinha com os bandidos.
Especialmente agora que ele finalmente a encontrou.
O rapaz entrou numa sala vazia enquanto os capangas passaram pelo corredor, os seguindo logo depois. Sem jamais perdê-los de vista, continuou acompanhando o grupo até eles chegarem ao salão do bar.
Foi quando tudo aconteceu.
Pfeffer usou o próprio aperto dos capangas como apoio para suspender-se e, ao mesmo tempo, chutar as canelas dos dois. O golpe não foi suficiente para derrubá-los, mas foi suficiente para afrouxar a compressão em seus braços, tornando possível assim estrangular um deles, o mais baixo, com a corrente da própria algema. 
O golpe foi tão rápido e certeiro que o outro jagunço, apesar de ser 35 centímetros mais alto que Pfeffer, ficou atônito e apavorado. Por pouco tempo, porque ela o derrubou com apenas dois golpes na cabeça e, a julgar pelo sangue que jorrava de sua fronte, ele não continuaria vivo por muito tempo. 
Logo em seguida, tirou um clipe do bolso da calça, o esticou deixando uma pequena dobra na ponta e o introduziu na fechadura das algemas. Ignorando o choque dos civis dentro do bar, após ter aberto as algemas, Pfeffer se agachou então para pegar a arma do segurança. Ela então saiu correndo pela porta, já sendo perseguida por um grupo de seguranças de Botelho.
Enquanto Pfeffer procurava por um carro para fugir, o rapaz parou seu Vectra GT-X azul com a porta do passageiro aberta para ela. “Quer uma carona?”     
Pfeffer pulou no carro, percebendo em meio à confusão que tocava no rádio a música “Escape the Nest” da banda Editors. O rapaz acelerou e saiu cantando pneu na direção da Rebouças. Mas logo apareceu uma Cherokee preta repleta de capangas de Botelho na contra-mão, e o rapaz teve que virar bruscamente na Bela Cintra. Impressionante como ele dirige bem, Pfeffer pensou. 
“Tem certeza que quer me dar uma carona?” Pfeffer perguntou.
“Absoluta,” respondeu o rapaz quando os primeiros tiros foram disparados. Eram duas horas da manhã de uma segunda-feira de outubro. A Paulista estava praticamente vazia. 
Pfeffer pegou um pequeno espelho dentro do bolso, e colocou para fora do carro. Conseguiu enxergar um elemento com um fuzil 762 na mão. Cautelosamente, colocou a 9 milímetros que roubara alguns momentos antes para fora, e mirou no meliante. Um disparo foi suficiente para que ele caísse rolando pelo asfalto com o fuzil na mão em frente ao cinema Belas Artes. É claro que a caminhonete não parou, mesmo assim Pfeffer repousou a cabeça no encosto do banco com um sorriso presunçoso estampado no rosto.
“Posso perguntar seu nome?” perguntou o rapaz enquanto eles passavam em frente às lojas de lustres da Consolação. 
“Só se você quiser um nome falso,” respondeu Pfeffer.
“E qual seria este nome falso?”
“Pfeffer,” ela disse e suspirou, “mas é melhor você não dizer a ninguém que me deu uma carona. Ou não vão acreditar em você, ou você terá problemas com as autoridades.”
O carro chegou ao centro tão rápido que os bandidos ficaram logo para trás. Nenhum sinal vermelho foi obstáculo. Quando eles chegaram à avenida Tiradentes, o carro estava a 140km/h, e o rapaz habilmente costurava pelos poucos carros da madrugada. A caminhonete já desaparecera, e a fuga havia sido bem sucedida.
Mesmo assim, o rapaz continuava voando pela marginal do rio Tietê sentido rodovia Ayrton Senna sem se preocupar com os radares.
“Você dirige muito bem,” Pfeffer falou.
“Eu tenho bons reflexos...” ele respondeu modesto.
“Acho que eles já nos perderam de vista. Você pode parar o carro um pouquinho?”
“Por que?”  
“Estou me sentindo mal...”
O rapaz parou o carro no acostamento; eles já estavam no início da Ayrton Senna. Pfeffer foi até o guardirreio e vomitou. O jovem se aproximou dela, puxando seus longos cabelos para trás.
Ele mal podia acreditar que a estava tocando. Seus cabelos eram macios e exalavam um odor de frutas. O rapaz queria mergulhar o nariz neles ali mesmo.
Mas logo ela se recompôs.
“Obrigada...” ela sussurrou, “você tem água?”
Ele buscou uma garrafa PET dentro do carro. Pfeffer pegou um pequeno vidro escuro dentro do bolso e tomou um comprimido.
“Onde você mora?” Pfeffer perguntou entre um gole e outro de água.
“Não tenho um lugar fixo.”
“Interessante. O que você faz em São Paulo?”
“Procurando alguém.”
“Encontrou?”
“Encontrei.”
Pfeffer suspirou e olhou para o chão. O lugar em que eles pararam era escuro, mas ela conseguia esquadrinhar os cabelos cor de caramelo despenteados do rapaz.
“Então... Eu acho que é adeus,” Pfeffer estendeu a mão.
O rapaz apertou a mão dela, maravilhado pelo toque. “Eu não vou deixá-la aqui no meio do nada...”
“Não se preocupe, eu sei me virar.”
“Não... Eu te deixo em casa.”
“Eu não tenho casa.”
“Então eu te deixo num lugar melhor, mais iluminado; um ponto de táxi talvez, o que você acha?”   
“Tudo bem. Se você faz questão...”
“Eu faço,” disse o rapaz, abrindo a porta do passageiro para que Pfeffer pudesse entrar.
O veículo entrou no retorno para a Ayrton Senna sentido marginal, mas desta vez ele não correu. Ele queria prolongar ao máximo o tempo com ela.
Ela jamais perguntou seu nome.
Quando ele parou o carro no terminal rodoviário Tietê, ela aproximou seu rosto do dele, afundando a mão em seus fios cor de bronze e puxando levemente. Ele sorriu e tocou a face direita dela exatamente onde as sardas a enfeitavam.
Para ele, era como dizer adeus para uma parte de sua própria alma. Enquanto ele a contemplava, pensava no quanto deixar uma parte dele ir embora era simplesmente impossível.  
Ela pensou em beijá-lo, mas lembrou que havia vomitado momentos antes. Seria nojento. E de qualquer forma, ela sequer o conhecia. Por que essa atração inexplicável, esse sentimento de intimidade tão forte?
O melhor a fazer era descer do veículo.
Mal sabia ela que ele ainda a seguiria pelo resto da madrugada.

Despertar

Abri os olhos como se eu acordasse de uma noite sem sonhos. As pálpebras pesadas, teimavam em fechar, como se feridas pela luz branca que preenchia o quarto. Tentei abrir os olhos novamente, inconformada. Ouvi alguém dizer algo.
“Pfeffer?” ela disse. “Você está acordando?”
Era Nite Owl, minha colega de trabalho e amiga pessoal. Owl era uma agente muito competente e talentosa. Havia me ajudado em várias missões complicadas; nunca pude duvidar de sua coragem, ou de sua lealdade. Estava sempre disposta a ajudar, nunca parecia cansada.
Abri os olhos mais uma vez, ainda incapaz de me levantar. Também era difícil mexer o pescoço, mas inclinei a cabeça na direção da voz. Reconheci o cabelo cor de chocolate e os óculos de grau com armação roxa.
“Owl, onde está Botelho?” sussurrei com dificuldade.
Honório Botelho era um policial federal corrupto. Um rei do crime de apenas 30 anos, a inteligência a serviço do mal. Eu precisava executá-lo, já que ele havia descoberto minha identidade, e não descansaria enquanto eu não estivesse morta. Na verdade, eu já era um obstáculo em seu esquema de tráfico de armas há meses, sendo a principal, senão a única razão pela qual ele não funcionava em São Paulo.
“Está morto, Pfeffer. Há três meses. Você foi muito bem sucedida em sua missão. Mas um dos capangas dele fingiu de morto e atirou em você pelas costas... Eu atirei nele logo em seguida, mas era tarde.”
“Há três meses? Que dia é hoje?” perguntei.
“22 de janeiro,” ela respondeu.
“Eu passei três meses em coma? Era outubro quando armamos a emboscada...” 
“Sim. Tivemos sorte de não perdê-la naquela noite. A Med trabalhou como uma louca para salvá-la. Quando sua situação finalmente se estabilizou, você estava em coma. Ninguém tinha certeza de quando, nem se você acordaria. Mas nós a manteríamos aqui por anos se fosse necessário... Você sabe como o Ricardo gosta de você, ele não se importaria de gastar qualquer fortuna para mantê-la viva, mesmo que as esperanças fossem poucas.”
“Até que eu finalmente acordei...”
“Sim! Como você se sente? Fico feliz por estar aqui neste momento. A gente ficou revezando a guarda, ninguém queria arriscar que alguém terminasse o serviço com você aqui indefesa...” ela explicou, com uma expressão preocupada.
“Estou com fome.”
Nite Owl deu uma gargalhada.
“Claro que você está. Quando que você não sente fome? Vou pedir algo para você. Alguma preferência?”
“Morangos com leite condensado. Muito leite condensado. E preciso muito de um espelho...”
Ela trouxe um pequeno espelho e me ajudou a mudar de posição.
Parecia que estava tudo bem. Meus cabelos estavam ressecados após todo aquele tempo sem cuidados. Mas nada que uma visita ao cabeleireiro não pudesse resolver.
“Eu vou buscar sua refeição e chamar a Med...” ela disse e escapuliu porta fora.
Eu continuei olhando meu reflexo no espelho, tentando estabelecer conexões. Parecia que estava tudo como antes, mas estaria mesmo? Eu havia passado 102 dias em coma, após uma falha imperdoável no serviço. O que Ricardo, líder dos Eremitas Urbanos, pensaria disso? Ele ainda me queria como agente?
Nite Owl entrou com uma bandeja na mão e veio até a cama. Percebendo que eu me esforçava para levantar, ela puxou meu tronco e arranjou os travesseiros, de modo que eu pudesse sentar. Mesmo tonta após tanto tempo inconsciente, senti que meu rosto enrubesceu quando senti o cheiro azedo dos morangos. Owl percebeu e entregou a tigela e uma colher de sobremesa para mim.
Era uma tigela branca, do tipo que se usa para tomar cereais matinais. Estava repleta de morangos grandes e vermelhos destacados no creme amarelado. Owl sentou na cama e fez uma cara de nojo quando eu comecei a comer.
“Como você consegue comer algo tão doce em jejum?” ela perguntou.
“Ela está mesmo precisando de uma dose concentrada de glicose.”
Foi Med que falou enquanto entrava. Med é a chefe do departamento médico da organização. Ela é responsável por manter os agentes vivos e em condições de lutar. Ela tinge os cabelos curtos de acaju, seus pequenos olhos são castanhos, sua pequena boca é enrugada e sua voz, estridente. Tem estatura baixa, cerca de 1,50m, e conta com um certo acúmulo de gordura na região da cintura.
Eu tenho um certo respeito por ela, pois está na faixa dos cinquenta anos e tem um filho adolescente, e até onde sei, nunca se casou. Ela nunca comentou sobre o pai do garoto, e eu imagino que criar um filho sozinha deve ser uma barra. 
“Então a lendária Blutig Pfeffer acordou do coma! O Ricardo vai gostar de saber disso!” Med falou, não tentando disfarçar a ironia na voz.
Fingi que não percebi, deixando uma nota mental para investigar a hostilidade mais tarde. Esses comentários maldosos sempre aparecem quando nos encontramos. Eu definitivamente não confio nela.
“Deixa disso, Med... Cometi um erro terrível e dei trabalho para vocês.” 
Enquanto falava, senti uma gota de leite condensado escorrendo em meu lábio inferior. Quando fui limpar, Med passou um lenço e sorriu. Havia algo naquele sorriso que eu não gostei, ratificando a nota mental anterior. 
“Deixa disso você, Pfeffer! Ninguém queria perdê-la!” Owl disparou.
“Certo, certo,” Encerrei a rasgação de seda ali mesmo. Eu já estava entrando em modo serviço, não queria perder tempo com discussões inúteis. “Em que condições estou, Med?”
“Você levou um tiro nas costas, caiu e bateu a cabeça. Perdeu um pouco de sangue, mas Criazul e Owl a trouxeram a tempo. Você passou 102 dias em coma. Como se sente?” 
“Tudo bem, mas eu quero levantar, sair daqui, voltar para minha vida...” respondi impaciente.
“Você já vai levantar. Vai ter alguma dificuldade de movimentação por algum tempo, mas logo vai voltar ao normal,” Med acrescentou.
“Quanto tempo?”
“Alguns dias, uma semana no máximo. Você só precisa se alimentar direitinho. Vou pedir que a enfermeira traga algo de hora em hora.”
Percebi que Owl arregalou os olhos ao ouvir Med dizer isso, mas logo sua serenidade a dominou.
Med pegou então uma seringa, e puxou meu braço esquerdo. “Agora eu vou coletar algumas amostras de sangue para fazer alguns exames.”  
“Quais exames?” perguntei.
Med tentou disfarçar, mas percebi que ela não queria responder.
“Não precisa ficar com medo, é só uma picadinha...” eu mantive o braço dobrado, e ela continuou, “São apenas alguns exames de rotina: glicemia, hemograma, tireóide...”
Med estava sorrindo quando finalmente estendi o braço. 
“O Ricardo já foi avisado. Está em reunião com os noruegueses; assim que terminar, sobe aqui,” Nite Owl avisou, serena como sempre.

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