sexta-feira, 1 de maio de 2015

Vivendo um relacionamento abusivo

Desde que comecei o blog e o vlog, a maioria das mensagens que recebo de mulheres se referem a relações abusivas. Muitas chegam a mim procurando informações sobre misoginia, geralmente quando percebem que estão sendo vítimas de violência de gênero. A L., que escreveu este guest post, foi uma delas.

Agora L. já conseguiu sair da relação e está se recuperando, mas ela passou por um verdadeiro calvário. Pensando no quanto compartilhar essa experiência poderia ajudar outras mulheres (e a própria L. no processo de cura), pedi a ela um guest post, o qual publico aqui:

Permaneci por dois anos e meio em um relacionamento abusivo. Sofria violência física e tortura psicológica.
Morávamos juntos, e eu era totalmente dependente dele. Todo dia eu pensava em suicídio.
Quando tomei coragem e terminei, achei que as coisas iriam melhorar. Caí em depressão profunda, e a ideia de suicídio permaneceu. Ele veio atrás durante um tempo, com promessas de melhora, mas permaneci forte.

Não tive apoio moral da família. Inclusive, depois de ter voltado para casa um lixo (e 30 kg mais gorda), minha mãe perguntou o que EU tinha feito de errado para o relacionamento não ter dado certo.
Fui atrás dos amigos e pedi perdão por ter me afastado, por ter 'escolhido' ficar com o parceiro e não com eles (mesmo que forçadamente). Eu me agarrei aos amigos, que me distraiam, me tiravam de casa mesmo quando a vontade era de morrer. Foquei nos meus estudos e, hoje, depois de um ano e meio, comecei terapia.

Estou me sentindo muito melhor e seguindo a minha vida. Aos poucos estou aprendendo a me amar.
Meu único arrependimento foi não ter denunciado aquele monstro, mas não consegui por medo, puro medo. Cruzei com ele algumas vezes por aí, tremi por dentro, e o medo tomou conta. Não nos olhamos, agimos como dois desconhecidos. Espero não o ver nunca mais.

Tudo o que acontecia de ruim no relacionamento, ele dizia que a culpa era minha, e eu absorvia essa culpa. Ele era ciumento e, quando bebia, se tornava agressivo; muitas vezes até me batia. Ele dizia que eu não prestava e quando voltava a sanidade, ele colocava a culpa na bebida; pedia desculpas, e eu aceitava. Uma vez entramos num acordo que ele nunca mais beberia. Ele nunca mais bebeu. Quando achei que as coisas melhorariam, ele continuou me agredindo sóbrio.

Eu fazia todo o serviço da casa, e ele colocava defeito em tudo que eu fazia. Ele colocava defeito em tudo que eu falava e na forma como eu pensava. Jogava na minha cara que eu não prestava. Em certo momento comentei sobre minha vontade de ser mãe, e ele disse que jamais teria um filho com alguém como eu, que eu teria que melhorar muito. Eu corria atrás de ser essa perfeição que ele queria, mas nunca ficava boa o suficiente. E eu me sentia cada vez pior. Esse meu sentimento de culpa era o que alimentava o ego dele.

Eu tinha um notebook, mas, alegando ciúmes, ele o quebrou inteirinho. Ele me obrigava a dar todas as minhas senhas de e-mail e redes sociais, até tentava recuperar emails antigos que eu não usava mais, só para saber com quem eu tinha contato. Comprei um outro computador alguns meses antes de me separar dele, mas, quando voltei para a casa de minha mãe, não pude trazê-lo por falta de espaço no carro. Ele disse que naquela semana levaria para mim. Passou uma semana, e ele não trouxe. Liguei para saber do meu computador, e ele tinha vendido.

Quando o conheci, eu tinha 24 anos e ele, 39. Ele já tinha sido casado duas vezes e tinha três filhos, dois deles adolescentes, que vieram morar com a gente um tempo depois. Esse fato fez com que as agressões muitas vezes acontecessem de forma mais sutil. Quando ele me agredia, eu começava a chorar, mas ele me mandava calar a boca para que seus filhos não ouvissem. E eu obedecia. Ele dizia que eu tinha que limpar toda a bagunça dos filhos dele. Muitas vezes eu não aceitava, pois não cabia a mim. Mas isso era só mais um motivo para agressões.

Eu prestei vestibular e passei. Ao invés de me parabenizar pela conquista, ele ficou nervoso, pois eu teria contato com outras pessoas. Quando as aulas começaram, por ser um curso integral, ele ia almoçar comigo todo dia na universidade e ficava até as aulas recomeçarem. Tudo isso para eu não ficar de papo com ninguém durante o almoço. Ele tinha ciúme até das meninas que me cumprimentavam.

Com algumas matérias do meu curso, descobri que violência não é só a física, pois existe a psicológica também. E, muitas vezes, a mulher é vítima e não se dá conta disso pois está muito ocupada se culpando por tudo de ruim que existe no relacionamento. Isso me levou a pesquisar mais sobre relacionamentos abusivos, mas sem que ele visse, é claro. Eu dava um jeito de não deixar rastros no histórico porque, se ele descobrisse, não sei do que seria capaz.

Depois de muito ler e pesquisar sobre, achei um vídeo da Patty falando sobre misoginia, e tudo se encaixou. Criei um e-mail fake e mandei um e-mail pra ela contando tudo o que estava acontecendo comigo, e ela me respondeu. Naquele momento, percebi que não estava sozinha, e isso me deu forças para sair da situação em que me encontrava.



2 comentários:

  1. Uau, que história!

    Parabéns Patty, por ter ajudado esta pessoa. Não deve ser fácil conseguir sair de um relacionamento assim, com tanta pressão física e psicológica. Ainda bem que as mulheres são guerreiras e fortes! Ainda bem que existem pessoas como você :)

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    Respostas
    1. Olá Glê!

      Sim, história terrível, ainda bem que o final é feliz.

      Obrigada pelo elogio! Eu ajudo sempre que posso! ;)

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