quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Misoginia social: O caso das atendentes

Dia 19/12/2012, eu estava na fila do posto de gasolina do Carrefour Vila Maria, quando notei que a fila à direita da minha paralizou. Havia acontecido algum problema na cobrança e o cliente não conseguia concluir o pagamento.

Não sei o que aconteceu, mas sei o que ouvi. O cliente gritou com a funcionária, a chamou de xucra e de filha da puta. Falou que ela que tinha errado, estacionou o carro fora do caixa, acendeu um cigarro e continuou com as ofensas.

Eu fiquei estarrecida com o nível de agressão. Olhei para ela, visivelmente abalada dentro da cabine. Uma moça jovem, bonita e afrodescentente.

O fato é que muita gente acha divertido agredir mulheres. Se elas estão em postos baixos na hierarquia duma empresa, parece que o direito à agressão se torna legal. Sendo afrodescendente então, o sujeito acha que pode insultar à vontade.

Qual o objetivo ao se insultar alguém? Vai resolver mais rápido o problema? É óbvio que não, a intenção é destruir a outra pessoa.

Hoje à tarde, eu estava na sala de espera dum oftalmologista, quando um homem resolveu causar. Para efeito de identificação no texto, vou chamá-lo simplesmente de elemento. Ele falou em voz alta com a atendente, reclamou de uma suposta demora para que ela fizesse a ficha dele, foi mega agressivo por nada. Falou que não tinha o dia inteiro e que quanto mais ela demorasse a fazer a ficha, mais ele esperaria.

Foi constrangedor, ninguém gostou, mas ninguém falou nada. Ficou um silêncio constrangedor na sala. A atendente, visivelmente abalada, explicou que o atendimento era por ordem de chegada.

Ele continuou reclamando, foi ridículo. Eu comentei com minha mãe que se fosse um homem no atendimento, ele não teria falado daquele jeito. Claro, apesar de não termos falado nada, as expressões de nossos rostos explicitavam nossas opiniões.

Ele ficou bravo e começou a dizer em voz alta, para todos ouvirem, que brasileiros estavam acostumados a abaixar a cabeça, mas que ele reclamava mesmo, não se importava se ninguém o apoiava. Falava essas besteiras para uma mulher ao lado dele, mas ela não respondia, ninguém ouvia a voz dela.

Minha mãe foi chamada para o atendimento. Lá dentro, ela comunicou a ocorrência para o médico, e logo um homem veio ajudar a atendente. Nesse momento, a atendente chamou o elemento para assinar a ficha.

O homem que ajudava a atendente, outro médico, estava prestes a organizar a ordem do atendimento, quando o elemento decidiu causar mais uma vez. Apontou para uma senhora na sala e falou: "Aquela senhora estava aqui antes que eu, mas eu fui chamado antes dela".

Que babaca, né? Quer dizer, o problema dele não era ser atendido, mas desqualificar o trabalho da funcionária. Ou seja, queria agredi-la a qualquer custo.

Sabe, até eu queria que ele fosse embora logo, imagina ela? Ela deve tê-lo passado na frente para que ele parasse de encher o saco, mas ele viu nisso mais uma brecha para ofendê-la. Ele pretendia ficar no "mimimi" impunemente, mas eu não aguentei. Sim, eu me intrometi. Falei: "Você só quer encher o saco, está agredindo a moça desde que chegou. Se fosse um homem, você não falaria essas coisas. Seu machista".

Claro que ele não gostou. Ele gosta de mulheres iguais à acompanhante dele, que ouvem tudo caladas.  Mas não negou que era machista, não. Só disse que "reclamaria" pra qualquer pessoa. Besteira, o lance dele era agredir uma mulher jovem, bonita e que trabalha fora. Aos olhos dele, ela era uma presa fácil, já que ele era "cliente" do consultório no qual ela trabalhava. Ele pensava que podia agredi-la a torto e a direito sem consequências.

Mas eu falei na cara dele que ele estava errado e pontuei a verdadeira razão por trás da escrotice dele. E ele continuou resmungando, no limite disse pra eu não me meter no que não era chamada. Gracinha, né? Faz barraco e não quer que ninguém fale nada? Infantil, no mínimo. Eu falei que discriminação é da conta de todos, então ele falou pra eu ir dar uma queixa na delegacia.

Então eu tirei uma foto dele. Aí a acompanhante dele avisou pra ele, mas eu ainda não ouvi a voz dela! Só percebi porque ele começou a reclamar. Primeiro me desafiou, disse pra eu mandar pra Interpol (Como é ignorante!), depois disse que eu não tinha permissão pra fazer isso, que ele não tinha me cedido direitos de imagem...

Ficou com medo, né? Pra quem tinha tanta certeza de que estava certo... Deu o show, depois ficou bravo ao ser documentado. Eu respondi: "Eu sou fotógrafa profissional e sei que posso fazer isso." Então ele largou a seguinte pérola: "Você não é tão inteligente quanto pensa".

Exato, na visão dele, como sou mulher, tenho que ser burra! Pois é, em nenhum momento eu o desqualifiquei. Mas ele precisou me insultar de alguma forma, ainda que sutilmente. Claro, esse tipo de homem (misógino) sente especial prazer em agredir mulheres. Principalmente se forem jovens, bonitas e inteligentes, nada os irrita mais. Ainda mais que eu fui a única pessoa na sala que o enfrentou.

Ele continuou na choradeira dele, dizendo que eu podia ter problemas. Meu pai disse: "Cala a boca, rapaz!". Esse tipo constuma respeitar homens, mas ele ainda continuou resmungando um pouco depois disso.

Mais tarde, o médico que testemunhou tudo pediu desculpas pelo ocorrido. Mas não assumiu em nenhum momento que o elemento era machista, nem que havia acontecido uma discriminação ali. Só deu uma explicação classista. Falou algo como: "Tem gente que nunca teve um convênio, quando entra numa firma e consegue um, acha que tem direito a fazer discursinho".

Sabe, até concordo que o elemento estivesse numa crise de se achar muito especial naquele momento. Pode ser que seja o primeiro convênio da vida dele. Mas não podemos ignorar o teor misógino das agressões dele. Ele não ofendeu nenhum homem lá dentro e se calou pouco tempo depois de meu pai ter se dirigido a ele. E tenho certeza de que ele não falaria daquele jeito com o chefe.

A questão é que existe uma misoginia estrutural muito bem estabelecida. Tão bem estabelecida que as pessoas sequer consideram sua existência. Mas é só observar e perceber que é muito maior a probabilidade de uma mulher ser agredida gratuitamente que um homem. Porque existe todo um prazer social na destruição de mulheres, e isso aparece nas coisas mais banais, desde o julgamento de um produto cultural que agrada mulheres até quando a imprensa dá uma notícia sobre um crime no qual a vítima foi uma mulher. Sempre existe um prazer na desqualificação do que é feminino, sempre existe um desdém do sofrimento feminino, e sempre existe uma culpabilização das mulheres pelas agressões que sofrem. E não, agressões não fazem parte da vida. Acontecem porque existe gente ruim que agride. Se existisse uma luta séria contra a misoginia, boa parte das agressões contra mulheres acabariam.        

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Adorei o texto e seu posicionamento quanto à agressão causada por esse tal "elemento". Não dá para ficar com a boca fechada e deixar essas coisas acontecerem sem ter resposta.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Caroline! De fato, não me arrependo de ter respondido. Só acho que poderia ter dito outras coisas. Se todo mundo se colocasse, esses tipos não teriam espaço.

      Excluir

Eu me reservo o direito de não responder perguntas cuja resposta esteja no próprio post. Comentários imbecis e sem embasamento estão sujeitos a ridicularização. Comente por sua conta e risco. Obrigada!