segunda-feira, 25 de março de 2013

Deixe-me viver de Luiz Sérgio - Resenha


Deixe-me viver
Irene Pacheco Machado - 257 páginas - Recanto


Resenha

Uma visão conservadora

11/03/2013

Basicamente, um livro contra o aborto. Ele tenta convencer as mulheres de que elas devem naturalmente amar o feto dentro delas ainda que ele tenha sido formado lá a força num estupro, pois "tudo é consequência de nossos atos".

O espiritismo, apesar de tão progressista em alguns aspectos, acaba oferecendo mais uma visão religiosa de que mulher não tem direito a nada além de ser mãe, como se isso fosse um papel natural. Além disso, o livro reitera a visão de senso comum de que as mulheres são culpadas pela violência sexual que sofrem. Fica tudo nas costas da mulher, como se o pai do tal feto não tivesse nada a ver com o assunto, como se ele não estivesse rejeitando a paternidade, como se ele também não tivesse se descuidado no momento de evitar.

Esse livro foi uma das razões pelas quais abandonei a doutrina espírita. Acho muito irresponsável um livro com esse tipo de visão num país tão saturado de machismo. Mas é sempre bom lembrar que a melhor fonte de informação sobre o espiritismo é a codificação de Kardec. Muitos livros supostamente escritos por espíritos se mostram nada mais que obras de ficção.

Pelas lembranças que tenho de quando eu praticava o espiritismo, a doutrina pregava que a ciência deve sempre ser mais valorizada que convicções religiosas. E a ciência hoje diz que um feto não tem consciência, pois não tem cérebro, pelo menos até a 12ª semana de gestação. Além disso, eu me lembro de ter lido em algum lugar, acho que no "Livro dos Espíritos", que se deve optar sempre pela vida da mulher gestante caso a gravidez ofereça riscos à sua saúde.

Mapa do aborto no mundo: autoexplicativo

Gostaria de lembrar que o aborto ilegal não impede que aconteçam abortos, pois há estimativas de que, anualmente, entre 729 mil e 1,25 milhão de mulheres se submetam ao procedimento no Brasil. A única diferença é que, sendo ilegal, 250 mulheres morrem por ano devido a complicações aqui no país. Por isso o procedimento já é legal em 67% do mundo, principalmente em países desenvolvidos.

Recomendo o livro Freakonomics de Steven Levitt e Stephen J. Dubner como contraponto.

Atualização 18/10/2014

Trecho de um comentário da leitora Gle que considero bastante relevante:

Existe um livro chamado Livro dos Espíritos (Allan Kardec) que é tipo um "perguntas e respostas" do Espiritismo, onde as perguntas são feitas por Médiuns para os Espíritos e eles respondem. Veja essas abaixo e suas respectivas respostas:

344. Em que momento a alma se une ao corpo?

— A união começa na concepção, mas não se completa senão no momento do nascimento. Desde o momento da concepção, o Espírito designado para tomar determinado corpo a ele se liga por um laço fluídico, que se vai encurtando cada vez mais, até o instante em que a criança vem à luz; o grito que então se escapa de seus lábios anuncia que a criança entrou para o número dos vivos.

346. Que acontece ao Espírito, se o corpo que ele escolheu morrer antes de nascer?

— Escolhe outro.

353. A união do Espírito com o corpo não estando completa e definidamente consumada, senão depois do nascimento, pode considerar-se o feto como tendo uma alma?

— O Espírito que deve animar existe, de qualquer maneira, fora dele. Propriamente falando, ele não tem uma alma, pois a encarnação está apenas em vias de se realizar, mas está ligado à alma que deve possuir.

354. Como se explica a vida intrauterina?

— E a da planta que vegeta. A criança vive a vida animal. O homem possui em si a vida animal e a vida vegetal, que completa, ao nascer, com a vida espiritual.

357. Quais são, para o Espírito, as consequências do aborto?

— Uma existência nula e a recomeçar.

358. O aborto provocado é um crime, qualquer que seja a época da concepção?

— Há sempre crime quando se transgride a lei de Deus. A mãe ou qualquer pessoa cometerá sempre um crime ao tirar a vida à criança antes do seu nascimento, porque isso é impedir a alma de passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento.

359. No caso em que a vida da mãe estaria em perigo pelo nascimento da criança, há crime em sacrificar a criança para salvar a mãe?

—É preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe.



2 comentários:

  1. Oi, Patty... li casualmente sua resenha, e acredito que vc talvez não tenha entendido bem o "espírito" ( sem trocadilho ) da coisa : o estruprador é um idiota, não existe outra qualificação para um ato animalesco como esse: a mulher é uma vítima, sem dúvida nenhuma, já que na maior parte das vezes não teve como se defender. Mas e o feto ? Também não é uma vítima inocente, que por sua fragilidade também não pode se defender ? Para a mulher a vida prossegue, com traumas talvez, mas ela pode reconstruir sua felicidade em novas oportunidades. E o feto, deve ser assassinado por não ser fruto de uma relação de amor ? Merece ter a sua oportunidade de vida cortada ? Não seria ele - nesse drama humano - exatamente a maior vítima ??? Não se "pratica" o espiritismo, ele não é propriamente uma religião, mas sim um conjunto de regras morais que em tese se destinam a irmanar os homens, sem dogmas, sem condições pre-estabelecidas, baseadas apenas no amor... e partindo dessa premissa, mesmo com todo o horror de uma situação de violência sexual que deixe um fruto, vc não acha que falta amor à mulher que elimina de sí um ser tão inocente quanto ela, com uma violência tão absurda quanto a do estuprador ? Em um caso destes, não existem opções : no exercício de sua liberdade como dona de seu corpo, a mulher parece que esquece da liberdade do feto, que, indefeso, nem pode argumentar a favor de seu direito de viver... sem o ranço dos religiosos dogmáticos, mas também sem o ranço das posições radicais feministas, analise a questão na sua essência : são vidas... Orlando, nuvem50@gmail.com

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    1. Olá Orlando, obrigada pelo comentário.

      Eu acho que o equívoco maior é entender o embrião ou feto como pessoa com direitos, o que ele não é. A mulher é um ser humano já formado, uma cidadã com direitos, e ela não pode ser punida com uma gravidez indesejada jamais. Está entre as crenças do espiritismo que o espírito encarnaria no momento da concepção, mas, do ponto de vista científico, é impossível que haja consciência num ser sem atividade cerebral. Essa visão da "vida" no senso comum é profundamente deturpada. O estado deve ser laico e servir aos direitos de todas as pessoas, melhorando a qualidade de vida como um todo.

      E quanto à questão do estupro, a gente vive uma cultura que o trata como um problema menor pelo fato de que ele por si só não mata a vítima. Mas o estupro é um tipo de tortura e violência de gênero aplicado para controlar o comportamento das mulheres. Forçá-las a gestar um feto dum estuprador é torturá-las novamente em nome de algo supostamente maior, o que é inaceitável. Eu gostaria que homens sentissem mais empatia pelo que mulheres passam e pudessem esquecer um pouco o conforto do privilégio masculino. Afinal, mulheres são vidas.

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