terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Misoginia de discurso e a má-fé de Rafinha Bastos

Um dia, era período de férias, eu fui almoçar no bandejão da universidade na qual estudo. Fiquei  surpresa quando, havendo vários lugares vagos, dois rapazes se sentaram a meu lado. Ao longo da refeição, ficou clara a intenção por trás da escolha deles.

Eles conversavam sobre um tal prostíbulo que fazia uma promoção, o programa custava menos durante o dia. Num dado momento um dos elementos disse: "Ele comeu uma mina top por R$70,00". Quer dizer, ele não só quer ser misógino, ele quer que uma mulher saiba disso. Ele escolheu se sentar a meu lado para ter a chance de falar sobre esse assunto com seu amigo para que uma mulher ouvisse.  

Num outro dia, no mesmo bandejão, tive o azar de me sentar na mesma mesa que esse cara novamente. Pois é, eu não reparei que ele era o mesmo indivíduo até escutar a conversa. Dessa vez ele estava com um grupo maior de otários. Quando me viu, começou a falar bem alto sobre uma tal DST que ele havia contraído. Sério. O cara achou legal falar sobre a dor que sentia quando tinha uma ereção. Provavelmente porque ele queria que eu soubesse que ele tem ereção. Escutei por mais alguns minutos ele falar sobre ter visto filmes pornográficos e um show da Shakira, mas não ter tido uma ereção por ter ficado com medo. 

Então eu troquei de mesa. Mas fiz questão de escolher uma mesa próxima, pra que ele entendesse a razão pela qual eu mudei de mesa. Sabe, a gente não é obrigada a ouvir homens conversando sobre porcarias. Principalmente quando eles escolhem esses assuntos justamente para que nós mulheres escutemos.

Isso é misoginia de discurso. Homens dizem coisas degradantes para as mulheres em voz alta porque a sociedade não aplica sanções contra quem desrespeita mulheres. Esse desejo de destruição do feminino é aceito porque no fundo uma boa parte de nossa sociedade concorda com esse tipo de manifestação. É o caso da normatizada cantada de rua, por exemplo. Nada mais é que um tipo de agressão verbal.

Não precisa ser um insulto direcionado. Há alguns dias no metrô, eu ouvi um grupo com três rapazes falando para quem quisesse escutar sobre uma garota que tinha "cheiro de puta". Depois que desembarquei, tive a infelicidade de topar com outro grupo. Um deles dizia não aguentar olhar na cara de uma tal "mina". O outro, que inclusive era afro, disse em voz alta: "Mas você não precisa olhar pra cara dela, só pra aquele cuzão gostoso dela".

Pois é, lamentável. O cara não vê nenhum problema em tratar as garotas como objeto publicamente. Se fosse uma manifestação racista não teria essa enorme aceitação. Os caras teriam vergonha de se colocarem assim publicamente. Mas ser machista parece ser legal. Tratar garotas mal parece ser um motivo de orgulho para os rapazes. O que nós temos é toda uma cultura que entende mulheres como seres desprezíveis que precisam ser controlados, e que considera o machismo inócuo e cultural. Uma cultura que inclusive não fala em misoginia, mesmo quando um crime de ódio como o massacre do Realengo acontece. Porque manifestações misóginas são tão normais e esperadas que ninguém se choca. E isso inclui a desqualificação sistemática do movimento feminista. O que nos leva a Rafinha Bastos.

Rafinha Bastos postou há alguns dias uma mensagem mais ou menos assim: "Cadê o movimento feminista pra lutar contra o tratamento diferenciado que a mulher recebe ao pagar meia-entrada na festinha?".

Sabe, eu tenho certeza de que esse homem não entende nada de feminismo, haja vista ele ter achado que havia dado um motivo pra gente lutar quando protestamos contra suas "piadas" sobre estupro.

Por outro lado, ele não é simplório o suficiente pra acreditar nessa declaração dele. Eu tenho certeza de que ele sabe que em balada GLS os valores são iguais. Ele deve saber inclusive que em baladas direcionadas ao público gay masculino, mulheres pagam mais. Ele também certamente sabe que homens não vão a baladas hétero se não houver mulheres lá. Ele sabe também que mulheres não costumam ir para a balada sozinha devido ao assédio que sofrem, logo uma mulher na festa significa mais algumas amigas na festa. Acima de tudo, ele sabe que don@ de balada não faz caridade. Ele sabe que se mulheres pagam menos, não é por cavalheirismo. É meramente uma estratégica comercial. Mulheres são iscas.

Tudo bem, a gente pode até gastar um pouco menos. Mas a gente ganha menos também, é sempre bom lembrar. Num país onde existe uma misoginia estrutural tão forte, esperar que o movimento feminista se concentre num detalhe tão insignificante chega a ser juvenil. Sem brincadeira.
 

Se o Rafinha fosse adolescente, seria normal ouvir uma perguntinha como essa. Mas não é o caso. É lógico que isso é má-fé. Ele quer desqualificar o movimento feminista, já que tem tido problemas com a gente por praticar misoginia constantemente.

E eu não tenho medo de afirmar isso, sabe por quê? Num país em que um homem fala em voz alta que mulher feia não pode reclamar por ter sido estuprada, e não acontece nada com ele, a gente vai ter medo de dizer o quê? E é bom deixar claro que meu blog é de humor politicamente incorreto.

Obviamente, ele também quer ser ovacionado pelos fãs imbecis dele. Ele conhece bem seu público alvo, sabe muito bem que qualquer declaração senso comum capaz de reiterar algum preconceito bem arraigado nessa gente concede a eles o aval de pensar como pensam. Rafinha Bastos diz coisas machistas, logo quem gosta das piadas dele é machista. Mas não só isso. Essas pessoas se sentem confortáveis com as declarações dele, é como se alguém mais importante e portanto com mais autoridade estivesse validando seus valores. Claro que no processo ele também paga de estúpido diante de pessoas como eu. Mas eu não sou o público alvo dele.   

A única forma de se desconstruir esse discurso misógino social perigoso é oferecendo senso crítico às pessoas. E isso elas só vão receber se estiverem abertas para tanto. Mas a princípio, existe algo que podemos fazer. É preciso difundir que ser machista é uma temível falha de caráter. É preciso que as pessoas se envergonhem de manifestar machismo. É preciso, enfim, que uma declaração machista seja vista como uma declaração racista ou homofóbica. É mais difícil pra quem foi domesticado perceber tudo isso. Mas sempre é tempo.   





7 comentários:

  1. Aff, tem gente que me dá nojo! Onde já se viu gostar de pegar DST! ECA! Tratar mulher como objeto ou qualquer pessoa não é bacana! E esse Rafinha Bastos ganha ibope falando mal dos outros! Rafinha Bastos, desculpe-me, mas isso NÃO É TALENTO! TAMPOUCO humorismo de qualidade!

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    1. Tem muito cara escroto por aí, até aí tudo bem. O problema é eles acharem legal ostentar isso. Quando a sociedade tolera um tipo de discurso, ela diz algo sobre ela mesma. Se a manifestação machista é tolerada dentro de uma universidade, é sinal que o problema do machismo é muito mais grave do que o senso comum indica.

      Não, o Rafinha bastos não é humorista. Ele ganha dinheiro dando declarações ofensivas contra minorias porque uma grande parcela da população concorda com as coisas que ele diz. Esse pessoal se sente confortável tendo alguém que fala coisas em que eles acreditam, é como se alguém dissesse: "OK, pode ser preconceituoso, é isso mesmo". O Gentili segue a mesma linha.

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    2. perfeito Patty!!!!

      perfeita essa reposta acima

      perfeito texto

      bjssssssssssssssssssssss

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  2. Já disse uma vez que se o tal "Rafinha" não fosse judeu, seria nazista. Creio que seja o grande sonho dele. Não há outra justificativa para tamanha idiotice.

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    1. Bom, ele é bastante conservador. Meio caminho andado.

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