quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Violência contra a Mulher: Um Sintoma Ideológico

Dia 25 de novembro foi instituído como o Dia Internacional de combate à Violência contra a Mulher. Nessa data, várias sociedades do mundo praticam ações de conscientização sobre a necessidade de se combater a violência contra a mulher.  

A violência contra a mulher, também chamada de violência de gênero, é motivada por ideologias que oprimem as mulheres. Trata-se de agressões de vários tipos praticadas contra mulheres porque elas são mulheres. Os agressores podem ser tanto homens como mulheres, mas é mais comum que sejam homens, principalmente o parceiro ou ex. Familiares também estão entre os agressores mais frequentes.  

O entendimento da mulher como inferior acarreta uma coisificação das mulheres, o que leva homens a  desenvolverem sentimentos de propriedade sobre suas parceiras.  É esse sentimento que "justifica" socialmente os chamados "crimes de honra", nos quais um homem mata uma mulher que não o quer mais, indignado com a possibilidade de que ela faça sexo com outro homem. É baseado no lema "se não é minha, não será de mais ninguém". 

Muitas vezes, esses sentimentos aparecem com relação a mulheres da família. Alguns abusadores de suas próprias filhas dizem abertamente que não tiveram filhas "para outros homens", numa evidente demonstração de que veem suas filhas como objetos dos quais apenas eles têm o direito de se servir.   

A pesquisadora Glaucia Fontes de Oliveira afirma em seu artigo "Violência de gênero e a lei Maria da Penha": "A violência de gênero pode ser observada como uma problemática que, necessariamente, abrange questões ligadas à igualdade entre sexos. É, pois, um tema com elevado grau de complexidade, tendo em vista que é fortemente marcada por uma elevada carga ideológica."

Quando se fala em violência contra a mulher, frequentemente surgem argumentos de que, estatisticamente,  maior número de homens é vítima de violência. O que é preciso esclarecer é que a natureza das agressões sofridas por homens não é motivada por sua masculinidade. Existe inclusive a violência homofóbica, que é praticada contra homens vistos como "afeminados", ainda que não sejam gays. Isso acontece justamente porque esses homens são, por alguma razão, percebidos como longe dum ideal de masculinidade que os protegeria dessas agressões.


É importante mencionar que violência não se refere apenas a agressões físicas como tapas, socos, chutes, empurrões, entre outros golpes. Atentados contra a liberdade individual como manter uma mulher em cárcere privado ou esconder bolsas, documentos, sapatos, chaves, dinheiro com o objetivo de impedi-la de sair de casa são formas de violência que não necessariamente envolvem agressão física. A violência também pode ser verbal, no caso de insultos e apelidos pejorativos pelos quais o agressor pode chamar a vítima. 

Violência psicológica inclui todo tipo de ação praticada a fim de provocar humilhação e/ou manter a mulher oprimida. Inclui afirmar que a mulher tem defeitos no corpo, que precisa emagrecer ou fazer plástica, principalmente na frente de outras pessoas, insinuar que ela é burra, desqualificar sua profissão, ridicularizar seus hobbies, quebrar suas coisas, matar seus animais de estimação, afastá-la de sua família e amigos, fazer discurso sobre a inferioridade feminina, dar ordens para que ela faça tarefas domésticas, colocar defeitos no serviço que ela fez, entre outras grosserias. 

Violência sexual abrange insistir em fantasias sexuais que ela não curte, inclusive obrigá-la a ver filme pornô, forçar relação sexual em momentos ou de formas que ela não deseja, ameaçar aborto caso ela engravide ou forçá-la a abortar.

Elícia Santos, secretária de Mulheres da Federação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura afirma: “As pessoas acham que a violência só é pancada. A sociedade não observa pressão, xingamento e violência política”.

"Humilhado" quem? As vítimas são sempre mulheres.

 A divulgação de imagens íntimas de mulheres é um tipo de violência de gênero conhecida nos EUA como revenge porn. Essa prática tem vitimado muitas mulheres recentemente, inclusive aqui no Brasil, onde já existem projetos de lei para coibir esse tipo de agressão. É violência de gênero porque se estabelece sobre a diferença no tratamento dado à sexualidade feminina. Em muitos desses vídeos, o próprio agressor aparece na relação sexual. Mas todo o bullying da sociedade é direcionado à mulher.

A violência contra a mulher precisa ser combatida de maneira específica por se tratar de um tipo de violência cometida contra uma minoria, ou seja, motivada pela condição de opressão em que um grupo se encontra. É fundamental que sejam discutidas novas formas de se coibir essas práticas, seja através da criminalização de condutas agressivas, seja através da conscientização da população acerca do quão nocivos certos valores podem ser. A violência de gênero contribui para a manutenção da opressão das mulheres através da cultura do medo. Apenas uma mobilização pelo fim dela pode ensejar sociedades seguras para o estabelecimento da igualdade de gênero.   

2 comentários:

  1. "Violência psicológica inclui todo tipo de ação praticada a fim de provocar humilhação e/ou manter a mulher oprimida. Inclui afirmar que a mulher tem defeitos no corpo, que precisa emagrecer ou fazer plástica, principalmente na frente de outras pessoas, insinuar que ela é burra, desqualificar sua profissão, ridicularizar seus hobbies, quebrar suas coisas, matar seus animais de estimação, afastá-la de sua família e amigos, fazer discurso sobre a inferioridade feminina, dar ordens para que ela faça tarefas domésticas, colocar defeitos no serviço que ela fez, entre outras grosserias.
    Violência sexual abrange insistir em fantasias sexuais que ela não curte, inclusive obrigá-la a ver filme pornô, forçar relação sexual em momentos ou de formas que ela não deseja, ameaçar aborto caso ela engravide ou forçá-la a abortar."


    Paty acho esse seu trecho de texto genial, eu sofri todos esses tipos de violencia, e não percebia, ATÉ ler seu texto! Juro que a maior força para mim sair desse relacionamento destrutivo e opressor foi o seu blog e seus textos, foi o feminismo! Ele me salvou, assim como tenho certeza que salvou muitas outras mulheres! Nunca pare de escrever, você muda vidas!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Puxa Pri, muito obrigada pelo seu comentário. Eu acabei me esquecendo de responder na época, mas espero que em algum momento você apareça por aqui novamente.

      Certamente não vou parar de escrever; pelo contrário, pretendo ampliar cada vez mais a difusão de informações através de meus canais. Fico muito feliz de saber que você conseguiu escapar duma relação abusiva; se consegui ajudar uma mulher, já sinto que meu trabalho valeu muito.

      Abraços!

      Excluir

Eu me reservo o direito de não responder perguntas cuja resposta esteja no próprio post. Comentários imbecis e sem embasamento estão sujeitos a ridicularização. Comente por sua conta e risco. Obrigada!