quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Canto da Sereia (baseado na canção “My Immortal” da banda Evanescence)


“I’m so tired of being here¹...”, cantou a jovem sereia. Não aguento mais, é tão entediante ser a única sereia deste lago, pensou Adriela. Sempre sozinha, tentando encontrar sentido nisso tudo...
 
Adriela vivia sozinha naquele lago há várias décadas.

                                                                    * * *

Proibido nadar, dizia a placa diante de Marcos, Sílvio e Carlos.
“Acho que a gente não devia nadar aí”, disse Carlos.
“Ai, larga mão de ser estraga prazer”, falou Marcos enquanto prendia os cabelos escuros num rabo de cavalo. “Não tem nada de errado aí e está o maior calor.”
“Se não tem nada aí, por que a placa?”, perguntou Carlos, ainda indeciso.
“Porque as autoridades gostam de reduzir as possibilidades de prazer dos jovens!”, bradou Sílvio ao tirar a regata, deixando seu belo peitoral nu.
“Vamos lá, Carlinhos, não pega nada...”, falou Marcos, em tom persuasivo.
“Tudo bem... vocês me convenceram...”, respondeu Carlos, ao que seus amigos fizeram festa.
Logo os três nadavam de cueca no lago proibido.  

                                                                  * * *

“I’m so tired of being here...”, cantou Adriela sentindo a dor da solidão em seu coração.
Então ela viu um grupo de amigos nadando.
Rapidamente, num reflexo de autopreservação, ela mergulhou sua calda na água. Lembrou que seus seios estavam nus e que homens costumam sentir desejo por seios nus, então manteve apenas seu colo fora d’água.

Afinal, homens são muito malvados. Ela jamais se esqueceria... Existem coisas que o tempo não consegue apagar.Especialmente ao ver as fêmeas de sua espécie. Ou pior, uma espécie nova, quase totalmente desconhecida, mas com o corpo semelhante ao de suas fêmeas. Eles provavelmente a violentariam e depois a pesquisariam.

Ou pior, a comeriam só pra saber que gosto ela tem.

“Tive a impressão de ouvir alguém cantando...”, disse o rapaz com o rabo de cavalo.
“Quem estaria cantando aqui agora, Marcos?”, perguntou o rapaz cuja cabeça era raspada. 
“Não sei... Era voz de mulher...”, respondeu Marcos.
“Haha, você está ouvindo o que quer ouvir...”, falou o outro, que apresentava o peitoral incrivelmente bem exercitado. 

Ele me ouviu, pensou Adriela. Há anos ela não conseguia enfeitiçar nenhum homem e uma latente excitação começou a brotar dentro dela.

“I’m so tired of being here...”, Adriela entoou novamente, com medo de ter esperanças. 

Marcos parou. “Vocês não ouviram isso?”.

“Véio, cê tá ouvindo coisas...”, disse o rapaz do físico escultural.
“Eu tenho certeza, veio daquela direção, Sílvio...”, respondeu Marcos.
“Eu sabia que a gente não devia nadar aqui...”, resmungou o careca.
“Ai, para de reclamar, cara...”, falou Sílvio.
Enquanto os amigos de Marcos se olhavam confusos, ele começou a nadar na direção do som.

“Pera aí, cara! Tá maluco?”, gritou Sílvio. Mas Marcos continuava nadando e seus amigos se sentiram na obrigação de segui-lo.
Testemunhando a cena do alto de um coqueiro, Adriela sentia uma intensa satisfação que não conhecia há tempos.

                                                                           * * *

Os rapazes nadaram por vários minutos; já estavam exaustos quando chegaram a uma ilha desconhecida.
Percebendo a presença dos intrusos, a sereia continuou na forma humana e escondida no topo da árvore. De lá, ficou observando os homens que passeavam por seu território. Ele veio até mim, finalmente, ela pensou. 
Ciente de que Marcos a escutaria, Adriela permaneceu em silêncio por todo o tempo.
“Tá vendo, cara?”, perguntou Sílvio. “Não tem nada aqui, só uma ilha cheia de passarinho e inseto. Vambora...”.

Adriela não poderia aparecer para todos os três, já que seu encanto atingia apenas Marcos.
Enfim, persuadido pelos amigos, Marcos aceitou nadar de volta. Realmente parecia não haver nada na ilha.

                                                                         * * *
   
Marcos esperou apenas o anoitecer, entretanto. A lua cheia o observava enquanto ele percorria as ruas pela madrugada.
Enquanto tirava os tênis na beira do lago, Marcos ainda podia escutar o eco daquela mesma voz feminina que o atormentava desde o mergulho.
Ele não conseguia pensar em mais nada. Não comia, não dormia, não trabalhava, não estudava, não se entretia... Só pensava em voltar àquela misteriosa ilha.
Por que só ele ouvia a voz da mulher? Eis a pergunta que não saía de sua cabeça durante o nado.

Assim que colocou os pés na ilha, Marcos não pôde acreditar. Havia uma mulher tocando harpa num galho de árvore. Cantando.
E ela estava nua.
Marcos não conseguia parar de olhar. Quando ela parou de tocar, pulou no chão e sorriu.
Ele a contemplou em silêncio por alguns segundos. Os seios dela o miravam, voluptuosos. A curva suave da cintura, a penugem clara, praticamente prateada numa linha do umbigo à virilha, a pele branca acetinada... 

Ela esboçava um sorriso e recitava versos que Marcos não entendia.

“Estas feridas parecem jamais cicatrizar
Esta dor é real demais
É tanto que o tempo não pode apagar”.

Que feridas? Ela não parecia machucada...
O mais inusitado era seu cabelo. Longas ondas azuis que quase cobriam seus seios.
“O que você está fazendo nua nessa ilha? Onde você tingiu seu cabelo de azul? É anilina?” Marcos disparou.
A moça apenas continuou sorrindo em silêncio.
Os segundos se esticaram até que Marcos não conseguiu mais controlar o desejo que tomava conta de seu corpo. Atirou-se contra a misteriosa mulher e, surpreendentemente, foi recebido com uma intensa volúpia.
Os prazeres que encontrava nos braços de Adriela eram tão intensos que qualquer outro prazer existente na Terra parecia insosso. 
Assim, os dias passaram e Marcos continuou indo para a ilha sistematicamente todos os dias. Seu corpo já apresentava feridas, mas por todo o tempo que passava longe de Adriela, ele não conseguia parar de ansiar por seu erotismo.

                                                                         * * *

Sílvio ficou terrivelmente preocupado. 
“Marcos, o que você tem feito?”
Marcos permaneceu em silêncio, contemplando o infinito. 
“Marcos, parece que você está drogado...”
“Estou apaixonado, cara...”
“Apaixonado? Por quem?”
“O nome dela é Adriela...”
“Adriela? Onde você conheceu?”
“Na ilha... Ela mora na ilha...”
“Na ilha? Aquela ilha no meio do lago? Cara, ninguém mora naquele lugar, não...”
“Mora sim... A Adriela mora na ilha... Por isso eu preciso voltar para a ilha...”
Sílvio ficou boquiaberto por alguns instantes. Seu amigo enlouquecera. Era a única explicação.
Ele decidiu então seguir Marcos para descobrir quais drogas seu amigo usava.

                                                                         * * *

Quando anoiteceu, ele viu Marcos andando solitário pelas ruas.
Só que Marcos não procurava por traficante. Marcos foi até a beira do lago, atirou-se na água e começou a nadar.
Sílvio não viu outra alternativa se não nadar atrás de seu amigo. 
Chegando à ilha, ficou escondido para ver o que aconteceria.
E qual a sua surpresa ao ver uma bela mulher cantando nua para Marcos. E Marcos com cara de zumbi a contemplava.
Sílvio, tomado por um cego desespero perdeu todo e qualquer poder de raciocínio lógico. Só pensava em salvar seu amigo quando correu para eles.
Adriela, vendo a aproximação de um homem que não conseguia encantar, fugiu para dentro da mata.
Marcos, ao perceber que Adriela havia sido assustada por Sílvio, avançou violentamente contra o amigo.
Sílvio tentava segurar Marcos, mas ele estava ensandecido.
"Para, cara! Sou eu, Sílvio! Seu amigo!”.
Mas era inútil. Marcos continuava tentando matá-lo.
“Ela fugiu por sua causa! Ela desapareceu! Você assustou a Adriela!”, Marcos gritava repetidas vezes enquanto distribuía socos contra Sílvio.
Sílvio contava com a sanidade mental, todavia, e acabou conseguindo deixar Marcos inconsciente.
“Para o que você está fazendo seja lá quem ou o que você seja! Você está matando o Marcos! Ele está definhando, você não consegue ver isso?”, gritou Sílvio para as árvores da ilha.
Sílvio levou o amigo para casa e o trancou no quarto.
Depois ligou para Carlos.

                                                                          * * *

“Cara, deve ter explicação pra isso. E aqui na biblioteca é o melhor lugar pra descobrir. Uma mulher pelada cantando numa ilha e deixando um cara feito um zumbi. O que pode ser?”, sussurrou Sílvio para Carlos. Os dois estavam sentados com uma pilha de livros sobre folclore diante de seus olhos.
“Ela é gata?”, perguntou Carlos.
“Muito... Um pouco estranha, mas muito gostosa”, respondeu Sílvio.
“Deve ser sereia... Aposto que quando o Marcos não está lá, ela cai na água e as pernas dela viram um rabão de peixe... Mas alguém já sabia que havia algo estranho lá, por isso aquela placa...”.
Tudo de repente fez sentido para Sílvio.
“Você tem razão... Vamos procurar algo sobre sereias nestes livros...”.
Os amigos procuraram a tarde inteira, até que Sílvio achou um livro a respeito das lendas da cidade.
“Olha isso aqui, Carlos!”.
Carlos então começou a ler as páginas que Sílvio indicava.
O massacre de Vênus é o nome dado à ocasião em que um grande grupo de sereias foi terminantemente dizimado. Em 1897, um grupo de sereias malignas trouxe o terror para a cidade. Seus cantos sinistros enfeitiçavam os homens, de modo que eles não queriam mais nada além de copular com as aberrações, que adquiriam forma humana quando fora d’água. No limite, eles se tornavam meros joguetes dos monstros, perdendo completamente a vontade e se afogavam no mar. Na ocasião também foi providenciada uma benzedura executada por benzedeiras locais que imunizaram os moradores contras os cantos hipnotizantes. Apesar disso, é sabido que alguns homens foram afetados pelos cantos e morreram em batalha contra seus próprios vizinhos na tentativa de proteger os objetos de sua obsessão.
“É isso!”, disse Carlos. “E se uma sereia tiver sobrevivido ao massacre? E se a ação protetora da benzedura já tiver enfraquecido? E se Marcos for suscetível ao encantamento?”
“Então nós temos que proteger nosso brother”, respondeu Sílvio. 
  
                                                                       * * *

Quando chegou a noite, ao ouvir o canto de Adriela, Marcos estava trancado num quarto no sobrado de Sílvio. 
Carlos e Sílvio vigiavam e assistiram atônitos quando Marcos, de alguma forma, destruiu completamente a janela. Ele parecia disposto a pular.
Vendo o risco eminente, Sílvio abriu a porta.
Marcos derrubou Sílvio primeiro, depois Carlos, então correu na direção do lago.

                                                                     * * *

“Você vai morrer, Marcos!”, gritou Sílvio enquanto perseguia o amigo obcecado.
Marcos o ignorou e continuou correndo.
“Ela é uma sereia! Ela te contou isso?”, gritou Sílvio.
Ao ouvir estas palavras, Marcos parou. E avançou contra Sílvio. “Você não vai dizer isso a ninguém!”.
Carlos tentava apartá-los desesperado.
“Você tem idéia do quanto ela sofreu da outra vez? Ela viu toda a comunidade dela ser destruída e só sobreviveu porque se escondeu!”, disse Marcos enquanto golpeava Sílvio. “Eles estupraram e torturaram as frágeis sereias até a morte...”, Marcos continuava falando entre lágrimas de tristeza e bufos de raiva. “E aqueles que tentaram protegê-las tiveram o mesmo destino...”.
Foi quando outros homens apareceram e conseguiram separar os dois.
“Deixa ele ir, Sílvio. Deixa ele ir”, disse Carlos.
“Mas ele vai morrer!”, respondeu Sílvio indignado.
“Vai morrer feliz”, falou Carlos. “A escolha é dele”.

                                                                      * * *

Marcos caiu nos braços de Adriela e pensou que valia a pena morrer por aquela sensação. “O seu rosto assombra meus agradáveis sonhos. Sua voz levou embora toda minha sanidade”.
Adriela sorriu acariciando os cabelos escuros de Marcos. “Foi muito difícil pra mim na outra vez. Ficar escondida enquanto você morria...”.
“Valeu a pena”, respondeu Marcos. “Morri por você. Se não tivesse sido assim, você não estaria aqui agora”.
“Sim... Sofri por longas décadas. Mas enfim, você nasceu de novo e me encontrou, não é?”.
Marcos se levantou e acariciou a pele branca do rosto de Adriela, notando o contraste com sua pele morena. Adriela então deitou a cabeça na areia, deixando suas longas ondas azul marinho espalhadas.
Por longas horas, eles fizeram amor como se não houvesse amanhã.
“Você sabe que eu não posso viver o tempo inteiro fora d’água. Agora eu tenho que voltar pra meu mundo”, disse Adriela ao se despedir de Marcos.
“Eu sei. Não se preocupe, estarei aqui assim que ouvir seu canto.”
Marcos sentou na beira do lago enquanto o dia amanhecia. Para ele era prazeroso ver o belo corpo de Adriela mergulhando  e, logo depois, ver um belo rabo de peixe, azulado e cintilante, projetando-se para fora d’água.
Um verdadeiro milagre, pelo qual ele daria a vida quantas vezes fosse necessário.


1 - “Estou tão cansada de ficar aqui”, nota da autora.




Um comentário:

  1. Patty, muito bonito o conto principalmente no ponto de vista feminino. Eu não acredito em alma gêmea, aquela pessoa certa para formar seu par, mesmo dando boas histórias na ficção. Beijos.

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