sexta-feira, 3 de julho de 2015

Confissões de uma ex-prostituta paulistana

Estamos sob ameaça de redução da maioridade penal no Brasil de 18 para 16 anos. O pessoal fica falando em crimes hediondos cometidos por psicopatas menores para justificar a medida, mas esquece que a maioridade penal é a única coisa que estabelece algum limite legal para a distribuição de drogas legais (álcool, tabaco, etc) e pornografia. Se, nos anúncios do Amarelinho, as casas de prostituição ainda colocam 18 anos como idade mínima para as garotas, é por causa dessa questão. Não que 18 anos seja o suficiente para alguém tomar a decisão de se prostituir, mas pelo menos existe uma limitação.

Por isso, considero que esse é um excelente momento para publicar o relato que recebi da M., que está agora com 30 anos e foi prostituta entre os 18 e 19. 

Trigger warning: violência sexual e de gênero.

Homens que saem com prostitutas são, em sua maioria, a escória.

Eu tinha acabado de completar 18 anos quando comecei a me prostituir. Era uma menina pobre passando pela dificuldade de conseguir o primeiro emprego. Ninguém me dava uma chance porque eu não tinha experiência, mas eu precisava pagar as mensalidades do cursinho.

Homens sempre me assediaram na rua, então achei ingenuamente que topariam pagar para fazer sexo comigo. Na prática, as coisas são mais complicadas. Não porque eles não queiram pagar, mas porque não querem pagar o valor que a gente considera adequado.

Quando a gente se coloca como prostituta, homens acham que têm passe livre para desrespeitar. Colocam a mão na perna da gente sem nenhuma cerimônia, ligam de madrugada para falar besteira (você ficou com medo de me dar seu cuzinho porque meu pau é muito grande), mas, acima de tudo, fazem o máximo para conseguir sexo sem precisar pagar.

Tem os "românticos", que sentem tesão em levar pra cama uma prostituta que decidiu não cobrar deles. Sentem-se muito especiais por isso. Mas também tem os mesquinhos mesmo, que decidem quanto vale uma trepada com a gente pelo valor simbólico da nossa aparência. Loira? Vale mais. Negra? Vale menos. Magra? Vale mais. Gorda? Vale menos. E por aí vai para todos os padrões de beleza que você imaginar.

Apesar do pouco tempo na "vida", consegui colecionar um belo lote de humilhações. Nunca vou me esquecer dum infeliz que me ligou várias vezes num domingo de manhã. Eu disse a ele que não trabalhava aos domingos porque pretendia ficar com minha família, mas ele não parava de insistir que eu o atendesse naquele dia.

O nome dele era Franco, lembro como se fosse hoje. Era um japonês e morava na Pompeia. Fazia perguntas do tipo se meus seios eram firmes, e afirmava que eu "já tinha 18 anos", logo poderia sair no domingo se quisesse.

Por precisar de dinheiro, após muita insistência dele, acabei aceitando encontrá-lo no centro. Lá ele me ligou dizendo que estava estacionado em frente a um cinema pornô. Quando eu cheguei e me aproximei do carro, ele sequer me cumprimentou. Ficou só me olhando de cima a baixo um tempo, até que finalmente falou: "Creio que não é o que eu esperava". E o pior é que o desgraçado simplesmente ia embora, como se não tivesse me tirado de casa num dia de folga. Eu o mandei esperar e disse que ia cobrar uma quantia simbólica por ele ter me feito ir até ali; o dinheiro do táxi. Ele falou: "sem problemas", mas pagou com muita irritação. Deu o dinheiro na minha mão e falou algo como: "você consegue". Não sei bem, porque já havia virado as costas naquele momento.

Algum tempo depois disso, apareceu um sujeito ainda mais asqueroso. Ele me disse que se chamava Marcelo, mas nem sei se isso é verdade. Só tenho certeza de que ele já tinha tudo planejado quando me ligou. Perguntou se eu aceitava cheque, disse que eu poderia confiar na idoneidade dele. Falou que havia feito o curso que eu desejava fazer no Mackenzie para conquistar minha confiança. Foi tão convincente que acabei aceitando encontrá-lo no Shopping Tatuapé, que é longe de minha casa, mas provavelmente ficava perto do trabalho dele.

Apesar de ter marcado um horário, ele me ligou quando eu já estava no shopping para ter certeza de que não perderia a viagem. Ele estacionou seu Escort dourado na Tuiuti pra não gastar com estacionamento e me levou para um motel
Foto meramente ilustrativa
que, mais tarde eu descobriria, ficava no Parque Novo Mundo.

No quarto, ele queria fazer sexo anal comigo logo de cara, mas não queria usar camisinha. Disse que não tinha, então eu entreguei a minha. Ele abriu com os dentes e, depois que havia colocado, ficou se queixando de que era muito apertada. Logo em seguida, tirou e falou: "Não vamos transar, não, vamos só 'brincar'".

Ficou encostando o pênis na entrada de minha vagina e dizendo que se quisesse forçar, me forçaria. Eu senti muito medo, mas não sabia o que fazer além de torcer para aquilo acabar o mais depressa possível.

No final, ele gozou na minha barriga. E eu sei que poderia ter sido pior, porque ele queria gozar na minha cara. Imagina o esperma desse nojento no meu rosto? Ficava me chamando de "paixão", mas tudo que ele queria era se livrar de mim o mais depressa possível após ter gozado.

Ele parou o carro na beira do viaduto Aricanduva e me deu um cheque de terceiro no valor de R$240,00, que obviamente não tinha fundos. Nem para me levar até o metrô; claro que ele sabia que não passava ônibus para minha casa ali. Que tipo de verme faz isso com uma menina de 18 anos?

Minha sorte foi que cruzei um senhor e pedi informação, e ele estava indo para o mesmo lado. Ele foi conversando comigo e queria saber como eu havia me metido naquela encrenca de precisar andar tudo aquilo de salto. Eu fiquei com vergonha e falei que meu namorado havia me deixado ali, mas não refrescava muito porque que merda de namorado faria uma coisa dessas?

A prostituta é a mulher que homens acreditam ter o direito legítimo de agredir, inclusive sexualmente. Sentem que nós "merecemos" tudo que eles fazem, afinal, quem mandou "escolher" esse trabalho, não é mesmo?

Com tudo que testemunhei, só posso dizer que sinto muito por minhas colegas que não conseguiram largar a profissão. Cheguei a conhecer casas em que eu ficaria com R$30,00 por programa, e a casa com R$40,00. E ainda queriam que eu servisse de propina pra fiscal; simplesmente mandaram o cara escolher uma menina. Teve uma época em que trabalhei num bar na Vila Olímpia. Lá era melhor porque o programa era livre; a casa ganhava no bar. Mas o melhor mesmo foi quando finalmente passei no vestibular e pude largar. Sem mais.

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