sábado, 19 de julho de 2014

A invisibilidade do gênero feminino no Hopi Hari

Adoro parques temáticos. Apesar de ser meio medrosa, eu adorava o Playcenter e, hoje em dia, não perco uma chance de ir ao Hopi Hari. Minha última visita ao Hopi Hari aconteceu em julho do ano passado, no dia mais frio do ano. Por mais frustrante que pareça, eu não quis perder os passaportes já agendados e encarei o desafio.

Chegando lá, a permanência em ambientes externos estava uma verdadeira tortura. Entre ventos gelados e caridades surpreendentes, (Uma mulher deu para mim e minha irmã um par de Vip Pass quando aguardávamos o passeio na Vurang porque ela não ia usar. O lance foi tão improvável que me esqueci de agradecer...) acabamos indo ver o show do Looney Tunes. Dentro do teatro topamos com a surpresa de que muita gente doida havia levado crianças pequenas para passar frio no parque. Entre as crianças, muitas meninas. Mas olha só... Com sete personagens no palco, não havia nenhum feminino. 
Todo dia da semana, o humor é masculino

A peça contava a história dum diretor de cinema que tentava fazer um filme com seis personagens do Looney Tunes: Marvin, o Marciano, Patolino, Pernalonga, Piu-piu, Frajola e Taz
Olhando pelo lado bom, pelo menos o único personagem não animado era negro. Mas é impressionante que numa peça para crianças, com a plateia cheia de meninas, ninguém tenha pensado em colocar pelo menos uma mulher no palco. E nas páginas do Hopi Hari na internet, esse padrão se repete. 

É claro que isso é um problema da animação em geral. A maioria dos personagens são masculinos mesmo. Personagens femininos são protagonistas apenas em animações cujo público alvo é formado por meninas. Se a ideia é atingir crianças em geral, os personagens principais são masculinos.

Inclusive as heroínas ainda aparecem muito como um fetiche para os meninos. O que é mais preocupante é o quanto essa abordagem é normatizada. Eu me lembro de questionar isso quando era criança. Eu procurava por heroínas com as quais me identificar e topava com a dura realidade de que elas eram poucas. Em compensação, havia sempre mulheres como vilãs e "velhas chatas".

Falando um pouco sobre marketing, toda marca precisa definir dois pontos: segmentação e posicionamento. Simplificando muito, o posicionamento é a imagem da marca, e a segmentação constitui o público alvo da marca. O posicionamento de qualquer marca fica sempre atrelado ao público que atrai, razão pela qual várias marcas se esforçam para repelir um público que possa ter um impacto negativo. E quais são esses públicos? São públicos formados por grupos historicamente excluídos, claro. Gordos(as), negros(as), homossexuais, transexuais, pobres, mulheres...

Existem marcas de roupa que não oferecem números maiores porque não querem que suas roupas sejam usadas por pessoas gordas. E isso não é algo escondido, não. É assumido, sem nenhum constrangimento. É só começar a prestar atenção. A maior parte das capas de revistas e comerciais têm pessoas brancas porque o público alvo é geral. Se aparecer gente negra, boa parte do público branco não aceita porque entende que o produto é direcionado a negros. E acaba tendo um efeito negativo porque muitas pessoas não vão querer usar algo "de negro", por preconceito mesmo. 

Com produtos direcionados a mulheres acontece a mesma coisa. "Filme de menina", "livro de menina", "pornô de mamãe", "comida de mulher", "shopping de mulher", "rock que agrada menina" são algumas expressões que já ouvi para se desqualificar um produto. Até a expressão "carro de mulher" entra nesse grupo, não pelo estado de conservação como comumente é usada, mas com relação ao modelo mesmo.
 
Sobre o time de futebol masculino SPFC
Produtos direcionados a mulheres têm o inconveniente de serem mais rejeitados por homens do que a situação inversa. Acontece que na nossa cultura o homem se define como "não mulher", basta dizer que chamar um homem de mulher é entendido como ofensa.
 

Pegando carona nisso, já que marketing existe para vender produtos e não para resolver problemas sociais, o marketing de gênero é um artifício utilizado por empresas para lucrar mais. Ou seja, as empresas aproveitam a rejeição que produtos direcionados a mulheres enfrentam e lançam versões muito "masculinas" para que homens comprem. Isso funciona bem porque a misoginia estrutural é tão intensa que até meninas às vezes rejeitam produtos direcionados ao público feminino com receio de serem tachadas de frívolas.
Eu não vi nenhum problema em tirar foto ao lado do Batman no Hopi Hari

Voltando à questão do Hopi Hari, o que nós temos aqui é um parque direcionado ao público infantil, adolescente e jovem adulto de ambos os gêneros. Como meninas e mulheres não têm um problema de rejeição ao masculino, a fim de não arriscar a possibilidade de uma rejeição a elementos femininos, a empresa opta pela alternativa mais segura, que é evitar personagens femininos.

Tudo bem, para maximizar os lucros das empresas isso tem funcionado, mas não está na hora de pensar numa sociedade melhor? Não está na hora de cobrar personagens femininos interessantes para que meninas se identifiquem com eles? Não está na hora de levar meninas ao parque e ter a certeza de que elas também estarão representadas lá? A gente precisa superar essa imagem de meninas como princesas e mulheres como musas e inspirar ideais de protagonismo para o gênero feminino. Só assim a gente vai garantir um contexto social mais harmonioso para as futuras gerações.

3 comentários:

  1. Olá, Patty!

    Interessante sua observação à este respeito. (eu sempre fui "fã" da Mulher Maravilha, kkkkkk).
    Que a diferença de gêneros existe até mesmo nos desenhos animados, é fato. Querendo ou não, todos estamos ligados a esta "cultura" mórbida de discriminação, desde criança. O "comércio" de artigos infantis é muito propício à isso.
    Sabe uma frase que eu acho bizarro? Ao chegar no local onde "empacota" os brinquedos para presente, os atendentes perguntam "é para menino ou para menina?". Tipo, que diferença isso vai fazer? A cor da embalagem? AHHHHHHH, mas eu fico transtornada com isso. Seria mais bonito se eles perguntassem "Prefere o papel vermelho ou azul?". Soaria menos preconceituoso. (sim, porque desde criança a gente aprende que vermelho é de menina e azul é de menino... Quem não?).
    Sabe que, até mesmo antes da gente nascer, antes de saber o nosso sexo, nossos pais já sofriam com essas discriminações, né? Incrível como uma cor pode fazer diferença! E percebo isso até hoje. Todo mundo espera o casal saber o sexo da criança pra comprar os presentinhos. Vestir um bebê menino com uma roupa cor de rosa é um "absurdo", né?
    Já vi crianças rejeitando presentes e roupas por causa da cor. Quem ensinou isso pra elas? A sociedade, desde sempre. Essa nossa cultura e comércio cheio de discriminação. Se até Kinder Ovo é Cor de Rosa para meninas e Azul para meninos, não é de se estranhar que as crianças nasçam preconceituosas.
    Creio que fugi um pouco do tema principal, mas são apenas outras situações onde a diferença de gêneros é imensa. Tomara que aos poucos possamos plantar umas sementinhas de mais amor e menos preconceito neste mundo. Até porque, gostos não definem pessoas, mas sim o que cada uma carrega dentro de sí.

    Abraço e até mais.

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    1. Olá Gle, tudo bem?

      Desculpe a demora, passei alguns dias afastada do blog.

      Sim, a gente entra nessa divisão do mundo por cores muito cedo. Desde que o marketing de gênero estabeleceu que "rosa é de menina", meninos começaram a rejeitar a cor em todo o mundo. Felizmente hoje já tem camisa social rosa e lilás, e boa parte dos homens adultos usam. Interessante que antes o rosa era cor de menino porque vem do vermelho, e se entendia que vermelho é uma cor "forte". Mas a semiose das cores sempre teve algum tipo de ligação com questões de gênero.

      Esse Kinder Ovo sexista é ridículo. Fico impressionada como boa parte das crianças aceita que suas brincadeiras sejam restritas dessa forma. Quando eu era criança não passei por isso, porque meus pais já eram meio subversivos. Ganhei carrinho, bola, jogos de tabuleiro e até bonecas e bichinhos de pelúcia. Tudo de várias cores. Pena que nem toda família perceba o quão danoso é criar seus filhos de forma sexista. Acho que tem uma certa ligação com a homofobia; o medo de que seus filhos sejam gays.

      Abraços!

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    2. Tudo ótimo comigo sim, obrigada!

      Nossa, sério isso da sua família ser assim? Acho que você é a única pessoa que conheço que teve essa "sorte"(?) rsrs. Eu tenho uma madrinha que me repreende até hoje, sabia? Desde criancinha, ela vinha com presentes muito femininos pra mim e eu nunca fui muito assim, sabe? Ela sabia que desde criança eu não gostava muito da cor rosa (e até hoje não gosto, pra mim é uma cor feia, não sei explicar! Quem sabe ela que me "traumatizou" com seus presentes, rsrs) e insistia em me presentear com roupas rosas. Eu não gostava de usar saia nem vestido, quando criança. Ela sempre me dava esses presentes e na cor rosa. Minha mãe já sempre foi mais liberal, porém se importava com o que os outros iam pensar, já meu pai (que faleceu a pouco mais de um mês) deixava com que eu escolhesse o que eu quisesse. Pra ele não fazia diferença.

      Também acho que tenha bastante ligação com a homofobia sim. Mas te digo que essa pressão toda só aguça mais. Sou a prova viva disso, hahaha. Até hoje minha mãe ainda tem preconceitos pela minha opção sexual e não consegue me aceitar dessa forma. Não moro com ela. Ela gosta da minha parceira, mas prefere vê-la como minha amiga. Preconceito é muito foda! Se em três anos ela ainda não conseguiu aceitar, não sei se algum dia isso vai acontecer. Enfim... A vida continua! Rsrs.

      Abraço! (e escreva, pois já estou ansiosa esperando o novo post) =)

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