domingo, 27 de outubro de 2013

Eliminadas do ENEM e a misoginia

Postada originalmente no blog Jesus Manero
Hoje aconteceu o primeiro dia de prova do ENEM 2013. Repetindo o erro do ano passado, dezenas de candidatos(as) postaram fotos da prova no Instagram, o que acarreta a eliminação sumária. Tudo bem, é uma coisa idiota de se fazer. Mas de modo algum justifica o tipo de comentário que aparece nas fotos.

No caso da foto ao lado, vários homens (sim, porque só homens fizeram esse tipo de comentário) ridicularizaram a candidata sugerindo que ela seria funcionária das redes Mc Donald's e Bob's. Bem, eu gostaria de saber em que uma pessoa pode ser depreciada por trabalhar em praça de alimentação. Trata-se de um trabalho digno e honesto. Mas aí, pra valorizar trabalho, a pessoa precisa conhecer trabalho, né? ;)

O mais chocante aqui foi um caso de misoginia explícita. E eu só sei que se trata duma candidata por causa do comentário deste elemento, pois o nome dela foi embaçado na foto. Eu gostaria de chamar atenção para o comentário circulado em vermelho. 

O comentário diz que a garota "tomou no cu" e a chama de "puta". Assim, por nada. O que uma garota de dezoito anos fez pra merecer todo esse ódio? Muito simples. Ela tem clitóris. E isso incomoda o usuário profundamente. Então ele buscou um termo que a discriminaria através da conduta sexual para ofendê-la. Como afirma Zanella:


Nas mulheres, como vimos, os xingamentos prescrevem
(pela oposição, controle), na esfera
pública, a passividade em relação à sua sexualidade, daí que os piores xingamentos atribuídos tenham caráter de atividade, tais como "puta", "galinha", "piranha" e equivalentes (ZANELLA, 2008).



Chamar mulheres por esses termos constitui um tipo de violência de gênero. É o equivalente a chamar uma pessoa negra de "macaca". E o fato de que as pessoas fazem isso com naturalidade não as exime de responsabilidade sobre o ato. 

Só que insultar pessoas pela internet pode render um processo criminal por injúria e difamação. E esses homens constroem provas contra si próprios, sem perceber que a garota pode processá-los e garantir pelo menos um ano da faculdade dela. São verdadeiros gênios.

Mas infelizmente, independente de justiça ser feita ou não, estamos diante de um problema social grave. São homens comuns, desses que a gente cruza no dia a dia, que se sentem protegidos na internet para insultar mulheres. Exatamente como aqueles que se sentem protegidos dentro do carro pra insultar a gente no trânsito.

Creio que a única forma de acabar com esse tipo de violência é mudando a cultura no que se refere à sexualidade feminina e ao respeito às mulheres como seres humanos. Porque eu não tenho dúvidas de que quando um homem xinga uma mulher por algum desses nomes, ele não a vê como pessoa. 

Postada pela página Humor Crítico
Atualização: Olha só a postagem com a qual topei agora a pouco. Fizeram um meme relacionando meninas que dormem na fila para shows e que se atrasaram para a prova do ENEM. E são as meninas mesmo, porque as fotos são de meninas e uma das frases escritas diz: "Pra fazer o ENEM chega atrasada". 

Não dá pra alegar que é uma "piada" genérica, porque colocaram o adjetivo "atrasada" no feminino. E todo mundo sabe que, em português, fica tudo no masculino sempre, não é? E se a gente reclama que a empresa está colocando tudo no masculino, dizem que as feministas são chatas, porque a língua é assim mesmo.
Placa no banheiro feminino do Shopping Internacional
 












Mas na hora de fazer um meme ridicularizando, é facinho encontrar o lugar das mulheres na língua, né?

Não preciso dizer que homens de várias idades se atrasaram ontem. Pode ser que eles tenham sido mais discretos, e jornalistas tenham escolhido mostrar as meninas que choravam, porque é mais legal mostrar alguém que chora copiosamente do que alguém que não demonstra tanto a frustração. E essa é só uma possibilidade.


Também não preciso dizer que homens acampam na fila para shows. Na fila do U2 não tem sempre um bando de marmanjos tocando "Sunday Bloody Sunday"? Ah, é demais, né? Não é aleatório. É que é divertido tirar sarro de mulheres.

Tudo bem, atraso em dia de concurso é uma mega bobeira. Mas acredite, acontece. Conheço várias pessoas que se atrasaram. Tenho um amigo que pegou o caminho errado quando levava a filha para fazer a prova da Fuvest, e a menina perdeu a prova. Os dois choraram. É compreensível. Porque se a pessoa se atrasa, nem tem a chance de fazer a prova, é bastante frustrante. Mas não teria problema brincar com isso, se não tivesse um viés preconceituoso.  

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