sábado, 30 de novembro de 2013

Lesbianidade não é novidade...

Postada originalmente: Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005 
 
"As quatro moças iam sair, quando um suspiro as suspendeu; mais alguém estava no toilette. 
D. Joaninha, medrosa de que uma testemunha tivesse presenciado a cena que se acabava 
de passar, voltou-se para o fundo do gabinete, e o susto logo se dissipou.
         __ Vejam como ela dorme!... disse.
         Com efeito, recostada em uma cadeira de braços, D. Carolina estava profundamente 
adormecida.
         A Moreninha se mostrava, na verdade encantadora no mole descuido de seu dormir, e à 
mercê de um doce resfolegar, os desejos se agitavam entre seus seios; seu pezinho bem à 
mostra, suas tranças dobradas no colo, seus lábios entreabertos e como por costume 
amoldados àquele sorrir cheio de malícia e de encanto que já lhe conhecemos e, finalmente, 
suas pálpebras cerradas e coroadas por bastos e negros supercílios, a tornavam mais 
feiticeira que nunca.
         D. Clementina não pôde resistir a tantas graças: correu para ela... dois rostos angélicos se 
aproximaram... quatro lábios cor-de-rosa  se tocaram e este toque fez acordar D. Carolina.
         Um beijo tinha despertado um anjo, se é que o anjo realmente dormia."
(A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo, capítulo XVI)

O mais interessante nesse trecho do livro, publicado pela primeira vez em 1844, é que o autor narra como sendo algo natural uma menina beijar os lábios de outra. Ele coloca um teor de inevitabilidade; Clementina simplesmente "não pôde resistir". O objetivo dele é mostrar que Carolina estava ouvindo a conversa das moças enquanto fingia dormir, e não pontuar a existência de desejos entre elas. É como se o desejo fosse já conhecido a priori. 

Claro que beijar alguém dormindo não é algo correto, porque um beijo é uma carícia sexual e, portanto, deve ser consentida. Mas a abordagem não é diferente de quando o príncipe desperta a princesa adormecida com um beijo.  
 


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