domingo, 6 de julho de 2014

Violência no futebol mais algumas reflexões

Eu, como a maioria da população brasileira, fiquei estarrecida com a joelhada que o zagueiro Juan Zuñiga, camisa 18 da seleção colombiana de futebol, deu no Neymar no jogo de sexta.


A jogada foi visivelmente maldosa e resultou numa fratura na terceira vértebra da lombar. Felizmente, apesar de precisar "ficar de molho" por várias semanas, o jovem atleta de apenas 22 anos vai poder voltar a jogar.

Mas... nessa copa ele não joga mais. E mesmo que ele jogue na copa da Rússia e depois na do Qatar, copa no Brasil é "once in a lifetime". E esse sonho acabou para ele. Só porque um jogador do time adversário não conseguiu aceitar que estava perdendo o jogo.

E eu posso afirmar isso sim porque eu vi o jogo. Eu vi a omissão do árbitro espanhol Carlos Velasco Carballo, que não aplicou cartões em diversos momentos violentos da Colômbia. Se ele tivesse tomado as devidas providências quando Zuñiga entrou no joelho de Hulk momentos antes, Neymar poderia não estar passando por isso agora.
Na minha humilde opinião, agressões como essas deveriam ser punidas depois do jogo. Aliás, a arbitragem ruim deveria ser punida, porque o árbitro é responsável por garantir a segurança dos jogadores. Mas tem um monte de purista que acha legal ter injustiça em jogo simplesmente porque o mundo é injusto. Sinceramente, acho isso uma tremenda baboseira que só funciona pra legitimar trapaça. Ontem mesmo, a Holanda só se classificou para a semifinal roubando. Não vejo glória nenhuma nisso. 

E se a gente olhar com cuidado para os jogos anteriores, perceberá que as agressões contra Neymar foram constantes. O que foi Nyom empurrando Neymar no jogo contra Camarões na fase de grupos? Uma tentativa de fazer amizade? E isso porque Camarões já era um peso morto eliminado com duas derrotas. 

Depois, no jogo contra o Chile, Neymar levou várias pancadas nas pernas. Tem gente que chama isso de estratégia. Pra mim é trapaça mesmo. No futebol (como em qualquer esporte) deve-se ganhar porque jogou melhor e não porque o adversário está machucado e não tem condições de competir.

A reflexão que eu gostaria de fazer é sobre o ganho disso tudo. O ser humano funciona de forma muito simples. Nós fazemos as coisas para ganhar algo. Nem sempre esse "algo" que ganhamos é perceptível conscientemente. É daí que vem o conceito psicanalítico de "gozo". Diferente do gozo da gíria, que se refere ao prazer sexual ou ao sêmen, o gozo psicanalítico é, simplificando bastante, o prazer inconsciente que se atinge com as ações. Boa parte do gozo acontece nas constantes repetições de padrões ao longo da vida, principalmente da autossabotagem. A famosa mania que temos de repetir o que nossos pais fizeram e passar a vida inteira cometendo os mesmos erros a fim de não sair do lugar.

Toda essa introdução só para pensar em qual o prazer que um jogador atinge ao agredir um adversário? De onde vem esse desejo de destruição? Não é como se eles não quisessem ganhar também. E espera-se que um jogador profissional já tenha aprendido a perder. Mas, em campo, eles se mostram verdadeiros moleques da quarta série. Só que na copa não dá pra sair do jogo no meio. É preciso encarar até o fim e conviver com os resultados. Então a gente tem essa forte pulsão de destruição aparecendo: "Quem ele pensa que é para ganhar de mim? Vou destruí-lo".      
 
Claro que essa é só uma interpretação possível, já que existe muita coisa envolvida. Eu confesso que não tenho muita informação sobre futebol feminino. Sei que a próxima copa acontecerá ano que vem no Canadá e tenho intenção de acompanhar, mesmo com a baixa cobertura da mídia. Gostaria de saber se acontece muita violência entre as jogadoras para saber se existe uma influência da construção de masculinidade nesse fenômeno.

Outro ponto que eu gostaria de discutir são as ofensas dirigidas ao Zuñiga pelo twitter. Tem muita gente chocada porque ele começou a receber ofensas racistas (macaco, preto, etc.) e até ameaças de estupro contra sua filhinha de dois anos. Acontece que existe gente racista, misógina e homofóbica na internet que não perde uma chance pra exercitar seu ódio. Isso não tem a ver com vingança pelo Neymar, mesmo porque ele também tem sofrido ofensas racistas.

Para concluir, só gostaria de mencionar algumas questões interessantes com as quais tomei contato recentemente. Nos EUA, futebol é considerado esporte de "mulherzinha". Isso porque esporte de homem lá é o violentíssimo futebol americano. Fora que estadunidenses não suportam perder devido à cultura de competitividade. Como o time masculino de lá nunca ganha títulos, o time feminino acaba tendo mais visibilidade. E isso é um fator de rejeição ao esporte.


Outro detalhe é que os conservadores de lá veem o futebol como "socialista" porque é um esporte que depende da equipe e não pode ser resolvido individualmente. Engraçado que, do ponto de vista político, essa é basicamente a principal diferença entre direita e esquerda. A direita se concentra no indivíduo e não aceita a influência da sociedade, enquanto a esquerda entende a sociedade como formadora de valores individuais. Então se esses conservadores querem realmente levar a sério essa filosofia de competitividade entre indivíduos, futebol não deve ser mesmo o melhor esporte para eles. Fora que é coisa de latino, né? E os "americanos" não muuuuito melhores... rs   

Um comentário:

  1. Nossa!!! muito bom!

    vc. abordou aspectos tão diferentes e importantes que nem dá pra destacar um apenas

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