domingo, 9 de março de 2014

O animal mais útil ao homem

Quando eu era criança, vi uma reprise de "Os Trapalhões" que nunca saiu de minha memória. Não encontrei o vídeo; creio que seja dos anos 1970, pois Renato Aragão estava bem jovem. O quadro percorria uma série de entrevistas na rua. Um repórter que não aparecia, apenas se ouvia sua voz, fazia perguntas sobre conhecimentos gerais para cada um dos trapalhões e ia ouvindo respostas absurdamente ignorantes. A entrevista que fecha a série, o grand finale, que obviamente fica por conta do Didi, é o diálogo que reproduzo (não fielmente) abaixo:  

Repórter: Qual o animal mais útil ao homem?

Didi: A mulher.

Repórter: Não, é a vaca. A vaca fornece carne e leite para alimentação, o couro para vestuário e com seus chifres fazemos botões.

Didi: Continua sendo a mulher. Nossas mães nos amamentam, nossas esposas preparam a comida, nossas avós tricotam agasalhos e os botões, cada um que cuide do seu.

Bem, parece que é literal, né? Não é à toa que somos chamadas de tantos nomes de animais. É assim que somos vistas: animais domésticos úteis ao homem. E é bom chamar atenção que aqui "homem" não se refere a humanidade. Provavelmente nunca se refira. Qualquer analista lacaniana sabe muito bem do que estou falando. Não é por acaso que se esconde o gênero feminino na língua. Talvez a humanidade de fato seja entendida no senso comum como sendo "o homem". A mulher é apenas o animal mais útil.

E antes que alguém diga que é "só" uma piada, vou citar Allan Johnson:

Misoginia é uma atitude cultural de ódio às mulheres
simplesmente porque elas são mulheres. Trata-se de uma parte
fundamental do preconceito e da ideologia sexistas e, como tal,
constitui uma base importante para a opressão das mulheres em
sociedades dominadas pelos homens. A misoginia se manifesta de
várias maneiras diferentes, de piadas e pornografia à violência e ao
autodesprezo que mulheres podem ser ensinadas a sentir em relação
ao próprio corpo. (JOHNSON, 1997, p. 149).


A pitada de esperança fica por conta de que todos os entrevistados eram apresentados como ignorantes. 

Um comentário:

  1. Procurando um outro vídeo acabei achando o que você citou: https://www.youtube.com/watch?v=E8IzS_DNwvg

    É uma porcaria o vídeo, como quase tudo que o Didi produziu desde sempre.

    Quanto ao texto do Allan Johnson, ele simplesmente relata uma realidade. Ele não se aprofunda, explorando origens, causas, motivos, consequências. A frase "sociedade dominada pelos homens", por exemplo, eu não entendo, até porque ele não especifica. Será que ele está se referindo a pseudo fragilidade física feminina versus a exorbitante diferença de força física e "bélica" que o humano do sexo masculino tem a mais? Se ele estiver questionando isso, é um imbecil, pois isso é biológico e ninguém tem "culpa". Agora se ele estiver se referindo a questões de direitos, a questão da importância da mulher no poder e tal, aí é pior ainda, pois a realidade de hoje não tem nada a ver com o que ele escreveu, ainda mais sendo recente (1997). É ridículo achar que uma mulher tem menos importância que um homem hoje. Não preciso ficar a minha vida inteira prostrado em livros para enxergar isso.

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