quarta-feira, 16 de abril de 2014

Complexo de Bela Adormecida

Recentemente, no programa Big Brother da Globo aconteceu uma cena de abuso sexual de uma das participantes. Marcelo beijou Ângela quando ela estava inconsciente após ter dito "não" mais de cem vezes.

Foto tirada por Alfred Eisenstaedt em 1945
Os argumentos a favor do rapaz giram em torno de que Ângela supostamente havia ficado com ele em algumas ocasiões. Eu não conheço a história, mas não importa. Ainda que uma mulher seja casada com um homem, isso não dá a ele o direito de beijá-la sempre que deseja independente do consentimento dela. Isso não existe. Eu posso querer ficar com um homem hoje e não querer mais amanhã; é meu direito. Ficar com uma pessoa não a libera para usufruir de meu corpo como bem entende sempre que desejar.

Eu não sei quem inventou que beijo roubado é algo romântico. Já aconteceu comigo e foi horrível. Eu estava numa danceteria quando um sujeito me agarrou e simplesmente me beijou. E quando falei sobre isso com uma analista, ela sugeriu que eu poderia ter ficado feliz com um "beijo roubado". Puxa, que falta de noção. Beijo roubado é abuso sexual.
 
A horrível (e famosa) foto ao lado é de um abuso. O marinheiro simplesmente agarrou a enfermeira e beijou, ela não pôde fazer nada. É possível notar que a mão dela está caída, sem dar nenhum sinal de cooperação. Mas tem gente que acha lindo um sujeito pegar uma menina a força.Tem gente que acha essa foto romântica.


No livro The Claiming of Sleeping Beauty, o primeiro da trilogia erótica escrita por Anne Rice sob o pseudônimo A. N. Roquelaure, Rice brilhantemente explicita o que está implícito na história da Bela Adormecida. (Spoilers!) Na incômoda obra de Rice, Bela é estuprada. O príncipe chega ao castelo, tira as roupas dela e se serve do corpo da moça adormecida. E isso a desperta e dá a ele o direito de levá-la como escrava. Não muito diferente da versão infantil, na qual Bela é beijada, desperta e se casa com o príncipe. Ela nem sabe quem é o cara, mas só porque ele a despertou, ela naturalmente se apaixona por ele.

Isso me lembra aquela teoria do Dijkstra sobre estupro terapêutico. O estupro é visto frequentemente como algo bom para mulheres, como se fosse um instrumento educativo. Por muito tempo, acreditou-se que não havia mal em se abusar de uma menina impúbere, pois isso despertaria a garota para seus "deveres reprodutivos" além de torná-la apaixonada pelo homem que fizesse isso. Soa familiar?  

Na novela Olho no Olho (Antônio Calmon, 1993-1994), a personagem Malena (Helena Ranaldi) encontra seu objeto de desejo Guido (Tony Ramos) alcoolizado e se aproveita dele, fingindo ser sua namorada. A personagem Veridiana (Eva Todor) diz a ela que "se fosse ao contrário, seria um estupro".

Eu sei que, na época da novela, estupro (legalmente) era apenas a penetração forçada da vagina. Mas acredito que, de qualquer forma, forçar um homem inconsciente a ter relações sexuais era "atentado violento ao pudor", o crime que englobava todo abuso que não fosse a penetração da vagina com o pênis. Foi um mega erro colocar uma fala como essa na novela, porque dá a sensação de que se aproveitar do corpo de um homem não é "tão grave". Mas é sim. Ninguém tem o direito de usar o corpo duma pessoa adormecida.

Uma cultura que difunde que se pode "despertar" alguém através dum abuso está prestando um tremendo desserviço. É importante que possamos analisar essas ideias danosas dos contos de fada (que são os contos eróticos das crianças, como Jean Paulhan pontuou no prefácio de "A História de O") com responsabilidade para que possamos construir uma cultura melhor. A cultura condiciona comportamentos. Se queremos um mundo onde as pessoas farão escolhas melhores, temos que pensar numa cultura melhor.     


2 comentários:

  1. Esse lance do BBB foi interessante porque outro rapaz ficou furioso com o beijador e o acusou de abuso, e , por incrível que pareça, a maioria das pessoas da casa não apoiaram ele, e nem o público, pois os 2 rapazes foram juntos para o paredão e quem saiu foi o rapaz que acusou o beijador.

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    1. Eu me lembro disso... E o outro que acusou o beijador também era nojentão. Mas foi o único da casa que achou errado o sujeito beijá-la inconsciente. Contradições...

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