sábado, 7 de dezembro de 2013

Lana Del Rey - Ride: Análise

A cantora Lana Del Rey lançou há algum tempo o vídeo para sua canção Ride. O longo videoclipe, bastante cinematográfico, foi dirigido por Anthony Mandler, mas o roteiro é da própria Lana. Conta a história de uma cantora decadente e solitária que se prostitui, encontrando satisfação na companhia de desconhecidos.

O vídeo começa com um longo monólogo em off, narrado pela Lana. Segue o texto:  

"I was in the winter of my life, and the men I met along the road were my only summer. At night I fell asleep with visions of myself, dancing and laughing and crying with them. Three years down the line of being on an endless road to war. And my memories of them were the only things that sustained me, and my only real happy times. I was a singer - not a very popular one. I once had dreams of becoming a beautiful poet. But upon an unfortunate series of events I saw those dreams dashed and divided like a million stars in the night sky, that I wished on, over and over again, sparkling and broken. But I didn't really mind because I knew that it takes getting everything you ever wanted then losing it, to know what true freedom is. When the people I used to know found out what I had been doing, how I'd been living, they asked me why - but there's no use in talking to people who have a home. They have no idea what it's like to seek safety in other people - for home to be wherever you lie your head. I was always an unusual girl. My mother told me I had a chameleon soul, no moral compass pointing to north. No fixed personality; just an inner indecisiveness that was as wide as wavering as the ocean... And if I said I didn't plan for it to turn out this way I'd be lying. Because I was born to be the other woman: I belonged to no one, who belonged to everyone. Who had nothing, who wanted everything, with a fire for every experience and an obsession for freedom that terrified me to the point that I couldn't even talk about it. That pushed me to a nomadic point of madness that both dazzled and dizzled me."  

Tradução: "Eu estava no inverno de minha vida, e os homens que conheci ao longo da estrada eram meu único verão. À noite, eu adormecia com visões de mim mesma dançando e rindo e chorando com eles. Três anos viajando numa estrada sem fim em direção à guerra. E minhas memórias deles eram as únicas coisas que me sustentavam e meus únicos momentos felizes. Eu era uma cantora - não muito popular. Uma vez tive sonhos de me tornar uma bela poetisa . Mas, devido a uma infeliz série de eventos, eu vi esses sonhos frustrados e divididos como um milhão de estrelas no céu da noite, que eu desejei de novo e de novo,  brilhantes e quebrados. Mas na verdade eu não me importei, porque eu sabia que é preciso conseguir tudo  que você sempre quis e então perder para saber o que é a verdadeira liberdade. Quando as pessoas que eu conhecia descobriram o que eu estava fazendo, como eu estava vivendo, elas me perguntaram por que - mas não adianta falar com pessoas que têm uma casa. Elas não têm ideia de como é procurar segurança em outras pessoas - para que "casa" seja onde quer que você deite sua cabeça. Eu sempre fui uma menina incomum. Minha mãe me disse que eu tinha uma alma camaleoa, sem bússola moral apontando para o norte. Sem personalidade fixa, apenas uma indecisão interior que era tão grande e tão vacilante quanto o oceano... E se eu dissesse que não planejava que as coisas acabassem assim, estaria mentindo. Porque eu nasci para ser a outra mulher: Eu não pertencia a ninguém, que pertencia a todos. Que não tinha nada, que queria tudo, com um fogo para cada experiência e uma obsessão por liberdade que me aterrorizava a ponto de eu não conseguir nem falar sobre isso. Que me empurrou para um ponto nômade de loucura que tanto deslumbrou quanto me enlouqueceu".       

Fonte: Canal LanaDelReyVevo
O vídeo

Por mais que algumas coisas nele me incomodem, como a glamourização do cigarro e aquela desnecessária bandeira dos Estados Unidos usada como canga, devo reconhecer que a mensagem implícita é bastante progressista.

Fonte: Canal LanaDelReyVevo
No início do vídeo, Lana aparece num balanço de pneu cujo ponto de fixação fica invisível na tela. Conforme ela se balança, transmite a sensação de liberdade. Pelo texto narrado no início do vídeo, liberdade parece ser o objeto de valor da personagem. Ela diz não ter se importado com a perda de todas suas conquistas, porque é preciso perder tudo que se deseja para conhecer a verdadeira liberdade. Imagino que seja pela ideia de não se ter nada a perder. De fato, precisar dar satisfações às pessoas que amamos é um fator de aprisionamento. A liberdade total só pode ser atingida caso uma pessoa não tenha vínculos afetivos nem empregatícios; nenhum tipo de compromisso.
                                                                           
Fonte: Canal LanaDelReyVevo
Depois ela aparece na garupa dum motoqueiro esticando os braços para sentir o vento, o que reforça a ideia da busca pela liberdade. Parece ser uma associação com aquelas histórias sobre grupos de motoqueiros que andam de moto pelas rodovias que cortam o deserto dos EUA sem destino e sem relógio. Mais uma vez, a ideia da liberdade como ausência de comprometimento.

O tabu da prostituição

A parte mais interessante é a liberdade sexual da personagem. Ela aparece com quatro parceiros diferentes no vídeo. Na cena em que ela aparece no ponto aguardando um cliente, ela parece angustiada por pensar que não vai aparecer nenhum. É interessante porque quase nunca se pensa em como é para uma prostituta estar no ponto por várias horas esperando que algum cliente apareça. Mas Lana oferece uma prostituta humana, insegura e solitária.
Fonte: Canal LanaDelReyVevo
É bom lembrar que nos EUA a prostituição é ilegal. As pessoas podem ser presas por fazer programas ou sair com profissionais do sexo. Mas isso não é discutido no vídeo. É claro que é um absurdo criminalizar a prostituição, porque isso acaba tornando a situação das prostitutas ainda pior. Ainda mais se a gente considerar que a produção de filmes e fotos pornográficas é permitida no País. É uma grande hipocrisia tentar controlar a prestação de serviços sexuais no âmbito privado, quando é evidente que, na produção de vídeos e fotos, os envolvidos estão prestando serviços sexuais para entretenimento.

É mais curioso ainda que a personagem fale no monólogo final que "acredita no país que os Estados Unidos costumavam ser". Que país é esse? Os EUA em guerra fria com a antiga URSS? Os EUA antes do sistema capitalista começar a entrar em colapso? Não sabemos, mas pelo menos temos certeza de que não é um país onde a prostituição é uma profissão regulamentada. 



Cigarro

Fonte: Canal LanaDelReyVevo
A  personagem aparece fumando em vários momentos. Aparecer compartilhando um cigarro com um amante é uma constante nos vídeos da Lana. Neste fotograma, ela compartilha um cigarro com um cliente que joga pinball. Gostaria de saber em que lugar ainda é permitido fumar enquanto se joga pinball.

 Fumando no posto de combustível (Fonte: Canal LanaDelReyVevo)
 No fotograma seguinte, ela aparece fumando num posto de rodovia, daqueles que costumam receber caminhões principalmente. Fumar no posto de combustível realmente é sem noção, mas acho que acaba sendo interessante para caracterizar a personagem. Ela realmente não está nem aí para nada.  


Há alguns dias, notei que a Lana está aparecendo nos armários de cigarros de supermercados como garota propaganda do Marlboro. Não aparece o nome dela, mas quem a conhece a reconhece na foto.

 Não é surpreendente que ela esteja fazendo propaganda para a Philip Morris, pois a caixa de um Marlboro aparece explicitamente no clipe de "Chelsea Hotel Nº 2". Para mim é bem evidente que ela é uma personagem com potencial para trazer de volta o glamour jovem para o tabagismo. Ela fuma na vida real (embora diga que não fuma "de verdade"), gosta de fumar, acha chique e não tem nenhum problema em interpretar em todos os vídeos dela personagens que fumam o tempo inteiro. Parece que ela quer voltar para os anos 1950, quando todo mundo fumava o tempo todo em qualquer lugar e ninguém sabia que cigarro faz mal. Então, permita-me lembrar: O fumo é prejudicial à saúde.  



Infantilização

Fonte: Canal LanaDelReyVevo
Lana explora o fetiche da infantilização em vários momentos do clipe. Num deles, ela aparece no colo dum cliente bem mais velho que está tomando cerveja. Ele parece morar num daqueles hotéis em que pessoas com pouco poder aquisitivo moram nos EUA. Seria o equivalente às kits aqui no Brasil, só que pelo menos tem lugar pra estacionar. Em outro, ela aparece no colo dum homem bem maior que ela, que ainda penteia seus cabelos enfeitados com um laço de fita. Depois ela dança descalça com ele, parece uma menina dançando com pai. Tenho certeza de que a semelhança não é coincidência.

No final, há outra narração em off. Segue o texto:

"Every night I used to pray that I'd find my people, and finally I did, on the open road. We had nothing to lose, nothing to gain, nothing we desired anymore; except to make our lives into a work of art. Live fast, die young, be wild and have fun. I believe in the country America used to be. I believe in the person I want to become. I believe in the freedom of the open road, and my motto is the same as ever: I believe in the kindness of strangers. And when I'm at war with myself, I ride, I just ride. Who are you? Are you in touch with your darkest fantasies? Have you created a life for yourself where you can experience them? I have. I am fucking crazy. But I am free."      

Tradução: "Toda noite eu rezava para que eu encontrasse meu povo, e, finalmente eu consegui, na estrada. Não tínhamos nada a perder, nada a ganhar, nada que desejássemos mais, a não ser transformar nossas vidas em uma obra de arte. Viva rápido, morra jovem, seja selvagem e se divirta. Eu acredito no país que os EUA costumavam ser. Eu acredito na pessoa que quero me tornar. Eu acredito na liberdade da estrada, e meu lema é o mesmo de sempre: Eu acredito na bondade de estranhos. E quando eu estou em guerra comigo mesma, eu dirijo, eu só dirijo. Quem é você? Você está em contato com as suas fantasias mais obscuras? Você criou uma vida para si mesmo(a) na qual possa vivê-las? Eu criei. Eu sou louca pra caralho. Mas eu sou livre."

A ideia é que ela encontrou uma galera que gosta de levar a vida sem eira nem beira como ela. Passam os dias se divertindo, bebendo, fumando, transando, andando de motoca, soltando fogos de artifício e dando tiros no deserto. Então ela não precisa mais curtir os ideais dela na mais completa solidão. 



Fonte: Canal LanaDelReyVevo
Ao longo da narração desse último texto, Lana aparece em várias cenas alternadas com os quatro amantes que aparecem no vídeo. O motoqueiro recebe especial destaque, correndo atrás dela com uma garrafa de Jack Daniel's na mão. Vários ícones da cultura dos EUA aparecem em todos os vídeos dela, Ride não é exceção. Temos tênis all star, jeans, camiseta com estampa da cerveja Budweiser, refrigerante Crush, armas de fogo, os carros e as motos...


Eu acredito que a Lana Del Rey seja uma personagem criada para conquistar o público dos EUA através do patriotismo. Como o País tem enfrentado uma certa recessão nos últimos anos, o complexo de superioridade da população levou um golpe forte. Por isso a tentativa de fazê-la parecer um fantasma dos anos 1950, algo como uma Audrey Hepburn moderna, fumando o tempo inteiro como se não soubesse que faz mal e se relacionando com homens bem mais velhos. Ela faz alusão ao assassinato de John Kennedy no clipe "National Anthem", no qual ela transita entre Jackie e Marilyn. Mas, ao mesmo tempo, ela traz um conteúdo transgressor por mexer com tabus da sexualidade e usar drogas. Então ela acaba agradando pela via do conservadorismo patriótico estadunidense e pelos ideias de liberdade da cultura do País. É brilhante, hein?

7 comentários:

  1. muito bom texto
    muito interessante sua análise
    vc. é fera

    bjs

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  2. Nossa adorei a análise, gosto de algumas partes do monólogo, clipe e letra e as que desprezo vc mostrou de forma articulada o motivo por trás disso, dela sofrer de lapsos , com patriotismo mais que exacerbado e esquecer a historia sangrenta dos EUA e falar dele como se tivesse tido orgasmos múltiplos com o Tio Sam, do glamour do cigarro e outros ícones da cultura-vitrine R$ norte americana ^^

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    1. Obrigada, Juliane. Seja bem-vinda ao blog.

      Abraços!

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    2. Meus parabéns a essa análise maravilhosa, detalhou muito bem o clipe cativando os momentos mais ocultos. a forma como você escreveu , texto muito bem claro.

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  3. muito bom a sua análise, acrescentaria diversos pontos... mas resumindo, acho fantástico o video e a letra da música. a expressão artística é fascinante, elementos muito fortes e o dialogo travado ao longo do clipe nos prende como em um filme! aliás, dizem que a história contada no vídeo é a história real da vida dela. vi várias entrevistas e realmente faz sentido. talvez por isso a arte expressou-se tão perfeitamente

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  4. Com certeza não é a história de vida dela.

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