segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Injúria, violência de gênero e mensagens de ódio

No Brasil, xingar pessoas é crime. Falo sério. Chamar uma pessoa por qualquer nome ofensivo constitui crime de injúria. E não é porque um monte de gente faz que deixa de ser crime. A questão é que nem sempre é possível provar. Mas, havendo testemunha ou tendo sido escrito, processar o agressor(a), tanto na criminal quanto na cível, é perfeitamente possível.

Quando se processa uma pessoa na criminal, basicamente se destrói a vida profissional dela por uns dez anos. Isso porque qualquer emprego, tanto público quanto privado, exige atestado de bons antecedentes e certidões para admissão. Já o processo na cível tem como intuito conseguir o pagamento de uma indenização. O Brasil não tem histórico de grandes indenizações, mas qualquer ajuda para se trocar de carro é sempre bem-vinda, certo? E, na real, só de dar trabalho para um criminoso (porque quem insulta pessoas é criminoso), o processo já é válido. Porque no mínimo o desgraçado vai ter que gastar dinheiro com sua defesa. E, se o elemento for advogado, vai ter o trabalho de qualquer forma.

Uma das principais razões que mantém o crime de injúria acontecendo no Brasil é a impunidade. Mesmo em casos mais graves do ponto de vista jurídico, como quando a injúria está associada ao crime de racismo, a lei é bastante omissa. Mas, mesmo assim, é importante que lutemos sempre por justiça. A aplicação das leis é importante para que outras pessoas desistam de cometer crimes, e não apenas para reeducar os criminosos.      
    
Os termos utilizados em xingamentos também dizem muito sobre as sociedades do mundo. No Brasil, homens homossexuais são "veados", negros são "macacos", mulheres são "vacas", "cadelas/cachorras", "galinhas",  "piranhas" e as gordas são "baleias".

O que todos esses termos nos mostram é que as minorias não são entendidas no senso comum como "gente". Eu sei, parece exagero, né? Mas não, nenhuma pessoa discriminada é entendida como gente. Para se agredir alguém, é preciso acreditar que esse alguém merece a agressão. Nesse processo, o teor de empatia, que é a capacidade de identificação com o outro, se perde. Discriminar uma pessoa implica tratá-la como inferior, como não humana. Não é à toa que tantos termos discriminatórios são nomes de animais.  

Em se tratando de mulheres, a vasta maioria de termos discriminatórios tem por objetivo ofender através da conduta sexual. Devido à especificidade (homens não são ofendidos através da conduta sexual), a injúria de mulheres constitui um tipo de violência de gênero.

Termos que depreciam mulheres pela conduta sexual (vagabunda, vadia, puta, além dos outros já supracitados) são entendidos socialmente como uma cláusula pétrea do "direito" a agressão. Um dia eu estava conversando com um amigo sobre o assunto, e ele queria me convencer de que a escolha dos termos não tinha nada a ver com violência de gênero; seria apenas pelo teor "ofensivo". Então eu disse pra ele: "Se eu chamar um negro de 'macaco' na hora da raiva, não vai deixar de ser racismo". Aí ele parou de falar, porque não havia mais o que dizer depois dessa.

Mas é curioso precisar explicar isso. Chega a ser revoltante o quanto boa parte da sociedade deseja continuar usando esses termos impunemente. Eu mesma já fui alvo de incontáveis ataques com esse tipo de insulto. Desde que comecei a produzir textos e vídeos sobre sexualidade e feminismo, volta e meia aparece um troll mega corajoso sob a impressão de anonimato da internet que comete injúria e às vezes até difamação contra mim.

Há alguns dias, soube que o que todo mundo já suspeitava tem confirmação científica: trolls são gente ruim. É evidente que precisa se um ser muito vil pra simplesmente chegar e insultar alguém que postou um trabalho na internet. Olha só a declaração que esta 666² deixou pra mim em meu vídeo sobre fio terra:


Quer dizer, segundo ele, as pessoas não precisam de educação sexual porque é uma "necessidade biológica". E, por eu doar meu tempo fazendo vídeos para orientar pessoas sem receber nada, eu mereço ser abandonada por minha família. E, mais que isso, mereço ser insultada. E ele é tão corajoso que apagou o perfil quando eu o notifiquei que ele responderia criminalmente. Ele pensa que apagar o perfil impede a localização. Vamos ver se ele vai mostrar toda essa valentia quando for citado, né? ;)

É claro que, nesse caso específico, temos uma reação agressiva devido a um desejo reprimido. Ele estava procurando vídeos sobre fio terra porque ele sente desejo de fazer, mas ver uma mulher falando a respeito o incomodou profundamente. É um ato de misoginia, sem dúvida, porque uma atitude feminina de liberdade sexual desperta nele desejos de destruição. E, como já sabia Freud, ninguém tenta destruir nada a troco de nada. E essa é uma lição para a vida toda. Se alguém te agride, é porque você toca em algo do inconsciente da pessoa.

Por exemplo, é perfeitamente normal não se gostar de determinado tipo de música ou filme. Mas ter a necessidade de ir até um vídeo do youtube para vandalizar significa que aquilo se conecta com algum conflito interior da pessoa. Como produtos culturais são meu objeto de pesquisa, percebi que existe um padrão de rejeição a produtos culturais que meninas e mulheres gostam. E é perceptível a necessidade que muitos trolls têm de agredir mulheres destruindo esses produtos culturais, o que é, sem dúvidas, uma demonstração constante de misoginia.

O que fica claro é que trolls podem ser recursivos, mas são bastante covardes. Ignorantes também, claro. No fundo, a trollagem não é nada mais que demonstrações de preconceito de pessoas sem empatia que querem espalhar o ódio sem sofrer consequências legais. Mas garanto que um processo judicial é o suficiente pra deixar qualquer troll bem mansinho. Porque é tudo moleque mimado se sentindo poderoso por trás do notebook que a mamãe deu. 
   

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu me reservo o direito de não responder perguntas cuja resposta esteja no próprio post. Comentários imbecis e sem embasamento estão sujeitos a ridicularização. Comente por sua conta e risco. Obrigada!