quinta-feira, 14 de maio de 2015

Quando uma mulher vira moeda de troca

Há alguns anos, eu tive um relacionamento do qual me arrependo bastante. Durou pouco; o tempo de eu perceber que as coisas não funcionariam de jeito nenhum. A tentativa de manter a amizade foi um desastre, inclusive já é desse período o episódio sombrio que vou narrar agora.

Eu conheci M. num grupo de fãs duma banda de rock na internet. Numa tentativa de transformar a amizade virtual em real, o grupo teve alguns encontros e, numa ocasião em que só nós dois comparecemos, o rolo começou.

No começo, ele era gentil e interessado, mas logo começou a se mostrar possessivo, irritantemente ciumento e sutilmente agressivo. O quão ciumento? Uma vez ele cismou que eu havia olhado para um cara e fez uma longa cena. Eu nem havia visto o sujeito, mas escutei por vários minutos afirmações do tipo: "Gostou dele? Vai atrás".

Nem preciso dizer que isso foi desgastando a relação. Como ele morava em outra cidade, nós só nos encontrávamos no final de semana. Para mim estava tudo bem, mas ele ficava dizendo que não tinha como "dar certo" se ele não podia passar na minha casa depois do serviço. Isso foi evoluindo para o momento em que ele começou a me tratar mal e cortar o retorno afetivo. Deixou de falar em "nós" e só falava nele mesmo.

Quando ele começou a falar que não queria nada "sério", apesar de suas violentas cenas de ciúme, percebi que era o momento de sair da relação. A ruptura foi pacífica, mas dolorosa. Pouco tempo depois, entretanto, eu viria a perceber que ele não merecia meu sofrimento.

Alguns dias após o término da relação, seria o aniversário duma garota do grupo, a S.. Ela desejava comemorar seus 17 anos (com RG falso) num show que aconteceria numa casa noturna. E eu fiz a besteira de ir. Besteira porque eu não precisava passar pelo que passei lá. Sabe quando uma pessoa se transforma? Então. Meu ex virou um monstro após o término da relação. Eu não conseguia acreditar que eu havia dormido com aquilo.

O pior foi que ele teve uma epifania de repente. Cismou que quem ele realmente queria era a S., mesmo ela sendo menor de idade quando ele estava com 26 anos na cara. E, claro, a culpa por ele não ter ficado com ela era minha. Então ele começou a me tratar muito mal; foi grosso diversas vezes. Ficou parecendo que eu era uma louca dando em cima dum cara que nunca me quis. Sendo que eu nem estava flertando com ele, só sendo amigável.

O ponto alto da noite foi quando S. e eu subimos numa espécie de palco para dançar. As coisas estavam divertidas, mas, enquanto dançávamos, vi um sujeito abordando M., que estava na pista. O cara ficou apontando para cima do palco, e achei que ele estava dizendo que era proibido dançar ali, ou algo assim. Mas logo M. chamou S. para conversar. Ela se abaixou para escutar algo em seu ouvido, e eu pude ver que M. estava passando a mão no rosto dela em ritmo de flerte. Logo ele já estava pegando no tornozelo dela.

Eu achei a cena no mínimo de péssimo gosto, mas perguntei a ela o que acontecia. Ela disse que o dono do lugar havia oferecido champanhe para nós em troca de ficar com ela, mas que M. havia negociado seis lugares no camarote VIP (onde haveria Heineken de graça) para a gente.

Ele negociou uma adolescente de 17 anos com o dono da boate. Sério.

Quando eu questionei, ele foi mega desagradável. Perguntou se eu queria que ele colocasse uma coleira na S. Senti vontade de ir embora na mesma hora, mas eu não havia saído só com ele. Já era madrugada, e meu carro estava no prédio em que outra moça do grupo morava, mas ela só ia embora quando o metrô abre, às 4h40. Eu me arrependi por não ter simplesmente encontrado o pessoal lá, mas eu não esperava que ia topar com aquilo.

E ele continuou sendo um escroto pelo resto da noite. Na saída, ele começou a se gabar por ter negociado camarote VIP com o proprietário, e eu falei na cara dele que ele havia bancado o cafetão. Claro que ele não gostou. Mas, àquela altura, eu não poderia me importar menos com o que ele achava.

Infelizmente, ainda levei alguns meses para ter coragem de excluir completamente aquele traste de minha vida, porque tínhamos muitos amigos e amigas em comum. E o pior é que a maioria do grupo ficou do lado dele, o que tornou o período ainda mais difícil. Eu fico impressionada que tanta gente não tenha visto nada demais nas ações dele.

Mas, depois que consegui, foi um grande alívio. Claro que a conduta toda dele foi absurdamente reprovável. Contudo, tê-lo visto negociando a sexualidade duma garota menor de idade por quem ele supostamente estava interessado em troca de bebida ficou na minha memória como o momento mais baixo dele. Afinal, se o sujeito não respeita uma, não respeita nenhuma. Ele já estava desrespeitando a mim, com quem ele havia tido um compromisso afetivo nos meses anteriores, mas vê-lo tratando outra mulher como objeto serviu para ilustrar bem diante de meus olhos que tipo de gente ele era. E com esse tipo de gente, eu não quero contato.

O mais interessante é que, alguns dias depois, ele teve coragem de me dizer que pela forma como agi naquela balada, ele tinha tido certeza de que nós jamais daríamos certo. Haha, é recíproco, darling.

A lição que fica é sobre violência simbólica. Muita gente acha que violência é só porrada, mas uma agressão pode aparecer na rispidez da voz ou num olhar de desdém. Uma agressão psicológica pode ser tanto ou até mais grave que uma agressão física, por isso é sempre importante analisar a situação fora duma perspectiva de senso comum.

3 comentários:

  1. Que sujeito asqueroso. Sinto que tenha passado por isso.
    :/

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  2. Tem vezes que a gente se mete em cada uma...
    Também já me envolvi com pessoas que logo depois tive nojo de pensar. Acontece...
    O fato de nunca ter me envolvido num relacionamento agressivo já me deixa menos pior, rsrs.

    (Gle aqui, não sei porque apareceu "anônimo" quando loguei como user wordpress O.o

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  3. Eu me lembro muito bem de quando tudo isso aconteceu e de quanto a Patty sofreu com esse cara, fiquei indignada com o quanto ele aparentava uma coisa e se comportou totalmente diferente. O cara foi tipo Jekyl and Hyde,de bonzinho, amigo carinhoso para um babaca covarde e instável.

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