domingo, 22 de junho de 2014

Copa do mundo, o terrível comercial da Heineken e alguns recados

Sei que passei algum tempo sumida. Tanto minha produção de textos como de vídeos deu uma parada, e gostaria de explicar minha ausência. Acontece que defendi meu mestrado em abril e topei com a realidade
Minha dissertação encadernada ;)
de que o trabalho não acaba depois da defesa. É preciso ir atrás da ficha catalográfica feita pela biblioteca da universidade, e é nesse momento que aparece um monte de detalhe para corrigir porque o trabalho precisa estar dentro das regras da biblioteca. 

Mas agora já entreguei a versão capa dura de minha dissertação (Os Diários de Vampira: a sexualidade livre e dominadora das vampiras e o tratamento dado pela mídia), então meus deveres relativos ao mestrado já acabaram. Pretendo em breve (breve mesmo, rs) disponibilizar um vídeo com o power point da defesa; o que tem me atrasado é um problema com o software de minha webcam.

Claro que agora já estou trabalhando no doutorado, mas não quero falar muito a respeito porque ainda não defini o projeto. Só sei que com certeza vai incluir alguma análise sobre mulheres em algum produto cultural. Afinal, analisar produtos culturais é a minha especialidade. Mas vou falar mais sobre isso na postagem sobre a defesa do mestrado.     

E estamos em tempos de copa do mundo de futebol masculino, o que literalmente paralisa o Brasil porque aqui as pessoas realmente param de trabalhar para ver jogos. Isso roubou alguns dias úteis, e não vejo isso de forma totalmente positiva. Especialmente porque o futebol feminino não recebe nem 10% dessa atenção toda, e é muito ruim que meninas e mulheres vejam todas as atenções do País voltadas exclusivamente para um evento no qual homens jogam, homens narram, homens comentam, e mulheres só servem para enfeitar. Mas isso é assunto para outro post.

Agora vou falar apenas sobre um comercial horrível da Heineken. A peça fala sobre uma liquidação de sapatos propositalmente agendada para o mesmo momento que aconteceria um jogo de futebol para que homens não precisassem "dispensar suas mulheres". Sim, dito dessa forma bem grosseira. 

Em primeiro lugar, chamar esposa ou namorada de "minha mulher" é por si só um jeito de colocar a função de companheira do homem como "natural" das mulheres. Afinal, o termo mulher recebe a semântica de esposa. E é terrivelmente vulgar, apesar de amplamente utilizado no jornalismo, pois dá a sensação de que a mulher é propriedade do homem mesmo. É engraçado que chamar namorado e marido de "meu homem" é visto socialmente como vulgar exatamente pela mesma razão, mas a cultura de fato naturaliza os mais atrozes absurdos.     

Além disso, por que homens precisariam "dispensar" suas namoradas? Quer dizer que mulher tem que estar a disposição para aparecer quando o sujeito quer e desaparecer quando ele não a quer por perto? Que forma repulsiva de se tratar mulheres é essa que a Heineken difunde?

Mas o pior é que a propaganda simplesmente ignora que mulheres gostam de futebol. É claro que não são todas, mas muitas. Bem como existem muitas mulheres que bebem cerveja, e a propaganda deixa bem claro que a marca ignora esse fato completamente.

Sempre que topo com uma propaganda podre, eu me lembro de minhas aulas de marketing na graduação. Numa aula do professor que orientou meu TCC, eu fiz uma pergunta sobre as propagandas do desodorante
Postagem podre da Axe que foi removida após protestos
Axe, que são profundamente desrespeitosas para com as mulheres. Eu queria saber qual era o objetivo dessas propagandas.

O professor, de maneira bastante bem humorada, disse algo assim: "Mas aí a gente precisa levar em conta que o público alvo da Axe são aqueles caras que andam de carro com o som alto".

Ao ouvir isso, as meninas da sala caíram na risada, e ele continuou: "Pelas risadas, esses tipos não teriam chance com ninguém aqui. Mas é bom mesmo pra que eles não se reproduzam mais. É seleção natural".

Ou seja, as propagandas entram em contato com o público alvo de uma marca. Se a propaganda é machista, então o público alvo da marca é machista. O posicionamento da marca é machista. E a julgar pelo número de homens que defendiam a infeliz propaganda da Heineken no Youtube, o público alvo foi atingido. 

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