terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Procurar "novinhas": Um privilégio masculino

Semana passada, Laércio, o barba azul do Big Brother 16 (Globo), foi eliminado com 54% dos votos. Eu jamais havia votado em nenhum paredão desse programa, mas, dessa vez, não pude me abster. Eu nunca havia assistido a nenhum episódio do programa aliás, nem quando o professor de audiovisual deixou como tarefa alegando que "pra falar mal de algo, é preciso conhecer".

As informações a respeito do sujeito foram surgindo nas redes conforme ele se gabava na casa. Um homem de 53 anos dissera abertamente que gostava de "novinhas". Segundo as histórias, ele teria "namoradas" e "amigas" com as quais se relaciona sexualmente com idade entre 16 e 19 anos.

Confesso que não fiquei surpresa. Achei sua barba azul um tanto simbólica. O Barba Azul é um personagem conhecido por alguns contos que mudam de versão pra versão. O cerne da história não muda entretanto; ele é um predador de mulheres. Suas esposas têm liberdade limitada em sua casa, pois não podem entrar no quarto em que ele mantém os restos mortais de todas as esposas anteriores.

Efebófilo assumido, Laércio abertamente segue (ou seguia) em redes sociais garotas de 12 a 19 anos. Após sua saída, o programa Mais Você (Globo) entrevistou profissionais que garantiram que pedofilia é só sexo com menores de 14 e que só nesse caso seria crime.

A esse respeito, vamos esclarecer alguns aspectos. Esse assunto parece circular em torno de duas questões: idade de consentimento e maioridade.

Comecemos com o conceito de adolescência. Segundo o Priberam: "Fase da vida humana entre a infância e a idade adulta, aproximadamente entre os 12 e os 18 anos, que se caracteriza por mudanças físicas e psicológicas que ocorrem desde a puberdade até ao completo desenvolvimento do organismo".

O itálico em "aproximadamente" se refere ao fato de que o período da adolescência pode ter variações dependendo do indivíduo e dos critérios classificatórios utilizados. Há linhas que trabalham com a adolescência se estendendo até 19 ou 20 anos.   

A existência desse período não era reconhecida até o chamado pós-guerra, quando Elvis Presley começou a requebrar e trazer um choque semelhante ao que o funk carioca provoca hoje em dia. Em inglês, o substantivo adolescente é "teenager", palavra que inclui o sufixo "teen", comum a todos os números entre 13 (thirteen) e 19 (nineteen) em inglês.

Quando a gente trabalha com estatísticas de gravidez na adolescência (eu sei disso porque fiz matéria na FSP - USP, Faculdade de Saúde Pública), considera as gestantes com até 19 anos. E é sempre bom lembrar que as taxas de mortalidade materna e infantil (crianças que morrem no primeiro ano de vida) são maiores quando a gestante é menor de 20.

Também é importante lembrar que, no Brasil mesmo, até a última reforma do código civil em 2003, a maioridade civil (direito de casar, por exemplo) só era tingida aos 21 anos.

Tudo isso para dizer que, do ponto de vista médico, é mais ou menos unânime afirmar que a adolescência vai até os 19 anos pelo menos. Independente da maioridade penal, uma pessoa de 18 ou 19 anos não deixa de ser adolescente. Isso porque existe a criança adolescente e o/a adulto/a adolescente.

Desconsiderando a adolescência, a infância vai até os 14 anos. Ou seja, do ponto de vista médico, uma garota de 14 anos é criança. Essa classificação é utilizada pela indústria farmacêutica ao pesquisar medicamentos e aparece em várias bulas. Daí a ideia do baile de debutante aos 15 anos, inclusive, pois seria o início da idade adulta.

"adolescência", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/adolesc%C3%AAncia [consultado em 04-02-2016].

No Brasil, a idade de consentimento para relação sexual é 14 anos. Isso implica que se uma pessoa penalmente imputável (maior de 18) faz sexo com alguém de até 13 anos, não adianta a pessoa de 13 dizer que quis. Do ponto de vista penal, a situação é tratada como estupro presumido. Só que essa regra já não se aplica a uma criança de 14. Ou seja, uma garota de 14 anos não pode comprar um vibrador para se masturbar, já que sex toys são produtos "adultos", mas "pode" dizer que quis fazer sexo com um homem adulto.  

Mas afinal, quem decidiu que uma pessoa de 14 anos, que não pode dirigir ou beber, pode consentir para que uma relação sexual aconteça? Bom, quem sempre ocupou cargos de poder foram homens em sua maioria. Por que ingenuidade imaginaríamos que eles fariam isso pelo bem das adolescentes?

Aí então isso tudo quer dizer que, de acordo com a legislação brasileira, homem de 53 anos pode transar com menina de 14 sem problemas? Não é bem assim. Isso não é assunto pacífico juridicamente, porque no Brasil existe o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) que protege menores de idade. Então, esquecendo o crime de sedução, que caiu em desuso, uma pessoa maior de idade pode sim ter problemas com a lei por se relacionar com menores. Mais uma razão para que a maioridade penal não caia para 16.

Contudo, independente da maioridade, sabemos que a adolescência vai até 19-20 anos. E também sabemos que, independente da adolescência, pessoas muito jovens têm pouca experiência e ainda estão se descobrindo.

Onde quero chegar? Bem, o que um homem de 53 anos quer com uma mulher 34 anos mais jovem que ele? O que ele procura afinal?

A resposta está na socialização masculina. Homens são educados para ver mulheres como troféus, como animais caçados e ostentados para que outros homens vejam. Trata-se de uma competição, na qual as mulheres com mais valor são as mais bonitas e as mais jovens.

Além disso, homens geralmente se sentem ameaçados diante da experiência duma mulher, pois sabedoria é poder. E eles são socializados para procurar por relações nas quais têm muito mais poder que a outra pessoa.

Uma moça com menos experiência sexual não se sente à vontade para reclamar se não sentiu prazer na relação sexual, pois acredita que o problema está nela. Ela também não se sente no direito de reclamar retorno afetivo, porque o sujeito pode usar subterfúgios do tipo "eu não te prometi nada", etc. Enfim, mulheres muito jovens correm risco maior de cair em relações abusivas.

Eu fico imaginando, como será que homens se sentiriam se mulheres de 40 anos procurassem parceiros com idade entre 18 e 20? Se mulheres de 50 falassem abertamente que só "gostam" de homens até 26? Se homens de 30 anos fossem considerados "jovens senhores" e cobrados a sossegarem?

Certamente não ficariam nada felizes, porque nunca nenhum tiozão ficou feliz quando eu falei que não me relacionava com homens mais velhos. E tudo isso acontece com as mulheres na nossa cultura. E, se nós reclamamos, sempre aparece alguém para dizer que temos inveja das mais jovens. Porque claro, a coisa mais importante na vida duma mulher é ter a atenção de homem, não é?

O período de minha vida em que eu mais sofri assédio de rua foi entre pré-adolescência e adolescência. Eu tinha nove anos quando comecei a ouvir caminhoneiro fazendo "psiu".
Só contextualizando, aos nove os meus seios se resumiam a duas pedrinhas no mamilo.

Nessa mesma época, uma vez, minha mãe e eu cruzamos um grupo de rapazes na faixa dos 30 anos, e um deles chamou minha mãe de sogra. Imagina se fosse uma mulher chamando o pai dum moleque de dez de sogro... Era capaz de o cara bater nela. E o pessoal ia dizer que ele estava certo. Mas homem mexendo com menina não tem problema; é só um elogio.

Nos dois momentos que mais me marcaram, eu estava com 17. Um dia, eu andava com minha mãe perto da Armênia chupando um picolé, quando um sujeito disse para mim: "chupando, hein?". Eu decidi ignorar, mas minha mãe ficou muito brava e o chamou de "ousado" com cara de nojo. O cara riu, claro. Porque é muito engraçado fazer menção a sexo oral ao ver uma adolescente tomando um sorvete.

O outro mexeu comigo na Rua Pedro de Toledo, Vila Clementino. Enquanto eu descia a rua, um sujeito falou: "Se eu não fosse casado". E eu respondi: "Não ia adiantar nada". O sujeito começou a me seguir dizendo: "Você é novinha, mas deve meter bem pra caralho". E ainda ficou fazendo gestos obscenos pra mim; rebolando e apontando para o pênis. E quando eu me dirigi a ele, ele ameaçou me bater. Quando eu falei que tinha 17 anos, ele disse: "Me deixa, menina". Como se eu o estivesse assediando.

É uma conduta muito comum entre agressores de mulheres. Estupradores, assediadores, abusadores, etc. Quando a vítima chama atenção, eles fingem que é ela que os está agredindo. No documentário "Estamira", aparece um exemplo disso.  

Fonte: http://www.nyfa.edu/film-school-blog/gender-inequality-in-film/
Produtos culturais também se encarregam de normalizar relações em que o homem é (bem) mais velho que a mulher. Em Hollywood é bastante comum que atrizes muito jovens sejam selecionadas para papéis de mulheres mais velhas, sendo Jennifer Lawrence, nascida em 1990, uma das mais exploradas atualmente.

Desde 2000, a idade média das ganhadoras de Oscar de melhor atriz é 36, enquanto a dos homens é 44. Mas também, pudera: 77% dos eleitores do Oscar são homens. E nós já sabemos que homens preferem mulheres mais jovens, não é mesmo?

Uma figura bastante reiterada em novelas é a do homem mais velho que
encontra a felicidade com uma namorada novinha. Em "Império", o protagonista José Alfredo (Alexandre Nero - 13/02/1970), que era casado, tinha uma amante chamada Ísis (Marina Ruy Barbosa - 30/06/1995), uma adolescente de 19 anos. Em "Babilônia", Evandro (Cássio Gabus Mendes - 29/08/61), um sujeito casado e cafajeste que tinha o hábito de sair com prostitutas, foi se tornando melhor ao namorar Alice (Sophie Charlotte - 29/04/1989), que conhecera num desses programas. Ele inclusive se casou com ela no final da trama.

Atualmente, em "A Regra do Jogo", mais um personagem de caráter duvidoso, Romero (Alexandre Nero - 13/02/1970), tem se tornado uma pessoa melhor ao engravidar uma moça mais jovem, a Tóia, (Vanessa Giácomo, 29/03/1983). Esse recurso do homem se tornar melhor através da paternidade também acaba servindo como justificativa para que a mulher seja mais jovem devido às limitações biológicas da maternidade para mulheres mais velhas. Em "Duas Caras", por exemplo, o antagonista da novela, Marconi Ferraço (Dalton Vigh - 10/07/1964), se regenerou e desistiu de matar a protagonista Maria Paula (Marjorie Estiano - 08/03/1982) só porque tinha um filho com ela. E o mais absurdo é que a audiência realmente shipava o casal. Sintomas duma sociedade doente. Isso sem falar no sucesso de "Verdades Secretas", em que o protagonista prostituiu uma garota de 16 anos e ainda se casou com a mãe dela para poder mantê-la como amante.

Pedro Bial, no discurso de eliminação de Laércio, demonstrou sutilmente solidariedade masculina ao mencionar "suas Lolitas e Anitas", numa alusão a histórias ficcionais em que meninas sofrem abuso. Considerando que Pedro Bial já teve cinco esposas, e, pelo menos três delas, são mais jovens que ele, talvez ele não tenha visto algo tão grave nessa história toda.  

Há algum tempo, eu vi num painel de shopping uma notícia sobre dados do IBGE. A novidade era que agora os casamentos em que a mulher era mais velha que o homem já chegavam a 25%. Sim, 2015 e apenas em um quarto dos casamentos a mulher é mais velha. E tenho certeza, mesmo sem ter tido acesso aos dados, que quando a mulher é mais velha, a diferença não é em média tão grande quanto quando o homem é mais velho.

A questão é que esses valores precisam ser discutidos, pois o casamento infantil (child marriage) é uma realidade também no Brasil e decorre diretamente de toda essa cultura de se tratar a juventude da mulher como moeda de troca.

Um comentário:

  1. Que post reflexico, elucidator, esclarecedor e riquíssimo em informações pertinentes e curiosas!

    Muito bacana Patty!
    Vou divulgar no Twitter do blog utero vazio (https://twitter.com/UteroV).

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