sábado, 4 de maio de 2013

O veto à redução da jornada da Fonoaudiologia e o que isso tem a ver com feminismo

Mulheres trabalham mais. Mulheres executam 66% do trabalho do mundo, mas recebem apenas 11% da receita mundial. Hoje é praticamente obrigatório que mulheres trabalhem fora e ganhem dinheiro, isso é até cobrado socialmente. Entretanto, na última década, o tempo semanal empregado por homens em tarefas domésticas cresceu apenas oito minutos. Ou seja, as mulheres acumulam o trabalho remunerado e o trabalho doméstico Além disso, existe ainda a cobrança de que mulheres estejam sempre "belas", o que consome boa parte do tempo livre e do orçamento femininos.
Em se tratando de Brasil, temos ainda a vergonhosa marca da diferença salarial entre os gêneros. É algo tão absurdo, mas acontece diariamente e ninguém faz nada. E a diferença é maior nas regiões Sudeste e Sul, pois aumenta com o aumento da qualificação. Entre os profissionais com mestrado: "mulheres ganham em média R$ 5.438,41, 28% a menos que os homens, que recebem R$ 7.557,31" (TOKARNIA, 2013).
Apesar das estatísticas grotescas, o lider do governo no senado, Romero Jucá, (PMDB-RR) desistiu de incluir na pauta de votações a proposta de lei que puniria empresas que não igualassem os salários de mulheres e homens. O motivo? Uma reação generalizada do setor empresarial alegando que tal medida reduziria as ofertas de vagas para mulheres. Sim, as empresas assumem que contratam mulheres para pagar salários menores e que, caso sejam obrigadas legalmente a pagarem os mesmos salários, não as contratarão. E o governo cede.
Agora, a presidenta Dilma vetou o projeto de lei que pretende reduzir a carga horária das fonoaudiólogas e fonoaudiólogos para 30 horas semanais. Falo fonoaudiólogas primeiro, porque a maior parte desses(as) profissionais são mulheres, o que por si só já explica a dificuldade de se conseguir respeito pela profissão. 
Esse processo de desqualificação das chamadas profissões "femininas" está sempre presente. Psiquiatra ganha melhor que psicóloga, médico ganha melhor que enfermeira, chef ganha melhor que cozinheira, alfaiate ganha melhor que costureira, e assim por diante. Mas o salário é o detalhe que reflete algo maior, que é a valorização da profissão.
Também é preciso considerar que a representação política feminina é mínima, o que dificulta que as classes das profissões compostas por uma maioria de profissionais mulheres consiga ter representação. Infelizmente, a presença de profissionais de uma determinada classe no governo pode ajudar na aprovação de medidas importantes.
Foto da manifestação feita em 05/05/2013
Fonoaudiologia é uma carreira da área da saúde, deve ter a jornada reduzida da mesma forma que outras carreiras da mesma área já tiveram. É claro que a redução vai trazer a necessidade de contratação de mais profissionais, e foi essa a questão que levou ao veto. 
O exercício profissional da fonoaudiologia é bastante desgastante, pois o trabalho não se encerra no consultório. Os(as) profissionais dessa carreira sempre levam trabalho para casa. Considerando que a maioria é formada por mulheres, as fonoaudiólogas provavelmente terão menos tempo ainda para descansar por precisar fazer serviço doméstico. Não reduzir a jornada de uma categoria da área da saúde cuja maioria é feminina é também um golpe contra os direitos das mulheres.    
Além disso, é preciso mencionar que a redução da jornada de trabalho da categoria vai proporcionar que os(as) profissionais invistam mais tempo em qualificação, o que é imprescindível na área da saúde, que demanda constante atualização. Ou seja, proporcionaria um atendimento de melhor qualidade para a população. 
Foto da manifestação feita em 05/05/2013
A questão é que, ao contrário do que diz a justificativa da presidenta Dilma para o veto, a redução da jornada dos(as) fonoaudiólogos(as) é sim de interesse público. Ganham os(as) pacientes, por receberem um atedimento melhor, ganham os(as) profissionais, por terem uma qualidade de vida melhor, e, assim sendo, ganha a sociedade de maneira geral.    
Por todos esses fatores apresentados, deixo aqui um convite para o movimento pela redução da jornada da Fonoaudiologia para 30 horas semanais. A manifestação contra o veto da PLC 119/10 acontecerá amanhã (05/05/2013) às 11h00 na Paulista. Segue a nota que ajudei a escrever:
 
Foto tirada às 10h50 no dia 05/05/2013
"Esta será a primeira manifestação da Fonoaudiologia em 31 anos, a qual será um ato pacífico a ocorrer na avenida Paulista, local tradicionalmente escolhido por minorias na reivindicação de seus direitos. Teremos cerca de 600 profissionais da fonoaudiologia, unidos no intuito de esclarecer a sociedade brasileira sobre a importância da redução da jornada de trabalho da categoria, além de externar nossa indignação com o veto presidencial ao PLC 119/10.
O que a presidenta Dilma chama, no texto do veto, de contrariedade ao interesse público se mostra, na verdade, contrariedade ao interesse privado. A redução da carga horária para 30 horas semanais permitiria o oferecimento de um atendimento mais qualificado. Esse tempo que seria disponibilizado poderia ser utilizado pelo(a) profissional na recuperação do desgaste físico e mental inerente ao exercício da profissão, além de ser empregado no desenvolvimento de sua própria capacitação. A presidenta demonstra menosprezo pela profissão que foi fundamental na recuperação funcional do ex-presidente e companheiro de partido Lula ao longo de seu tratamento de câncer na laringe.
Em paralelo, no mesmo dia e horário, ocorrerá manifestação pela internet. A hashtag #FonoContraVetoDilma será postada em diversas redes sociais a fim de tornar a questão um dos assunto mais comentados."

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