segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Cultura de estupro: Brasil não tão longe da Índia

A vítima de um cruel estupro coletivo morreu no último dia 29 em Cingapura. A moça, de apenas 23 anos, foi violentada por seis ou sete homens (dependendo das fontes) dentro de um ônibus em Nova Délhi, Índia.

Ela estava acompanhada por um amigo. Eles voltavam de um cinema à noite, pegaram um ônibus e então tudo aconteceu. O motorista mais os outros homens que lá estavam decidiram violentá-la brutalmente. O quão brutal? Ela perdeu parte do intestino tamanha a violência das penetrações em seu ânus, ela foi até empalada com uma barra de ferro.

Eles a compartilharam por quase uma hora. Depois de satisfeitos, a espancaram covardemente com a tal barra de ferro. E como se não bastasse, eles a jogaram do ônibus em movimento. O amigo dela também foi espancado e jogado pra fora do veículo, só não foi estuprado. Desejo de destruição, hein? Isso porque o mundo quer acreditar que misoginia é uma manifestação raríssima.    

Como algo assim acontece? Eu quero dizer, todos os homens que estão dentro de um ônibus veem uma moça embarcar e ao mesmo tempo pensam: "Oba, vamos estuprá-la e espancá-la!". Será que eles realmente acreditam que se uma mulher está na rua à noite, ela merece ser violentada?

Aqui no Brasil também acontecem estupros coletivos. Há alguns meses, os nove integrantes de uma banda de pagode da Bahia (New Hit) acharam uma excelente ideia violentar duas menores com requinte de crueldade no ônibus da banda. Não tiveram nem a dignidade de usar camisinha. Depois de satisfeitos, falaram para as meninas: "Não esqueçam de tomar a pílula do dia seguinte".  


New Hit (divulgação)
   
O pior é que eles estão aguardando o julgamento em liberdade. Sim, um desembargador teve coragem de julgar procedente o pedido de habeas corpus dos advogados deles. E eles estão fazendo até show! O pior é ter patrocínio e público para esses shows.



(E olhando pra essa foto a gente se pergunta se o mais brega é morder a blusa pra exibir o tanquinho ou usar óculos escuros comprados em supermercado. Antes eles só se vestissem mal, né?)

Enquanto isso, Rafinha Bastos faz piada de estupro. E não só ele. Acontece que a gente tem toda uma cultura que concorda com ele. O que é o quadro de assédio sexual no trem em Zorra Total? Fui assistir ao filme "De pernas pro ar 2" sexta e fiquei abismada com o número de piadas de estupro no filme.

Numa clínica de reabilitação, um viciado em sexo (conhecido como Mano Love) tenta invadir o quarto de uma das internas. Quando ela reclama, ele diz que ela estava querendo. Depois, um dos rapazes diz que ele também tentou invadir o quarto dele. Aparentemente, essa é a piada. Esse mesmo Mano Love aparece querendo praticar zoofilia com cabras numa outra cena.

Num outro momento, uma senhora que não fala inglês pede um garfo num restaurante em Nova Iorque e, ao dizer "I want a fork", o funcionário do restaurante entende "I wanna fuck". Ele então a leva para algum lugar. Momentos depois ela aparece apavorada com a roupa aberta e reclamando que o homem tentou violentá-la. O garçom diz: "Aproveita, melhor que isso você não vai arranjar".

Ou seja, como ela é mais velha (logo considerada feia para o padrão de beleza), deve ficar feliz que algum homem sentiu vontade de estuprá-la. Porque mulher existe pra isso mesmo, não é? Dar prazer ao homem. Uma mulher que não é desejada por nenhum homem é uma pobre coitada. 


Pesquisa sobre estupro

Vejo muitas pessoas falando desse crime brutal que aconteceu na Índia como se fosse um evento de caráter endêmico. Mas em qualquer site pornográfico, é possível achar uma infinidade de vídeos de estupro. Piadas de estupro, infelizmente comuns aqui no Brasil, continuam sendo veiculadas como se fossem inócuas. No Facebook, existem várias páginas que fazem apologia ao estupro sob o disfarce do humor. São páginas com milhares de "curtidas" e o Facebook jamais apaga as postagens delas, por mais explicitamente misóginas que sejam. 

Vivemos um momento em que grupos historicamente oprimidos não têm o direito de reclamar da discriminação que sofrem. Qualquer tentativa de coibir discurso de ódio é tratada como ameaça à liberdade de expressão, mas quando se critica veículos difusores de discurso de ódio, várias tentativas de censura são aplicadas. Argumentos de violação de direitos autorais, ameaças de exposição de dados e ameaças de processos são apenas algumas das estratégias normalmente utilizadas por quem ganha dinheiro explorando preconceitos arraigados em nossa cultura.

O fato de esse tipo de conteúdo fazer sucesso e render tanto dinheiro só comprova o quanto o estupro é um problema estrutural mundial. Estupradores, na maioria dos casos, são homens comuns. Só uma pequena parte deles são psicopatas. O que todos eles têm em comum é a coragem de usar a força física para constranger uma mulher a servir de boneca inflável para eles. E é essa coragem que o discurso de ódio legitima.   


The truth about false accusation (http://theenlivenproject.com)

Às vezes o sacrifício de uma inocente pressiona autoridades a tomarem providências. Agora só nos resta lutar para que a tortura e morte dessa jovem não seja em vão. 


Encerro com esta excelente imagem do site The Enliven Project que desmistifica através de estatísticas a lenda sobre acusações falsas de estupro:


 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Misoginia de discurso e a má-fé de Rafinha Bastos

Um dia, era período de férias, eu fui almoçar no bandejão da universidade na qual estudo. Fiquei  surpresa quando, havendo vários lugares vagos, dois rapazes se sentaram a meu lado. Ao longo da refeição, ficou clara a intenção por trás da escolha deles.

Eles conversavam sobre um tal prostíbulo que fazia uma promoção, o programa custava menos durante o dia. Num dado momento um dos elementos disse: "Ele comeu uma mina top por R$70,00". Quer dizer, ele não só quer ser misógino, ele quer que uma mulher saiba disso. Ele escolheu se sentar a meu lado para ter a chance de falar sobre esse assunto com seu amigo para que uma mulher ouvisse.  

Num outro dia, no mesmo bandejão, tive o azar de me sentar na mesma mesa que esse cara novamente. Pois é, eu não reparei que ele era o mesmo indivíduo até escutar a conversa. Dessa vez ele estava com um grupo maior de otários. Quando me viu, começou a falar bem alto sobre uma tal DST que ele havia contraído. Sério. O cara achou legal falar sobre a dor que sentia quando tinha uma ereção. Provavelmente porque ele queria que eu soubesse que ele tem ereção. Escutei por mais alguns minutos ele falar sobre ter visto filmes pornográficos e um show da Shakira, mas não ter tido uma ereção por ter ficado com medo. 

Então eu troquei de mesa. Mas fiz questão de escolher uma mesa próxima, pra que ele entendesse a razão pela qual eu mudei de mesa. Sabe, a gente não é obrigada a ouvir homens conversando sobre porcarias. Principalmente quando eles escolhem esses assuntos justamente para que nós mulheres escutemos.

Isso é misoginia de discurso. Homens dizem coisas degradantes para as mulheres em voz alta porque a sociedade não aplica sanções contra quem desrespeita mulheres. Esse desejo de destruição do feminino é aceito porque no fundo uma boa parte de nossa sociedade concorda com esse tipo de manifestação. É o caso da normatizada cantada de rua, por exemplo. Nada mais é que um tipo de agressão verbal.

Não precisa ser um insulto direcionado. Há alguns dias no metrô, eu ouvi um grupo com três rapazes falando para quem quisesse escutar sobre uma garota que tinha "cheiro de puta". Depois que desembarquei, tive a infelicidade de topar com outro grupo. Um deles dizia não aguentar olhar na cara de uma tal "mina". O outro, que inclusive era afro, disse em voz alta: "Mas você não precisa olhar pra cara dela, só pra aquele cuzão gostoso dela".

Pois é, lamentável. O cara não vê nenhum problema em tratar as garotas como objeto publicamente. Se fosse uma manifestação racista não teria essa enorme aceitação. Os caras teriam vergonha de se colocarem assim publicamente. Mas ser machista parece ser legal. Tratar garotas mal parece ser um motivo de orgulho para os rapazes. O que nós temos é toda uma cultura que entende mulheres como seres desprezíveis que precisam ser controlados, e que considera o machismo inócuo e cultural. Uma cultura que inclusive não fala em misoginia, mesmo quando um crime de ódio como o massacre do Realengo acontece. Porque manifestações misóginas são tão normais e esperadas que ninguém se choca. E isso inclui a desqualificação sistemática do movimento feminista. O que nos leva a Rafinha Bastos.

Rafinha Bastos postou há alguns dias uma mensagem mais ou menos assim: "Cadê o movimento feminista pra lutar contra o tratamento diferenciado que a mulher recebe ao pagar meia-entrada na festinha?".

Sabe, eu tenho certeza de que esse homem não entende nada de feminismo, haja vista ele ter achado que havia dado um motivo pra gente lutar quando protestamos contra suas "piadas" sobre estupro.

Por outro lado, ele não é simplório o suficiente pra acreditar nessa declaração dele. Eu tenho certeza de que ele sabe que em balada GLS os valores são iguais. Ele deve saber inclusive que em baladas direcionadas ao público gay masculino, mulheres pagam mais. Ele também certamente sabe que homens não vão a baladas hétero se não houver mulheres lá. Ele sabe também que mulheres não costumam ir para a balada sozinha devido ao assédio que sofrem, logo uma mulher na festa significa mais algumas amigas na festa. Acima de tudo, ele sabe que don@ de balada não faz caridade. Ele sabe que se mulheres pagam menos, não é por cavalheirismo. É meramente uma estratégica comercial. Mulheres são iscas.

Tudo bem, a gente pode até gastar um pouco menos. Mas a gente ganha menos também, é sempre bom lembrar. Num país onde existe uma misoginia estrutural tão forte, esperar que o movimento feminista se concentre num detalhe tão insignificante chega a ser juvenil. Sem brincadeira.
 

Se o Rafinha fosse adolescente, seria normal ouvir uma perguntinha como essa. Mas não é o caso. É lógico que isso é má-fé. Ele quer desqualificar o movimento feminista, já que tem tido problemas com a gente por praticar misoginia constantemente.

E eu não tenho medo de afirmar isso, sabe por quê? Num país em que um homem fala em voz alta que mulher feia não pode reclamar por ter sido estuprada, e não acontece nada com ele, a gente vai ter medo de dizer o quê? E é bom deixar claro que meu blog é de humor politicamente incorreto.

Obviamente, ele também quer ser ovacionado pelos fãs imbecis dele. Ele conhece bem seu público alvo, sabe muito bem que qualquer declaração senso comum capaz de reiterar algum preconceito bem arraigado nessa gente concede a eles o aval de pensar como pensam. Rafinha Bastos diz coisas machistas, logo quem gosta das piadas dele é machista. Mas não só isso. Essas pessoas se sentem confortáveis com as declarações dele, é como se alguém mais importante e portanto com mais autoridade estivesse validando seus valores. Claro que no processo ele também paga de estúpido diante de pessoas como eu. Mas eu não sou o público alvo dele.   

A única forma de se desconstruir esse discurso misógino social perigoso é oferecendo senso crítico às pessoas. E isso elas só vão receber se estiverem abertas para tanto. Mas a princípio, existe algo que podemos fazer. É preciso difundir que ser machista é uma temível falha de caráter. É preciso que as pessoas se envergonhem de manifestar machismo. É preciso, enfim, que uma declaração machista seja vista como uma declaração racista ou homofóbica. É mais difícil pra quem foi domesticado perceber tudo isso. Mas sempre é tempo.   





segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O caso Karina Veiga e o tabu do sexo anal

Há algumas semanas, fotografias íntimas de uma menor de idade foram divulgadas na internet por um ex-namorado dela. Por mais absurda que a atitude dele tenha sido, muitos internautas simplesmente ignoraram o nível de maldade do cara e acharam muito divertido ajudar a divulgar as fotos constrangendo e ridicularizando a garota.

O que eles acharam tão engraçado? A menina havia praticado sexo anal. Sim, parece que fazer o papel passivo numa relação anal torna uma pessoa um ser inferior. Deve ser por isso que homens (heterossexuais otários) insistem tanto em fazer sexo anal com a parceira, mas são ortodoxos sobre a proibição de que elas toquem a região anal deles: Eles acham que mulheres são inferiores, que ser penetrada é o papel delas.

Lembram-se de quando eu falei sobre o blog misógino Testosterona? Uma das postagens que analisei falava que as mulheres deveriam fazer sexo anal com os namorados no dia posterior ao dia dos namorados como agradecimento pelos presentes recebidos.

Uma das postagens mais asquerosas desse mesmo blog era um vídeo no qual um rapaz pedia sexo anal para a namorada. Quando ela recusava, ele a deixava inconsciente com um golpe na cabeça a fim de violentá-la. Então o infame vídeo apresentava as vantagens do sexo anal: é mais apertado, mais quente e mais degradante pra mulher. 


Exato, MAIS degradante. Porque pelo visto, ter a vagina ou a boca penetradas já é degradante. Porque essa é a visão do machismo: Mulheres são inferiores, logo os papeis que elas ocupam são inferiores. Essa visão se estende a tudo: profissões, interesses, produtos culturais, aparência. Tudo que é entendido como feminino é culturalmente considerado inferior.     

É dessa misoginia social que nasce a homofobia. O desprezo pelo homem que se rebaixa a uma posição feminina sendo afeminado ou sendo penetrado na relação sexual. Porque é sempre o passivo que é ridicularizado. As piadinhas destroem quem "dá o cu", mas não quem o penetra, mesmo numa relação entre dois homens. 

Lendo um texto do blog do Samuel Farias sobre a violência sofrida por essa moça, descobri os detalhes. Ela namorava um homem maior de idade, que inclusive a havia agredido fisicamente antes.

Eu já suspeitava que isso poderia ter acontecido. Um homem que torna púbicas fotos íntimas de sua parceira sexual sem o consentimento dela, além de um crápula sem caráter, certamente é abusivo. Num outro post, eu falei sobre como evitar parceiros misóginos. Infelizmente, a Karina foi vítima de um deles.

Esse homem achou legal se relacionar com uma garota menor de idade. Não sei qual a idade dele, mas se ele tiver mais que 25, creio que ele poderia ter pensado um pouco melhor antes de se envolver com ela. Qual o problema? O problema é que uma garota adolescente é inexperiente e não está ainda preparada para lidar com questões de relacionamento como uma mulher adulta.

Quando ele pediu a ela para se deixar fotografar em poses sensuais, ela confiava nele. Ela não imaginou que algum dia ele usaria isso contra ela. Mas pode ter certeza de que ele já tinha tudo planejado, como o Hyde de "50 Tons de Cinza". A intenção dele era destruí-la psicologicamente caso ela o deixasse.

Claro, ele já contava com o que aconteceria na internet, pois ele conhece bem a cultura que o privilegia. Ele sabia que, embora ele também estivesse nas imagens, quem seria humilhada publicamente era ela. Porque para um homem, é legal ter provas de que ele fez sexo, para uma mulher, não. Simplesmente porque existe uma relação ideológica arbitrária que associa a manifestação sexual feminina a mau caráter.

Sabe, eu poderia escrever muito sobre as coisas horríveis que li na net. Em vez disso, vou dizer apenas que quem escreveu qualquer insulto contra ela é um péssimo exemplo de ser humano. Porque ninguém é tão simplório ao ponto de achar que uma moça merece ser humilhada por ter feito sexo anal e ter deixado o parceiro fotografar o ânus dela. Precisa ser alguém muito ruim para divulgar essas fotos, criar perfis fakes em nome da vítima, ridicularizar o corpo dela. Precisa ser alguém muito misógino para dizer que ela mereceu passar por isso por "não ter protegido a gruta".

Qual a lógica de pensamento desses vermes? Eles são piores que o ex dela. Porque o cara pelo menos tinha uma relação com ela, mas esse povo da internet ficou se intrometendo na vida alheia. Certamente porque estão desempregados e não fazem sexo. Mas falta do que fazer não é justificativa para agredir ninguém. Portanto, se você conhece alguém que tirou vantagem desse crime e divulgou essas fotos ou fez "piadas" cruéis, afaste-se dessa pessoa. Porque a gente não precisa nem de amigos(as) misóginos(as), quanto mais de namorados(as).

E outra coisa. É evidente que esse pessoal ficou tão obcecado pelo que aconteceu com a moça porque sentiu inveja. No fundo, se trata de um monte de desejos reprimidos. Princípio de psicanálise: ninguém tenta destruir algo (ou alguém) a troco de nada. Quem desdenha quer comprar. Se ridicularizou Karina Veiga, queria estar em seu lugar.

Fazer o passivo de uma relação anal não é errado. Deixar o parceiro tirar fotos íntimas não é errado. Ela não merece ser julgada por nada. O que aconteceu nesse caso foi o já conhecido (desde Amanda Todd) cyberbullying machista. E isso tem que acabar.       
      

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Testosterona: O blog misógino que a MTV apoia


Este é meu prometido post sobre o blog Testosterona, um parceiro da MTV que constantemente veicula conteúdo machista e misógino. Está bastante longo, pois fiz uma análise dos principais argumentos utilizados por defensores do material. Toda vez que se critica uma piada, aparece um bando de defensores dum conceito de “politicamente incorreto” pautado em “liberdade de expressão”. Então vamos eliminar esses nós.

Politicamente correto se refere a termos potencialmente ofensivos e estabelece formas de se evitar discriminação através da linguagem. Por exemplo: O correto é dizer pessoa com deficiência, e não pessoa deficiente. Isso porque chamar alguém de deficiente provoca a sensação de que a pessoa é defeituosa, quando na verdade ela tem apenas uma limitação. Mas o conceito se aplica apenas a termos, não se estende ao teor ofensivo de piadas. 

Politicamente incorreto consiste em manifestar preconceitos sem qualquer tipo de receio. Atualmente tem sido muitas vezes utilizado como um eufemismo para discurso de ódio. Os partidários dele se colocam como transgressores, mas na verdade são extremamente reacionários, pois perpetuam discursos já feitos por seus bisavós, reiterando assim preconceitos sociais antigos. Esse é o caso do blog Testosterona.  

Agora vou apresentar alguns trechos da Constituição Federal.

Artigo 3º da Constituição Federal

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Artigo 5º da Constituição Federal

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

Fonte: http://www.jusbrasil.com.br

A liberdade de expressão prevista na constituição tem limites. Em primeiro lugar, é vedado o anonimato. Ou seja, cada vez que alguém deseja dizer algo, deve estar preparado(a) para assumir que disse algo. E isso acontece por uma razão muito simples: Você deve enfrentar as consequências de seus atos, nesse caso específico, de suas declarações.

Ao mesmo tempo em que os termos falam sobre liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, os termos também falam sobre o direito à igualdade e o direito a reparação em caso de dano moral. Ou seja, as limitações do direito à liberdade de expressão também estão previstos na constituição.   

É importante frisar que a igualdade de gêneros é citada logo no primeiro termo. O que significa que qualquer manifestação que discrimine as mulheres contraria a constituição. Sendo assim, discurso machista não é amparado pelo princípio da liberdade de expressão por contrariar o princípio de igualdade entre os gêneros.

E não é só isso. O código penal prevê punições para vários crimes de discurso: Injúria, difamação, calúnia. A prática de racismo já é criminalizada desde 1989, entretanto as práticas de misoginia, machismo e homofobia ainda não contam com legislação específica. Nesses casos, é possível criminalizar mensagens discriminatórias como apologia ao crime ou discurso de ódio. 

E sobre esse assunto, segundo Wikipedia:

“Discurso de ódio (tradução do inglês: hate speech) é, de forma genérica, qualquer ato de comunicação que inferiorize uma pessoa tendo por base características como raça, gênero, etnia, nacionalidade, religião, orientação sexual ou outro aspecto passível de discriminação.

No direito, discurso de ódio é qualquer discurso, gesto ou conduta, escrita ou representação que é proibida porque possa incitar à violência ou ação discriminatória contra um grupo de pessoas ou porque ela ofende ou intimida um grupo de cidadãos. A lei pode tipificar as características que são passíveis de levar a discriminação, como raça, gênero, origem, nacionalidade, orientação sexual ou outra característica.”

Um monte de gente fala sobre humor negro quando defende as "piadas" profundamente degradantes com relação às mulheres do blog Testosterona.

Então vamos à definição de humor negro. A origem do termo está em humor da bílis negra, ou humor da melancolia. Hipócrates classificou a melancolia como doença no século V a.C, e, ao seu ver, ela era causada por acúmulo de bílis negra. Melancolia não tem nada a ver com denegrir a imagem de um grupo, percebe? Melancolia está relacionada a um acontecimento triste. Para não ficar confuso, vou exemplificar:

Após o último acidente com a companhia aérea TAM, um professor meu fez a seguinte piada:
"O novo slogan da Tam é: Nossos clientes nunca voltam para reclamar".

Para rir dessa piada você precisa entender que os clientes jamais voltam para reclamar porque estão mortos. Mas soa como uma propaganda porque implica a satisfação do cliente.É humor negro porque faz piada de uma tragédia. Perceba que a piada diz a verdade. Toda piada é embasada em algo que se acredita. 

Essa outra piada foi feita na época que Elisa Samúdio, moça que teve um filho do goleiro Bruno, foi dada como morta. Usa o sistema de “sorte de hoje” do Orkut.

"Sorte de hoje: Você não teve um filho do goleiro Bruno".

As investigações apontam que, por ter tido um filho dele, ela foi assassinada e teve seu cadáver ocultado. Logo quem não teve um filho dele tem sorte. É humor negro porque faz piada de um crime brutal, mas não ridiculariza a vítima. Ridiculariza toda uma situação e, mais uma vez, diz a verdade. 


South Park é um desenho animado que pratica um humor bastante agressivo. Ele satiriza comportamentos preconceituosos e estereótipos. É humor negro porque ridiculariza coisas tristes e lamentáveis nas sociedades. Teve um episódio em que um professor foi afastado por ser homossexual. Logo em seguida, ele foi substituído por um pedófilo heterossexual, que pedia fotos dos alunos nus como tarefa.  

Produtos direcionados ao público masculino não precisam ser machistas, quanto mais misóginos. Mas a MTV Brasil parece não saber disso. Em 2007, Marcos Mion apresentava um programa chamado Mucho Macho. O conteúdo era nojento, zombava de feministas e coisificava mulheres de forma grotesca. 

Além disso, a marca de desodorantes masculinos Axe constantemente patrocina a programação da MTV. A Axe tem um histórico razoável de propagandas machistas. Elas costumam sugerir que as fragrâncias são um tipo de feromônio mágico capaz de levar mulheres a transarem com o homem que o utilizar.

O último era sobre um rapaz que, devido ao uso de dois produtos Axe, encontra garotas brigando por causa dele em seu quarto. "Misture-os e acumule mulheres" diz o narrador. Parece que mulheres são objetos que podem ser colecionados por homens.

Há alguns dias, a página da Axe no Facebook postou a seguinte mensagem: "Celular de homem não tem agenda, tem cardápio".

De péssimo gosto, no mínimo. Misógina na essência, pois simbolicamente trata mulheres como comida. Após consumido, o alimento não existe mais. O ato de se alimentar é um ato destrutivo. A gente sempre entende muito sobre propagandas através do que não é dito explicitamente. É sem dúvidas irresponsável que um veículo de comunicação cujo público alvo são pessoas jovens inclua em sua programação comerciais de uma marca tão assumidamente machista como a Axe.

Mas não deveria surpreender, já que a MTV é parceira de um blog grotescamente misógino como o Testosterona. Sabendo das petições solicitando o fim da parceria com o blog, a resposta oficial da emissora é a seguinte:

“19 de outubro: A Vice Presidente de Responsabilidade Social da MTV acaba de entrar em contato com a gente. A resposta oficial da emissora é que nós não entendemos a piada. De acordo com a MTV, o Testosterona é "uma abordagem humorística do machismo moderno, adequadamente embasada na cultura brasileira" e que eles não veem problemas em continuar essa preocupante parceria”.

Responsabilidade social? Parece ser alguém da área comercial, não é mesmo? Porque se vamos tolerar o machismo moderno, como agiremos com relação ao racismo moderno? E quanto à homofobia moderna?
Lembra quando eu falei que não existia misoginia? Esse é um dos maiores exemplos. Racismo na MTV é palavrão. A MTV já promoveu vários programas para casais gays, pois sempre se colocou como uma emissora “gay friendly”. Mas no que se refere às mulheres, ela é tão machista quanto qualquer outra emissora.

Por que as mulheres não importam? Porque o machismo é tão normatizado que até mulheres o validam? Não sei. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Se eles não querem acabar com a parceria, o blog rende dinheiro. Somente por dinheiro se abre mão de valores. E a MTV pertence ao grupo Abril, o mesmo do qual a Veja faz parte.

A revista Veja tem sempre uma mensagem de direita e conservadora. A capa do dia 19/11 foi “Ela vendeu a virgindade”, falando sobre uma moça que participou dum projeto no qual ela leiloou a virgindade. Só que um rapaz fez a mesma coisa. A dele recebeu lances bastante inferiores à dela. E o fato de a Veja só se preocupar com a dela, só comprova o quanto a virgindade feminina ainda é tão valorizada. Mas essa não é a primeira capa equivocada da Veja.

Agora vou demonstrar que o conteúdo veiculado pelo Testosterona é misógino. Pra começar, a definição de misoginia de Allan G. Johnson apresentada no Dicionário de Sociologia:




"Misoginia é uma atitude cultural de ódio às mulheres simplesmente porque elas são mulheres. Trata-se de uma parte fundamental do preconceito e da ideologia sexistas e, como tal, constitui uma base importante para a opressão das mulheres em sociedades dominadas pelos homens. A misoginia se manifesta de várias maneiras diferentes, de piadas e pornografia à violência e ao autodesprezo que mulheres podem ser ensinadas a sentir em relação ao próprio corpo." (JOHNSON, 2000, p. 149).


Vou analisar quatro postagens do Testosterona:

1) Postada em 21 de junho no Facebook do Testosterona (sem ano):

Aparece um homem carregando uma moça agarrada pelas pernas. O texto diz: "Volte aqui mulher, já falei que shopping só depois que lavar a louça".

É uma cena de bastante violência na qual a vítima é ridicularizada. Acontece violência física, pois a vítima está sendo carregada a força perdendo seu direito de ir e vir e sendo machucada conforme tenta lutar. Também inclui violência psicológica, pois o evento acontece em espaço público, sendo humilhante.  
Aqui a palavra mulher aparece como vocativo, sendo usada pejorativamente da mesma forma que a palavra negro no discurso de um racista.

Coloca-se o agressor como alguém com direito de ordenar e punir a vítima, como se ela fosse uma escrava. Também é apresentada a função de fazer serviço doméstico como obrigação das mulheres, algo que elas devem fazer antes de procurar diversão. Passear no shopping é colocado como um interesse supostamente feminino e frívolo.

Recomendo as canções "Woman" do John Lennon e "Serious" do Duran Duran como exemplos de situações em que a palavra "mulher" não é utilizada pejorativamente.

2) Dia do Sexo Anal - 13/06/2012

Aparece uma garota com expressão de dor durante a relação sexual, que parece ser anal. A mensagem escrita sobre a foto diz: "13/06 Dia do sexo anal - No dia dos namorados você a levou pra jantar fora? comprou um bom presente caro? Fez tudo para fazê-la feliz? Anime-se! Hoje é o dia da sua recompensa meu amigo, hoje é dia do sexo anal!"

A mensagem por si só é de extremo mal gosto. Sugere que homens apenas tratam as parceiras bem para obter essa alegadamente tão valiosa recompensa, o tal do sexo anal. Só que ele não parece querer que a parceira sinta prazer em praticar sexo anal, pois a foto mostra uma moça sentindo dor. Logo a mensagem é que a mulher deve topar usar sexo anal doloroso como moeda de troca na relação. Ou seja, o prazer do homem vem de provocar dor e humilhação na mulher, prática misógina.

3) Foto duma pessoa que parece ser mulher em frente ao computador com uma revista "Curso básico de cozinha" sobre a mesa. Sobre a foto está escrito em letras brancas: "Estudo: A única forma de se tornar uma empregada eficiente", abaixo consta o endereço do blog.

A pretensa piada ridiculariza a profissão de empregada doméstica. A mensagem velada é de que não é necessário estudar para exercer tal função, o que supostamente a desqualifica. Também aparece uma insinuação de que mulheres são burras, pois se considera que a personagem da foto está estudando para aprender a executar tarefas domésticas, funções socialmente desprezadas. É machista porque coloca mulheres como inferiores, incapazes, sem inteligência e restritas a tarefas domésticas.

4) "Como ter uma vida melhor?" (05/10/2009).

São dois desenhos. No primeiro, aparece um casal. O homem parece estar de mal humor e tem um tridente na mão. No segundo, o homem está feliz, e a mulher está morta no chão, atravessada pelo tridente.
A mensagem explícita é de que mulheres (aqui na semântica de esposa) tornam a vida de um homem um inferno. A solução apresentada para atingir a felicidade é matar a esposa de forma cruel. Uma demonstração clara de desejo de destruição do feminino.

Por tudo isso, gostaria de pedir a sua assinatura para as seguintes petições contra o blog Testosterona. 
Uma delas pede que a MTV encerre a parceria*, e a outra pede o fim dos post misóginos do blog. Quem quiser mais informações, pode consultar o seguinte tumblr. 


Para encerrar, deixo um trecho do brilhante artigo "The harms of pornography exposure" de Michael Flood e a seguinte pergunta: Será que as "piadas" de Testosterona são realmente inócuas como a MTV alega? Reflitamos.

"Homens que apresentam relativamente elevado risco de agressão sexual são mais susceptíveis a serem atraídos e sexualmente excitados por meios violentos. . . e podem ser mais propensos a serem influenciados por eles" (Malamuth et al., 2000,p. 55). (FLOOD, 2009, p.392).

* Após pressões sobre a MTV EUA, a parceria foi misteriosamente encerrada. A MTV Brasil nunca se pronunciou sobre o assunto. Atualmente, o ofensivo blog é parceiro do portal R7, pertencente ao grupo Record.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Resenha da trilogia FIFTY SHADES (contém spoilers)

Inclui comentários sobre produtos culturais direcionados ao público feminino

Os romances da trilogia da autora E.L.James receberam no Brasil os títulos Cinquenta Tons de Cinza, Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade. Acabei de ler essa semana e, como prometido, escrevi uma resenha.


Eu optei por ler as versões originais em inglês, então não sei se houve alguma adaptação. Vou falar sobre os acontecimentos dos livros, logo haverá spoilers. Quem não deseja saber revelações sobre o enredo, não deve ler esse post. 


Já fazia algum tempo que eu estava curiosa a respeito desses livros, pois adoro livros eróticos, principalmente quando abordam BDSM. Mas esse tipo de literatura não costuma atingir um público tão grande.  


A sigla BDSM se refere a um conjunto de práticas sexuais que trazem prazer através da troca erótica de poder. Em geral, os adeptos desse estilo de vida o praticam num espaço de tempo conhecido como “sessão” ou “cena”. Essa sigla deve ser entendida em grupos de duas letras.

BD significa Bondage e Disciplina, o que inclui técnicas de amarrar e dominar pessoas com cordas de vários tipos ou correntes, causando desconforto e às vezes dor.

DS significa dominação e submissão, o que não necessariamente inclui o uso de dor. Implica que a pessoa submissa obedeça às ordens da pessoa dominadora. Nesse caso existe a possibilidade de que o relacionamento siga em sistema 24/7, o que significa que o(a) submisso(a) deve se submeter a seu(ua) mestre em tempo integral, vinte e quatro horas por dia nos sete dias da semana.

SM significa sadomasoquismo, que se refere a relações nas quais existe uma imposição de sofrimento físico ou humilhações de uma pessoa a outra.

Todos esses conjuntos de manifestações sexuais podem ter homens e mulheres em posição de dominação ou submissão. Não existe uma obrigatoriedade de papel pelo gênero. 


Muita gente queria saber minha opinião, principalmente sobre um suposto teor machista na história, já que o romance fala de um homem dominador interessado apenas em se relacionar com mulheres submissas. Esse homem, Christian Grey, fica louco por Ana Steele desde que a conhece. Como ela não é do meio BDSM, ele tenta convencê-la a aceitar experimentar um período como submissa dele. Ao longo da história, os dois se apaixonam.


Eu gostei do enredo. Pessoas mais evoluídas intelectualmente que eu vinham dizendo que os livros estão muito mal escritos. A verdade é que encontrei falhas, não é nenhum "A História de O" (Pauline Réage, 1954, link para ver o filme legendado aqui), mas certamente proporciona alguns dias de diversão. E olha, que diversão... rs
 

Sendo um livro erótico, seria até hipócrita da minha parte não falar sobre as cenas de sexo. São excitantes sim, e não só pra mulheres, qualquer um que ler pode ficar excitado. 
Falo isso porque esse livro tem sido chamado de pornô para mulheres. Tem muita gente teorizando em torno disso, a própria autora disse que mulheres preferem ler sexo a ver sexo.
 

Bem, eu não concordo com essa leitura dos fatos. Seria até estranho se mulheres gostassem de ver filmes pornográficos, já que a esmagadora maioria deles são direcionados ao público masculino e atuam como transmissores de misoginia. Até existem produtoras de pornô feminista (com respeito pelas mulheres e direcionado ao público feminino), mas a produção é mínima diante do extenso mercado de pornô machista vigente.

Quanto a gostar de ler, a verdade é que mulheres leem mais que homens. Pelo menos aqui no Brasil, segundo a pesquisa do instituto Pró-Livro, 57% do público feminino entrevistado foi considerado leitor (leu pelo menos um livro nos últimos três meses) contra apenas 43% dos entrevistados de gênero masculino. As leitoras leem em média 4,2 livros por ano, enquanto os leitores leem em média 3,2 livros por ano. Entre usuários de bibliotecas, as mulheres são 55%. Deve ser por isso que revistas masculinas só têm fotos... rs (brincadeira)

Mulheres leem mais sobre qualquer assunto, é claro. Mas é natural que elas gostem de ler livros eróticos, visto que costumam sentir desejo sexual. Se homens leem menos e têm à disposição toda uma série de produtos pornográficos, por que se interessariam por ler livros eróticos?

Dito isso, posso começar a discutir a questão da desqualificação dessa obra. Porque ela tem sido sistematicamente desqualificada, como qualquer best seller. A lógica de se desqualificar um best seller é a mesma de se desqualificar música pop ou as roupas e acessórios utilizados pelo grande público. Vem da ideia de que a elite; exclusiva, chique e esnobe adota as "melhores" tendências. A partir do momento em que a grande massa se apropria dessas tendências, aqueles objetos de consumo perdem a graça e são automaticamente rechaçados.

Não sei por que existe isso, mas já ouvi pessoas afirmarem que não leriam tal livro porque "não gostam" de ler o que todo mundo está lendo. É um raciocínio meramente exclusivista, fundamentado na velha ideia de que "eu sou melhor que você". Afinal, essa gente acredita ser melhor do que aquela ralé que lê livros famosos no metrô. 

Mas ainda assim, existe um outro fator fundamental para a rejeição de "Fifty Shades", e ele é o mesmo que impulsiona o ódio pela série "Crepúsculo": Mulheres gostam.

Estou exagerando? Então vamos pensar naqueles livros do Dan Brown. Eles são todos iguais; só mudam os elementos, mas o enredo é o mesmo. São best sellers, foram devidamente rejeitados pela elite, mas não receberam esse desprezo. Foram escritos por um homem, o protagonista é homem e em geral agradou o público masculino.

E quanto à série Harry Potter, direcionada ao público infanto-juvenil? Foi escrita por uma mulher, mas o protagonista da história é um menino. É direcionado para crianças e adolescentes de ambos os gêneros. Eu pessoalmente acho bem chatinha, mas muita gente idolatra. Nunca vi receber a rejeição que Crepúsculo recebe.

A verdade é que se um produto cultural é direcionado ao público feminino e/ou agrada meninas e mulheres, ele é automaticamente ridicularizado. Isso acontece com músicos como Restart, Backstreet Boys, Justin Bieber, entre tantos outros. E eles recebem sempre uma rejeição extrema, não é um simples "não gostar". É todo um movimento de destruição, similar ao movimento que destrói diariamente as mulheres em nosso mundo. 

Eu sou de estudos culturais, então já estou habituada com discussões em torno do que é "alta cultura" e "baixa cultura". A verdade é que sempre se tende a classificar um produto cultural de acordo com o público que ele agrada. Os pobres, os negros, as mulheres, os gays. Se algo agrada grupos oprimidos, a rejeição inevitavelmente aparece.

Até carreiras normalmente escolhidas pelo público feminino são consideradas inferiores. Eu me lembro de uma propaganda da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) na qual uma garota desafiava estudantes a estudarem na FEI. Ela dizia em tom de desdém que quem não tinha condições (inteligência) para estudar engenharia, deveria fazer "letras" ou "psicologia". Ou seja, cursos que normalmente atraem mais mulheres são mais "fáceis", portanto inferiores. Engenharia é um curso de mais valor por ser mais "difícil" e atrair mais homens.

Eu mesma enfrento isso por ser Bacharel em Têxtil e Moda. Quando eu falo que tive prova de física na segunda fase do vestibular tem gente que ri. "Mas pra quê você precisou de física?". Ora, as máquinas da indústria têxtil seguem as mesmas leis da física que valem para outras máquinas. Mas não se pode pensar que ciências exatas sejam importantes ao se estudar moda, pois é "coisa de mulher".

Aí sempre aparece alguém pra dizer que as mulheres têm mau gosto. Mas quem decide o que é bom ou mau gosto? É claro que a gente sempre vai acreditar que tem o melhor gosto de todos, logo a opinião pessoal de qualquer pessoa sobre esse assunto sempre será parcial.

Semelhança com Crepúsculo (Contém spoilers sobre Fifty Shades e Twilight)

Essa é uma das questões mais importantes. A principio pode parecer idiota afirmar que há uma semelhança com Crepúsculo, já que Fifty Shades é uma série destinada ao público adulto e com cenas de sexo.

Bem, o fato é que há muitas semelhanças sim. Pra começo de conversa, quem nunca percebeu Edward Cullen como um homem controlador e possessivo não entendeu nada sobre Crepúsculo. Eu sempre respondo quando questionada sobre a série de Stephenie Meyer que Crepúsculo não é uma história de amor, mas uma história de obsessão.

No terceiro livro veio até um bônus: Uma parte do início do primeiro livro contada pela perspectiva de Christian (os livros são narrados pela personagem Ana). Sim, tipo um "Midnight Sun". Foi bem legal, porque assim consegui entender ainda melhor como funciona a cabeça de Christian.  

Christian é milionário, lindo, inteligente, competente... Tem vários talentos em comum com Edward: toca piano, pilota aviões e helicópteros, fala francês. Tudo bem que ele é controlador e possessivo, mas o nível de preocupação dele com suas escravas é bem típico do Edward, chegando ao ponto de comprar pra todas elas um Audi A3 porque é um dos carros mais seguros da categoria.

Anastasia prefere ser chamada de Ana, a exemplo de Isabella que prefere ser chamada de Bella. Ana é, como Bella, atrapalhada, tímida, desprendida financeiramente e assexuada. Também tem os cabelos castanhos, não gosta de fazer compras, não entende de moda e tem apenas uma saia (a que ela usa quando conhece Christian).

Alguns pontos de semelhança chegam a irritar. Pra mim o mais difícil é aguentar a Ana dizendo o tempo todo que Christian é lindo. Isso também enchia o saco em Crepúsculo. Tudo bem que ambas as histórias são contadas sob as perspectivas das personagens, mas é difícil de aceitar que um(a) editor(a) não perceba o quanto isso pode cansar o(a) leitor(a). 

E quando o Jack Hyde arma uma emboscada e pede pra Ana levar 5 milhões de dólares (:O) sozinha? O modo como Ana foge de seus próprios seguranças pra fazer isso me lembrou muito a fuga de Bella para se entregar ao vampiro James. E pior, após tamanha estupidez ambas acabaram quebradas em camas de hospitais.   

Machismo? 

Uma das considerações que mais ouvi sobre essa série é de que Ana entra numa relação abusiva com Christian. A esse respeito, vamos esclarecer algumas coisas. BDSM jamais envolveu machismo, mesmo porque, homens podem ser submissos e mulheres podem ser dominadoras. 


Na história, Christian é um dominador. Ele nunca havia tido uma relação baunilha (fora do BDSM) antes de conhecer Ana. Ele deixa bem claro no contrato dele que as escravas dele são escravas em tempo integral (24/7). Embora ele só as solicite nos finais de semana, ele as controla o tempo inteiro. Elas se comprometem a se alimentar bem, dormir 8 horas por noite, fazer exercícios físicos...

Esse tipo de relação é conhecida como D/S no BDSM. Significa Dominação/Submissão, que é diferente de S/M ou Sadismo/Masoquismo. Não necessariamente uma relação precisa envolver as duas duplas, mas são sempre CONSENSUAIS. Ou seja, não existe coação, logo não há abuso.       

Christian já havia sido um escravo submisso. Ele já tinha apanhado, já tinha sido amarrado, humilhado, já conhecia inclusive a sensação de ter o ânus penetrado. Nada que ele propunha a Ana era algo que ele não tivesse experimentado. Como esse homem poderia ser machista? Ele não fala em nenhum momento que ela é incapaz de fazer algo por ser mulher ou que ela deve ser obediente por ser mulher. Ele quer que ela obedeça porque é dominador e deseja controlar tudo, principalmente sua escrava. 

É interessante que o vilão da história, Jack Hyde, é misógino. Na cena em que ele brutalmente agride Ana, fica muito clara a diferença entre um homem que bate numa mulher para destruí-la e um homem que bate numa mulher num jogo sexual. Christian havia batido nela várias vezes, mas jamais havia a machucado daquela forma. Jack Hyde a colocou no hospital e a traumatizou psicologicamente com apenas dois golpes e um par de insultos. 

Algumas pessoas chiaram pelo fato de a garota ser virgem e o rapaz ser rico. Bem, quando a gente escreve um livro, precisa encontrar meios de conduzir a história de forma coerente. Se Ana não fosse virgem quando encontrou Christian pela primeira vez, como justificar que a primeira transa deles fosse baunilha? Não tem como colocar uma garota virgem numa sessão logo de cara.

Quanto a ele ser rico, faz parte da base da história. Todo aquele equipamento BDSM custa caro. Dominadores tendem a ser mais velhos, inclusive. Porque demora tempo para aprender a dominar, mas também porque pessoas mais velhas costumam ter a situação financeira mais definida.

Claro que não é usual um rapaz de 27 anos ser milionário, mas o dono do Facebook está aí para comprovar que acontece. E dentro do conjunto de conflitos da história, tudo se mostra coerente. E Ana é só seis anos mais nova que ele, não é grande diferença. São dois jovens descobrindo amor e sexo juntos.  

Por tudo isso, só posso entender que de modo algum a série degrada a imagem das mulheres. As personagens falam abertamente sobre sexo casual, não existe nenhum julgamento de caráter em torno disso. Nenhuma delas se sente limitada pelo gênero, nenhum dos homens (exceto Hyde) apresenta conduta de desprezo por mulheres.

A autora tratou BDSM com seriedade. Mostrou inclusive o terapeuta de Christian dizendo que não se considera mais BDSM uma parafilia desde os anos 1990. Mostrou o quanto BDSM envolve respeito e confiança, mas principalmente prazer para o casal. Ela também aborda o paradoxo do poder do submisso, pois o dominador não pode fazer nada sem seu consentimento. Ela só erra em insinuar que Christian pratica BDSM para compensar questões não resolvidas em sua infância e que ele vê sua mãe em suas submissas.


Ana apresenta várias reações comuns em escravas iniciantes. Chora após ter sido punida, fica confusa embora sinta prazer. Christian se comporta o tempo inteiro como um mestre consciente de seu papel, procurando entender as necessidades de sua escrava.

Existe um fascínio altamente romântico nesse tipo de relação. A escrava tem uma sensação de pertencimento muito grande, pois ela é tudo de mais precioso que o mestre possui. E o mestre cuida dela, pois não é fácil encontrar uma escrava com a qual a relação funcione. Christian já tinha tido quinze submissas quando conheceu Ana.



Enfim, a série faz uma descrição honesta do BDSM como estilo de vida, sem estereótipos ridículos nem preconceitos leigos. Recomendo para quem gosta de romance, erotismo e uma pitada de aventura. Eu classifiquei com 4 estrelas no Skoob.     


P.S: 26/11/2012 - Acabei de ver um post no Facebook (infelizmente compartilhado por muitos) sugerindo que Ana se entregou a Christian pelos presentes que ele lhe deu. Quem escreveu isso certamente não leu os livros. Ana nunca quis aceitar nenhum dos presentes apesar da insistência de Christian. Quando ela o deixa, no final do primeiro romance, ela devolve tudo, inclusive. Mas mesmo que ela tivesse se relacionado com ele por dinheiro, isso não a desqualificaria de maneira alguma. Só tornaria a história diferente. O machismo sempre dá um jeito de se manifestar quando menos esperamos. Lamentável.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Canto da Sereia (baseado na canção “My Immortal” da banda Evanescence)


“I’m so tired of being here¹...”, cantou a jovem sereia. Não aguento mais, é tão entediante ser a única sereia deste lago, pensou Adriela. Sempre sozinha, tentando encontrar sentido nisso tudo...
 
Adriela vivia sozinha naquele lago há várias décadas.

                                                                    * * *

Proibido nadar, dizia a placa diante de Marcos, Sílvio e Carlos.
“Acho que a gente não devia nadar aí”, disse Carlos.
“Ai, larga mão de ser estraga prazer”, falou Marcos enquanto prendia os cabelos escuros num rabo de cavalo. “Não tem nada de errado aí e está o maior calor.”
“Se não tem nada aí, por que a placa?”, perguntou Carlos, ainda indeciso.
“Porque as autoridades gostam de reduzir as possibilidades de prazer dos jovens!”, bradou Sílvio ao tirar a regata, deixando seu belo peitoral nu.
“Vamos lá, Carlinhos, não pega nada...”, falou Marcos, em tom persuasivo.
“Tudo bem... vocês me convenceram...”, respondeu Carlos, ao que seus amigos fizeram festa.
Logo os três nadavam de cueca no lago proibido.  

                                                                  * * *

“I’m so tired of being here...”, cantou Adriela sentindo a dor da solidão em seu coração.
Então ela viu um grupo de amigos nadando.
Rapidamente, num reflexo de autopreservação, ela mergulhou sua calda na água. Lembrou que seus seios estavam nus e que homens costumam sentir desejo por seios nus, então manteve apenas seu colo fora d’água.

Afinal, homens são muito malvados. Ela jamais se esqueceria... Existem coisas que o tempo não consegue apagar.Especialmente ao ver as fêmeas de sua espécie. Ou pior, uma espécie nova, quase totalmente desconhecida, mas com o corpo semelhante ao de suas fêmeas. Eles provavelmente a violentariam e depois a pesquisariam.

Ou pior, a comeriam só pra saber que gosto ela tem.

“Tive a impressão de ouvir alguém cantando...”, disse o rapaz com o rabo de cavalo.
“Quem estaria cantando aqui agora, Marcos?”, perguntou o rapaz cuja cabeça era raspada. 
“Não sei... Era voz de mulher...”, respondeu Marcos.
“Haha, você está ouvindo o que quer ouvir...”, falou o outro, que apresentava o peitoral incrivelmente bem exercitado. 

Ele me ouviu, pensou Adriela. Há anos ela não conseguia enfeitiçar nenhum homem e uma latente excitação começou a brotar dentro dela.

“I’m so tired of being here...”, Adriela entoou novamente, com medo de ter esperanças. 

Marcos parou. “Vocês não ouviram isso?”.

“Véio, cê tá ouvindo coisas...”, disse o rapaz do físico escultural.
“Eu tenho certeza, veio daquela direção, Sílvio...”, respondeu Marcos.
“Eu sabia que a gente não devia nadar aqui...”, resmungou o careca.
“Ai, para de reclamar, cara...”, falou Sílvio.
Enquanto os amigos de Marcos se olhavam confusos, ele começou a nadar na direção do som.

“Pera aí, cara! Tá maluco?”, gritou Sílvio. Mas Marcos continuava nadando e seus amigos se sentiram na obrigação de segui-lo.
Testemunhando a cena do alto de um coqueiro, Adriela sentia uma intensa satisfação que não conhecia há tempos.

                                                                           * * *

Os rapazes nadaram por vários minutos; já estavam exaustos quando chegaram a uma ilha desconhecida.
Percebendo a presença dos intrusos, a sereia continuou na forma humana e escondida no topo da árvore. De lá, ficou observando os homens que passeavam por seu território. Ele veio até mim, finalmente, ela pensou. 
Ciente de que Marcos a escutaria, Adriela permaneceu em silêncio por todo o tempo.
“Tá vendo, cara?”, perguntou Sílvio. “Não tem nada aqui, só uma ilha cheia de passarinho e inseto. Vambora...”.

Adriela não poderia aparecer para todos os três, já que seu encanto atingia apenas Marcos.
Enfim, persuadido pelos amigos, Marcos aceitou nadar de volta. Realmente parecia não haver nada na ilha.

                                                                         * * *
   
Marcos esperou apenas o anoitecer, entretanto. A lua cheia o observava enquanto ele percorria as ruas pela madrugada.
Enquanto tirava os tênis na beira do lago, Marcos ainda podia escutar o eco daquela mesma voz feminina que o atormentava desde o mergulho.
Ele não conseguia pensar em mais nada. Não comia, não dormia, não trabalhava, não estudava, não se entretia... Só pensava em voltar àquela misteriosa ilha.
Por que só ele ouvia a voz da mulher? Eis a pergunta que não saía de sua cabeça durante o nado.

Assim que colocou os pés na ilha, Marcos não pôde acreditar. Havia uma mulher tocando harpa num galho de árvore. Cantando.
E ela estava nua.
Marcos não conseguia parar de olhar. Quando ela parou de tocar, pulou no chão e sorriu.
Ele a contemplou em silêncio por alguns segundos. Os seios dela o miravam, voluptuosos. A curva suave da cintura, a penugem clara, praticamente prateada numa linha do umbigo à virilha, a pele branca acetinada... 

Ela esboçava um sorriso e recitava versos que Marcos não entendia.

“Estas feridas parecem jamais cicatrizar
Esta dor é real demais
É tanto que o tempo não pode apagar”.

Que feridas? Ela não parecia machucada...
O mais inusitado era seu cabelo. Longas ondas azuis que quase cobriam seus seios.
“O que você está fazendo nua nessa ilha? Onde você tingiu seu cabelo de azul? É anilina?” Marcos disparou.
A moça apenas continuou sorrindo em silêncio.
Os segundos se esticaram até que Marcos não conseguiu mais controlar o desejo que tomava conta de seu corpo. Atirou-se contra a misteriosa mulher e, surpreendentemente, foi recebido com uma intensa volúpia.
Os prazeres que encontrava nos braços de Adriela eram tão intensos que qualquer outro prazer existente na Terra parecia insosso. 
Assim, os dias passaram e Marcos continuou indo para a ilha sistematicamente todos os dias. Seu corpo já apresentava feridas, mas por todo o tempo que passava longe de Adriela, ele não conseguia parar de ansiar por seu erotismo.

                                                                         * * *

Sílvio ficou terrivelmente preocupado. 
“Marcos, o que você tem feito?”
Marcos permaneceu em silêncio, contemplando o infinito. 
“Marcos, parece que você está drogado...”
“Estou apaixonado, cara...”
“Apaixonado? Por quem?”
“O nome dela é Adriela...”
“Adriela? Onde você conheceu?”
“Na ilha... Ela mora na ilha...”
“Na ilha? Aquela ilha no meio do lago? Cara, ninguém mora naquele lugar, não...”
“Mora sim... A Adriela mora na ilha... Por isso eu preciso voltar para a ilha...”
Sílvio ficou boquiaberto por alguns instantes. Seu amigo enlouquecera. Era a única explicação.
Ele decidiu então seguir Marcos para descobrir quais drogas seu amigo usava.

                                                                         * * *

Quando anoiteceu, ele viu Marcos andando solitário pelas ruas.
Só que Marcos não procurava por traficante. Marcos foi até a beira do lago, atirou-se na água e começou a nadar.
Sílvio não viu outra alternativa se não nadar atrás de seu amigo. 
Chegando à ilha, ficou escondido para ver o que aconteceria.
E qual a sua surpresa ao ver uma bela mulher cantando nua para Marcos. E Marcos com cara de zumbi a contemplava.
Sílvio, tomado por um cego desespero perdeu todo e qualquer poder de raciocínio lógico. Só pensava em salvar seu amigo quando correu para eles.
Adriela, vendo a aproximação de um homem que não conseguia encantar, fugiu para dentro da mata.
Marcos, ao perceber que Adriela havia sido assustada por Sílvio, avançou violentamente contra o amigo.
Sílvio tentava segurar Marcos, mas ele estava ensandecido.
"Para, cara! Sou eu, Sílvio! Seu amigo!”.
Mas era inútil. Marcos continuava tentando matá-lo.
“Ela fugiu por sua causa! Ela desapareceu! Você assustou a Adriela!”, Marcos gritava repetidas vezes enquanto distribuía socos contra Sílvio.
Sílvio contava com a sanidade mental, todavia, e acabou conseguindo deixar Marcos inconsciente.
“Para o que você está fazendo seja lá quem ou o que você seja! Você está matando o Marcos! Ele está definhando, você não consegue ver isso?”, gritou Sílvio para as árvores da ilha.
Sílvio levou o amigo para casa e o trancou no quarto.
Depois ligou para Carlos.

                                                                          * * *

“Cara, deve ter explicação pra isso. E aqui na biblioteca é o melhor lugar pra descobrir. Uma mulher pelada cantando numa ilha e deixando um cara feito um zumbi. O que pode ser?”, sussurrou Sílvio para Carlos. Os dois estavam sentados com uma pilha de livros sobre folclore diante de seus olhos.
“Ela é gata?”, perguntou Carlos.
“Muito... Um pouco estranha, mas muito gostosa”, respondeu Sílvio.
“Deve ser sereia... Aposto que quando o Marcos não está lá, ela cai na água e as pernas dela viram um rabão de peixe... Mas alguém já sabia que havia algo estranho lá, por isso aquela placa...”.
Tudo de repente fez sentido para Sílvio.
“Você tem razão... Vamos procurar algo sobre sereias nestes livros...”.
Os amigos procuraram a tarde inteira, até que Sílvio achou um livro a respeito das lendas da cidade.
“Olha isso aqui, Carlos!”.
Carlos então começou a ler as páginas que Sílvio indicava.
O massacre de Vênus é o nome dado à ocasião em que um grande grupo de sereias foi terminantemente dizimado. Em 1897, um grupo de sereias malignas trouxe o terror para a cidade. Seus cantos sinistros enfeitiçavam os homens, de modo que eles não queriam mais nada além de copular com as aberrações, que adquiriam forma humana quando fora d’água. No limite, eles se tornavam meros joguetes dos monstros, perdendo completamente a vontade e se afogavam no mar. Na ocasião também foi providenciada uma benzedura executada por benzedeiras locais que imunizaram os moradores contras os cantos hipnotizantes. Apesar disso, é sabido que alguns homens foram afetados pelos cantos e morreram em batalha contra seus próprios vizinhos na tentativa de proteger os objetos de sua obsessão.
“É isso!”, disse Carlos. “E se uma sereia tiver sobrevivido ao massacre? E se a ação protetora da benzedura já tiver enfraquecido? E se Marcos for suscetível ao encantamento?”
“Então nós temos que proteger nosso brother”, respondeu Sílvio. 
  
                                                                       * * *

Quando chegou a noite, ao ouvir o canto de Adriela, Marcos estava trancado num quarto no sobrado de Sílvio. 
Carlos e Sílvio vigiavam e assistiram atônitos quando Marcos, de alguma forma, destruiu completamente a janela. Ele parecia disposto a pular.
Vendo o risco eminente, Sílvio abriu a porta.
Marcos derrubou Sílvio primeiro, depois Carlos, então correu na direção do lago.

                                                                     * * *

“Você vai morrer, Marcos!”, gritou Sílvio enquanto perseguia o amigo obcecado.
Marcos o ignorou e continuou correndo.
“Ela é uma sereia! Ela te contou isso?”, gritou Sílvio.
Ao ouvir estas palavras, Marcos parou. E avançou contra Sílvio. “Você não vai dizer isso a ninguém!”.
Carlos tentava apartá-los desesperado.
“Você tem idéia do quanto ela sofreu da outra vez? Ela viu toda a comunidade dela ser destruída e só sobreviveu porque se escondeu!”, disse Marcos enquanto golpeava Sílvio. “Eles estupraram e torturaram as frágeis sereias até a morte...”, Marcos continuava falando entre lágrimas de tristeza e bufos de raiva. “E aqueles que tentaram protegê-las tiveram o mesmo destino...”.
Foi quando outros homens apareceram e conseguiram separar os dois.
“Deixa ele ir, Sílvio. Deixa ele ir”, disse Carlos.
“Mas ele vai morrer!”, respondeu Sílvio indignado.
“Vai morrer feliz”, falou Carlos. “A escolha é dele”.

                                                                      * * *

Marcos caiu nos braços de Adriela e pensou que valia a pena morrer por aquela sensação. “O seu rosto assombra meus agradáveis sonhos. Sua voz levou embora toda minha sanidade”.
Adriela sorriu acariciando os cabelos escuros de Marcos. “Foi muito difícil pra mim na outra vez. Ficar escondida enquanto você morria...”.
“Valeu a pena”, respondeu Marcos. “Morri por você. Se não tivesse sido assim, você não estaria aqui agora”.
“Sim... Sofri por longas décadas. Mas enfim, você nasceu de novo e me encontrou, não é?”.
Marcos se levantou e acariciou a pele branca do rosto de Adriela, notando o contraste com sua pele morena. Adriela então deitou a cabeça na areia, deixando suas longas ondas azul marinho espalhadas.
Por longas horas, eles fizeram amor como se não houvesse amanhã.
“Você sabe que eu não posso viver o tempo inteiro fora d’água. Agora eu tenho que voltar pra meu mundo”, disse Adriela ao se despedir de Marcos.
“Eu sei. Não se preocupe, estarei aqui assim que ouvir seu canto.”
Marcos sentou na beira do lago enquanto o dia amanhecia. Para ele era prazeroso ver o belo corpo de Adriela mergulhando  e, logo depois, ver um belo rabo de peixe, azulado e cintilante, projetando-se para fora d’água.
Um verdadeiro milagre, pelo qual ele daria a vida quantas vezes fosse necessário.


1 - “Estou tão cansada de ficar aqui”, nota da autora.