domingo, 24 de maio de 2015

Um abusivo sanguessuga

Há alguns dias, recebi uma mensagem da B. contando sobre a triste experiência que teve com um homem abusivo. Ele dizia ser bissexual com preferência maior por homens, mas eu acabei concluindo que se tratava dum gay enrustido. 

Uma das principais razões pelas quais mulheres entram em contato comigo é para tirar dúvidas sobre homens abusivos. Eu sempre peço que elas escrevam suas histórias para auxiliar no processo de cura e ajudar outras mulheres. Inclusive já publiquei outro guest post nesse estilo este mês.    

Compartilho agora o guest post da B.

A primeira vez que eu o vi foi em cena. “Que ator talentoso!", pensei. Acabei passando no mesmo ano na mesma faculdade de artes cênicas em que ele estudava, e, no início das aulas no ano seguinte, ele veio me dizer o quanto eu era linda. Depois de alguns dias, nos encontramos numa festa de calouros e fiquei com ele; apenas um beijo. No dia seguinte, ele veio falar que adorou nossa química e esperava repetir aquilo de novo.

Perguntei se ele era gay, pois a maioria dos meninos na faculdade eram. Ele respondeu que não, mas depois disse que já tinha ficado com meninos, dizendo que era “normal, né”. E, sinceramente, para mim realmente poderia ser normal, pois eu mesma sou bissexual e já namorei mulheres, inclusive. Ficamos nesse flerte e sorrisos por alguns meses e, depois nos esquecemos entre todos aqueles alunos, até o início do segundo semestre, quando nos encontramos em uma peça de teatro e começamos a conversar mais profundamente. Apesar da diferença de 8 anos de idade entre nós (ele 24 e eu 32), ele era muito inteligente, e sua prosódia era encantadora!

Começamos a ficar; foi gostoso, apesar de nunca esquentarmos muito. Uma vez, ele me disse que minha boca tinha o cheiro da boca da mãe dele, e isso afastava um pouco a vontade de me beijar. Conforme fomos nos conhecendo, eu aprendi mais sobre a complexidade dele. A primeira era em relação ao sexo, pois, aos 24 anos, ele ainda não tinha transado com uma mulher; apenas com homens.

Transamos a primeira vez depois de dois meses de namoro. O temperamento controlador de início foi ficando mais agressivo conforme o tempo passava. Ele começou a pedir para dirigir meu carro, e fui deixando. Qualquer “cuidado!” que eu gritava era motivo de um escândalo e murros no painel.

Primeiro foi na direção; depois, quando começamos a tentar transar, foi no sexo. Ele se irritava quando eu fazia alguma "cara". Foi difícil acertar o que fazer, até o momento em que eu tinha que ficar quieta e dura, sem expressão nenhuma, para ele conseguir transar comigo. Ele percebeu que sentia mais tesão quando me beliscava ou me batia, e, como eu queria que ele me desejasse, acabei permitindo.

Só que, de alguma forma, aquela agressão no sexo foi passando a existir no nosso cotidiano, nas coisas mais simples. Passamos por essa fase de tentar transar, pois ele foi perdendo o interesse. Segundo ele, eu queria gozar mais de uma vez e insistia em fazer "cara de vagabunda" (juro que não fazia mais nenhuma expressão, ficava quase impassível).

Vocês não imaginam a vontade que eu sentia de transar com ele. Eu o abraçava forte algumas vezes, e isso o deixava irritado. Muitas vezes, ele me mandou deitar na outra cama, pois eu não estava "merecendo" estar ali já que não sabia me controlar. Já não transávamos mais, e ele nem me beijava; eu me contentava com o abraço na hora de dormir.

Nessa época, ele passou a ficar arisco com o celular, escondendo muito e constantemente irritado e agressivo comigo. No penúltimo dia do ano, íamos passar a virada juntos, e ele estava tão compenetrado no celular, enquanto conversávamos inclusive, que acabei esperando ele dormir e mexi no celular dele.

O que eu encontrei foi muito dolorido: vários aplicativos de encontros gays e muitas conversas no whatsapp com homens, inclusive marcando de transar, ou revelando como foi a transa. Não aguentei e o acordei, mas nesse dia eu senti medo de verdade. Ele já tinha feito várias coisas; quebrado vários objetos, inclusive equipamentos eletrônicos bem caros meus, mas, nesse dia, achei que ele fosse me matar.

Eram quatro da manhã, e fui levá-lo para sua casa. Ele insistiu que iria dirigindo; a esta altura eu não tinha mais nenhum poder sobre meu carro. Ficamos uma semana sem conversar, mas eu não conseguia ficar longe dele e mandei um e-mail pedindo desculpas por invadir sua privacidade e prometendo que isso jamais aconteceria novamente. Acabamos voltando, e ele voltou a ser mais carinhoso e sentir mais tesão comigo.

Ele era bem pão duro apesar do bom salário, mas, logo depois que voltamos, ele saiu do emprego. Quem passou a sustentá-lo fui eu, e isso foi se tornando natural para ele, que foi ficando bem folgado. Ele ainda ficava bravo quando eu não pagava algo ou falava que precisávamos cortar despesas, tipo comer fora.

Era estranho, pois apesar de estarmos mais próximos, eu tinha virado uma uva passa. Muitos amigos me
diziam que eu tinha perdido o brilho, e eu sentia isso também. Eu o servia o tempo todo; cozinhava, arrumava a casa dele, lavava louça, enquanto ele ficava deitado jogando vídeo-game. Eu não sei por que eu estava feliz em cuidar dele.

Vocês podem imaginar como eu fiquei quando ele voltou a ficar com vontade de sair com homens de novo, né? Pois ele ficou... Tenho impressão de que, junto com o tesão de sair com homens, veio mais agressividade. E passei por maus bocados novamente; cheguei a filmar uma destas explosões de ódio dele, mas apaguei com medo de que ele achasse. Ele sempre olhava meu celular, então em nunca falava com ninguém sobre ele. Mesmo porque, em muitos momentos, ele era um homem maravilhoso, querido, amigo, engraçado... E era assim que todos o viam; eu não me sentia no direito de deixar as pessoas saberem como ele era na intimidade.

Pela primeira vez, pedi um tempo. Percebi que eu tinha começado a ficar louca como ele, pois havia perdido o centro; comecei a gritar e responder. Ele não chegou a bater forte ou dar tapas, mas ele me segurava e empurrava. Eu vivia com os braços roxos e cara de doida. Quando eu estava sozinha, comecei a brigar no transito, a ser mais grossa com as pessoas. Uma amiga disse que eu estava perdendo a doçura e a meiguice que sempre tivera.

Mas, novamente, não aguentei ficar longe dele e não segurei minha decisão de dar um tempo. Fui atrás dele de novo, mas ele não quer, por enquanto. Ele me culpa por não ter tido paciência; diz que naquele momento estava mais próximo de mim e logo voltaria a sentir vontade de transar comigo.

Pior que estou realmente me sentindo culpada por esta tristeza toda, pois talvez ele nunca mude, mas imagino que talvez ele fosse mudar e eu tenha me adiantado. Não sei o que pensar na verdade; só sei que estou há um mês sem ele e planejando uma viajem para melhorar a cabeça. Engordei muito neste último mês e só choro; até atrasei a entrega de trabalhos.

Estou muito triste, com uma grande sensação de incapacidade. Fora que a autoestima desapareceu. Acho que vou ficar dois meses num spa e vender o carro (detalhe, ele me deixou 2 mil reais em multas).

Eu quis compartilhar minha história pois sei que pode ajudar alguém. Não fiquem com homens que não sabem quem são. Participar da auto descoberta de alguém pode ser muito dolorido. 

Minha resposta:

Puxa, que história triste, B. Não volte com ele de jeito nenhum. Esse homem não gosta de você. 

Quanto ao seu questionamento, eu digo que ele não vai mudar. Por várias razões.

a) Ele é gay, o que significa que, via de regra, ele não sente atração sexual por mulheres. 

Acredito que ele mesmo se rejeite. Na nossa cultura, a construção social da masculinidade depende muito da heterossexualidade. Então, o homem que não é hétero se sente menos homem. Infelizmente, é muito comum que gays enrustidos se relacionem com mulheres para se sentirem mais "homens";

b) Ele é misógino, portanto sente prazer em maltratar e explorar mulheres;

c) Ele é abusivo, logo agressivo com parceiras;



d) Ele é uma pessoa visivelmente sem empatia, talvez até um psicopata. É muito comum que psicopatas sejam carismáticos.

O sujeito ter coragem de dirigir seu carro, pegar multa e deixar para você pagar... Quer dizer, ele faz o que quer e não está nem aí. Você poderia até processá-lo judicialmente para que ele pagasse.
A verdade é que você era um objeto para ele, que ele sugou de todas as formas possíveis. Usou sua presença como namorada para se fantasiar de bi, usou seus bens materiais, explorou sua força de trabalho e ainda satisfez suas pulsões sádicas cometendo violência psicológica contra você. 

Agora é momento de cuidar de si mesma. Sua autoestima está baixa agora, mas vai melhorar. Você só voltou com ele tantas vezes apesar de tudo porque você não se considera merecedora de ser feliz de verdade. Foi se esforçando para agradar um homem que nunca estava satisfeito com nada a troco de migalhas, praticamente implorando para que um homem que não sente atração por você use seu corpo. Afinal, você sentia prazer se esforçando para ficar parada e inexpressiva durante a relação sexual?   

Ele era profundamente cruel com você. E em algum momento você não vai entender como aguentou tanto desaforo. 

Boa sorte. 

Um comentário:

  1. Que cruel, B!!!
    Ja tive um parceiro Policial Militar Bipolar diagnosticado, que fazia tratamento regular, mas era agressivo, apesar de nunca ter me agredido fisicamente, as agressoes como o assedio moral, eram muito piores... Queria sexo sempre, mesmo depois das humilhacoes, e para que as coisas ficassem "mais" "harmoniosas" entre nos, teria que "dar sexo" pra ele, mas ao longo dos meses percebia que mesmo usando o sexo como minha defesa, nao adiantava...
    Enfim, com muita dificuldade e ameacada por ele, me separei.
    Fique bem e viva!

    ResponderExcluir

Eu me reservo o direito de não responder perguntas cuja resposta esteja no próprio post. Comentários imbecis e sem embasamento estão sujeitos a ridicularização. Comente por sua conta e risco. Obrigada!