sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sexo como ferramenta de agressão

Postada originalmente: Sexta-feira , 02 de Maio de 2008.



Certa vez, precisei me submeter a um exame horrível chamado polissonografia, no qual eu deveria dormir sendo monitorada.
O processo é bastante simples. Momentos antes do/a paciente deitar, uma funcionária do Instituto do Sono aparece para “montar” a vítima, neste caso funesto eu. Vários fios são atados à cabeça, ao nariz, às pernas e até ao dedo indicador. Tudo para detectar sono REM através dos movimentos dos olhos, além de paradas respiratórias e movimentos involuntários das pernas.
Teoricamente a ideia é linda. Mas quando uma pessoa que sofre de insônia se mete numa encrenca dessas, o resultado é bem outro. Em primeiro lugar porque eu simplesmente não podia ir ao banheiro sem desligar os fios, logo precisava chamar uma funcionária sempre que precisava urinar, o que eu faço bastante.
Uma TV de plasma idiota era tudo que eu tinha para me distrair durante a insônia, visto que não podia nem andar até a escrivaninha ou acender a luz da merda do quarto (masmorra). E eu nem podia trocar o canal da TV porque o quarto estava sem controle remoto. Acabei deixando na MTV, e passava naquela noite um reality show ridículo chamado “Os quebradeiros”. Tratava-se de alguns moleques bonitinhos com idade inferior a 25 anos numa viagem ao litoral sadicamente documentada pela MTV.
Em alguns momentos eles apareciam falando com a câmera, como num depoimento solitário, e foi num desses momentos que um elemento particularmente misógino me surpreendeu. É claro que eu não me lembro de seu nome, ele não tem tanta importância assim. Para mim ele foi muito mais um objeto de estudo do que um personagem cuja opinião tenha alguma relevância.
Era o garoto que “pagava de gostosão” na turma. Na verdade nem era tão bonito assim; tinha um rostinho normal e aquele corpo sarado que qualquer moleque de academia tem. Mas ele tinha tido sorte: duas garotas haviam aceitado ficar com ele na mesma noite.
No depoimento ele disse algo assim [sic]: “Chovendo mulher por aqui... Uma quase se jogou nos meus braços, disse que tava passando mal, eu falei que tinha o que ela precisava... Depois ela veio querendo ficar no meu pé, cheio de mulher aqui eu vou ficar só com ela? Até parece... Outra veio pular onda aqui perto, coitada...”
O discurso dele parece refletir um certo ódio pelas mulheres. Na verdade as garotas são vítimas dele, é como se ele fosse um caçador. Depois que deu uns beijinhos, acabou, é só pra dizer para os outros que ele conseguiu.Tanto que ele até chama de "coitada". E é coitada mesmo.
Até a MTV o ridicularizou, colocando uma trilha sonora romântica nas cenas dele. Mas não posso esperar que um homem corajoso o suficiente para se mostrar um grosseirão egocêntrico na TV tenha inteligência o suficiente para entender que foi na verdade ridicularizado. A MTV nem deveria ter dado espaço para um depoimento chorume como esse, mas, pelo menos, agora quem o conhece pessoalmente sabe que tipo de gente ele é.
Nenhuma mulher com mais de 10-³% do cérebro ocupado por amor-próprio aceitaria ficar com um sujeito que ratificou orgulhosamente sua postura de desrespeito ao feminino.
Um outro exemplo de misoginia grotesco aparece no filme “O Signo da Cidade” (2008) de Carlos Alberto Riccelli. Esse filme ainda está em alguns cinemas, e eu recomendo. Apesar de seguir a manjada fórmula de histórias dramáticas entrelaçadas, oferece muito material polêmico.
Eu destaco a cena em que dois boys saem de um A3 e surram uma travesti. Alguns momentos antes eles conversavam animadamente sobre uma garota que havia transado com um deles e sido dispensada. “Eu vou querer no meu pé?”.
Os homens usam muito essa frase. O que eles chamam de “ficar no pé” na verdade é o carinho que a mulher oferece, e que eles recusam. Depois se queixam de solidão. Pessoas que se gostam conversam todos os dias. Eu converso com meus amigos e amigas quase todos os dias.
Eu realmente não consigo entender como alguém consegue transar com alguém por quem não tem nenhum respeito. Não é questão nem de amar ou estar apaixonado. É usar o sexo como violência, como se fosse uma ferramenta de agressão. Não é mais sedução, é estupro. 

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