domingo, 28 de setembro de 2014

É muito fácil ser a favor do aborto se você já nasceu

Apesar da falta de tempo, achei que não poderia deixar passar dia 28 de setembro, o Dia Latino-americano e Caribenho de Luta pela Legalização e Descriminalização do Aborto, sem uma postagem especial sobre o assunto. Aproveito para deixar registrado que li nos últimos dias excelentes textos como o da Lola, que fala sobre a diferença do tratamento oferecido ao homem que quer forçar a mulher a abortar e a mulher que deseja abortar. 

O da Carol Patrocínio é bastante didático, desmistifica vários mitos sobre o assunto; destaco nele a menção ao fato de que métodos contraceptivos falham bastante. Nesse texto em especial, li alguns comentários e fiquei estarrecida com o nível de ignorância deles. Mesmo o texto explicando tudo direitinho, havia vários comentários, inclusive de mulheres, dizendo que as mulheres precisam ter mais "responsabilidade". Gente, como assim mais responsabilidade? São sempre as mulheres que seguram o rojão de serem mães solteiras; os homens simplesmente desaparecem.

E não adianta a gente colocar as estatísticas sobre falha de contraceptivos. Sempre tem algum comentário falando que mulheres engravidam porque "não se protegem". Eu respondi pelo menos dois deles com uma citação do texto: "Qual parte de 'Mesmo que a gente oferecesse métodos contraceptivos para todas as mulheres sexualmente ativas no mundo, segundo a OMS, se todas usassem direitinho, mesmo assim nós teríamos entre oito e 10 milhões de gestações por falhas dos próprios métodos. Uma coisa que precisa ser entendida é que as mulheres não engravidam porque não são responsáveis ou simplesmente não usam métodos contraceptivos. Dizer isso é pura ignorância.' você não entendeu?".

Eu acho que o pior equívoco a respeito do aborto é essa fantasia de que é assassinato. E é uma fantasia mesmo, tanto que boa parte dos "contra aborto" batem nos peitos para declarar que a mulher não tem direito ao corpo a partir do momento que tem uma "vida" dentro dela, mas em caso de estupro se dizem a favor. Ora, mas a tal vida perde o valor quando vem dum estupro? 

Mais um jênio que acredita na infalibilidade dos contraceptivos

Mas a principal razão pela qual escrevo este texto, é porque gostaria de responder uma das mais estúpidas afirmações disseminadas por fundamentalistas religiosos, pró-vidas e outros ignorantes. Um belo dia topei com a seguinte pérola em minha TL:

"É muito fácil ser a favor do aborto se você já nasceu"

 Bom, é evidente que se minha mãe tivesse me abortado, eu não teria nascido. Mas eu também não teria nascido se vários fatores tivessem ocorrido. Esse "argumento" pode se estender a qualquer método contraceptivo. Porque se meus pais estivessem usando algum método contraceptivo que não tivesse falhado quando eu fui concebida, eu não teria sido concebida. Porque eu não sou simplesmente um óvulo mais um espermatozoide, mas O óvulo que foi fecundado pelO espermatozoide; as circunstâncias são únicas. E, claro, se meus pais não tivessem feito sexo naquele exato momento, eu também não teria nascido.

Nunca pensei que diria isso, mas, no que se refere a questões reprodutivas, a igreja católica ainda é a mais coerente. Porque pelo menos o papa diz: "não pode fazer sexo anal porque assim não faz bebê", "não pode se masturbar porque assim não faz bebê", "não pode usar preservativo porque assim evita bebê", "não pode tomar pílula anticoncepcional porque assim evita bebê", "não pode fazer sexo homossexual porque assim não faz bebê", e assim por diante. A única falha é aceitar o celibato. Porque não existe nada mais eficaz para se evitar gestações que o celibato. Aliás, a única forma 100% eficaz de se evitar gravidez é não fazendo sexo vaginal heterossexual. Então é fácil ser a favor do celibato se você já nasceu.  

2 comentários:

  1. Eu tenho raiva quando ouço alguém falando essa frase do título do post, R-A-I-V-A!

    Nem preciso citar que sou a favor da legalização do aborto!

    Quanto a religião que você citou, eu ainda "gosto" mais da minha. Vou transcrever o que encontrei estes dias a este respeito... Espitirismo X Aborto.

    Existe um livro chamado Livro dos Espíritos (Allan Kardec) que é tipo um "perguntas e respostas" do Espiritismo, onde as perguntas são feitas por Médiuns para os Espíritos e eles respondem. Veja essas abaixo e suas respectivas respostas:

    344. Em que momento a alma se une ao corpo?

    — A união começa na concepção, mas não se completa senão no momento do nascimento. Desde o momento da concepção, o Espírito designado para tomar determinado corpo a ele se liga por um laço fluídico, que se vai encurtando cada vez mais, até o instante em que a criança vem à luz; o grito que então se escapa de seus lábios anuncia que a criança entrou para o número dos vivos.

    346. Que acontece ao Espírito, se o corpo que ele escolheu morrer antes de nascer?

    — Escolhe outro.

    353. A união do Espírito com o corpo não estando completa e definidamente consumada, senão depois do nascimento, pode considerar-se o feto como tendo uma alma?

    — O Espírito que deve animar existe, de qualquer maneira, fora dele. Propriamente falando, ele não tem uma alma, pois a encarnação está apenas em vias de se realizar, mas está ligado à alma que deve possuir.

    354. Como se explica a vida intra-uterina?

    — E a da planta que vegeta. A criança vive a vida animal. O homem possui em si a vida animal e a vida vegetal, que completa, ao nascer, com a vida espiritual.

    357. Quais são, para o Espírito, as conseqüências do aborto?

    — Uma existência nula e a recomeçar.

    358. O aborto provocado é um crime, qualquer que seja a época da concepção?

    — Há sempre crime quando se transgride a lei de Deus. A mãe ou qualquer pessoa cometerá sempre um crime ao tirar a vida à criança antes do seu nascimento, porque isso é impedir a alma de passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento.

    359. No caso em que a vida da mãe estaria em perigo pelo nascimento da criança, há crime em sacrificar a criança para salvar a mãe?

    —É preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe.

    Resumidamente, no meu entendimento, a Doutrina Espírita não é a favor do aborto por ele tirar a oportunidade de um Espírito que já foi designado àquele corpo encarnar, mas ela não considera um feto um ser vivo. E essa última pergunta me consola, onde diz que é preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe.

    Ótimo post! Beijos.

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    1. Olá Gle, tudo bem?

      Nossa, com o lance das eleições acabei demorando a responder. Então, na verdade eu conheço espiritismo. Eu fui espírita entre os 14 e os 16, quando frequentei mocidade espírita e li toda a codificação de Kardec. De fato, o terrorismo sobre aborto aparece nos livros de histórias, e não na codificação. E o irônico é que em todo centro a gente ouve aquele papo de priorizar a ciência e adotar Kardec como referência. Mas na prática a galera só presta atenção a o que palestrantes falam.

      Eu até postei aqui no blog uma resenha (http://pattykirsche.blogspot.com/2013/03/deixe-me-viver-resenha.html) do livro "Deixe-me viver", que foi uma das principais razões pelas quais eu abandonei a doutrina.

      Obrigada! Beijão!

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