terça-feira, 8 de julho de 2014

Juízes padrão fifa e reflexões sobre a torcida brasileira

Em meu último texto,  falei sobre a criminosa joelhada no Neymar. Agora, enquanto escrevo este texto, lido com a derrota do Brasil para a Alemanha pela impressionante diferença de seis gols. Para mim, parece que as consequências do truculento jogo contra a Colômbia e sua arbitragem porca foram de fato duras na seleção masculina.

Para refinar o ponto em que quero chegar, vou fazer uma leve introdução. Eu sou descendente de austríacos; minha avó paterna nasceu em Viena. Como a Áustria não aparece mais em copas há tempos, minha segunda seleção acaba sendo a Alemanha (irmã da Áustria). Mas, num jogo contra o Brasil, por nada nesse mundo eu torceria pela Alemanha. Nem pela Áustria, aliás.

Fiquei um pouco curiosa porque tenho topado com gente nascida no Brasil que está achando muito legal
torcer contra o Brasil só por algum capricho mórbido. Parece que virou uma modinha, como se fosse algo subversivo. Não sei se tem a ver com aquela falácia da direita sobre "os gastos com a copa", mas eu gostaria de esclarecer uma coisa: esportes são praticados no mundo todo, em todas as culturas. Não é só aqui no Brasil que as pessoas se importam com a vitória de times. Competições internacionais sempre foram uma forma de confraternização entre diferentes povos. Torcer por um país não implica necessariamente ufanismo. Mas escolher torcer especificamente contra denota algum tipo de incômodo, tipo aquela coisa idiota de torcer contra os clubes "rivais". Sei que existem coisas a serem questionadas na paixão pelo futebol no Brasil, como, por exemplo, o país inteiro parar para ver o jogo do time masculino mas ignorar completamente o time feminino. Mas daí a querer destruir completamente o futebol... Por quê? Pra quê? O que se ganha com isso? Alguma satisfação sádica?


Outra coisa que chamou minha atenção hoje foi a rapidez com a qual boa parte da torcida brasileira "virou a casaca" durante a derrota para a Alemanha. A plateia branca e rica do Mineirão passou boa parte do jogo vaiando e gritando "Olé" para a seleção brasileira. Num certo momento resolveram aplicar contra Fred o "Vai tomar no cu" já usado contra Galvão Bueno e Presidenta Dilma. Sabe o que eu acho? Que qualquer coisinha é abertura para "filhinho de papai" liberar instintos sádicos. É a pulsão de destruição aparecendo no momento em que existe um objeto cuja rejeição é legitimada socialmente. Pode ser o Zuñiga, o Neymar, a seleção brasileira inteira, a presidenta, um narrador... O importante é poder malhar a vítima, participar dum linchamento. E, de boa, dá até um certo gosto saber que essa gente queimando a bandeira do Brasil na Vila Madalena foi decepcionada pela atuação da seleção. Porque, pensa bem... Nossos jogadores estão trabalhando por essa corja também. E eu quero que esses infelizes se fodam de verde e amarelo (ha ha).            

Agora, o outro ponto que gostaria de discutir é o padrão Fifa dos juízes do judiciário brasileiro. Não é uma nem duas vezes que fico sabendo que algum estuprador de menor foi inocentado porque o desembargador "acha" que a vítima parece ser mais velha. Essa semana uma decisão do TJ-SP repetiu a mesma ladainha. Um estuprador de menina de 13 anos foi inocentado porque a garota era supostamente prostituta, e isso o teria induzido ao "erro".

Vamos trocar em miudinhos. Basicamente, cada vez que um desembargador inocenta um homem que estuprou uma menina menor de 14 porque a garota "aparentava mais velha", ele está atestando que se identifica com o estuprador e concorda com ele. E isso só continua acontecendo porque a gente não tem um regulador social que reage a esse absurdo. Seria o caso de todo mundo dizer: "Que absurdo esse velho assumir que pra ele menina de 13 anos é mulher feita". Trata-se de pedofilia institucionalizada.

É óbvio que dá pra perceber que uma menina de 12 ou 13 anos tem menos de 18. E é justamente por isso que os homens as procuram, não vamos ter ingenuidade aqui. Todo mundo sabe que a maioria dos homens passa a vida procurando parceiras mais jovens. Porque na nossa cultura é aceito que homens procurem parceiras mais jovens. O cara está com 50 anos e não tem nenhum problema de afirmar que sua namorada tem 21. É até legal para ele. Os amigos dele o admiram pelo troféu que ele faturou: a "novinha" que usa O.B mini e não tem experiência para perceber que o sujeito não quer nada sério.

Acontece que é conveniente para boa parte dos homens que existam prostitutas de 10 anos. E eles não vão querer parar na cadeia por causa disso. No fundo o que a gente tem é todo um sistema de manutenção de privilégio masculino que vai garantindo a continuidade do mundo como ele é agora. E o sistema reitera as injustiças através da justiça. Brilhante. Seja dentro ou fora do campo de futebol, juízes padrão Fifa estão sempre presentes para garantir que agressores não sejam responsabilizados. Certamente isso não é aleatório. No futebol já está normatizada a agressão do macho que sabe bater e se impor. É uma espécie de estupro onde o mais fraco é penalizado por ter apanhado e se machucado e não pode chorar. Ou seja, quem reclama ouve que "futebol é assim mesmo; se não sabe brincar, não desce pro play".       

2 comentários:

  1. Tentei comentar no post anterior, mas não rolou "permissão" porque tinha a palavra "futebol" no link do comentário, enfim. Te peço desculpas, mas vou comentar referente aos dois posts, neste.

    Quanto à lesão do Neymar, o que ocorre é que durante uma partida difícil, os jogadores costumam ficar "em cima" dos jogados mais fortes, principalmente quando você joga na mesma posição que ele. Independente disso, nada justifica lesionar ninguém, fato. Eu joguei muitos anos e sentia isso, confesso que por muitas vezes eu tive sim vontade de "quebrar" algumas jogadoras pra poder fazer o que precisava ter feito, mas sinceramente nunca o fiz. Quando você está num campo lutando por uma vitória, é como se estivesse participando de uma maratona e não tivesse mais forças. Aí a impotência bate e a ignorância sobe à cabeça. Acredito que foi isso que aconteceu para que o Zuñiga fizesse o que fez. Quanto ao seu questionamento, futebol feminino tem muita agressão também. É jogo de corpo, canelada e empurrões, assim como o futebol masculino. Eu costumo dizer que não existem culpados, mas sim uma série de fatores que levam às consequências (não sou advogada, juro! Rsrs). Eu acho que parte da "culpa" veio sim do juiz que não puniu logo o Zuñiga. Parte veio dele que entrou na jogada agressivamente e como consequência, machucou desta forma o Neymar. Tenho certeza que não era a intenção dele fraturá-lo assim. Quanto aos insultos... Bom, nem há o que dizer, né? Totalmente desnecessária essa agressão moral!

    Quanto à este post, também acho que deveriam ter regras mais severas para os juízes. Teve muita impunidade nesta Copa. Acredito que a Fifa deveria fazer os bonitos (já que não se viu uma mulher nos representando) assinarem ao menos uns termos de responsabilidade que os assustassem e colocassem "ordem" e "medo" nesses caras.
    E sim, dá para comparar esses com os dos tribunais. Quando entra algum cara bom pra botar ordem, logo se aposenta. É complicada a pressão em cima de quem faz o certo.

    Parabéns pelos posts!
    See ya!

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    1. Puxa, Gle, que estranho vc não ter conseguido comentar no outro post... Eu não coloquei palavras proibidas para comentários.

      Eu imagino que jogadores podem não querer provocar fraturas graves, mas certamente querem incapacitar os adversários no momento do jogo. Acho que os árbitros deveriam de fato ser punidos por falhas; certamente teriam mais cautela, já que ganham muito bem pra estar lá.

      Obrigada pelos comentários!
      Até!

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