sábado, 16 de abril de 2016

O absurdo de comparar o impeachment de Collor com o golpe contra Dilma

Quando eu era criança, via todo mundo reclamando de política. Corrupção pra cá, corrupção pra lá. Estudei em escola de rico; particular e "bem localizada". Tinha professor de história que votava no Maluf. Tinha coleguinha dizendo que não votaria no PT jamais para não ter "neguinho" morando na casa dela. Naquela época, o PT não chegava nem perto de cargo do executivo.

Minha família sempre foi de esquerda. Meu finado avô, pai de minha mãe, era comunista. Quase todos meus parentes votavam no PT, embora os candidatos nunca fossem eleitos. E o "povo" continuava reclamando de política, mas elegia sempre as mesmas pessoas.

Governo Sarney: inflação altíssima, herança da ditadura militar. Política de congelamento de preços levava o comércio a esconder mercadorias que só eram liberadas mediante pagamento de ágio.

Em 1989, as primeiras eleições após tanto tempo de ditadura. A chance de colocar o Lula, um sindicalista de esquerda no governo federal e mudar as coisas. Mas claro que isso incomodaria o empresariado e as gigantes das telecomunicações. Então a Globo e a Veja, numa época em que não havia internet, construíram o "caçador de marajás" Fernando Collor de Mello, do extinto PRN, para manter a direita no poder após 21 anos de ditadura (Sérgio Moro, anyone?).

Collor foi eleito e confiscou as poupanças duma população sofrida num plano para reduzir a circulação de dinheiro e reduzir a inflação. Pessoas que haviam acabado de vender bens caros como casas perderam todo acesso a seu dinheiro por dezoito meses. Após o prazo, o dinheiro foi liberado novamente, mas não com correções monetárias. Um absurdo que levou muita gente ao suicídio. Mas Collor não sofreu o impeachment por conta disso.

Ele sofreu (na verdade renunciou momentos antes) porque ficou provado que havia dinheiro público indo para as contas dele. Foi feita uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) antes das votações de parlamentares. Ele realmente roubou dinheiro da população; havia provas disso. O contexto histórico era bem diferente. A inflação chegava aos 40% ao mês. O único jeito de não perder dinheiro era depositando na poupança. A pessoa ia a uma loja pela manhã, o preço era um; se voltava à tarde, o preço já era outro. Os preços no mercado eram remarcados enquanto as pessoas faziam as compras.

Então ele saiu, o vice Itamar Franco (PMDB) assumiu, e Fernando Henrique Cardoso foi nomeado para o ministério da fazenda. Levando crédito por um plano de dolarização artificial da moeda que não era dele, FHC adquiriu popularidade para se eleger nas eleições seguintes.

Inflação é um processo de histeria coletiva no qual a população inteira vai repassando aumentos em produtos e serviços, o que vai corroendo o poder de compra da moeda. Claro que o governo militar tinha um histórico de fabricar dinheiro, mas essa é outra história. Muito dinheiro circulando perde o valor por lei da oferta e da procura.

O processo do plano real na verdade foi bem simples. A ideia foi acostumar as pessoas a parar de repassar qualquer aumentozinho e manter os preços estáveis. Só que, em vez de dolarizar a economia como outros países fizeram, o Brasil usava uma taxa de correção baseada no dólar chamada URV (Unidade real de valor).

Resolveu? Sim, a inflação caiu bastante. O Real até passou algum tempo valendo mais que o dólar. FHC segurou a situação assim por um tempo porque pretendia se reeleger. Ele pagou muito parlamentar para votar a favor da emenda da reeleição, mas isso nunca foi investigado.

FHC segurou o Real valendo o mesmo que o Dólar exatamente até sua reeleição em 1998. Isso porque a classe média estava toda feliz financiando carro pelos juros do Dólar. Só que aí ele foi reeleito e não tinha condição de continuar impedindo o ajuste do câmbio artificialmente, já que ele usava dinheiro público para isso. Então toda a galera que havia comprado carro financiado pelos juros do dólar (mais baixos) ficou com uma dívida enorme, pois precisariam pagar praticamente o dobro em reais.

Foi uma época de recessão muito brava. Quase não tinha emprego, mas todo mundo achava legal porque não tinha inflação. E, claro que para os ricos as coisas eram boas, como sempre são em qualquer época ou lugar.

Todas as tentativas de se fazer uma CPI das privatizações absurdamente irresponsáveis de seu governo foram coibidas. As mesmas pessoas que acusam o PT de corrupção fingem não ver o apartamento que FHC mantém em Paris, que ele jamais poderia ter comprado com a renda dele. FHC entregou a Vale do Rio Doce por bem menos do que valia.

Mas nada disso importa para quem odeia o PT. Porque o ódio ao PT tem muito mais a ver com o ódio à esquerda como um todo do que com supostos desvios de caráter de integrantes do partido.

O presidente da câmara Eduardo Cunha (PMDB) é uma das pessoas mais abjetas vivas atualmente. É conservador, neoliberal, evangélico e tenta impor seus valores religiosos através do poder político. Só exemplificando, ele quer que vítimas de estupro passem por "testes" para "provar" que foram estupradas e tenham acesso ao aborto que lhes é direito pela lei.

Esse homem (e sua família) também está envolvido em diversos esquemas de corrupção, inclusive com a presença de contas na Suíça. O processo de sua cassação está parado no STF. E mais, ele é primo de Johnny Saad, dono do grupo Band. Por ter se recusado a não criticá-lo, a jornalista Bárbara Gancia foi demitida. Mas o pior é que ele só protocolou o pedido de impeachment da presidenta Dilma quando o PT resolveu votar a favor de sua cassação. Ou seja, todo esse circo é fruto duma chantagem barata. Mas que pode custar muito caro para o povo brasileiro.

Todos os parlamentares a favor da saída de Dilma têm a ficha suja. O conspirador Michel Temer (conhecido por ser velho safado com esposa novinha) também. Só que o pessoal de direita não liga para isso. Porque o importante é tirar o PT do poder e todos os benefícios que seu governo trouxe para os pobres.

A classe média não gosta que dinheiro público seja usado para dar uma vida melhor aos pobres, mas não só. Haja vista a irritação com a PEC das domésticas. Empresários estão muito bravos porque já não é tão fácil encontrar gente disposta a trabalhar muito para receber pouco. E isso aconteceu porque, mal e porcamente, a formação das pessoas melhorou. Em 2001, apenas 3,0% da população brasileira entrava no ensino superior. E só 1,5% saía com o diploma. Hoje, 15% da população brasileira tem diploma de ensino superior. Não há como negar que programas do governo federal como Prouni, Sisu e Fies ajudaram muita gente. Fora que houve uma expansão das universidades federais.

Propaganda do AutoShopping, do grupo General Shopping
Eu percebo que há vagas de emprego que não são jamais preenchidas em várias lojas de shopping e supermercados. Só que as empresas preferem ter menos gente trabalhando do que melhorar os salários. Não é à toa que empresas como o Shopping Internacional estão apoiando, ainda que de maneira velada, o impeachment da Dilma.

Em síntese, a situação de Collor era completamente diferente da de Dilma. Collor era um político conservador, neoliberal, construído pela mídia para minar as possibilidades de alguém de esquerda na presidência, numa legenda artificialmente criada para a eleição. Ele vem de família de latifundiários de Alagoas e abriu o mercado brasileiro para importações justamente para tornar a exportação viável para o agronegócio. Foi eleito pela Globo e deposto pela Globo quando não era mais útil. Mas, mesmo assim, ele realmente cometeu crimes e realmente foi investigado.

Dilma é uma mulher que lutou contra a ditadura militar e foi torturada. Vem de uma legenda com tradição. Seu governo não foi bem de esquerda, mas certamente foi mais inclinado à esquerda do que PMDB ou PSDB jamais seriam. Conseguiu ser eleita apesar de toda a pressão da mídia para que não fosse. E agora o congresso mais conservador do país desde 1964 com apoio da mídia está se unindo para destituí-la de forma arbitrária. Então isso constitui um golpe parlamentar sim. Tem gente tentando até ressuscitar o fantasma do parlamentarismo para tentar reduzir o poder do executivo.

Que momento histórico para a gente presenciar. Estamos muito mais diante duma luta pela democracia, do que de uma luta por um governo do PT. Só espero que a esquerda se fortaleça cada vez mais no país e deixe de ser uma coisa restrita ao ambiente universitário. E, claro, que as pessoas aprendam a votar no legislativo. Porque deputadas/os federais recebem salários bem altos e têm muito poder.

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