sábado, 13 de abril de 2013

Culpabilização da vítima: Horror nas Maldivas, horror no Brasil

Há algumas semanas, o caso de uma menina de 15 anos sentenciada a ser chicoteada nas Maldivas chocou o mundo. Ela havia sido estuprada pelo padrasto, inclusive engravidou. Em vez de ser amparada e receber apoio psicológico, ela foi condenada por ter "feito sexo antes do casamento". Fornicação, que pelas leis do país em questão é passível de punição, necessita da participação de pelo menos duas pessoas. Mas em 2011, 90% das pessoas sentenciadas à receber chicotadas eram mulheres.

Felizmente, quase dois milhões de assinaturas numa petição online conseguiram sensibilizar o presidente das Maldivas, e ele pediu que o promotor responsável reconsiderasse o caso. É claro que o caso dessa garota é só mais um dentro duma cultura explicitamente patriarcal. Mas a pressão mundial nesse caso abre um precedente importante que pode resultar numa mudança da forma como as mulheres são tratadas nas Maldivas.

Por mais estranho que pareça, é muito comum que vítimas de estupro sejam responsabilizadas pela agressão. O filme Preciosa (2009) retrata perfeitamente uma situação assim. O pai de Preciosa começa a abusar dela aos três anos, e a mãe dela fica com raiva da filha por ciúme do marido. O homem prossegue com o abuso sistemático da garota, que se sente tão indefesa que nem ousa reclamar, lutar ou gritar. Sua mãe então vê o estupro como sua filha transando com seu homem.

Há uns dois dias, Gerald Thomas abusou da panicat Nicole Bahls diante das câmeras. Aparentemente, um homem que gosta de exibir o pau em público achou que uma moça de vestido curto diante dele está lá para ser molestada. Muitas pessoas comentaram que Nicole não tem o direito de reclamar, pois trabalha no "Pânico".

Eu sei que o programa "Pânico" é estruturalmente misógino. Apresenta mulheres como animais domésticos que não têm direito de pensar. Mas não é porque o programa é um lixo que os funcionários vão perder o status de pessoas humanas. Mesmo porque, toda essa justificativa só aparece quando uma mulher é molestada, mas quando homens apanharam fazendo suas famosas "brincadeiras", rolou processo judicial com direito a amplo apoio midiático.

Existe uma tendência social em se colocar respeito como algo por que mulheres precisam lutar, como se não fosse um direito natural de cada ser humano. E isso acontece por uma razão ao mesmo tempo muito simples e muito trágica: mulheres não são entendidas como seres humanos. Mulheres precisam o tempo inteiro provar que merecem entrar num restrito grupo ao qual homens têm acesso desde o nascimento pela mera posse de um pênis.

Tive a oportunidade de ler um excelente texto abordando esse lamentável incidente. Gostaria de destacar a explicação que o autor, Marcos Donizetti, dá sobre mulheres que culpam vítimas de estupro e/ou abuso sexual. Afinal, o que acontece na cabeça de mulheres que culpam a vítima? Acontece que o abuso de outra mulher deixa claro para todas as outras o quanto elas não estão seguras:

"Essa mulher tem uma fantasia de segurança que funciona nos seguintes termos: 'se eu me comportar segundo a Lei, não sofrerei abuso. Preciso agir segundo o código, calar minha voz e esconder meu desejo, e assim estarei segura'. Diante da violentada, essa fantasia cai por terra, 'se ela foi abusada, eu também poderei ser', e esse pensamento é por demais insuportável. A saída mais rápida é culpar essa outra que não cumpriu o código, uma defesa ruim que mantém a ilusão de segurança" (DONIZETTI, 2013).
Mulher se apresentando como objeto
    
Sendo assim, podemos pensar que a culpabilização da vítima acaba sendo um mecanismo de defesa das mulheres numa patriarquia. Enquanto a violência sexual continuar sendo utilizada no controle da sexualidade feminina, a culpabilização das vítimas continuará trazendo alívio para uma parte das mulheres escravizadas pela cultura.

Não sei se existe uma solução, mas ainda sonho com o momento em que as mulheres se perceberão e reconhecerão umas às outras como pessoas, e não como seres de segunda classe. Porque neste dia, toda mulher será digna de respeito independente do número de parceiros, das roupas que veste, ou do trabalho que exerce, simplesmente por que mulheres são humanas.

Uma pessoa nunca se coloca como objeto. Os outros é que a encaram como tal.
 
 

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