segunda-feira, 13 de maio de 2013

Violência ginecológica e algumas coisas que ninguém fala sobre o câncer de colo de útero

O exame ginecológico não é um procedimento tranquilo para a maioria de nós. Mas pode ser melhor. Hoje eu vou falar sobre o que é real e o que é fantasia a esse respeito.

Câncer de colo de útero é real. Mas médicos(as) não falam um monte de coisas que precisam ser ditas. Em primeiro lugar, porque o sistema é todo heteronormativo. Em segundo lugar, porque o que eles chamam de "relação" é sexo vaginal.

A principal causa desse tipo de câncer é a infecção pelo vírus HPV, que é obviamente transmitido pela relação sexual sem preservativo. Já percebeu como toda a medicina ginecológica estabelece a relação sexual como algo perigoso para as mulheres? Não se lê uma matéria sobre esse câncer na qual não se atribua como fatores de risco para o seu desenvolvimento o início "precoce" da atividade sexual e número "elevado" de parceiros sexuais. Só que ninguém diz o que seria esse precoce, o que seria esse elevado, nem qual a razão disso.

Então lá vai. Quanto mais cedo você começar a transar, mais parceiros você deve ter. Quanto mais parceiros você tiver, maior a probabilidade de você pegar um com vírus HPV.  Agora, o que não querem que você pense por si própria: Um contato é suficiente pra contrair o vírus. Ou seja, você pode transar a vida inteira só com seu maridinho. Se ele estiver premiado e você tiver um contato sexual com ele sem camisinha, você pode contrair. Enquanto que outra mulher pode ter cinquenta parceiros diferentes e usar preservativo com todos eles em todos os contatos e não contrair nunca.

Outra coisa, ter contato com o vírus não implica desenvolver a doença. Muitas mulheres têm o vírus, mas não o câncer. Claro, se você transar com vários homens diferentes sem preservativo, pode ser que você receba uma enorme carga viral. E quanto mais vírus, maior a probabilidade de contaminação pelos tipos mais agressivos, causadores de câncer do colo de útero e condilomas acuminados, conhecidos como "crista de galo".

E agora que você sabe, como vai ser?

Em primeiro lugar, pode ficar tranquila. Não é porque você começou a transar aos 15 anos, nem porque você já teve mais de 30 parceiros que você vai ter câncer de colo de útero. Mas você vai usar preservativo em TODAS as relações sexuais. Todas mesmo, inclusive sexo oral. Eu falo sério. Eu sei que tem camisinha com gosto ruim, acredite. Mas tem camisinha com sabor para essas situações. É questão de experimentar: morango, hortelã, chocolate...

Mas tenha atenção: o preservativo só impede o contato na parte do pênis. Se você fizer sexo com alguém que tenha verrugas na parte externa dos genitais, você pode contrair o vírus. O ideal é evitar relações sexuais com quem apresentar verrugas na zona genital.

E do exame preventivo, você não tem como escapar. Depois que você começar a fazer sexo vaginal, é importante fazer uma vez por ano. Dá pra chegar a uma vez a cada três anos depois de dois diagnósticos negativos seguidos, mas não é bom exagerar.

Agora, mais uma coisa que ninguém explica. Se você jamais fizer sexo com penetração na vagina, precisa fazer? Sim, porque você pode desenvolver o câncer sem o vírus também. Fora que é possível contrair o vírus praticando sexo anal e oral, é possível contrair até em banheiro público. Então é recomendado que você comece a fazer a partir dos 21, nesse caso.   

O câncer de colo de útero é o segundo tumor mais frequente na população feminina, perdendo apenas para o câncer de mama. Estima-se que, anualmente, faça 4.800 vítimas fatais e atinja 18.000 novas. Só que, se detectado no começo, a chance de cura é muito alta. Mas pra detectar, precisa fazer o infame papanicolau.

Afinal, o que afasta as mulheres do consultório de ginecologia? Para tentar explicar, eu vou descrever o exame.


Maca ginecológica
A paciente não pode estar menstruada nem ter feito sexo vaginal, mesmo com camisinha, nos três dias anteriores. (Isso porque a penetração pode provocar traumas na vagina e/ou no colo do útero. Fora que, caso ela não tenha usado preservativo, pode ser que haja material do parceiro dentro de seu corpo). Ela deve se deitar numa maca ginecológica, obviamente sem calcinha, e colocar as pernas sobre os estribos. O(a) profissional, que pode ser médico(a) ou enfermeiro(a), introduz um espéculo na vagina a fim de abri-la, então tira uma amostra das células com o auxílio de uma escovinha. Se a moça ainda tiver o hímen intocado, é utilzado um espéculo especial, que passa pelo buraquinho da membrana.

Tive acesso a uma pesquisa na qual foram entrevistadas 22 mulheres. Apenas 5 delas afirmaram se sentir bem durante o exame. Algumas manifestaram automisoginia na relação com a genitália. Mas a maioria falou em vergonha.
Espéculo descartável

Parece que a maior questão é abrir as pernas, ainda que num contexto médico. Nós somos ensinadas que mulher "decente" não abre as pernas pra qualquer um, como se o ato de abrir as pernas estivesse relacionado ao ato sexual pura e simplesmente.  E claro, como são as mulheres que abrem as pernas na hora da relação, então esse é um ato degradante. Aí tem até aquela expressão vulgar e pejorativa que eu não uso: dizer que a pessoa abriu as pernas quando cedeu.

Besteira, viu? É legal abrir as pernas na hora de transar, é bastante prazeroso. E é importante na hora do exame, porque não tem outro jeito de acessar o colo do útero, precisa olhar pela vagina.

Outra questão é o espéculo. Quando a gente sente que ele vai entrar, tende a contrair os músculos. É difícil, mas o ideal é soltar o bumbum na maca e deixar as coxas soltas. Tensionar os músculos pode causar dor. O espéculo é como um bico de pato, um(a) profissional experiente saberá o ponto certo para abrir sem causar dor. Em geral, a retirada do material é bem rápida.   


Violência ginecológica acontece quando o(a) profissional deliberadamente provoca desconforto ou dor na paciente. A violência também pode ser sexual.

Eu tive a infeliz experiência de sofrer violência ginecológica em meu primeiro exame ginecológico. O pesadelo começou ainda durante a consulta. Era uma médica, só não vou publicar o nome e o CRM dela aqui pra não mexer em ninho de vespa. Mas se alguém quiser uma referência de ginecologista na qual nunca passar, é só entrar em contato.

Ela foi absurdamente antiética desde o começo da consulta. Grosseira e ríspida, passou a sessão inteira insinuando que eu era ignorante. Como aconteceu numa UBS, ela deve pensar que quem busca o direito da saúde pública não tem estudo.

Depois, ao longo do exame, ela introduziu o espéculo bruscamente. Tanto o exame de toque quanto o exame das mamas foram dolorosos e incômodos. Parecia que ela estava fazendo massa de pão, e não examinando seios.

Eu era adolescente, e era minha primeira consulta. Eu não tinha a experiência que tenho hoje. Hoje sei que o exame dela foi agressivo porque já passei por várias outras médicas e médicos depois, logo tenho como comparar. Também sei que não sou obrigada a aturar grosseria de médico(a). Médicos(as) não são intocáveis. Eles(as) são corporativistas, mas nós temos o direito de exigir uma conduta humanizada. Se o(a) profissional começar com palhaçada, recuse-o(a). Recuse mesmo. Levante da cadeira e diga com todas as letras. A gente tem o direito de dispensar qualquer profissional, por que não médicos(as)?      

Interessante é que os conselhos de medicina recomendam a presença de um terceiro elemento durante o exame ginecológico. Não para a segurança da paciente, mas do médico! Eles dizem que é para evitar denúncias "equivocadas" de violência sexual.

PARECER CREMEB


RECOMENDA
1.
que os médicos ao atenderem pacientes submetendo-as a exames ginecológicos, preferencialmente pratiquem os referidos atos médicos na presença de auxiliar e/ou de pessoa acompanhante da paciente,
2.
que expliquem às pacientes previamente e de forma detalhada, os procedimentos que virão realizar durante o exame ginecológico, em atenção ao disposto no artigo nº 46 do Código de Ética Médica. 

Diz pra mim, qual médico(a) explica como é o exame ginecológico antes de fazer? Para saber como era um espéculo, precisei procurar no Google, porque nenhum deles(as) fez o esforço de me mostrar. 

Enquanto aguardava uma colposcopia semana passada, comecei a conversar com algumas senhoras na sala de espera. Todas elas tinham alguma história de violência ginecológica. Duas delas tinham queixas de médicas, assim como eu. Uma delas disse que não passava com médica ginecologista porque todas pelas quais passou eram grosseiras. A outra disse que passou três dias sangrando após ter feito uma biópsia com uma médica.

Eu passei por várias ginecologistas delicadas depois de minha triste primeira experiência. Tenho certeza de que não são todas as médicas que são ríspidas. Mas fico pensando: O que leva uma mulher a escolher ser ginecologista para agredir outras mulheres durante a consulta?  Considerando que elas também passam pelo exame e sabem o quanto é delicado, que falta de empatia com as pacientes é essa?

2 comentários:

  1. Oi Patty,
    Recentemente fui informada pela minha médica ginecologista (que é ótima), que o vírus do hpv pode ser contraído mesmo usando a camisinha, pelo contato da pele que poderia estar infectada (ou seja, pela verruguinha) e, também, que, embora o exame do papanicolau dê negativo, a pessoa pode estar carregando o vírus no corpo, que só se manifestará numa baixa da imunidade, e daí apareceria no exame ou até mesmo na forma da doença... Confere?

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    1. Oi imaginaria pessoa,
      Sim, é verdade. O vírus pode ser transmitido pela parte externa dos genitais caso haja verrugas ali. A camisinha só cobre o pênis, e não impede a contaminação nos lábios vaginais ou na virilha.

      Sim, o preventivo procura uma lesão, não a presença do vírus. Mesmo porque, existem vários tipos de HPV. Muitas mulheres têm contato com o vírus em banheiros públicos, por exemplo. Muitas vezes, o próprio sistema imunológico vence alguns dos tipos menos agressivos do HPV.Foi bom vc ter mencionado porque vou incluir no texto. :)

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